|
Anterior
(Cuba)
-
Índice
-
Próxima
(Continente)
microscópio
Os
desígnios
que
não estão no Alcorão
por
Anselmo Massad
Pobres
e marcados por regimes autoritários, os países muçulmanos têm seus destinos
traçados pelo interesse de grandes potências e transnacionais em seu petróleo.
Atrasados economicamente, só representam ameaça a seus cidadãos
foto:
Petr
Josek/ Reuters
Turquia, Egito, Jordânia, Catar,
Oman, Bahrein, Arábia
Saudita, Kuwait são do eixo
do bem. Hospedam bases militares
norte-americanas. Líbia,
Síria, Iêmen, Emirados
Árabes, Sudão são do mal. Não aceitaram
essa condição. Só para constar, todos, sem
exceção, têm regimes autoritários. O que
de certa forma deixa claro os critérios para
avaliar quais representam o bem e o
mal na lógica da "Pax Universal" norte-americana.
"A maioria dos países islâmicos hoje é
empobrecida demais, tirânica e deploravelmente
inapta militar e cientificamente para
representar ameaça a qualquer um, exceto
a seus cidadãos", adverte Edward Said, escritor
palestino, professor da Universidade
de Columbia nos EUA. "E não se pode esquecer
ainda que os mais poderosos deles -
Egito, Arábia Saudita, Jordânia, Paquistão
- estão totalmente dentro da órbita dos
EUA", complementa.
Com certeza, o critério norte-americano
não está no tipo de governo. "Falta de democracia
não tem a ver com o apoio dos
EUA", garante Samir Karam, diretor de estudos
do Centre for Arab Unity Studies, sediado
no Líbano. "Há inúmeros casos em
que os EUA apoiaram regimes ditatoriais,
não apenas política, mas também econômica
e militarmente. Se é bom para a General
Motors, é bom para os EUA, como se diz
por lá", brinca.
À exceção de Líbano,e talvez do Egito,
todos os demais países apresentam regimes
claramente ditatoriais. "O Líbano foge ao
padrão por sofrer muita influência ocidental,
já que há muito tempo universidades
francesas, inglesas e norte-americanas estão
presentes no país", sustenta Reginaldo
Nasser, professor de relações internacionais
da PUC-SP. Líbia e Síria são governados
por ditadura militar. Arábia Saudita,
Iêmen, Catar, Kuwait, Jordânia e Bahrein
vivem sob monarquias absolutas. O Irã, cuja
etnia predominante não é árabe, pode ser
enquadrado como um Estado teocrático.
Alguns países como Catar, Bahrein, Oman
e Jordânia até tomaram medidas no sentido
da democratização - acabando com as perseguições
políticas, anistiando exilados e
até convocando eleições parlamentares -,
mas nenhum deles conseguiu atingir um
grau suficiente para ser exemplo aos demais.
"O Catar, por exemplo, provou ser
uma democracia apenas na mídia e, mesmo
aí, somente para o canal de TV Al-Jazera",
lamenta Samir Karam. "Para piorar, esses
sinais podem ser vistos como uma espécie
de presente. Foram dados pelos monarcas e
podem ser tomados da mesma forma como
foram oferecidos."
Nasser resgata os resultados de uma pesquisa
de opinião realizada pelo instituto de
pesquisa norte-americano Zogby (de outubro
de 2002) em países árabes para saber
quais eram suas prioridades. A questão palestina
e o fim da exploração econômica
dos povos pelas oligarquias norte-americanas
encabeçaram a lista, antes da expectativa
de democracia.
Igreja e Estado
Para muitos pensadores isso ocorre por
conta da inexistência do secularismo ocidental
(aquele que separa Igreja e Estado e
faz os franceses cogitarem a proibição de
véus utilizados por muçulmanos em escolas
e estabelecimentos estatais), que levaria
a regimes mais autoritários. "Atualmente,
o pensamento islâmico tende a ir contra a
separação entre religião e Estado, mas isso
é passageiro. É preciso esperar para ver como
as questões se desenvolverão em um
par de décadas", avalia Samir Karam.
Najla Kamel, professora de Letras da
FFLCH-USP, autora de tese de mestrado
que analisa psicologicamente os seguidores
do Islã, atesta que o islamismo trata de
questões de comportamento, políticas e
econômicas. "Maomé é uma figura dupla,
profeta e político. Como profeta formou os
preceitos da religião e, como político, uniu
o povo árabe sob um governo único, dirigido
pela religião", explica ela, que é muçulmana
nascida no Brasil - do lado moderado
da família, destaca. "Assim, as várias
possibilidades de interpretação do Corão,
representadas nas divisões religiosas, invariavelmente
acabam dentro dos partidos
políticos, o que não quer dizer que o islamismo
seja incompatível com a democracia",
opina.
"A explicação para essa instabilidade
não é religiosa, mas política e econômica",
reforça Nasser . Ele crê que o padrão de democracia
ocidental já estabelecido não é
adequado para a região, sendo necessário
adaptar o sistema. "A estratégia de focar na
necessidade de eleições é errada, porque o
problema é mais grave e não se resolve
com a mágica da eleição", garante.
Paulo-Edgar Almeida Resende, coordenador
do Núcleo de Análise de Conjuntura
Internacional da PUC-SP concorda. "Coloco
em suspensão pressupostos de uma democratização,
se formulados nos moldes de
estratégias geopolítica e econômica de dirigentes
norte-americanos e ingleses, sedentos
por petróleo", observa.
Resende prefere explicar a característica
autoritária desses países por duas tendências
políticas, o nacionalismo árabe e o
pan-islamismo. "Projetos e discursos calcados
no nacionalismo árabe estão embebidos
dos interesses petrolíferos do mundo
desenvolvido e de principados retrógrados.
É daí que vem o autoritarismo e a intolerância
no mundo árabe, em que os movimentos
islâmicos foram mantidos fora do poder pela repressão e nunca tiveram a
oportunidade de se legitimar ou permaneceram
em posições secundárias", salienta.
Assim era o caso do Irã no regime do Xá
da Pérsia, Reza Pahlevi, do Iraque de Saddam
(onde as autoflagelações assistidas hoje
eram punidas com dois anos de cadeia),
Egito e Jordânia, entre outros.
O pólo oposto ao nacionalismo árabe é o
pan-islamismo que, em suas várias expressões
- sujeitas algumas delas a exacerbações
que vão até a vertente terrorista - carrega
o componente anticolonial como seu
princípio articulador. "A questão palestina,
por exemplo, é indissociável desse pan-islamismo.
Ao evitar tal articulação, o atual
plano de paz internacional, que acaba de
ser entregue aos primeiros-ministros Ariel
Sharon, de Israel, e Mahmoud Abbas, da
Autoridade Palestina, tem problemas para
se tornar viável", alerta Resende.
Ele lembra que pouco se formulou sobre
a experiência do pan-islamismo no poder.
"Minha hipótese é que tais regimes podem
corresponder mais diretamente às expectativas
populares que os secularizantes nacionalistas.
É de notar que a maioria dos
muçulmanos pede mudanças de regime no
Oriente Médio há décadas. Eleições livres
de fato - o que dificilmente os norte-americanos
vão permitir ou incentivar - significarão
também o fim da perseguição religiosa,
dando condições para partidos ligados
a extremistas islâmicos chegar ao poder
nos vários países do Oriente Médio",
aposta. Isso não ocorreria por serem portadores
de um programa democrático mais
amplo, mas pelo fato de que, com liberdade
de manifestação, o discurso antiamericano
e antiinglês nas campanhas eleitorais
será decisivo.
Fundamentalistas
Nasser sustenta que a radicalização do islamismo
é recente, data da década de 1980.
"Até então, os atentados terroristas comandados
por árabes em nada diferiam dos
promovidos por marxistas europeus, e na
OLP muitos eram marxistas", revela. "Some-
se a isso a ação israelense, que durante
a década de 80, especialmente no Líbano,
foi muito dura. Diante de uma assimetria
de poder, a alternativa de luta - condenável
na minha opinião, mas que se explica a
partir da realidade - é a radicalização, o
terrorismo, a guerrilha", ressalta.
O fundamentalismo começou com a revolução
xiita do aiatolá Ruhollah Khomeini,
no Irã, em 1979, cujo alcance vai muito
além das fronteiras do país. Havia uma onda
de resgate de valores tradicionais da religião
em todo o mundo muçulmano contra
a influência européia e norte-americana e o
movimento impulsionou essa tendência.
"No Irã, mais propriamente, poderíamos
falar mais de rejeição à ocidentalização que
de uma revolução islâmica, liderada por esquerdistas
e comunistas ateus, agnósticos",
define Resende.
O Irã foi o segundo país a adotar o modelo
ocidental no começo do século 20, depois
da Turquia. "O Xá da Pérsia criou um
Estado laico não dotando a lei religiosa do
poder de coerção. Nesse contexto, Khomeini
e seus adeptos foram expulsos", descreve
Geraldo Cavagnari, coordenador do
núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp.
Com o dinheiro do petróleo, formou-
se no país uma forte classe média, sobre
a qual os aiatolás tinham pouca força.
"O regime caiu porque estava podre, atolado
de corrupção, não pela eficiência dos religiosos,
cujo principal impacto se dá sobre
as classes mais baixas. Surgiram alguns líderes
civis formados na Europa e EUA
que, naturalmente, foram defenestrados
após a tomada do poder pelos aiatolás",
conta.
Após mais de vinte anos, boa parte da rigidez
se foi. As mulheres estão autorizadas
a usar roupas ocidentais (desde que cubram
o corpo - com calças e mangas compridas
- e os cabelos ao sair de casa), além de poderem
entrar no mercado de trabalho. Há
também relativa liberdade de expressão, incluindo
a possibilidade de inserção de elementos
da cultura ocidental no país. "As liberalizações
são uma concessão à classe
média que, mesmo sufocada nesse período,
não deixou de existir. Se puderem, retomam
os valores ocidentalizantes", acredita
Cavagnari. No entanto, o conselho de aiatolás
ainda mantém seu poder acima até do
Estado, podendo reverter decisões governamentais,
já que seus decretos têm mais
valor que as leis.
Arábia Saudita
foto:
Stringer/Iran/Reuters
Excluídos os xiitas, o único grupo fundamentalista
islâmico são os wahabistas -
como Bin Laden e a maioria da população
saudita (veja quadro). Bebidas alcoólicas
são terminantemente proibidas e as mulheres
têm raros direitos. "Na Arábia Saudita,
mesmo os imigrantes têm de seguir a
conduta rigorosa, o que não ocorre em outros
países", lembra Najla Kamel. "As
mulheres estrangeiras também têm de se
cobrir, não podem dirigir ou sair de casa
sozinhas", prossegue. As sauditas não
ocupam cargos importantes e mal conseguem
trabalhar e estudar", acrescenta. Há
ainda o fato de a metade das mulheres não
ser alfabetizada.
Esse cenário (muito pior que no Irã)
ocorre em um Estado laico, em que quem
comanda a política são os monarcas (os Al-
Saoud). "Há um acordo entre os monarcas
e os líderes religiosos de não agressão desde
o século 18. Um não atrapalha o outro",
explica Cavagnari. "Assim, quem agride os
direitos humanos por lá é essencialmente a
polícia religiosa. Os monarcas são voltados
para o ocidente", define.
Mas o poder dos príncipes sauditas, os
grandes aliados dos EUA, está em crise. "O
ressentimento popular em função das tropas
americanas estarem aquarteladas bem
próximas de Meca e Medina e dos locais
islâmicos mais sagrados é crescente. O terrorismo
de Osama bin Laden, em oposição
aos milionários príncipes sauditas, encontra
aí sua explicação", analisa Resende. A
relação com os norte-americanos piorou
muito quando veio à tona que os principais
financiadores da Al-Qaeda são sauditas,
além de Bin Laden e 15 dos 19 terroristas a
bordo dos aviões no 11 de setembro também
terem a mesma nacionalidade.
A situação chegou a tal ponto, que a central
de operações dos EUA na região foi
transferida para o Catar dias após o fim da
guerra com o Iraque. "No fundo, é uma vitória
a ser contabilizada para a rede Al-
Qaeda. Os EUA contam agora com os poços
petrolíferos alternativos do Iraque, mas
a presença de seus soldados lá é também tida
popularmente como indesejável, o que promete mais instabilidades e sobressaltos",
aponta Resende.
Nasser adverte que, apesar disso, é cedo
para avaliar as conseqüências para a Arábia
Saudita. "Tirando o pesadelo Saddam Hussein,
não é preciso manter bases em território
saudita, o que não quer dizer que serão
retiradas da região. Ao contrário, devem
ser ampliadas em outros países, como Catar,
Bahrein, Oman e Kuwait", sustenta.
Mas é difícil imaginar que os EUA se decidam
por uma investida contra a Arábia
Saudita. Além de não haver acusações formais
de omissão ou suporte a grupos terroristas,
há as cidades de Medina e Meca, as
duas principais para os muçulmanos. Atacar
o país seria levantar o mundo muçulmano
contra eles.
De qualquer forma o estrategista Cavagnari
assinala que o país de Saddam Hussein
mostrava-se apenas o mais legítimo (e menos
complicado) a ser atacado, por isso foi
a bola-da-vez.
O próximo alvo
Na primeira posição da temerosa lista
dos próximos alvos norte-americanos figura
a Síria, acusada de fomentar o terrorismo.
"Isso é claramente o dedo de Israel,
que tem sérias divergências com a Síria em
relação às Colinas de Golã, ocupadas na
guerra de 1967 e anexadas em 1981, uma
região de mananciais que abastece de água
a região de Damasco", lembra Cavagnari.
"Nada disso se comprovou, além do que a
Síria pode ter armas de destruição em massa
se quiser. O Iraque não podia porque se
rendeu incondicionalmente após a Guerra
do Golfo, de modo que as condições foram
estabelecidas pelo Conselho de Segurança
da ONU: desarmamento até recuperar a
confiança. Se Israel tem armas, porque a
Síria não deve ter?", questiona.
Politicamente, é uma ditadura, mas Samir
Karam avalia que a Síria tem um sistema
político próprio, que não pode ser compreendido
num só pacote. "Em alguns aspectos
é melhor que uma ditadura, pois tem
uma frente nacional de partidos políticos
com liberdade de imprensa e as críticas são
ouvidas até em meios de comunicação estatais",
festeja. Karam ainda diz que há indicadores
de que "o regime esteja se movendo
para uma abertura maior".
A resposta da Síria a Israel foi a proposta
enviada para o Conselho de Segurança da
ONU pedindo a limpeza da região de armas
de destruição em massa. Todos gostam
da idéia, menos Israel. E os EUA, é
claro. Colin Powell, em recente visita à Síria,
descartou a possibilidade de apoiar a
proposta. "Sempre fomos favoráveis ao desarmamento
da região, mas agora não é a
hora", disse o secretário de Estado norteamericano.
Azar de Saddam Hussein, que
não soube disso a tempo.
Xiitas
e sunitas
Depois
da morte de Maomé, houve uma séria e sangrenta disputa pelo poder entre os muçulmanos.
A maioria – os sunitas – levam em conta as idéias do profeta assim como de
seus quatro sucessores.
Já
os xiitas só consideram, além do Corão, o quarto Califa, Ali, genro de Maomé,
por acreditarem que o comando da religião deveria ser exercido por familiares
do profeta.
Em
ambas as correntes, há grupos mais moderados e mais radicais. Os xiitas, em
geral, valorizam mais elementos menos familiares aos olhos do ocidente, o que
lhes garantiu a fama de radicais e extremistas.
Além
disso, são mais combativos politicamente, tornando-se ainda mais ameaçadores
para interesses petrolíferos.
No
entanto, na Arábia Saudita, dentro da tradição sunita, surgiu no século 18 o
wahabismo, criado por Mohammad Ibn Abd al-Wahbab, que representa a maioria da
população. E no qual Bin Laden se insere.
Anterior
(Cuba)
-
Índice
-
Próxima
(Continente)
|