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Entrevista
Longo
caminho para que o império americano caia
por
Anselmo Massad e Nicolau Soares
foto:
Gerardo Lazzari

O
paquistanês Tariq Ali é um dos mais agudos intelectuais que levaram suas
propostas e idéias para a terceira edição do FSM
Nascido
em Lahore, em 1943 – cidade que na época fazia parte da Índia controlada
pelos ingleses – Tariq Ali começou cedo na militância política. Filho de
comunistas, liderou uma série de manifestações contrárias à
ditadura do Paquistão ainda na faculdade. Tanto que, ao se formar, um
tio – pertencente à alta inteligência do governo – sugeriu a seus pais que
o mandassem para fora do país.
Hoje,
Tariq Ali é um editores da NewLeft Review, possivelmente a publicação de
esquerda mais importante do século 20. Jürgen Habermas, Eric Hobsbawm, Franco
Moretti, Immanuel Wallerstein, Linda Weiss, Slavoj Zizek, Claude Lévi-Strauss,
Ernest Mandel, Jacques Derrida são alguns dos que assinaram – ou ainda
assinam – artigos na revista. É também um dos maiores especialistas em
Oriente Médio e Ásia Oriental e autor de diversos livros de história e alguns
romances, incluindo uma série sobre o mundo islâmico – publicados no Brasil
pela editora Record.
Nesta
entrevista exclusiva, um dia depois de sua conferência Contra a Militarização
e a Guerra, Ali dá uma aula sobre o mundo árabe, dicas para a América Latina
e esclarece as reais intenções da invasão do Iraque pretendida por George W.
Bush.
Iraque
Os
norte-americanos estão decididos a ocupar o Iraque. O governo Bush vê a guerra
como um grande teste para a política externa de seu país. Assim, a oposição
francesa ou alemã, bem como do grande movimento antiguerra, não deve ter
grande efeito.
É
difícil prever com certeza como o governo iraquiano responderá. Sinto apenas
que não irá além das cidades iraquianas. Eles ficarão nas cidades e forçarão
os americanos a lutar lá. Não acredito que atacarão outros países. Posso
estar errado, mas duvido que o Iraque tente atacar Israel, como ocorreu em 1991.
Tentarão vencer os americanos ou deixarão que destruam as cidades do Iraque, o
que resultaria em enormes perdas civis.
Questão
palestina
Se
houver uma guerra no Iraque, há duas opções. Uma é Ariel Sharon usar a
cobertura da guerra para expulsar ainda mais palestinos. A segunda, se os EUA
ocuparem o Iraque rapidamente, é criarem um pequeno protetorado palestino, que
não será completamente independente, mas totalmente dependente de Israel, e
avisar que isso é tudo que os palestinos merecem e conseguem. E que se eles não
pararem de promover agitações, o mundo irá ignorá-los. Mas o mundo já os
ignora, então qual a novidade?
Saddam
Hussein
Saddam
Hussein e o Iraque representaram uma tragédia real para a região nos anos 80.
Primeiro, quando estavam muito próximos dos EUA, que deram a Saddam armas químicas
para usar contra o Irã e contra o próprio povo curdo em seu país. Nos anos
90, não foi o caso. Especialmente depois da guerra do Golfo, o Iraque é um país
fraco, seu exército é fraco e seu povo mais ainda. Na minha opinião, não
representa ameaça para mais ninguém. E as pessoas sabem disso. O povo
norte-americano sabe.
O
povo não merece a guerra
Saddam
não é exatamente um ditador popular, mas tendo o líder que tiver, nenhum país
quer ser bombardeado pelos EUA. Imagine-se, no Brasil, quando havia a ditadura
– que era terrível, muito pior que a do Saddam e apoiada pelos EUA. Suponha
que outro país decidisse bombardear e ocupar o Brasil, destruindo as cidades.
Mesmo todos os brasileiros contrários ao ditador não gostariam de ver o país
destruído. É o mesmo no Iraque: o povo não quer ver essa guerra. Já sofreu
bastante. As sanções impostas pelo Ocidente contra o Iraque levaram à morte
meio milhão de crianças.
Fim
das ditaduras
Na
minha opinião a melhor maneira de acabar com as ditaduras é fortalecer o povo.
Quando os EUA gostam de um ditador, podem deixá-lo no poder por trinta anos,
como Suharto, na Indonésia, que matou mais de 1 milhão de pessoas dentro do próprio
país. E os americanos mantiveram o apoio até que o próprio povo o tirou do
poder. Quando Pinochet tomou o poder no Chile, alguém pediu aos cubanos para
intervir lá? Não, porque não nos comportamos desse jeito. A única forma de
remover um ditador é pelo próprio povo.
Futuro
do Golfo
É
uma grande tragédia o que está para acontecer, mas os EUA não vêem dessa
forma, mas sim como uma oportunidade para remapear o mundo. Depois do ataque
ao Iraque, irão tentar mudar o regime do Irã e, depois, de outros países
do mundo árabe. Podem insistir num tipo de protetorado palestino como já
disse, com certa autonomia, mas ainda subordinado a Israel. O objetivo direto
agora é controlar os recursos energéticos do mundo. Querem proteger os
interesses da economia americana no mundo todo. A guerra e a ocupação do
Iraque são o primeiro passo dos EUA para dizer ao resto do mundo: “se você não
se comportar, sofrerá como o Iraque”.
Mas
a guerra não é exclusivamente por causa do petróleo. É também geopolítica,
para demonstrar o poder militar americano, para dizer que os EUA podem mudar
regimes onde quiserem e fazer o mundo aceitar que isso é um direito deles.
“Faremos o que quisermos e você não tem poder algum sobre isso.” Temos de
ver esse processo de ocupação do Iraque por dois lados, o petróleo e a geopolítica.
Reação
do mundo árabe
Acredito
que os outros países não farão nada. A única reação virá de parte do povo
do mundo árabe. Pessoas irão às ruas contra a guerra, desafiando seus próprios
governos. Mas isso pode não ocorrer imediatamente, talvez em seis meses, um
ano. A região não se tornará estável depois da ocupação dos EUA, ao contrário,
ficará ainda mais instável.
Os
EUA e seus aliados
Há
alguns países que têm políticas econômicas neoliberais, como os estados do
Golfo Pérsico e o Egito. Mas há países que não aceitam esse modelo, como a Síria,
o Iraque e, em certa medida, o Irã. Resistem e mantêm o controle de seu próprio
petróleo, não permitindo que companhias ocidentais o tomem. Preservam algum
grau de nacionalismo contra os EUA. Esse é o grande motivo que leva os EUA a
quererem destruir seus regimes.
Os
EUA estão felizes com alguns governos árabes porque os controlam há muito
tempo. A Arábia Saudita, por exemplo, tem regime muito pior que o iraquiano. Não
é permitido às mulheres dirigirem carros, viajarem sozinhas. Elas podem se
locomover dentro da cidade, mas para sair precisam de autorização do pai, do
marido ou até do filho. Eles vivem num mundo louco. Mas acho que as coisas vão
mudar na Arábia Saudita, o regime está ficando bastante instável. Há anos
que digo isso, é preciso haver uma onda de revoluções democráticas no mundo
árabe para substituir a sociedade corrupta por governos mais amplos. Mas os EUA
não querem governos democráticos nessa parte do mundo. Por quê? E se um
governo democrático resolver que quer controlar seu próprio petróleo? Vão
intervir de novo? É o dilema. Os interesses econômicos dos EUA indispõem-se
com a democracia.
Democracia
no Oriente
A
democracia teria de ser adaptada, mas ela é possível sim. Acredito que há um
instinto em todas as pessoas de participar de alguma forma da vida de suas
comunidades, de seus países. Temos de encontrar a melhor forma de fazer isso. Não
precisa ser o modelo britânico ou o americano, mas um modelo próprio para
expressar melhor a democracia, especialmente para aqueles que vivem ou viveram
sob ditadura militar, como Paquistão, Brasil e a maior parte da América
Latina. Temos de perceber que a democracia é muito importante, quando não se
tem, a sociedade realmente sofre. O método para chegar a ela não é universal,
mas a democracia em si é universal e temos de lutar por ela. É possível ter
democracia em níveis muito mais elevados que no Ocidente se algum governo
estiver preparado para tomar a iniciativa.
É uma
grande tragédia o que está para acontecer, mas os EUA não vêem dessa forma,
mas sim como uma oportunidade para remapear o mundo. Depois do ataque ao Iraque,
irão tentar mudar o regime do Irã e, depois, de outros países do mundo
árabe.
Religião
Democracia
não tem nada a ver com religião. Todas as grandes religiões universais têm
muitos pontos em comum. Além do que, o mundo do Islã também foi atingido por
todos os ventos que atingiram os outros grupos. Não é questão de religião.
Viajo muito pelo mundo muçulmano, e as pessoas são a favor da democracia. Seja
na Indonésia, no Paquistão, no Egito, nos Estados do Golfo, seja na Arábia
Saudita.
Sociedade
civil
Os
movimentos sociais são muito fracos no Oriente Médio porque o Estado não
permite que se desenvolvam. Há apenas algumas ONGs, mas há problemas com essas
organizações nessa parte do mundo porque substituem a política fazendo
pequenas coisas. Os intelectuais, tanto liberais quanto esquerdistas, são
incorporados e trabalham para essas pequenas organizações. Os salários são
pagos por fundos de ONGs de países ocidentais. Mesmo no Líbano, que é um dos
países mais democráticos da região, isso ocorre, é fenômeno muito comum. Eu
conheço bem a situação do Paquistão. Muita gente que era engajada
politicamente hoje faz parte de ONGs. E uma das exigências para isso é que você
não tome posições políticas.
Democratização
da mídia
Mesmo
no Ocidente, a democracia é limitada, pesadamente circunscrita pelo fato de a mídia
ser sempre dominada por um pequeno grupo de milionários. Algum país deveria
criar mecanismo para democratizála. Por exemplo, para qualquer grupo que
recolhesse 50 mil assinaturas o Estado daria uma revista semanal. Se coletar 200
mil, um jornal diário, em que poderiam escrever o que quisessem. Seria muito
mais democrático que qualquer oferta do capitalismo, mas nenhum Estado ainda
fez algo assim. Hugo Chávez deveria tentar algo assim na Venezuela.
América
Latina
O
exemplo latino-americano, como disse em minha conferência no Fórum, é muito
importante, porque este é o continente em que as idéias neoliberais foram
experimentadas primeiro – e onde falharam primeiro também. Veja a Argentina,
veja Fernando Henrique Cardoso no Brasil. Um desastre! É verdade, Cardoso
reduziu a inflação, mas a que preço? Ele destruiu a indústria brasileira
completamente. E esses países estão vulneráveis a todas as grandes
multinacionais que vieram. O problema das multinacionais é que quando elas vêm
e não fazem dinheiro, vão embora, não se preocupam com a população.
Diferente da indústria local, que precisa se preocupar um pouco mais com as
pessoas daqui. É por esse dado que Cardoso deveria ser lembrado, por destruir a
economia brasileira. É por essa razão que a reação contrária foi tão forte
e Lula ganhou por maioria tão ampla. As pessoas sabiam que o modelo havia
falhado. Então, o exemplo da América Latina está sendo observado muito de
perto por toda a Europa. Por isso o que ocorre no Brasil é tão importante.
Allende
e Lula
A
eleição de Lula é como a eleição de Salvador Allende, no Chile, nos anos
70. Está no mesmo nível, é uma grande mudança no Brasil e esperamos que algo
realmente mude, porque se isso não ocorrer haverá uma descrença massiva no
Brasil. Se nem Lula for capaz de mudar, as pessoas vão dizer: “foda-se a política,
não
queremos isso”. Quando Allende chegou ao poder, os chilenos tinham
esperança de que algo estava para
mudar. Ele realmente tentou, nacionalizando toda a indústria mineradora, o que
feriu os interesses norte-americanos – que o pararam da forma que sabemos.
Obviamente, vivemos num mundo diferente, e Lula não
vai fazer isso. Mas nas questões da terra e dos sem-terra ele tem de fazer
algo, pois isso não afeta os EUA, apenas o Brasil. Vamos ver o que acontece. Os
próximos três anos na política brasileira serão muito interessantes e todos
estão de olho.
Intercâmbio
Cuba
sobreviveu ao bloqueio, às diversas tentativas dos EUA de matar Fidel, à invasãoda
Baía dos Porcos, à república de bananas em Miami que tenta desestabilizar o
regime. Há muito o que aprender, como, por exemplo, usar os recursos do país
para facilitar a vida do povo em termos de saúde, educação, moradia, abrigo.
Mais ainda, os governos do Brasil, da Venezuela, do Equador e mesmo o de Cuba têm
muito o que aprender uns com os outros, se unindo para criar uma alternativa ao
neoliberalismo.E não pode ficar só nisso. Há todo um continente gritando para
ser refeito. E a grande dor dos mexicanos é que Fox e Castañeda iriam oferecer
uma nova alternativa, mas não fizeram nada. A partir da força que o Brasil
certamente adquiriu com a vitória do PT, precisamos envolver partidos
alternativos do México e construir alternativas de fato. Isso precisa ser
construído num movimento que envolva todos os países da América Latina.
O
grande problema com o mundo comunista foi que se acreditava na teoria do
realismo socialista, que todos os cineastas e escritores devem ser feitos de um
único modo. O mundo artística não pode ser controlado pelo Estado.
Estratégia
brasileira
Acho
que alguns países europeus podem até tentar ajudar, mas o que o Brasil teria
de fazer é desenvolver relações comerciais realmente fortes com países como
a China. A China negocia com os EUA, é sua maior parceira comercial. O Brasil
deve reduzir sua dependência do norte e procurar outros caminhos. A China
poderia ser um parceiro econômico e comercial, beneficiando enormemente o país.
Claro que não é tão simples, as pode ser feito e deve-se tentar. O Japão é
outro país com o qual o Brasil já tem relações, mas poderia aprofundá-las.
Ritmo
chinês
Na
China, o Estado controla o capitalismo e não o contrário, o que faz uma grande
diferença quando se compara com os outros países. Lá o Estado tem um papel
determinante na forma de funcionamento do capitalismo. Se você for a Xangai, a
cidade está irreconhecível. É a mais dinâmica do mundo, muito mais que as
cidades americanas. É por isso que os EUA estão com muito medo da China nos próximos
dez, vinte anos. Todos os documentos estratégicos publicados nos EUA não
tratam dos árabes ou do Islã, mas da China, porque pode desafiar sua
hegemonia.
Estratégia
dos EUA para a China
Não
estou certo, mas acredito que eles gostariam muito, se a China ficar muito
poderosa economicamente, de criar algumas divergências com Taiwan.
Provavelmente, o que eles gostariam de fazer – talvez não sejam capazes –
é dividir a China em dois ou três países. Não será fácil, porque há uma
civilização que remonta a milhares de anos, e os chineses não aceitariam sem
lutar. Mas é o que gostariam de fazer, o que pensam em fazer. É por isso que
países como o Brasil, a Argentina e outras partes do mundo precisam tentar
olhar para lá e não permanecer constantemente obsessivos com Washington.
Ameaça
real
Há
um longo caminho para que o império americano caia. Pode levar um século todo,
por ser muito poderoso e militarmente incomparável. Por isso, é extremamente
importante construir relações com os americanos que estão resistindo a essa
guerra. Sem o apoio do povo norte-americano estamos perdidos. E isso deve ser
construído e desenvolvido, até porque o que acontece em outras partes do mundo
também afeta os EUA. É uma luta de longo prazo, em que não haverá
imediatamente nenhuma vitória militar. É até possível ter vitórias políticas
contra os EUA, mas, militarmente, a única vez em que foram derrotados foi em
1975 pelos vietnamitas. E olhe como acabaram punidos depois de derrotá-los, já
que foram mantidas sanções econômicas, sem falar na recusa em lhes dar as
reparações merecidas. E os norte-americanos usaram armas químicas. É por
isso que argumento que a maior ameaça para a estabilidade do mundo não vem de
Saddam Hussein ou de qualquer ditador o Oriente Médio, mas dos EUA.
Arte
engajada
O
grande problema com o mundo comunista foi que se acreditava na teoria do
realismo socialista, que todos os cineastas e escritores devem ser feitos de um
único modo. Isso está errado, esse trabalho não tem valor. O mundo artístico
não pode ser controlado pelo Estado. Tanto é assim que não há, em minha
opinião, nenhuma obra-prima de um grande mestre realista socialista. A arte
passa a ser feita de acordo com uma fórmula. Isso não significa que os
escritores não devam ser engajados, apenas não devem ter um comportamento
imposto pelo Estado. Mas hoje temos o oposto. Se antes havia o realismo
socialista, hoje temos o realismo do mercado. É o mundo dos best sellers, das
celebridades, da cultura, em que as pessoas estão desesperadas por entrar na
lista de mais vendidos do New York Times. Editores de todo o mundo olham a lista
e dizem “vamos tentar conseguir três livros da lista de mais vendidos do NYT
para publicar em nosso país”. Isso é tão ruim quanto o que ocorria na velha
União Soviética.
Pessoas
não são estúpidas
Precisamos
é fazer filmes, peças de teatro, escrever livros que possam ser vistos por
todos, mas que não sejam estúpidos. Na cultura em que vivemos, reina o princípio
de que as pessoas comuns são estúpidas e por isso lhes damos a mesma dieta de
“merda” na TV todos os dias, novelas, game shows. É loucura. Eles fazem
isso porque querem institucionalmente despolitizar o povo. As pessoas estão tão
interessadas nisso quanto em coisas completamente diferentes, mais inteligentes.
No Brasil, há uma forte tradição cinematográfica, os filmes de Glauber Rocha
nos anos 60. Lembro-me de assistir Antonio das Mortes (o título original é O
Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro) num cinema de Londres e ficar
estarrecido. Mas isso precisa acontecer em vários países.
Papel
do Estado na cultura
O
governo precisa de um ministério da cultura que tenha um papel ativo, sem
controlar a cultura, mas permitindo e ajudando as pessoas. Ter uma indústria
cinematográfica que dependa totalmente da comercialização não é uma boa.
Precisamos ter um Estado capaz de ajudar os cineastas, encorajando-os a
experimentar, produzir filmes diferentes. Espero que o governo Lula entenda a
importância da cultura.
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