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Número 11

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continuação

Foto: Jesus Carlos/Imagenlatina

 

Marcos: "As pessoas têm uma visão do professor como orador, que fala o tempo todo, mas a gente busca dialogar com os alunos. Não são só eles que aprendem, quem dá aula aprende muita coisa também"

 


Prática e teoria

Algo notável em Paulo Freire é a coerência entre suas idéias e sua história de vida. Pregando a necessidade da indignação frente às injustiças, não deixou de fazer sua parte, trabalhando para conscientizar e mobilizar oprimidos em todo o mundo. Acreditava na dialética e, mesmo em conversas triviais, parecia pensar dessa forma. "Certa vez, durante sua gestão na secretaria de Educação, estávamos numa reunião da equipe de manhã e, à tarde, cada diretor ia para um local representar o secretário. Ele lembrou que tinha comentado com a prefeita que, ironicamente, o secretário que tem mais poder é o que tem menos poder. Isso porque, ao dividir as responsabilidades e dar autonomia à sua equipe, ele perdia poder. Por outro lado, ganhava, pois podia estar em vários lugares ao mesmo tempo", recorda Ana Maria Saul, que trabalhou com Freire na secretaria municipal.

Freire acreditava na unidade dialética entre teoria e prática, que devem interagir o tempo todo. Foi também por conta disso que foi um dos primeiros a se filiar ao Partido dos Trabalhadores. "Ele nutria admiração pela capacidade do Lula de criar alternativas na prática e achava que o intelectual orgânico tinha que transitar facilmente com o trabalhador, ser alimentado pelas suas causas", lembra Gadotti, que assinou o manifesto de fundação do PT a pedido de Freire, que se encontrava na Suíça na ocasião. Segundo essa visão, o intelectual tem que partir das necessidades, da prática do cotidiano, para a teoria e em seguida voltar para a prática, com um pensamento moldado pela realidade.


Paulo Freire teve a oportunidade de realizar todo esse ciclo. No período em que foi secretário de Educação de Luiza Erundina, pôde aplicar parte de seus ensinamentos por meio de políticas públicas que trouxeram um novo alento ao ensino da capital paulista. A professora Ana Maria Saul foi diretora de orientação técnica da Secretaria e permaneceu no cargo durante os quatro anos da gestão, mesmo depois da saída de Freire. A prioridade primeira era a valorização do magistério. "O que fizemos foi valorizar os professores com várias medidas, principalmente com a criação do estatuto do magistério que, entre outras coisas, regulamentava a jornada de trabalho dos professores em 40h semanais, mas com apenas metade na sala de aula e o restante destinado a planejamento e formação remunerados", recorda.

Na prática, Paulo Freire quebrava o autoritarismo que costuma caracterizar a relação entre o poder público e seus funcionários. Os professores eram ouvidos e moldavam o programa pedagógico de São Paulo. "Pusemos em prática um programa de formação permanente dos educadores, que tinha um diferencial, a criação dos grupos de formação, nos quais os professores discutiam sua prática na sala de aula e, nessa prática, o orientador do curso encontrava "fragmentos de teorias", nas palavras de Paulo Freire. Então eram expostos novos conceitos teóricos e, a partir daí, retornava-se para a prática, buscando reformulá-la", lembra Ana Maria Saul.

Os ciclos de progressão continuada, idéia de Freire hoje presente em vários estados do país, só surgiram no último ano, uma opção consciente da administração. "Antes, tínhamos que criar condições para depois mudar a estrutura", conta Saul. Modelo copiado em várias partes do mundo, é uma das mostras de como uma boa idéia pode ser deturpada com o passar do tempo.

O governo do Estado de São Paulo, por exemplo, enfrenta críticas pesadas pela forma com que implementou o modelo. "Aqui isso foi feito sem o merecido cuidado e se transformou em promoção automática", pontua Carlos Ramiro, presidente da Associação dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp). A posição da entidade é contra a volta da repetência, mas Ramiro entende que a progressão deve ser adotada conforme a concepção original de Freire. "Não dá para trabalhar esse modelo com classes numerosas. Temos também necessidade de que haja um processo de formação continuada do professor. Pais e funcionários têm que participar das discussões e das eventuais mudanças." A professora da Universidade Federal de Santa Catarina Nilcéa Pelandré, estudiosa da obra de Freire, faz coro e acrescenta: "A escola deveria dar conta de um atendimento individualizado, com professores que pudessem efetivamente acompanhar o aluno em seus diferentes momentos de aprendizagem, de suprir condições para o desenvolvimento afetivo, psicológico, motor. Possibilitar o avanço progressivo implica promover a educação na sua integralidade, o que efetivamente o sistema educacional brasileiro não tem feito".

A despeito da problemática experiência do sistema de ensino estadual, educadores e professores concordam que a educação em ciclos ou progressão continuada é um avanço em relação ao velho sistema de repetência. Não se pode voltar atrás, mas pode se fazer muito para aprimorar esse processo. Não só aí, mas também na alfabetização de adultos e em todo o ciclo educacional. E é isso o principal da obra de Paulo Freire, mostrar e aprender sobre a realidade implica necessariamente mudá-la, saber que se pode mudá-la. Agora, ele está sendo ainda mais estudado e novas idéias surgirão a partir do que escreveu, pregou, mas principalmente da causa que defendia: o sonho da educação se tornar verdadeiramente uma ação libertadora. E a obra continua fazendo aquilo que era o mais importante para ele: trocar a lógica da lamúria pela do encantamento, impregnando cada um com o ingrediente indispensável para começar a mudar, a esperança.


Na prática

Foto: Jesus Carlos/Imagenlatina

 

Juliana: "Cada professor constrói o seu próprio método. Eles têm toda autonomia"

 

 

 

"O filme foi muito legal, os alunos riram bastante!", comemora Solange dos Santos de Almeida, professora do Ceop, na favela São Remo, o mesmo onde trabalha Marcos Pereira Santos. O filme em questão é O Auto da Compadecida, de Guel Arraes. "Escolhemos esse porque boa parte dos alunos é nordestina", explica Solange. "E tem um monte de coisa pra trabalhar, fala do trabalhador na roça, de trabalho mal remunerado, de racismo. Vai dar bastante discussão amanhã!".

Aulas diferentes assim são comuns no Centro. "Cada professor constrói o seu próprio método. Eles têm toda autonomia", explica Juliana Silva dos Santos, coordenadora do Ceop. Ela está no projeto desde 2000, começou como monitora. Mas o centro existe há muito mais tempo, desde 1989. No início, funcionava numa igreja, no contexto do Mova original da prefeitura de São Paulo. Dependendo do repasse de verba pública, a entidade sofreu um baque quando, em 1992, o então prefeito Paulo Maluf acabou com o programa, acusando-o de fraudes.

Foto: Jesus Carlos/Imagenlatina

 

 

Solange: "O projeto é pequeno, mas tem o coração bem grande, para quantos vierem"

 

 


O projeto foi retomado um pouco depois por alguns alunos da USP, que passaram a dar as aulas num espaço da Associação de Moradores do Jardim São Remo. "Eles só tinham uma sala e por isso colocavam todos alunos lá, mesmo os de níveis diferentes", conta Juliana. Hoje, o projeto conta com quatro salas e está novamente ligado ao Mova, reavivado pela gestão de Marta Suplicy na prefeitura. Atende a 80 alunos, divididos em quatro séries, de acordo com o nível de aprendizado. "O pessoal da prefeitura não concorda com essa divisão, mas nós achamos melhor trabalhar dessa forma. Se temos quatro salas, porque não?", defende Juliana. Essa é uma das características do Mova de Paulo Freire: não impor a forma de trabalho das instituições. O Ceop conta com quatro monitores, dois vindos da própria comunidade São Remo. "O projeto é pequeno, mas tem o coração bem grande, para quantos vierem", define Solange.

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