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continente
Democracia
distante
por
Helena Klang
fotos de Jeremy Bigwood
Vítima
da maior guerra civil da América Central, que durou 36 anos e exterminou grupos
indígenas, Guatemala convive com problemas sociais graves e exclui a maioria da
população do poder
foto:
Jesus Carlos/Imagenlatina
Ainda no território
de Belize, o primeiro
susto. A
funcionária explica
que do outro
lado, na Guatemala,
a imigração havia sido
tomada por vândalos e era perigoso
cruzar a fronteira. Atravessei
e logo vi grande número de
pessoas com faixas e cartazes.
bandeira do país estava estendida
e os tais vândalos dançavam
e exclamavam: "exigimos
mais verba para a educação".
José Spinoza, líder do bloqueio
e presidente da Associação
de Professores do Estado
de Petén, ao norte do país, explica
que o protesto é porque o
presidente, Afonso Portillo,
não aumentou o investimento
em educação, como os professores
pediam. "O número de livros
disponíveis não é suficiente,
não há distribuição de
merenda escolar e as condições
das escolas são terríveis", afir
ma. Para ele, em algumas áreas
a situação é ainda pior. "Na
área rural muitos alunos têm de
sentar no chão", explica. Para
entender, a Guatemala tem população
aproximada de 13 milhões
de pessoas, 61% vivem
na área rural. Há 84 mil professores
no ensino fundamental.
Iniciantes ganham por volta de
1500 quetzales, equivalentes a
190 dólares. Com 25 anos de
carreira, 3000 quetzales, 380
dólares.
Se o atos como esses dos
professores acontecem em
qualquer lugar e estão bem longe
do vandalismo propagandeado
pela funcionária belizense,
outra manifestação em
Petén foi significativa do atual
momento político. Em março,
ex-membros do esquadrão da
morte guatemalteco, as chamadas
patrulhas de Autodefesa
Civil, PAC, que colaboravam
com o exército na luta contra a
guerrilha, foram às ruas exigir
indenização. A alegação: correram
muitos riscos nos combates.
Ironicamente, aproveitaram
a liberdade de expressão, antes
seu grande alvo, para reivindicar.
À época, bloquearam estradas
e o aeroporto de Petén, e o
governo prometeu uma indenização
de três parcelas de 5.420
quetzales para os 250 mil ex-
PACs.
Essa liberdade é algo relativamente
novo na Guatemala.
De 1960 a 1986 o país viveu
violenta ditadura militar. Na
oposição, grupos guerrilheiros
formados por estudantes e intelectuais
aderiram à luta armada
reivindicando liberdade, fim
do governo militar, reforma
agrária, melhores condições de
vida e trabalho, volta dos exilados
e refugiados e investigação
sobre os desaparecidos.
Testemunha dessa época, Jeremy
Bigwood, fotojornalista
americano que cobriu a maioria
das guerrilhas da América
Central e estava na Nicarágua
quando os Sandinistas derrubaram
Anastasio Somoza, diz
que a queda do ditador nicaragüense
foi momento marcante
também na Guatemala. "As
classes médias e pobres pensaram:
'Se Somoza caiu, também
poderia cair o governo local'.
Aí muita gente aderiu à luta armada.
A resposta do governo
foi a repressão por meio dos
esquadrões da morte."
Matavam qualquer um
Na guerra civil também era
comum o recrutamento forçoso
de jovens para o exército. O
advogado Martín Alfredo
Márques passou pela experiência.
"Andava pela rua aqui em
Antigua quando um comerciante
me avisou: 'Cuidado!
Estão agarrando!' Nem tive
tempo de pensar. Um soldado
me puxou pelo braço e me
obrigou a entrar no caminhão".
Na época Alfredo não
havia completado 18 anos,
mas o soldado não quis saber.
"Fiquei incomunicável durante
três dias, até que meu irmão
resolveu me procurar no quartel
da cidade, onde hoje funciona
a secretaria de turismo.
Ele levou meus papéis e comprovou
que eu tinha apenas 16
anos. Voltei para casa". foto:
Jesus Carlos/Imagenlatina
Do outro lado, qualquer suspeito
de colaborar com a guerrilha
morria. A namorada do
jornalista Jeremy na época foi
uma das vítimas: "Ela trabalhava
num café, não tinha nada a
ver com a guerrilha, mas nesta
época se suspeitassem matavam
qualquer um", recorda o
jornalista.
Médico
forense examina ossadas de mortos pelos PAC's encontradas em cemitério
clandestino
Um dos grupos que mais sofreram
com essa repressão foram
os indígenas. Muitos aderiram
à luta armada, e mesmo
sem armas suficientes encararam
a batalha. "Os militares,
com seus fuzis, massacraram
milhares. Destruíram povoados
inteiros em 1981", diz Jeremy.
O povo entendeu que não era
possível combater o regime
nessas condições e se escondeu
nas chamadas CPRs, Comunidades
de População em Resistência,
nas montanhas. "Houve
um período de terror extremo
entre a população. Isso durou
até 1989. Lembro que saía ao
campo e as pessoas não falavam
comigo, tinham muito medo",
conta o fotógrafo.
A ditadura militar foi extinta
no ano de 1986, mas os grupos
guerrilheiros não descansaram
e continuaram a lutar pelos
camponeses. Milhares de atentados
foram organizados pelos
principais grupos: Unidade Revolucionária
Nacional da Guatemala
(URNG), Exército
Guerrilheiro do Pobre (EGP) e
Forças Armadas Revolucionárias
(FAR). De acordo com um
relatório da CIA, morreram
mais de 100 mil e mais de um
milhão de pessoas tornaram-se
refugiados. Fim da Guerra Em 29 de dezembro de 1996
foi assinado o tratado de paz
que acabou com os 36 anos de
guerra civil, a mais longa da
América Central. Hoje a Guatemala
atrai milhares de turistas
devido à onipresente cultura
maia, resguardada em imensos
templos em diversos sítios arqueológicos.
Antigua, a primeira
capital e cartão-postal do
país, é patrimônio histórico da
humanidade. Sua arquitetura
colonial espanhola foi completamente
restaurada e mantém-se
preservada.
Mas, independente da entrada
de capital estrangeiro proporcionada
pelo turismo, os
guatemaltecos não estão satisfeitos
com a jovem democracia.
Em pleno ano de eleição,
pesquisa do instituto VOX Latina,
divulgada em março no
maior jornal do país, o Prensa
Libre, mostrou que 75,7% dos
guatemaltecos não se interessam
pela política. Muitos
acham que a democracia não
mudou em nada sua condição
de vida e que o tratado de paz
não trouxe medidas positivas
para as comunidades. A pesquisa
envolveu 1.212 entrevistados
em 120 localidades do
país. A maioria disse não possuir
identificação com os políticos
já que estes não estão em
sintonia com os problemas nacionais.
A insatisfação não é à toa. A
Guatemala carece de estradas,
saneamento básico e escolas.
Avançando alguns quilômetros
ao redor de Antigua, nos povoados
de San Felipe, San Juan
e Santa Maria, é possível encontrar
mulheres lavando roupa
em grandes tanques no meio da
praça central. "Não temos água
encanada em casa durante o
dia, ela só chega em alguns lugares
na madrugada", explica
uma das senhoras. E o povoado
dela fica a 20 minutos do maior
centro turístico do país.
A situação da rede viária não
é diferente. Existem apenas
duas grandes estradas que cortam
o país. Não há muitas opções
de linhas de ônibus, poucas
oferecem serviços à noite.
Muitos guatemaltecos contam,
com uma dose de rancor, que o
território de Belize pertencia à
Guatemala e foi ocupado pela
Inglaterra em troca da construção
de uma grande estrada até a
costa do Caribe, mas esta nunca
foi concluída. Além disso,
não há portos suficientes e os
aeroportos existentes não suportam
a demanda.
Apesar de o país carecer de
políticas de desenvolvimento
interno, o guatemalteco não
atribui confiança aos partidos
de esquerda, como a Aliança
Nova Nação (ANN) e a Unidade
Revolucionária Nacional
Guatemalteca (UNRG), partido
criado a partir da desintegração
do grupo guerrilheiro. Os partidos
de mais credibilidade são
os de direita, com postura neoliberal
declarada, mas com estilo
assistencialista. Entre estes
estão o Partido de Avanço Nacional
(PAN), a Unidade Nacional
de Esperança (UNE) e a
Frente Republicana Guatemalteca
(FRG), que atualmente comanda
o país.
O foco do governo é a entrada
de capital estrangeiro. Pouco
é investido na infra-estrutura,
já que não há verba suficiente.
Atualmente a maior
preocupação do presidente
Afonso Portillo é a lista negra
dos Estados Unidos. A Guatemala
está entre os países que,
segundo Washington, não
combatem o narcotráfico, único
impedimento para a assinatura
do tratado de livre comércio
regional que foi negociado
em março deste ano entre os
países da América Central e os
EUA.
O Governo da FRG tem como
prioridade sair dessa lista.
Para isso o exército foi convocado
a participar das operações
antinarcóticos junto ao
Ministério Público e à Polícia
Civil. Segundo estatísticas oficiais
do Serviço de Análises e
Informações Antinarcóticos
(Saia), até 10 de abril deste
ano foram apreendidos 2.558
toneladas de cocaína, no ano
passado inteiro foram apenas
2,4 toneladas. O esforço foi
para agradar ao governo norteamericano
antes das eleições
de novembro. Escolhas como
essa talvez ajudem a entender
a desilusão do povo guatemalteco
com a democracia e seus
governantes.
Identidade
Cultural
Um
dos graves problemas da Guatemala é a marginalização política sofrida pelos
indígenas, que representam 43% da população. No poder, a maioria é ladina,
mestiços de indígenas e espanhóis, e o racismo contra a maioria da população
é grande. Ironicamente, a cultura Maia move o turismo e é responsável pela
maior parte do capital estrangeiro que entra no país, mas seus descendentes são
deixados fora do poder.
Nessa
luta antiga, Rigoberta Menchú é dos símbolos. Indígena da etnia Quiche,
nasceu em 1959. Filha de pobres camponeses, experimentou todos os tipos de violência
e discriminação com sua comunidade, aí incluídos o assassinato de seus pais
e irmãos. Sempre lutou pelo reconhecimento dos povos indígenas no processo político,
chegando a criar o Comitê de Unidade Camponesa (CUC). Devido ao forte ativismo,
Rigoberta teve de se refugiar no México. Em 1992 aceitou o prêmio Nobel da Paz
em nome de todos os nativos de seu país, tornando-se ícone de resistência
cultural.
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