|
Anterior
(Entrevista)
-
Índice
-
Próxima
(Cuba)
continuação
Foto:
Jesus Carlos/Imagenlatina
Marcos:
"As pessoas têm uma visão do professor como orador, que fala o tempo
todo, mas a gente busca dialogar com os alunos. Não são só eles que aprendem,
quem dá aula aprende muita coisa também"
Prática e teoria
Algo notável em Paulo Freire é a coerência
entre suas idéias e sua história de vida.
Pregando a necessidade da indignação
frente às injustiças, não deixou de fazer sua
parte, trabalhando para conscientizar e mobilizar
oprimidos em todo o mundo. Acreditava
na dialética e, mesmo em conversas
triviais, parecia pensar dessa forma. "Certa
vez, durante sua gestão na secretaria de
Educação, estávamos numa reunião da
equipe de manhã e, à tarde, cada diretor ia
para um local representar o secretário. Ele
lembrou que tinha comentado com a prefeita
que, ironicamente, o secretário que
tem mais poder é o que tem menos poder.
Isso porque, ao dividir as responsabilidades
e dar autonomia à sua equipe, ele perdia
poder. Por outro lado, ganhava, pois podia
estar em vários lugares ao mesmo tempo",
recorda Ana Maria Saul, que trabalhou
com Freire na secretaria municipal.
Freire acreditava na unidade dialética entre
teoria e prática, que devem interagir o
tempo todo. Foi também por conta disso
que foi um dos primeiros a se filiar ao Partido
dos Trabalhadores. "Ele nutria admiração
pela capacidade do Lula de criar alternativas
na prática e achava que o intelectual
orgânico tinha que transitar facilmente
com o trabalhador, ser alimentado pelas
suas causas", lembra Gadotti, que assinou
o manifesto de fundação do PT a pedido de
Freire, que se encontrava na Suíça na ocasião.
Segundo essa visão, o intelectual tem
que partir das necessidades, da prática do
cotidiano, para a teoria e em seguida voltar
para a prática, com um pensamento moldado
pela realidade.
Paulo Freire teve a oportunidade de realizar
todo esse ciclo. No período em que foi
secretário de Educação de Luiza Erundina,
pôde aplicar parte de seus ensinamentos
por meio de políticas públicas que trouxeram
um novo alento ao ensino da capital
paulista. A professora Ana Maria Saul foi
diretora de orientação técnica da Secretaria
e permaneceu no cargo durante os quatro
anos da gestão, mesmo depois da saída de
Freire. A prioridade primeira era a valorização do magistério. "O que fizemos foi
valorizar os professores com várias medidas,
principalmente com a criação do estatuto
do magistério que, entre outras coisas,
regulamentava a jornada de trabalho dos
professores em 40h semanais, mas com
apenas metade na sala de aula e o restante
destinado a planejamento e formação remunerados",
recorda.
Na prática, Paulo Freire quebrava o autoritarismo
que costuma caracterizar a relação
entre o poder público e seus funcionários.
Os professores eram ouvidos e moldavam
o programa pedagógico de São Paulo.
"Pusemos em prática um programa de formação
permanente dos educadores, que tinha
um diferencial, a criação dos grupos de
formação, nos quais os professores discutiam
sua prática na sala de aula e, nessa
prática, o orientador do curso encontrava
"fragmentos de teorias", nas palavras de
Paulo Freire. Então eram expostos novos
conceitos teóricos e, a partir daí, retornava-se
para a prática, buscando reformulá-la",
lembra Ana Maria Saul.
Os ciclos de progressão continuada, idéia
de Freire hoje presente em vários estados
do país, só surgiram no último ano, uma
opção consciente da administração. "Antes,
tínhamos que criar condições para depois
mudar a estrutura", conta Saul. Modelo
copiado em várias partes do mundo, é
uma das mostras de como uma boa idéia
pode ser deturpada com o passar do tempo.
O governo do Estado de São Paulo, por
exemplo, enfrenta críticas pesadas pela forma
com que implementou o modelo. "Aqui
isso foi feito sem o merecido cuidado e se
transformou em promoção automática",
pontua Carlos Ramiro, presidente da Associação
dos Professores do Estado de São
Paulo (Apeoesp). A posição da entidade é
contra a volta da repetência, mas Ramiro
entende que a progressão deve ser adotada
conforme a concepção original de Freire.
"Não dá para trabalhar esse modelo com
classes numerosas. Temos também necessidade
de que haja um processo de formação
continuada do professor. Pais e funcionários
têm que participar das discussões e
das eventuais mudanças." A professora da
Universidade Federal de Santa Catarina
Nilcéa Pelandré, estudiosa da obra de Freire,
faz coro e acrescenta: "A escola deveria
dar conta de um atendimento individualizado,
com professores que pudessem efetivamente
acompanhar o aluno em seus diferentes
momentos de aprendizagem, de suprir
condições para o desenvolvimento afetivo,
psicológico, motor. Possibilitar o
avanço progressivo implica promover a
educação na sua integralidade, o que efetivamente
o sistema educacional brasileiro
não tem feito".
A despeito da problemática experiência
do sistema de ensino estadual, educadores
e professores concordam que a educação
em ciclos ou progressão continuada é um
avanço em relação ao velho sistema de repetência.
Não se pode voltar atrás, mas pode
se fazer muito para aprimorar esse processo.
Não só aí, mas também na alfabetização
de adultos e em todo o ciclo educacional.
E é isso o principal da obra de Paulo
Freire, mostrar e aprender sobre a realidade
implica necessariamente mudá-la, saber
que se pode mudá-la. Agora, ele está
sendo ainda mais estudado e novas idéias
surgirão a partir do que escreveu, pregou,
mas principalmente da causa que defendia:
o sonho da educação se tornar verdadeiramente
uma ação libertadora. E a obra continua
fazendo aquilo que era o mais importante
para ele: trocar a lógica da lamúria
pela do encantamento, impregnando cada
um com o ingrediente indispensável para
começar a mudar, a esperança.
Na
prática
Foto:
Jesus Carlos/Imagenlatina
Juliana:
"Cada professor constrói o seu próprio método. Eles têm toda
autonomia"
"O filme foi muito legal, os alunos riram bastante!", comemora Solange dos Santos de Almeida, professora do Ceop, na favela São Remo, o mesmo onde trabalha Marcos Pereira Santos. O filme em questão é
O Auto da Compadecida, de Guel Arraes. "Escolhemos esse porque boa parte dos alunos é nordestina", explica Solange. "E tem um monte de coisa pra trabalhar, fala do trabalhador na roça, de trabalho mal remunerado, de racismo. Vai dar bastante discussão amanhã!".
Aulas diferentes assim são comuns no Centro. "Cada professor constrói o seu próprio método. Eles têm toda autonomia", explica Juliana Silva dos Santos, coordenadora do Ceop. Ela está no projeto desde 2000, começou como monitora. Mas o centro existe há muito mais tempo, desde 1989. No início, funcionava numa igreja, no contexto do Mova original da prefeitura de São Paulo. Dependendo do repasse de verba pública, a entidade sofreu um baque quando, em 1992, o então prefeito Paulo Maluf acabou com o programa, acusando-o de fraudes.
Foto:
Jesus Carlos/Imagenlatina
Solange:
"O projeto é pequeno, mas tem o coração bem grande, para quantos vierem"
O projeto foi retomado um pouco depois por alguns alunos da USP, que passaram a dar as aulas num espaço da Associação de Moradores do Jardim São Remo. "Eles só tinham uma sala e por isso colocavam todos alunos lá, mesmo os de níveis diferentes", conta Juliana. Hoje, o projeto conta com quatro salas e está novamente ligado ao Mova, reavivado pela gestão de Marta Suplicy na prefeitura. Atende a 80 alunos, divididos em quatro séries, de acordo com o nível de aprendizado. "O pessoal da prefeitura não concorda com essa divisão, mas nós achamos melhor trabalhar dessa forma. Se temos quatro salas, porque não?", defende Juliana. Essa é uma das características do Mova de Paulo Freire: não impor a forma de trabalho das instituições. O Ceop conta com quatro monitores, dois vindos da própria comunidade São Remo. "O projeto é pequeno, mas tem o coração bem grande, para quantos vierem", define Solange.
voltar
Anterior
(Entrevista)
-
Índice
-
Próxima
(Cuba)
|