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(Dráuzio Varella)
debate
Saindo das
sombras
por
Renato Rovai
O
movimento pela legalização das drogas ganha adeptos em distintas correntes políticas
no mundo inteiro e deixa de ser tratado como ode a liberdade para se tornar
solução ao estado paralelo do narcotráfico
Na
edição de 26 de julho de 2001 a The Economist, uma das principais vozes
do projeto neoliberal, publicou reportagem com dezesseis páginas defendendo a
legalização das drogas. Entre os muitos argumentos destacava que a guerra das
drogas “absorve de 35 a 40 bilhões de dólares ao ano de impostos pagos pelo
contribuinte dos EUA” e sustentava que mesmo “com todo esse investimento o
preço da cocaína tinha caído pela metade desde 1980 e o da heroína era
de 60% do valor da década anterior”. The Economist utilizou a lógica
do mercado para decretar o insucesso da política “de guerra às drogas”
patrocinada pelo governo dos Estados Unidos.
Antes
de The Economist assumir essa posição, muitas outras entidades e
personalidades já haviam se convencido de que a legalização pode vir a ser a
única alternativa para desmantelar o aparato criminoso construído pelo narcotráfico.
Em
7 de março de 1992, Gustavo de Greiff assumiu a Procuradoria Geral da Colômbia.
O grande desafio era desmantelar os cartéis do narcotráfico. Greiff conseguiu
o que parecia impossível. Levou à prisão, entre outros, Pablo Escobar. Isso
provocou a queda do Cartel de Medelin e Greiff tornou-se celebridade.
Em
1994, numa conferência sobre política antidrogas, em Baltimore (EUA), declarou
ser a favor da legalização. Virou demônio. Surgiram imediatamente acusações
de que teria envolvimento com o tráfico. Hoje, Greiff não pode mais entrar nos
EUA. O governo suspendeu seu visto. A pressão foi tamanha que em 18 de agosto
de 1994 deixou o cargo e a Colômbia e foi para o México ser professor
universitário. Entre outros argumentos o ex-procurador da Colômbia, de 74
anos, destaca que “a proibição é um desperdício de energia” e que está
destruindo as forças de segurança pública no mundo inteiro por conta do
incrível poder de corrupção dos narcotraficantes. Em sua opinião, quanto
mais os Estados vierem a investir no combate à produção, distribuição e ao
porte de drogas, mais condições estarão criando para alimentar uma
força paramilitar financiada pelas máfias narcotraficantes. A proibição das
drogas produz uma guerra que poderia ser totalmente evitada.
A
capa de The Economist e a corajosa opinião de Greiff em pleno EUA são
apenas dois momentos do debate a respeito de uma nova forma de se relacionar com
as drogas. Em fevereiro deste ano, em meio à crise de segurança pública
no Rio de Janeiro, o senador Jefferson Peres também lançou luzes ao
debate em nível nacional. A questão é que no mundo inteiro há gente se
convencendo de que algo precisa ser modificado urgentemente na política de
combate às drogas.
Em
fevereiro deste ano, provavelmente pela primeira vez na História, uma conferência
promovida entre outros pelo sítio narconews.com
e pelo jornal Por Esto!, de Yucatan (México), levou gente do mundo
inteiro à cidade mexicana de Mérida para discutir formas de fazer com que o
debate saia das sombras. Há visões de todos os tipos, desde movimentos libertários
que utilizam o argumento de que o Estado não pode impedir que o cidadão faça
de seu corpo o uso que lhe convier, passando por aqueles que defendem apenas a
descriminalização da maconha por considerá-la menos ofensiva que drogas lícitas
como o álcool e o tabaco, até os que, como Greiff, defendem a legalização
por entender que a grande questão é desmantelar o narcotráfico e
controlar o consumo. Greiff acredita que cada país deve criar sua própria
regulamentação, mas defende que companhias privadas e laboratórios fiquem com
a produção e a venda das drogas. E que os governos e bancos privados criem
fundos para custear a fiscalização da qualidade das substâncias.
Canadá
e Argentina
No
dia 27 de maio o governo do Canadá apresentou ao Parlamento de Ottawa um
projeto de lei descriminalizando o consumo da maconha. Se essa lei for
aprovada, a posse de 15 a 30 gramas de maconha deixará de ser um delito e
só será penalizada com multas que variariam de 70 a 250 dólares. Se a
quantidade apreendida for superior a 30 gramas, o caso será tratado como um
delito, mas a imposição das maiores penas se restringirá a produtores e
comerciantes. O que torna o projeto canadense, de certa forma, marco para uma
nova política em relação às drogas na América é também o fato de o país
fazer parte do Nafta e ser sócio- vizinho dos EUA.
Não
foi à toa que o embaixador norte-americano em Otawwa, Paul Cellucci, reagiu em
tom ameaçador. “A aprovação dessa lei pode afetar gravemente
comércio bilateral entre os países, de 1,2 bilhão de dólares diários.”
Segundo ele, os inspetores de alfândegas norte-americanos poderiam começar a
prestar maior atenção nas passagens fronteiriças, o que poderia reduzir
consideravelmente o fluxo as exportações canadenses.
O
ministro da Justiça canadense acusou o golpe. Ao apresentar o projeto, fez
questão de dizer que a lei não pode ser vista como uma legalização. “Quero
deixar claro, não estamos legalizando a maconha e não temos planos de fazê-lo”,
disse Martin Cauchon. Mas completou criticando a política de penalização
atual do país que é muito semelhante à do todo-poderoso vizinho. “As
sanções atualmente são desproporcionadas. A legislação que apresento hoje
garantirá que o castigo seja proporcional ao delito”, acrescentou.
Alberto
Giordano, jornalista norte-americano, é um dos maiores ativistas da
legalização das drogas. Editor do narconews.com
é impiedoso com o governo de seu país de origem.
“A
política proibicionista é impulsionada atualmente por uma única nação, os
EUA, que chantageiam todos os outros como vêm fazendo agora com o Canadá.”
“O
debate está bem adiantado ao sul da fronteira gringa e também ao norte, com o
Canadá se movimentando para descriminalizar a maconha. Os atuais presidentes do
México, Uruguai e Brasil têm falado publicamente contra a política
proibicionista. Kirchner nomeou um proeminente juiz antiproibicionista (Eugenio
Zaffaroni) para a Corte Suprema. Na Bolívia, os cocaleros são reconhecidos
pelo governo como força política importante (nas edições 7 e 8 da Fórum
há cobertura completa do tema). Na Colômbia, os sonhos gringos de Álvaro
Uribe fracassaram em relação à política de droga. E no Peru, como antes na
Bolívia, as manifestações dos cocaleros têm levado a uma rebelião mais
ampla de muitos setores contra o governo de Toledo e sua política entreguista
impulsionada por Washington”, analisa.
Legalizar
as drogas não é legalizar as substancias, é legalizar uma abordagem mais
racional, efetiva e humana dos problemas associados a elas e ao seu consumo
Giordano
não disse, mas seu discurso aponta para uma análise de que o governo
norteamericano tem interesses especiais na guerra com o narcotráfico na América
Latina. Ou seja, é o que garante espaço para ocupação territorial de grandes
áreas dos países andinos e mesmo intervenções nas políticas do Brasil,
Argentina e Uruguai. Qual seria o motivo que levaria os EUA a ter suas forças
armadas atuando de forma consentida em países como Bolívia, Peru, Colômbia e
Equador, por exemplo, se as drogas fossem tratadas como um problema social e de
saúde pública?
Claudio
Serbale, professor de sociologia da comunicação na Argentina, sustenta que a
discussão sobre as drogas no país ainda está distante de caminhar para algo
próximo à legalização,mas lembra que no dia 1º de julho a deputada Irmã
Parentella apresentou projeto para legalizar o uso médico da maconha. “Por
outro lado o governo central, em certa medida para dar respostas à questão da
violência, implementou serviço telefônico para que qualquer pessoa possa
denunciar onde imagina que se vendam drogas”, escreveu numa entrevista por
e-mail. A essas contradições, segundo Serbale, se somam a indicação de
Eugenio Zaffaroni para presidir a Corte Suprema de Justiça. “Ele é um
penalista com reconhecimento unânime por sua honradez e formação e tem se
posicionado a favor da despenalização do consumo”, registra.
Na
Argentina, fumar maconha é um ato que para a Justiça constitui delito. É
suficiente para que a pessoa flagrada passe por um processo judicial. Mesmo
existindo uma lei de entorpecentes (nº 23.773) que contempla a intervenção
judicial no campo da saúde, o que prevalece são atos, por parte dos aparatos
de controle do Estado, policial-judicial, que acabam por criminalizar o consumo.
Silvia
Inchaurraga, presidente da Associação de Redução de Danos da Argentina
(Arda) e secretária executiva da Rede Latino Americana de Redução de Danos (Relard),
diz que na Argentina, como em outras partes do mundo, a demonização não só
das drogas, mas também das idéias e dos defensores da antiproibição, são resultado de uma abordagem intelectual
confusa por parte de muitos que discutem a questão e, claro, de uma política
oficial global estadunidense que não abre espaço para um debate mais amplo.
“Legalizar
as drogas não é legalizar as substâncias, é legalizar uma abordagem mais
racional, efetiva e humana dos problemas associados a elas e ao seu consumo. É
uma alternativa à atual legalização de mentiras como a teoria da escalada (de
que se começa com uma droga mais leve até que se chegue às mais pesadas). A
legalização é uma alternativa aos danos da proibição: contaminação por
HIV pelo uso de seringa, violência policial, mercado clandestino, adulteração
de substâncias e overdoses”, sustenta.
Inchaurraga
admite que partir para a legalização das drogas não pode ser o caminho atual
de países como Argentina e Brasil. “Nesses casos, o possível é avançar com
a descriminalização do consumo. Mas em nível internacional é preciso
fortalecer o movimento antiproibicionista, que pode avançar para discutir as
modalidades possíveis da legalização: aberta ou controlada. O que
significaria que as drogas seriam pensadas como mercadorias ou como
medicamentos”, diz.
México
e Peru
O
economista e estudioso do narcotráfico Hugo Cabieses afirma que atualmente o
debate a respeito da legalização das drogas no Peru é quase nulo. “Quando
alguém propõe um debate a respeito ou é satanizado ou ignorado, o que é
ainda pior”. Ele sustenta que isso acontece em decorrência das pressões do
governo dos EUA, mas que individualmente existem ministros e funcionários de
alto escalão que pensam que a melhor saída para o problema do narcotráfico é
a legalização. “Mas têm medo de se posicionar publicamente”, diz.
No
México a defesa da legalização tem mais visibilidade, o deputado do Partido
Revolucionário Democrático (PRD), Gregório Urias, tem sido taxativo: “A
guerra contra as drogas é uma guerra perdida”. Ele é de Sinaloa, Estado do
norte do país, região que sofre grande parte da violência e da corrupção
originada no narcotráfico. “O narcotráfico só tem aumentado, controla mais
capital e move maior volume de drogas e o consumo disparou. As conseqüências e
a violência engendradas por ele só têm aumentado ano a ano.” No ano
passado, Urias apresentou ao Congresso projeto de lei para começar o processo
de descriminalização do uso da maconha.
Ele
não foi o primeiro político a confrontar abertamente a política de proibição.
Em 1998 a então senadora Maria del Carmen Bolado del Real, do Partido da Ação
Nacional (PAN), do atual presidente, Vicente Fox, propôs projeto para legalizar
e regularizar todas as drogas no México. Até mesmo Vicente Fox teria dito em
2001 que este seria o caminho inevitável como solução global.
O
jornaL diário ¡Por Esto!, da região de Yucatan, o terceiro em circulação
do país, também tem defendido abertamente a legalização. Ricardo Sala, do
site vivecondrogas.com, garante que o movimento a favor da mudança da
legislação no país é grande. “Pergunte ao taxista e ele dirá que é
melhor legalizar.”
Brasil
Talvez
o Brasil seja o país que mais caminhou silenciosamente para outro tipo de política
na relação com as drogas e os usuários. A lei atual ainda reprime tanto o comércio
quanto o uso, mas ao enviar sua primeira mensagem ao Congresso, o presidente
Lula destacou como um dos pontos principais no tema Justiça, Segurança e
Cidadania a redução da demanda por drogas. Parece um detalhe, mas Lula poderia
ter destacado o combate ao narcotráfico e sua rede criminosa.
O
general Paulo Roberto Uchoa, Secretário Nacional Antidrogas do governo,
ressalta que isso não foi à toa. Garante que a política da Senad foi
homologada em 11 de dezembro de 2001, depois de amplo debate com a sociedade, e
contempla muitos aspectos considerados modernos. “É uma política que já
define o dependente químico não como um criminoso, mas como um doente que
necessita de cuidados. É uma política que determina também que não haja
discriminação para o simples fato da pessoa usar drogas. O tratamento com o
usuário e dependente tem que ser totalmente diferenciado do traficante, porque
o criminoso é o traficante, não o usuário. É uma política que privilegia a
redução da demanda e está em harmonia com a Constituição do Brasil,
principalmente no que diz respeito aos direitos humanos. É uma política que é
humanista e pragmática”, define.
A
respeito de uma política de descriminalização ou legalização, Uchôa diz
que o debate ainda não chegou ao Conselho Nacional Antidrogas. “Mas ele vai
chegar e com certeza vamos discuti-lo, uma vez que reconhecemos como tema
pontual, mas que é preciso ser colocado com isenção, com espírito aberto,
para uma discussão em que sejam ouvidos todos os segmentos da sociedade. O
governo e a Secretaria Nacional Antidrogas não têm uma posição a tomar nesse
assunto. A nossa posição será a de defender com unhas e dentes aquela que a
sociedade adotar”, pontua.
Na
sociedade e mesmo na mídia uma nova relação com a política que deve ser
adotada em relação às drogas também vem sendo debatida. Alguns jornalistas e
articulistas têm defendido a legalização como possibilidade melhor que a
guerra contra as drogas. Entre esses, destaca-se texto de Hélio Schwartsman de
13 de março último publicado na Folha de S.Paulo. Destaca que a taxa de
homicídios é de 2,4 por 100 mil habitantes na França, contra 23,5 no Brasil.
“Nos EUA, a mais embrutecida das nações industrializadas, o número é de
6,6. Colômbia, se isso serve de consolo, tem taxa bem
maior: 60 por 100 mil.” E continua: “em termos
macroeconômicos, portanto, a receita para baixar a violência é muito
simples. Basta que evitemos o caminho colombiano da guerra civil e nos tornemos
um país rico. Essa solução se torna menos prática quando se considera que o
Brasil não chegará, nos próximos vinte ou trinta anos, ao nível de
desenvolvimento social verificado no Primeiro Mundo.”
Schwartsman
então diz que o país tem de buscar outras respostas para essa questão e
conclui: “Pode ser que eu esteja absolutamente enganado, mas acredito na tese
de que as drogas respondem por boa parte da violência gerada pelo crime
organizado. É evidente que, se não existissem
entorpecentes ilícitos, as quadrilhas continuariam existindo, só que se
dedicando a outras atividades delituosas. Ainda assim, acho que o tráfico está
entre as mais rentáveis – e menos expostas – das especialidades
criminais.(...) Nos interstícios dessa ampla estrutura, surge espaço para a
corrupção de autoridades, contrabando de armas e de produtos químicos que serão
usados no processamento da droga. Em termos estritamente lógicos, a saída para
minorar o problema da violência associada ao narcotráfico é a legalização
das drogas. Perceba o leitor que não estou falando em descriminalizar ou ser
tolerante para com os usuários, mas de legalização mesmo. Maconha, cocaína e
heroína seriam tributados como bebidas alcoólicas e cigarros e poderiam ser
vendidos em pontos específicos.(...) No dia em que as drogas estiverem
legalizadas, o poder do traficante não será maior do que o do dono de
botequim.”
Entrevista
com Jefferson Perez
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