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História do morro
Caco Barcellos sempre pautou seu trabalho pela ousadia, desde seu aclamado Rota 66, quando denunciou os esquadrões da morte instituídos dentro da Polícia Militar. O estilo corajoso se repete em Abusado – O dono do morro Dona Marta, terceiro livro do jornalista.
Abusado conta em forma de romance a trajetória do traficante Juliano VP (o apelido dado pelo autor a Marcinho VP, assassinado recentemente em Bangu 3, semanas após o lançamento do livro) desde sua infância até se tornar um dos maiores nomes do tráfico de drogas no Rio e ocupar o posto de liderança na favela Santa Marta. A partir dessa história, constrói um painel da ocupação do morro pelo Comando Vermelho, principal facção criminosa do estado. O livro mostra como é a vida e a linguagem dos traficantes e o modo de operação da “firma” do tráfico.
A obra é resultado de um longo trabalho de apuração de cerca de cinco anos dentro da Santa Marta, favela vertical mais íngreme da cidade e com uma das maiores concentrações populacionais do país. O personagem principal não foi escolhido por acaso. Amigo de intelectuais e artistas, o traficante já havia causado polêmica quando colaborou com o cineasta João Moreira Salles no documentário Notícias de uma guerra particular. Um trabalho jornalístico dos mais interessantes para quem pretende entender a realidade das favelas brasileiras e sua complexa relação com o crime organizado.
Abusado: O dono do
morro Dona Marta, de Caco Barcellos
Editora Record
560 págs, R$ 55,00
Caminhos à esquerda
O cientista político Emir Sader, uma das mais respeitadas figuras do pensamento de esquerda do Brasil, lançou uma obra que ajuda a compreender o atual momento da política brasileira. Em A Vingança da História, o autor faz uma extensa reflexão sobre o processo histórico que levou à carência de alternativas reais no campo da esquerda tanto dentro como fora do Brasil.
O questionamento de Sader nasce da aparente dificuldade do governo Lula em apontar saídas para o modelo neoliberal instituído por seu antecessor mas caminha por trilhas mais complexas, da extinção da União Soviética ao Fórum Social Mundial, buscando, antes de apontar soluções, delinear, em suas palavras “o marco histórico em que vivemos e ajudar a desenhar os novos espaços em que essas novas práticas políticas e teóricas devem se dar”.
A Vingança da História,
de Emir Sader
Boitempo editorial
200 págs, R$ 27,00
Ousadia vigiada
O movimento modernista simbolizado pela Semana de Arte Moderna de 22 tem como uma de suas marcas a independência. E é justamente nesse ponto que o sociólogo Sérgio Miceli centra o foco em seu Nacional Estrangeiro – História social e cultural do modernismo artístico em São Paulo.
A análise de Miceli parte do contexto social para tentar compreender sua influência na produção artística. Ele estabelece ligações não assumidas entre artistas plásticos do movimento, como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Lasar Segall e a família de artistas-decoradores da elite, os Gomide-Graz, e diversos mecenas da época e lembra da prática comum de encomendas por parte de particulares e do poder público.
Esse “cipoal de interações” entre os artistas e os financiadores teria, na visão do sociólogo, limitado a criatividade do movimento e impedido que fosse tão ousado como seus contemporâneos Picasso e Braque, por exemplo.
Nacional Estrangeiro - História social e cultural do modernismo
artístico em São Paulo, de Sérgio Miceli
Companhia das Letras
296 págs, R$ 49,00
Mais uma
do Torero
Roteirista de cinema e televisão, escritor, diretor e também colaborador da revista Fórum, José Roberto Torero acaba de lançar mais um livro. Pequenos Amores apresenta Paraíso, uma pequena cidade com 11890 habitantes. Um lugar aparentemente pacato, mas que esconde as mais diversas histórias de amor. Amores proibidos, platônicos, às vezes mais outras menos intensos. Como um voyeur, Torero conduz o leitor a cada uma dessas histórias, sempre com o humor e a ironia que são sua marca registrada. Confira uma das pequenas histórias do livro:
“Maria amava João. João também amava Maria. Como costumava acontecer com os casais que se amam, Maria ficou grávida. Maria queria o filho. João, não. Por conta disto, acabaram se separando. Porém, como fosse um casal de muita sorte, a criança nasceu morta. João e Maria fizeram as pazes e viveram felizes para sempre.”
Pequenos Amores,
de José Roberto Torero
Editora Objetiva
120 págs, R$21,00
O
descanso do gigante negão
por
Ademir Assunção
Na música Baby, logo no primeiro disco, Itamar Assumpção chegou avisando: Baby, não se assuste/ hoje o tempo é de terror. Ele sabia muito bem o que estava dizendo. E intuía, acredito eu, que as coisas não seriam fáceis, que as portas não se abririam num piscar de olhos para aquela linguagem áspera, intensa, radical e criativa ao extremo. Tanto que, na mesma Baby, ele cantava, alguns versos à frente: duvido que me chamem/ pra sentar naquela mesa/ e a grande família já não é tão grande. Que mesa era aquela? Que grande família? Por que os tempos eram de terror? Acho que ele sabia que na mesa das “celebridades” não haveria espaço para o Beleléu, para o Isca de Polícia. A Grande Família da cultura dominante já havia fatiado os feudos e nela já não cabiam artistas densos e intensos como Arnaldo Baptista, Sérgio Sampaio e ele próprio. O fato é que Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé tomaram de assalto a música brasileira. Chegaram radicalizando em um momento em que tudo estava se acomodando. Profético, Beleléu sacou a mudança no panorama.
Muitas e muitas vezes ouvi comentários sobre o comportamento “difícil” de Itamar. Diziam que ele desperdiçou inúmeras chances de “entrar na mídia”. Espalhou-se aos quatro cantos que ele era um maldito, um marginal. Pra mim, Itamar era um príncipe, negro, orgulhoso e zeloso de sua arte. É certo que estava interessado em viver da sua música e da sua poesia, mas não em transformá-las em um negócio. Imagina, o Nego Dito, definitivamente, não era o tipo de cara que pagaria mico no Domingão do Faustão. Ele tinha exata noção da sua estatura artística. Não quis ser condescendente com o lixo, com a lavagem jogada aos porcos pelas emissoras de rádio e televisão, muito bem pagas pelo jabaculê que fabrica os sucessos. Até o fim, botou o dedo na ferida. Confiram no último CD, Pretobrás, seu canto torto e certeiro: “porcaria na cultura tanto bate até que fura”.
Não, não me venham com essa de que Itamar era um marginal. Marginais são os Faustões, os Gugus, os panacas padronizados das FMs que cagam diariamente sobre a nossa poesia, a nossa música e a nossa inteligência. Marginais são todos aqueles que trabalham diariamente em favor do pleno funcionamento da grande fábrica de alienação. Esses sim são marginais. Esses sim são malditos. Esses sim têm um temperamento difícil. Itamar manteve a sua dignidade até o fim; esses a venderam, alguns nunca a tiveram.
Itamar Assumpção deixou-nos uma obra poética e musical que só vai crescer de estatura ao longo dos anos. É um homem vitorioso. Um homem de sucesso. Um cara que pode deitar a cabeça e descansar em paz. Pois descanse, Gigante Negão. E obrigado por todos os versos que marcaram e mudaram a minha vida.
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