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Entretenimento
e cultura da violência
por
Octavio Ianni
Todas
as sociedades, em todo o mundo, estão sendo alcançadas pela cultura de massa
industrializada, na qual persiste e desenvolve-se a cultura de violência,
terrorismo e catástrofe
No
cinema, na televisão e no romance encontram-se muitos dos temas e das situações
em que participam indivíduos e coletividades em todo o mundo. São temas e
situações relativos a incidentes mais ou menos prosaicos ou surpreendentes,
interessantes ou decisivos, líricos ou dramáticos, cômicos ou trágicos. Sob
muitos aspectos, uma parte da produção cinematográfica, televisiva e
romanesca contribui muitíssimo para que leitores, espectadores e audiências
construam e aperfeiçoem a sua visão da realidade e do imaginário, de si
mesmos e dos outros, no que pode haver de prosaico e revelador, constitutivo e
aterrador. Muito do que é a imagem que uns e outros constroem sobre a realidade
social, em suas implicações políticas, econômicas e culturais baseia-se em
produções cinematográficas, televisivas e romanescas. Os signos e símbolos,
emblemas e alegorias, assim como os conceitos e as categorias, podem ser as
taquigrafias com as quais se articula, compreende, explica ou inventa a
realidade, o outro e o eu, o eles e o nós, o bem e o mal.
A rigor, se produções culturais do cinema, romance e televisão, além das
produções formuladas em outras linguagens, participam de forma cada vez mais
contínua e intensa da vida de uns e outros, indivíduos e coletividades, em
todo o mundo. Esse é um processo que se desenvolve de forma intensiva e
extensiva no século 20, acentuando-se com a passagem das décadas e continuando
a expandir-se no século 21. Aos poucos, a produção cultural, ou fabricação
de produtos culturais, torna-se uma esfera altamente lucrativa de aplicação do
capital. Aí mobilizam- se aparatos e equipes complexos e sofisticados, de modo
a produzir filmes, programas de televisão e romances. O mercado parece exigir
cada vez mais produções, isto é, as produções exigem cada vez meio
mercados, ou seja, leitores, espectadores e audiências, todos consumidores.
Logo muitos estão engajados na “indústria cultural”, indústria essa cada
vez mais sequiosa de novas produções, maior capitalização, mais audiências,
leitores e espectadores. Sem esquecer que a indústria cultural concretiza- se
em empresas; corporações e conglomerados, não só poderosos como expansivos,
atravessando territórios e fronteiras, povos e nações, impregnando culturas e
civilizações. São empreendimentos de vastas proporções nos quais se
mobilizam muitas categorias de profissionais, intelectuais, técnicos, artistas,
equipes, informações, operações publicitárias, lançamentos espetaculares.
Esse o contexto em que nascem a imaginação, a produção, difusão e o consumo
de filmes, romances e programas de televisão sobre desastres e catástrofes,
medo e terror, tumulto e desespero, aflição e pânico, violência e
terrorismo, destruição e ruínas. Até mesmo dos desastres ambientais, ecológicos
ou naturais; envolvendo o terremoto e a tempestade, o furacão e a erupção
vulcânica, a inundação e a submersão de povoações, os mortos e os
afogados, os pertences dispersos na vastidão das águas e nos páramos da terra
gasta, tudo isso pode ser incorporado no filme, romance ou noticiário da
televisão.
Assim se alimenta o imaginário de uns e outros, indivíduos e coletividades, em
todo o mundo. Combinam-se o desastre e o pânico, o terrorismo e o medo, a
destruição e a ruína, a engenhosidade e a produtividade, a performance e
lucratividade. Produzir o desastre, o terror e a destruição é produzir
cultura e mercadoria, informação e entretenimento, lucro e mais-valia.
Simultaneamente, produz-se uma vasta, complexa, difusa, pervasiva e ativa
cultura de massa, permeando o imaginário de uns e outros, em todo o mundo. De
par-em-par com outras produções culturais locais, nacionais e mundiais, bem
como tendo-se em conta as condições de existência, diversidades e
desigualdades sociais, de gênero, étnicas, lingüísticas e religiosas de uns
e outros, intensifica- se e expande-se de modo avassalador a produção de
cultura de massa em geral eivada de catástrofe, pânico e ruína.
Essa é a cultura da violência. A pretexto de retratar e exorcizar a violência
que impregna a fábrica da sociedade, exacerba e leva ao paroxismo todas as
formas e gradações de violência já que essa produção é também lucrativa
além de “despolitizar” multidões, influenciando mentes e corações. É óbvio
que essa vasta e crescente produção cultural, com esses temas e esquemas
publicitários, seus impactos e surpresas, sua mescla de informação e
entretenimento e sua massiva estetização e sensualização, impressiona
leitores, audiências e espectadores em todo o mundo. Mesmo porque essa vasta e
crescente produção é fabricada contínua, intensiva e extensivamente pela indústria
cultural, entendendose que a indústria cultural é um setor econômico,
financeiro, tecnológico e cultural em que se investem vultosos capitais em
empresas, corporações e conglomerados nacionais e transnacionais. Essa é uma
produção que se realiza em muitas partes do mundo, segundo planejamentos
altamente sofisticados distribuindo-se contínua e sistematicamente em
sociedades latino-americanas, africanas, asiáticas, européias e norte-
americanas. Todas as sociedades, em todo o mundo, estão sendo alcançadas pela
cultura de massa industrializada, na qual persiste e desenvolve-se a cultura de
violência, terrorismo, catástrofe.
Jeffrey
Johnson: “É preciso reduzir a 1 hora diária o
tempo gasto por adolescentes diante da TV. Do contrário, o risco de que jovens
entre 16 e 22 anos desenvolvam comportamento violento ou mesmo criminoso pode
triplicar... Hoje, 60% da programação nos EUA mostram cenas violentas. Isso
está presente não só em programas de entretenimento e filmes, mas também nos
comerciais”1.
Karl
Popper: “A violência, o sexo, o sensacionalismo são
os meios a que os produtores de televisão recorrem mais facilmente: é uma
receita segura, sempre apta a seduzir o público. E, se este acaba por se
cansar, basta aumentar a dose... Recenseou-se um número não negligenciável de
casos em que os autores de atos criminosos admitiram terem-se inspirado no que
tinham visto na televisão”2.
John
Condry: “A televisão influencia as convicções,
os valores e as condutas dos telespectadores, mas não todos do mesmo modo. A
sua influência varia em função do tempo que as pessoas passam diante do ecrã
e do conteúdo dos programas. Por outro lado, o nível de instrução do
telespectador, o seu ambiente social – o contexto familiar, nomeadamente são
fatores que determinam profundamente a influência exercida pela televisão”3.
A
indústria cinematográfica adquire importância crescente no curso do século
20, ingressando no século 21 com mais força, criatividade e espetacularidade.
Além das técnicas desenvolvidas desde os seus inícios, a partir do filme
falado e colorido, adquiriu ainda maior importância como produto cultural e
mercantil. Desde a incorporação das tecnologias eletrônicas, no entanto,
ingresso em pleno paroxismo, alcançando possibilidades de impacto,
deslumbramento, terror e alucinação inimagináveis. Cada filme de desastre
pode ser uma maravilha de desastre, enriquecido pelos recursos da estética
eletrônica, alcançando realizações excepcionais, em termos de estetização
e sensualização, de permeio e deslumbramentos e ruínas, terrorismo e emoção,
catarse e lucratividade. Certamente alguns cineastas surpreenderam-se com o
desmoronar das torres gêmeas do World Trade Center, no
dia 11 de setembro de 2001, pelo que houve de cinematográfico no ataque
terrorista e pelo que há de terrorismo no filme de catástrofe.
Sim, parte importante de produção cinematográfica norte-americana, japonesa e
de outras nações industrializa catástrofes reais e imaginárias, possíveis e
inimagináveis. Essa é uma produção – que povoa pervasiva muito as culturas
de massa em todo o mundo. Sob vários aspectos, o cinema tornou-se a mais
poderosa agência de violência de todos os tipos, dos desastres naturais às
catástrofes sociais, desenvolvendo signos, símbolos, emblemas e alegorias da
cultura do terrorismo, a caminho do nazismo.
Há
ocasiões em que o terrorismo migra fluentemente da indústria cultural ao
discurso político, e vice-versa, como ocorre com o emblema Armagedon, que
está no discurso do presidente norte-americano Ronald Reagan e no filme que
leva esse nome, ambos anunciando desastres universais.
Bruce
Orwall: “No comecinho de maio (1998), o presidente
dos estúdios Walt Disney, Joe Roth, decidiu gastar mais de 3 milhões de dólares
em cenas de explosões e efeitos especiais adicionais para o filme Armagedon,
a superprodução lançada na sexta-feira nos Estados Unidos e com estréia
marcada para 7 de agosto no Brasil. Foi o que bastava para que Jerry Bruckheimer
e Michael Bey, produtor e diretor do filme, respectivamente, corressem para
filmar novas cenas apocalípticas em Paris, Xangai e Nova York, numa complexa
pirotecnia cujo objetivo, segundo Roth, era garantir “imagens inéditas para
as duas últimas semanas de campanha publicitária” do filme na TV... A pressão
sobre o estúdio é ainda maior porque, em maio, as rivais Paramount Pictures e
Dreamvorks SKG surpreenderam ao emplacar com Impacto Profundo, um filme
cuja premissa é praticamente idêntica à de Armagedon (para quem ainda não
sabe, este último traz um asteróide em rota de colisão com a Terra. Bruce
Willis na liderança de um grupo disposto a impedir a catástrofe; em Impacto
Profundo o vilão é um cometa)”4.
Susan Sontag: “O cinema de ficção científica... trata
da estética da destruição com a beleza peculiar que pode ser encontrada ao
desencadear a destruição e ao provocar a desordem. E é nas imagens de destruição
que se encontra a essência de um bom filme de ficção científica... Os filmes
recentes de ficção científica possuem uma ferocidade deliberada favorecida
por seu grau muito maior de verossimilhança visual, que contrasta
acentuadamente com os filmes mais antigos. A moderna realidade histórica
ampliou sobremaneira a imaginação de catástrofe, e os protagonistas –
talvez pela própria natureza do inimigo que os ataca – já não parecem
totalmente inocentes. A nossa é em realidade uma época de extremismos. Pois
vivemos sob a constante ameaça de dois destinos igualmente temíveis, mas
aparentemente opostos: a persistente banalidade e o terror inconcebível. É a
fantasia, ministrada em grandes porções pelas artes populares, que permite à
maioria das pessoas conviver com esses dois fantasmas. Pois a fantasia pode
contribuir para tirar-nos da insuportável pasmaceira e distrair-nos dos
terrores – reais ou antecipados – permitindo-nos fugir para situações exóticas
e perigosas com finais felizes. Mas outra coisa que a fantasia pode fazer é
normalizar o que é insuportável do ponto de vista psicológico, acostumandonos
a isso. No primeiro caso, a fantasia embeleza o mundo, no outro, neutraliza-o”5.
Essa é a idéia: com a indústria cultural difundem-se e estimulam-se soluções
inesperadas e desesperadas, terrificantes e suicidas, destrutivas e assassinas.
A sofisticação técnica e organizatória do ataque terrorista, como o do dia
11 de setembro de 2001, parece semelhante à sofisticação técnica e organizatória
revelada na produção cultural sobre violência, terrorismo, desastre. Um
parece seqüência do outro, inclusive em termos de espetacularidade assustadora
e fascinante, brutalidade estetizada; tal modo que um e outro assemelham-se; o
que pode resultar em que um é o outro, já que ambos se produzem na mesma fábrica
da sociedade. Fábrica no sentido de que a sociedade moderna, burguesa ou
capitalista fabrica integração e fragmentação, diversidades e desigualdades,
acomodações e tensões, riqueza e alienação, desespero e alucinação. Nesse
sentido é que se encontram ressonâncias, paralelismos e contemporaneidades
entre temas e situações, realidades e virtualidades, soluções e ilusões,
brutalidades e destruições presentes na indústria cultural e na fábrica da
sociedade. Essa matéria de criação forma-se, conforma-se e transforma-se com
o tecido social, as formas de sociabilidade, os jogos das forças sociais,
compreendendo divisão do trabalho social e hierarquias simultaneamente sociais
e político-econômicas, crescente socialização do processo de trabalho e
produção bem como crescente concentração da riqueza social nas mãos de
elites governantes e classes dominantes.
Essa é, em larga medida, a cultura do nazismo. Sob o nazismo, a violência é
importante, prevalecente, fundamental, constitutiva, um estado de espírito
permanente e uma prática contínua. As mais diversas formas de violência
revelam-se exercícios de afirmação, audácia, brutalidade, força, missão. Aí
a violência se exercita como um modo de ser do super-homem, herói, Rambo,
defensor da pátria, salvador da humanidade, mensageiro do ocidentalismo.
| Notas
1 Jeffrey Johnson, citado de um artigo publicado na
internet, Science, 28 de março de 2002, por Reinaldo José Lopes, TV
Induz Agressividade, Folha de São Paulo, 29 de março de 2002, p. A 14.
2 Karl Popper e John Condry, Televisão: Um Perigo
para a Democracia, trad. de Maria Carvalho, Gradiva, Lisboa, 1995, p.
22; citação do ensaio intitulado Uma Lei para a Televisão.
3 Karl Popper e John Condry, Televisão: Um Perigo
para a Democracia, citado, pp.63-64; citação do ensaio intitulado
Ladra do Tempo, Criada Infiel. Consultar também Cynthia Schneider e
Brian Wallis, Global Television, Wedge Press, New York, 1988; Giovanni
Sartori, Homo videns (La Sociedad Teledirigida), Taurus, México, 1998;
Pierre Bordiu, Sobre a Televisão, trad. de Maria Lúcia Machado, Jorge
Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997.
4 Bruce Orwall, Como a Disney Preparou o Armagedon
para a Batalha na Bilheteria, O Estado de S.Paulo, São Paulo, 1 de
julho de 1998, p. B- 16; artigo transcrito do The Wall Street Journal
5 Susan Sontag, Contra a Interpretação, trad. de
Ana Maria Capovilla, L&PM Editores, Porto Alegre, 1987, pp. 247, 249
e 261; citações extraídas do ensaio intitulado A Imaginação da Catástrofe.
A propósito de Época de Extremismos”, Hans Magnus Enzensberger,
Guerra Civil, trad. de Marcos B. Lacerda, Companhia das Letras, São
Paulo, 1995; John Gray, Falso Amanhecer (Os Equívocos do Capitalismo
Global); trad. de Max Altman, Editora Record, Rio de Janeiro, 1999.
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