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(Paulo Freire)
entrevista
Quem
orientou esses ignorantes?
por
Anselmo Massad e Glauco Faria
fotos de Gerardo Lazari
"Metade
dos pais brasileiros são alcoólatras crônicos, têm quantos filhos quiserem,
um exemplo doméstico mortífero, horrível"
Ser acusado de portador e propagador
de idéias velhas e ultrapassadas
por um senhor de 82
anos não é a melhor maneira de
começar uma entrevista. Mas
foi assim que José Ângelo
Gaiarsa iniciou a conversa, discutindo os
textos da Fórum que comprou na banca.
"Os argumentos são muito bons, os autores
também, mas são as mesmas idéias antigas,
o mesmo raciocínio de outras publicações.
Sempre a mesma fórmula de apontar o culpado
e o que se deve fazer". E arrematou:
"então? Vocês vão fazer as mesmas perguntas
de sempre para que eu dê as mesmas
respostas de sempre ou vamos tentar
ir além?"
O desafio foi aceito, e Gaiarsa metralhou
polêmicas e pontos de vista inovadores.
"Estou muito em busca disso,
das coisas que não aparecem e que
estão mudando o mundo e que o
nosso pensamento antigo não
se dá conta". E sobrou até
para os pais: "Dizem
que os pais não
orientam os filhos,
mas quem orientou
esses ignorantes? Metade dos pais brasileiros são
alcoólatras crônicos, têm quantos filhos
quiserem, um exemplo doméstico mortífero,
horrível. A família é muito falada, elogiada
e em nada cuidada".
Veja a seguir os principais trechos da
conversa.
Instinto de cooperação
O Eduardo Galeano diz [referindo-se à
conferência do escritor uruguaio no
FSM2]: é melhor pensar no nós que no eu.
Tenho uma argumentação vital, que o mais
fundamental dos instintos humanos é a
cooperação e que a sociedade capitalista
perverteu esse instinto com a noção de um
falso individualismo. Por que o capitalismo
vai muito bem? Porque é baseado, em alto
grau, na inveja coletiva, porque todos nós
queremos ser capitalistas. Temos inveja de
todos os que possuem dinheiro, todos gostariam
de comprar muita coisa gostosa que
a gente não tem.
Três argumentos
Vou passar rapidamente por três gigantescos
argumentos para provar que o instinto
de cooperação é muito maior que o de
autodefesa, muito maior que o do sexo. Em
primeiro lugar, alguns dos maiores biólogos
contemporâneos defendem a idéia de
que toda a vida é simbiótica. Os organismos
simples foram se juntando e criando
organismos cada vez mais complexos. Bactérias
foram se unindo, formaram protozoários
e assim por diante... Nosso corpo é
uma gigantesca colônia de subcolônias. O
fígado, os rins, o cérebro, todos são colônias
que rendem muito mais funcionando
juntos. Uma forma espontânea de cooperação
que se aplica aos vários níveis biológicos.
Qualquer ecossistema é cooperativo,
se você tira três elementos ele se desorganiza
completamente.
Uma frase ficou muito marcada para
mim, de dois "animantropólogos" - que estudam
os homens dado o comportamento
animal. Só a espécie humana faz trocas.
"Me dá seu marreco porque você tem dois,
que eu te dou dois peixes porque tenho
três". Os primeiros conquistadores da humanidade
foram os pescadores, que iam
pelo mundo trocando. A raiz civilizatória é
muito mais comercial que guerreira, o que
acho muito bonito. Trocas são a essência
da economia. O que é a economia de um
país senão a soma de todas as trocas que
acontecem a cada instante retratadas na
bolsa de valores? A bolsa é uma feira instantânea,
quantos caminhões de urânio por
quantos navios de petróleo. A troca nos
uniu completamente. Tudo o que você faz
é para os outros, e tudo o que você tem foi
feito pelos outros.
Quer prova mais absurda de que nós somos
nós, e não eu? Imagine-me, coitado de
mim, no meio da floresta amazônica, pelado.
Não duro três dias. Então veja como é
profundo esse instinto de cooperação, que
não é falado. Predomina a frase capitalista:
"O homem é naturalmente egoísta", e a lei
número um do capitalismo: "se dá lucro,
está certo". "Olha, que sujeito sensacional,
ficou rico! Era um bandido como o Fleury,
roubou até os colarinhos e foi eleito outra
vez, e está aí para roubar mais".
O próximo
Amor ao próximo não é um conselho de
"bom coração", dado por Jesus Cristo. É
estranhíssimo que a gente não perceba isso.
Estamos aqui porque todos amam todos,
tanto que todos cooperam para o bem de
todos. Está nascendo um pensamento na
sociologia, que diz que hoje ninguém sabe
tudo de tudo, todo mundo sabe um pouquinho
e a partir daí começam as combinações
de trocas espontâneas. Talvez nasça uma
salvação na qual ninguém está pensando
sozinho, mas coletivamente, sem perceber.
Nós avaliamos todo o presente à luz dos
padrões passados. Causa-efeito, isso liga
com aquilo, tudo liga com tudo. Isso é uma
bagunça gigantesca, ninguém tem idéia
global do que está acontecendo, cada um
sabe um pedacinho.
TV democrática
Vamos além? Qual é o país perfeito?
Não sei se é Letônia ou Estônia. Num desses
países, que tem de 2 a 3 milhões de habitantes,
todos os lares estão conectados à
internet, o que permite um plebiscito de um
dia para o outro. Quando o Congresso discute
alguma coisa que possa interessar,
consulta TODA a população. Esse é o limite
da democracia realizada. Eles estão determinando
o próprio destino, não tem
mais as costas largas do governo. Ou todos
somos culpados ou somos todos inteligentes.
Qual é a instituição mais próxima disso
no Brasil? (Quando os intelectuais lerem
isso vão me xingar). É a Rede Globo de
Televisão. As novelas são vistas por mais
ou menos 500 milhões de pessoas todos os
dias no mundo inteiro, já que são exportadas
para diversos países, coisa que nenhuma
outra instituição tem. Eles fazem um
filme por dia, juntando os capítulos das novelas,
pondo Hollywood no chinelo. Os diretores
da Globo têm em suas mesas um
monitor com a audiência de cada emissora
minuto a minuto. Todos têm úlceras quando
um programa começa a cair, a ficar
sem ibope. Sem ibope não
tem programa. A Globo
não faz o que quer, faz o
que o povo brasileiro exige,
porque se ela faz uma novela
meio torta cai a audiência, corta
a cabeça do diretor, muda, acaba a novela!
Eles vivem disso. A Globo é democrática
sem querer. Todos influem na história.
Não é o Boni que resolve, não é "o
FDP do Roberto Marinho". Quando as pessoas
vão entender que é feito um plebiscito
todo dia aqui? Você vota quinze vezes por
dia usando os programas. Você está determinando
o destino da televisão, que é um
fantástico meio de comunicação popular.
Ela é interativa. E tem um lado que me orgulho
de ter descoberto. Pegue um jogo de
futebol. Você tem de doze a quinze câmeras.
O mesmo espetáculo é visto por uma
panorâmica, uma corrida de conjunto, pelo
chute de escanteio, de trás do gol, panorâmica
de cima, geral. O mesmo objeto é visto
de um número incontável de ângulos.
Então se percebe que não existe uma verdade
ou a minha verdade, mas umas cinqüenta
verdades. Isso é passado subconscientemente,
mostrando que tudo tem muitos
lados, enquanto nas conversas comuns
só existem o bem e o mal, o certo e o errado,
a salvação americana ou a desgraça.
TV revolucionária
A televisão é um tremendo fator de revolução,
porque ela vai mostrando tudo o que
o miserável não tem. Em 86% dos lares
brasileiros há televisão, 86%! Ela estimula
violentamente o desejo e a frustração. Todo
mundo quer o que os que aparecem na
tela têm.
Bons atores
Há ainda outro avanço. Talvez por motivos
de economia, a Globo está pondo de
20% a 25% - não medi exatamente - de
closes nos rostos dos atores, porque cenário
custa caro. Se você aproveitar bem o
dramático dos rostos, precisa de pouca coisa.
Você pode ver, cerca de 30% das novelas
não têm montagem nenhuma, só caras
de boa qualidade. Isso está ensinando às
pessoas a comunicação não verbal, que é
minha paixão. Você comunica talvez muito
mais na cara e no gesto que na fala, outro
dos caminhos que estão desabrochando totalmente.
O que passa na televisão são pessoas,
não são discursos. Há um enorme jogo
de simpatias e antipatias, e ninguém sabe
o que vai sair disso. Mas a minha paixão
é a importância da comunicação não-verbal
entre as pessoas. Ela pode estabelecer
uniões inconscientes muito profundas assim
como estabelecer antipatias que você
não compreende. Foi a cara, o jeito, o tom
de voz...
Realidade e simulacro
Por enquanto, a internet escrita tem a ver
com a antiga novela de rádio, só falada,
embora a internet ainda não tenha voz. As
pessoas disfarçadas dizem muito mais a
verdade sobre o que sentem e pensam que
quando olhadas. Isso acontece todos os
dias, namoros entre pessoas que se disfarçam
e têm uma sinceridade de declaração
que jamais teriam em presença. Uma amiga
minha - que não é das mais belas figuras
- contou-me que os orgasmos que tinha
conversando com certo homem que não sabia
quem era foram os mais intensos de sua
vida. A palavra real é a mais explosiva da
filosofia. Os hindus sabem há muito tempo
do poder da imagem mental e abusavam
das visualizações para se organizar. Hoje
está provado que imaginar com clareza é
quase tão bom quanto fazer. Imaginar muito
não é tão distante do real quanto parece,
é até mais sincero que face a face. Você
pode pôr suas fantasias muito mais às claras.
Não estou dizendo que seja boa essa
distância, mas que ela não é só desvantagem.
Eu deixaria uma interrogação. E olha
que sou um tremendo defensor das técnicas
corporais, acho a pele uma coisa espantosa.
Você tem 500 mil pontos sensíveis na sua
pele, em 2 metros quadrados, cientificamente
determinados. Eu prefiro suspender
o juízo e duvidar um pouco do meu julgamento,
porque ele é velho.
Psicanálise
Deixe-me explicar a psicanálise, porque
ela não é um fenômeno de hoje. Freud nasceu
em 1850, formou-se como pessoa no
século 19 e desenvolveu sua teoria até o
começo do século 20. Antes da TV, da 2a
Guerra, da internet e do computador e das
viagens espaciais. Pergunto-me se ele ainda
pode ser tão verdadeiro. O mundo mudou
muito, a família que hoje existe não
tem nada a ver com a família burguesa de
Viena, onde estudou. O mais interessante é
que a psicanálise freudiana não tem olhos,
põe o cara lá e estuda, mas não o olha diretamente.
A psicanálise não respira. O homem
freudiano não tem tórax, porque passa
pelas fases anal, oral e genital, tem aparelho
digestivo, testículos e ovários, mas
não tem pulmão nem coração. O homem
freudiano não tem pele, porque ninguém
encosta em ninguém e não se mexe. Não
estou criticando Freud, mas tomando a ele
e aos psicanalistas como sinal de como se
aceita uma teoria com essas carências no
nosso mundo. Essas idéias são um dinossauro
que não acompanhou nada do que está
acontecendo no mundo.
Lado
sombrio da família
Por cinqüenta dos meus 82 anos, de 6 a 8
horas por dia eu só ouvi queixas familiares.
Ninguém conhece o lado sombrio da família
melhor que eu. Sinto-me plenamente autorizado
a falar mal dela, o que tem de ruim
não está escrito. Ela é o eixo do conservadorismo,
sim. "Pai e mãe estão sempre certos":
isso é o próprio tiranismo à Saddam
Hussein. E o pior é que muitas mães e pais
acreditam nisso. Embora hoje a garotada
mais escolada, mais violenta e mais rebelde,
já esteja consertando isso. Mãe, pai e filho
num apartamento é uma loucura, muita
convivência não funciona. Mais filhos é até
melhor que um ou dois, porque dá diversidade
de contato. Mas a criança mesmo muito
pequena já vai para a escola maternal,
creche. Desde pequeno começa a afrouxar
essa intensidade de contato, que é a causa
das neuroses. Psicanálise quer dizer afrouxar
laços familiares. Complexo de Édipo é
o que tem nos Jardins, na favela é encrenca
de família, mas é a mesma coisa. Todo
mundo vive por aqui com a família em particular.
Exceto em público, a família da TV
no programa da Hebe: "Nossa, eu sou tão
feliz, meus filhos são uma jóia" (risos).
Segunda escola de família
Depois de ouvir tudo isso sobre família a solução que eu vejo, idealista - duvido que aconteça -, é uma escola de família. A sociedade deveria ter dois tipos de casamento. A pessoa se casa com quem quiser e vai morar com ela. Se depois de dois anos de convivência o casal achar que está se entendendo, fica autorizado a ter filhos e a juntar bens. Mas para ter filhos é preciso
passar por uma educação especial. Dizem que os pais não orientam os filhos, mas quem orientou esses ignorantes? Metade dos pais brasileiros são alcoólatras crônicos, têm quantos filhos quiserem, um exemplo doméstico mortífero, horrível. A família é muito falada, elogiada e em nada
cuidada. Na América do Norte isso está começando a brotar. Os cientistas fizeram um boneco que tem todas as necessidades fundamentais do bebê. Ele faz xixi, cocô, quer mamar, chora, esperneia. Quando aparece um casalzinho dizendo querer filhos, leva o boneco por dois meses. Se acharem que está tudo bem acordar no meio da noite, berrando,
se fizerem a experiência do bebê dois meses e acharem ótimo podem ter o nenê. Porque um nenê é um inferno, algo que só se descobre quando se tem.
Crimes familiares
Por que há os filhos que matam pais e
avós e por que isso tem essa repercussão gigantesca?
Os fundamentos da família clássica
- pai, mãe e filho - estão começando a
derreter. Esses crimes são um dos sintomas
mais gritantes, mas há outras coisas, como
a criançada que sai muito mais cedo, que
tem muito mais atividades - boas ou más -
e as mães que trabalham fora. As crianças
estão sendo muito menos controladas, muito
menos desviadas e envenenadas pelos
velhos valores. Podem até estar sendo envenenadas
pelos novos, mas não é esse o ponto.
Hoje em dia todo mundo brinca com a
supermãe, com o superpai. Ontem eu ouvi
uma história bonita de um senhor que contou
que seus três filhos chegaram pra ele e
disseram: "Pai, a gente não quer mais ter
pai, mas você tem que ficar amigo da gente".
Essa é a lição de hoje. Não queira mais
ensinar como era o mundo do seu tempo,
porque você estará falando sozinho. Troca
de experiências é outra coisa. Trocar experiências
é ótimo, de sentimentos nem se fala,
mas nada de lições de vida.
Distância entre gerações
A distância entre as gerações está maior
que qualquer outra anterior. E isso se deve
ao computador e à televisão, sobretudo.
Você não imagina o que se ignorava no
meu tempo. Ninguém sabia nada de nada.
Nasci em Santo André, que já era o primeiro
município industrial do Brasil, a 30
minutos de São Paulo. Era uma cidade do
interior, ninguém sabia nada de São Caetano,
a 7 quilômetros, nem de São Bernardo,
a 6 quilômetros. Ir até lá era visitar a família
distante. Só se sabia da vizinhança, dos
amigos e dos parentes próximos. Visita naquele
tempo era um saco. Quem nasceu,
quem morreu, o parto que demorou, a operação
que foi terrível, o fulano que casou...
Vocês não fazem idéia do que era meu
mundo antes da televisão. Ela é uma janela
para o mundo, digam os intelectuais o
que quiserem. Hoje acho que um habitante
analfabeto de uma cidade com 50 mil habitantes
sabe mais sobre o mundo que
Aristóteles do mundo dele, só olhando esse
negócio que traz notícias de toda parte.
Sabe tudo isso, é de esperar que comece a
juntar.
Machões
Durante muitos anos, morria de inveja dos
machões. Era difícil chegar perto das moças
pra conversar, o que eles faziam bem. Isso
foi até eu saber que eles não faziam nada. Os
homens são extremamente monótonos na cama.
Em média, são 10 minutos de agrados e
2 de sexo, e isso já é excepcional. E todos sabemos
que os machos são absolutamente
dispensáveis, já que um homem numa só
ejaculação bastava para fecundar todas as
mulheres dos EUA. Por isso é que eles precisam
se exibir, se mostrar tanto para parecerem
úteis. Fizeram todas as guerras assim,
homens matando competidores e rivais. E
criaram ainda o assalto coletivo, saqueando
uma cidade inteira, estuprando as mulheres e
levando os que sobraram como escravos.
Mas os machos não são grande coisa.
Sexualidade
A sexualidade não é muito diferente de antes. A mãe continua não tendo xoxota e as crianças não podem ter xoxota nem pinto.
A sexualidade natural de bicho saudável é castrada. Na adolescência, desenvolvemos
uma sexualidade social. Tudo o que se aprende é com os similares. Se em casa
ninguém tem pinto, na gangue, no grupo de adolescentes, todos só têm pinto. É impensável
o desenvolvimento natural da sexualidade num esquema monogâmico, que é
feito para baixar as necessidades sexuais. Se eu visse uma menina de 4 anos mexendo
na xoxota eu daria uma piscada, um sorriso e diria: "é bom, né?" Talvez fosse chamado
de pervertido. Mas não é à toa que todos os palavrões são anti-sexuais. Será
que com todos esses palavrões a gente vai fazer bonito na cama? Globalmente, a mulher
é mais amarrada do que o macho, porque quando jovem é vigiada pela mãe e,
quando adulta, pelas amigas. Se a mulher sair com mais de um, logo é a piranha. E há
muito mais masturbação que relações sexuais, além do que somos muito monótonos
até nisso, não brincamos com as possibilidades. Uma mão com um pouco de
criatividade pode fazer coisas incríveis.
Horror à guerra
Ouve-se muito o argumento de que a exposição constante à violência insensibiliza
para o assunto. Há um inegável fundo de verdade, mas vou responder um pouco pelo
avesso. Eu vi a 2ª Guerra Mundial. A 3ª não aconteceu, porque se tinha idéia do
horror da guerra, porque a Europa havia sido destruída. Não é à toa que Alemanha e
França ficaram contra o ataque ao Iraque. E é muito estranho que a Inglaterra esteja a
favor. O horror à guerra está crescendo cada vez mais. Dez dias antes do primeiro foguete,
a gente ficava aqui pensando 'vai ter ou não vai ter', porque o mundo inteiro estava
mobilizado contra. Gigantescas passeatas, xingamentos de toda ordem. A minha
esperança é que segurem a próxima.
Fim do autoritarismo
Gosto de pensar (e espero) que essa guerra e o governo do Bush sejam um dos
últimos suspiros do autoritarismo. Meu ponto é que há duas possibilidades. Ou o
autoritarismo começa a desaparecer - e eu tenho alguns dados interessantes a respeito
- ou a gente liquida a humanidade. O Paquistão, a Índia, a Coréia do Norte e outros
poderes estão com o dedo no gatilho.
Ser americano
Nesse aspecto, não há o fato de que os EUA são a favor porque a guerra é no Iraque,
não nos EUA, e outra, que o Bush acaba manipulando o medo dos terroristas, ou seja, eles acreditam que isso é uma defesa.
Eu não queria ser norte-americano aqui e agora. A qualquer momento, de qualquer lugar, pode vir alguma bomba. Essa é a definição do pânico, e o Bush está capitalizando isso. Realmente não sei se preferia estar nos EUA, em Nova York, ou num lugarzinho mais espirrado no Iraque. Porque lá ao menos
o perigo está na cara, vem um bruta tanque, da explosão que eu estou vendo. Nos EUA, você pensa: 'Será que meu vizinho é terrorista?' É uma angústia coletiva.
Drogas
O melhor negócio do mundo são as armas.
O terceiro melhor negócio é o petróleo,
o segundo são as drogas. Para mim
uma coisa explica a outra. Esse mundo é
tão infernal e tão ruim que só saindo dele.
Ninguém pergunta quando discute drogas
por que as pessoas as usam. "Ah, é para se
alienar". Graças a Deus que eu consigo me
alienar dessa loucura coletiva que está em
qualquer noticiário, em qualquer jornal, o
que é chamado mundo normal. A gente engole
porque está acostumado. Tem gente
que sobreviveu dois anos em campo de
concentração. Não dá para imaginar como;
não sei se nós somos tão diferentes. "Ah,
eu quero um trabalho". Oito horas por dia
de escravidão para ganhar, com sorte, 600
ou 700 reais por mês. E você tem dois filhos
e aluguel. Essa é a situação de quatro
quintos da população. Segundo, ninguém
quer saber, mas não vai mais ter emprego,
a automação está tomando conta de tudo.
Não vai mais ter emprego, simples. Ninguém
pode prometer que vai arrumar emprego
porque não vai arrumar.
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