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Olhar
O
mundo
dos sem-lugar
por
Glauco Faria e Nicolau Soares
foto:
Paulo Pepe/Nau Fotográfica

Na lógica do “novo mundo”,
o destino de milhões de pessoas é ser clandestino em todos os cantos. Nesta
reportagem, quatro histórias dão a dimensão de uma realidade
cruel
Santos,
2 de setembro de 2002. Seis africanos chegam ao porto escondidos num pequeno
compartimento da embarcação. A tripulação
o Monaco, de bandeira panamenha, só percebeu a presença dos
clandestinos quatro dias após a saída do Porto de Freetown, em Serra
Leoa. Mas já era tarde quando os gritos de Ibrahim Suma foram ouvidos. Cinco de
seus companheiros já haviam morrido por asfixia. Ele
era o único sobrevivente da trágica fuga de um país em guerra.
Nem todas as histórias de imigrantes e refugiados que chegam ao Brasil têm
esse final cruel. Mas nelas há sempre forte componente de frustração com o próprio
chão, um desespero gerado pelos mais diversos fatores: perseguição política
e étnica, crise econômica, guerras civis ou conflitos entre países. Em todo o
mundo os refugiados chegam a 22 milhões, e muitos deles encontram em terras
brasileiras uma opção de fuga.
Embora
a globalização tenha facilitado como nunca a circulação de bens e capitais,
as fronteiras dos países desenvolvidos são cada vez mais vigiadas e fechadas
para os que pretendem encontrar segurança fora de
seus
locais de origem. Como as fronteiras brasileiras são mais permeáveis à
entrada de imigrantes sem autorização, esse movimento ilegal vem aumentando
nas últimas décadas. Hoje, há cerca de 3 mil refugiados ou solicitantes de
asilo no Brasil, mas o número de estrangeiros que estão aqui de forma
irregular pode chegar a 100 mil.
Em São Paulo, a maior parte daqueles que não têm como subsistir está sob os
cuidados da Cáritas, organismo da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil,
CNBB, e do Centro Pastoral dos Migrantes, também da Igreja Católica. Mas vários
deles também podem ser encontrados como moradores de rua, na mesma condição
de migrantes de outras regiões do Brasil, ou como gente da própria metrópole.
A Fórum conversou com quatro imigrantes que vieram para cá não
propriamente para conseguir um futuro melhor, mas como uma das únicas chances
de sobreviver. Mais que números ou dados, a história de cada um dá a dimensão
do drama de seres humanos que por uma razão ou outra se sentem obrigados a
fugir do seu canto original.
A
guerra e a discriminação
Nicolas
Wendy é senegalês e está no Brasil há oito meses, num albergue de São
Paulo. Vem de um continente que, sozinho, é responsável por 5 milhões de
refugiados do mundo. E possui outros 20 milhões de pessoas deslocadas. Com o
fim da Guerra Fria e conseqüente desinteresse das grandes potências na região,
guerras civis e conflitos aumentaram ainda mais, gerando situações bizarras. Há
países da África que recebem refugiados e expulsam outras pessoas, que têm de
ir para outros lugares do continente.
O
Sudão, por exemplo, abriga 390 mil refugiados, segundo dados da Acnur, Alto
Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, sendo 340 mil eritreus e 35
mil etíopes. O motivo desse fluxo foi o conflito fronteiriço entre os dois países
de 1998 a 2000. Entretanto, o próprio Sudão foi um dos que mais geraram
refugiados na África, cerca de 475 mil, em função de uma longa guerra civil
no país. A maior parte está
em
Uganda, Quênia e na mesma Etiópia, país dos refugiados que foram para o Sudão.
O
Senegal de Wendy é um país diferenciado no continente. Tem relativa tradição
democrática, eleições periódicas e liberdade de imprensa bem mais ampla que
no resto da África. Ainda assim, desde sua independência há conflitos
separatistas no sul, na região de Casamança, separada do restante do país
pela Gâmbia. Por causa do confronto, milhares de pessoas buscaram abrigo em
campos de refugiados na Guiné-Bissau.
Wendy
preferiu o Brasil. O motivo: “É aberto a imigrantes. Outros países são mais
difíceis de entrar”. Ele vem de uma região rural, na área do conflito
separatista. A perversidade do movimento guerrilheiro foi determinante para que
saísse de lá. “A guerrilha seqüestra crianças e jovens para forçá-los a
entrar no exército”, conta. Ao relatar outra prática comum, o estupro de
mulheres e garotas pelos combatentes, Wendy fica embaraçado. “Eles levam
meninas para o mato, para... fazer coisas... sexo”. Além disso, as muitas
minas terrestres na região destruíram qualquer possibilidade de prática agrícola
em grande escala, tornando impossível qualquer progresso material.
Diante
disso, Wendy migrou para a capital, Dacar, na parte norte do país. Mas o fato
de vir da região do conflito, como outros milhares, fez com que acabasse
estigmatizado e discriminado pelos moradores locais. Sem poder voltar para sua
família, sem emprego e nenhuma perspectiva, veio para o Brasil, onde luta para
obter documentação legal. Enquanto isso, passa o dia à procura de ocupação.
Pretende dar aulas de Francês, idioma oficial de seu país. Mas Wendy ainda
fala Espanhol, Inglês e mais cinco dialetos de Casamança.
Expulso
do Primeiro Mundo
Quando
o senegalês Nicolas Wendy migrou do sul do Senegal para Dacar, viu que não era
bem-vindo dentro de seu próprio país. Waldemar Gaspar Scello, de 26 anos, também
viveu essa discriminação. A diferença é que seu país de origem é bem mais
próspero. Vivia com a família em Messina, no sul da Itália, região que tem
como base o turismo e a agricultura e é mais atrasada que o rico e industrial
norte.
Limitado
pelas perspectivas de emprego, resolveu buscar oportunidades. Primeiro em seu país.
A primeira parada foi Bérgamo, onde viveu de bicos, sem sucesso. Partiu depois
de alguns meses para Milão, onde
fez
curso de web design e conseguiu trabalhar na área alguns meses até ser
demitido por contenção de custos. Daí em diante, várias tentativas e nenhuma
ocupação. Segundo ele, a discriminação era decisiva na hora da
contratação. “Um preconceito estúpido. Davam preferência a quem era do
norte”, relata.
Mas
Scello tinha uma ligação com o Brasil. Aliás, nasceu aqui. Seus pais
decidiram voltar para a Sicília quando tinha 11 anos. Foi o suficiente para ele
esquecer completamente o Português. Porém, depois de oito meses aqui, já fala
com razoável fluência. Mesmo assim, a certa altura da entrevista, cansado,
pede para falar em Italiano. E segue dessa forma até o fim. É na sua língua
natal que conta o desconforto em
relação ao novo país. “É uma cultura muito diferente, sinto-me
desorientado, perdido”. Quer aproveitar o tempo aqui não só para
trabalhar, mas também para se qualificar em sua área. E depois voltar para
Messina.
O
companheiro
A
população da Colômbia vive uma situação dramática. Vítima do narcotráfico,
das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc), de governos de eficiência
e honestidade questionáveis e da ingerência norte-americana, o país está em
estado de guerra há mais de uma década. Essa situação, além de muitos
mortos, produz refugiados para o resto da América do Sul. Perseguidos políticos
que não sabem sequer a quem obedecer.
Essa
dúvida não existe para Roberto (nome fictício), exfuncionário do
governo colombiano que havia sido deslocado para uma das chamadas zonas de
distensão no sul, lugares em que as Farc têm controle administrativo tolerado
pelo governo federal. Começou a ser perseguido por agentes do Estado quando
descobriram sua militância política na esquerda. “Sofri ameaças de morte e
voltei para junto da minha família em Córdoba”, relembra. Mas rapidamente
foi encontrado e as ameaças passaram
a ser feitas contra sua mulher e seus filhos. Decidiu ir embora.
Sua
primeira parada não foi o Brasil. Fez contatos políticos com o Partido
Comunista do Uruguai e conseguiu ficar lá. Não por muito tempo. Um mês depois
e a visita do subsecretário de Estado norte-americano para a América Latina,
Otto Reich, fez com que os camaradas
de
Roberto pedissem para ele ir, com medo de uma eventual investigação e represália
por parte dos norte-americanos. “A esquerda latino-americana tem a
solidariedade limitada pela necessidade”, filosofa.
“Senti-me abandonado. Como me sinto ainda hoje.”
Restava
o Brasil. Roberto tinha alguns conhecidos no país. Eles, porém, não puderam
alojá-lo. Aqui, procura emprego, não para voltar à Colômbia, mas para ir a
Cuba. Lá, segundo ele, talvez seja um dos únicos países em que seu ideal de
justiça sobreviva. A volta para casa parece um sonho distante, sua luta política
é a principal missão agora. “Abri mão de tudo. Vendi apartamento, carro e
abandonei um padrão de vida confortável para enfrentar os inimigos da Colômbia.”
Há um mês no Brasil, desde o período no Uruguai não entra em contato com a
família.
Seus
três filhos tiveram que deixar a escola, sua esposa não está mais empregada.
A certa altura, mesmo reafirmando sua convicção, deixa transparecer dúvidas
se realmente valeu a pena. Mas logo a indignação ressurge. “A história tem
que ser reescrita. Não entendo como os brasileiros só podem pensar em cachaça
e futebol. Precisamos pensar em um futuro melhor, com o ser humano em primeiro
lugar”. Cansado, Roberto pede para parar a entrevista. “Hoje, meu país é
meu inimigo”, conclui. Entre seus novos conhecidos, gente como ele, sem
destino nem futuro certo, só é chamado pelo apelido de “companheiro”.
Máfia
política
Quando
perguntada a respeito de sua primeira impressão sobre seu novo país, essa
Argentina de 31 anos se diz surpresa com a quantidade de gente que existe nas
ruas de São Paulo. “As pessoas daqui são muito comodistas, como é que os
brasileiros não fazem nada sobre isso?”, questiona. A seguir, lembra que em
Buenos Aires, onde morava, não havia ninguém vivendo nas ruas há pouco menos
de um ano. Situação que mudou num curto espaço de tempo.
Mas
não foi a crise econômica que trouxe Susana (nome fictício) para cá.
Jornalista, trabalhava no Senado argentino. A entrada de um novo diretor de
imprensa mudou seu destino. “Ele fez novos contratos com os funcionários e
passou a ficar com 50% de tudo que ganhávamos.” A situação era insuportável.
Ela denunciou. O diretor foi condenado por uma investigação administrativa.
Sua atitude, contudo, lhe rendeu a perda da tranqüilidade. “Passei a receber
ameaças diariamente, não podia mais ficar na Argentina.”
Pensou
no Brasil porque tinha uma colega aqui. Veio junto com a filha, mas
a hospedagem não pôde ser estendida por mais que um mês. A amiga não teve
condições financeiras de bancar a permanência de Susana. Foi parar num
albergue e agora trabalha como voluntária na campanha contra a Alca. “Não
consigo ficar parada, enquanto não arrumo emprego estou na campanha. Trabalhava
12 horas por dia. Se não tiver nada para me ocupar, enlouqueço”, garante.
A
incerteza em relação ao futuro a perturba. A filha perdeu um ano na escola e
ainda não está matriculada aqui. Sabe que durante bom tempo terá de
permanecer no Brasil. “Para o meu país não posso voltar. Não sei o que vai
acontecer comigo daqui para a frente”. Susana espera legalizar sua condição
de refugiada. E aguarda dias melhores.
O
antropólogo Darcy Ribeiro gostava de recordar uma certa passagem de suas
viagens pela América Latina. Perguntado na fronteira entre dois países, a
respeito de sua identidade, sobre sua raça, ele respondeu, abrindo os braços:
“humana”. Infelizmente, na lógica da globalização econômica isso parece
não ter importância.
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