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continente
Falta
respeito
por
Nicolau Soares
Quase
30 das nações que participariam da Alca são tratadas com desprezo e
truculência, deixando claro que não se trata de um acordo para todos
A
negociação da Alca envolve 34 países de todo o continente americano.
Entretanto, quando a mídia aborda o assunto apenas quatro ou cinco são
lembrados. Equador, Guatemala e Nicarágua, por exemplo, são desprezados. Esses
países também possuem interesses específicos e movimentos internos contra e a
favor do acordo comercial.
“É
difícil falar dos interesses dos países menores na Alca”, afirma Roberto
Goulart Menezes, professor do Cursinho da Poli e mestrando em Relações
Internacionais da Unicamp. “Se somarmos o PIB de 25 dos 34 países que irão
formar a Alca, o resultado fica em torno de 1% do PIB total do continente. Só
os EUA têm 78%, Brasil e México entre 4% e 5%. A negociação da Alca fica
entre 6 ou 7 países”, analisa.
De
fato, do ponto de vista estritamente econômico, países desse tamanho não
influenciam decisivamente no processo de formação da Alca. “É uma
disparidade muito grande. Um país com a economia do Paraguai, por exemplo,
perde sempre nessa negociação”, sustenta.
O
processo de formação da União Européia também enfrentou esse tipo de
problema com os diferentes níveis de desenvolvimento de cada país. Se de um
lado estavam França, Alemanha e Inglaterra, três das maiores potências do
mundo, do outro estavam Portugal, Espanha e Grécia, países com uma base de
produção agrária e uma industrialização incipiente. A solução foi
implantar um sistema de compensações para os países menores, com limites para
a produção de cada mercadoria. É uma forma de controlar a competição entre
os membros do acordo e permitir aos países menores participar do bloco.
“Portugal, por exemplo, tem uma cota máxima para a produção de batatas. A
União Européia paga para que ele não ultrapasse essa cota. A Alca não prevê
esse tipo de salvaguarda para os países menores”, explica Menezes.
Ao
lado, separamos informações sobre alguns dos países freqüentemente
negligenciados no debate da Alca. Foram escolhidas nações que tenham
peculiaridades ou que representam a situação de várias outras.
Nicarágua
A
Nicarágua, juntamente com Costa Rica, Honduras, El Salvador e Guatemala, já
iniciou conversações com os Estados Unidos para um acordo bilateral. Isso
diminui bastante o interesse destes países na formação da Alca, uma vez que já
vem obtendo, por outras vias, as possíveis vantagens do acordo. A Nicarágua
possui acordos fechados com México e República Dominicana, além de negociações
com Canadá, Chile e Panamá. Entretanto, o governo manifesta sua intenção de
participar “por questões políticas”.
A
sociedade civil do país se manifesta por meio da Mesa Alternativa Frente al
Alca (Mafa), fórum que reúne representantes de diversas entidades. A Mafa
defende que o acordo não pode ser aceito pelo país sem que se cumpram
determinadas condições, entre elas o respeito irrestrito aos direitos humanos
e trabalhistas do povo nicaragüense, consulta aos atores sociais do país,
preservação do meio ambiente, comercialização de produtos saudáveis e
socialmente justos e melhorar a qualidade de vida visando à erradicação da
pobreza.
Venezuela
A
Venezuela é um caso único entre os países sul-americanos, por conta de sua
produção de petróleo. Por um lado, isso representa uma grande vantagem para o
país, que tem uma fonte bastante segura de recursos. Mas também o faz
extremamente dependente do comércio desse produto. O valor de suas exportações
em 2000 foi de US$ 27,1 bilhões de dólares, sendo que praticamente todo esse
montante (US$ 26,8 ou 98,9%) vieram do petróleo. Para piorar, cerca de 60% das
vendas (US$ 15 bilhões, aproximadamente) foram para um único país: os Estados
Unidos.
Assim,
a entrada na Alca pode garantir à Venezuela vantagens comparativas com outros
países produtores de petróleo no comércio com os EUA, maior consumidor do
mundo da mercadoria. Mas também pode aprofundar sua dependência em relação a
tal comprador.
O
governo venezuelano foi o primeiro a se manifestar claramente pedindo um
adiamento do prazo de conclusão das negociações, de 2005 para 2010. Mas os
problemas internos enfrentados pelo presidente Hugo Chavez podem diminuir sua
força para a negociação.
Colômbia
A
Colômbia enfrenta seus mais graves problemas no campo militar. O país vive o
conflito entre o governo, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc),
grupo militar de esquerda, que ocupa grande parte do sul do país, e milícias
armadas de extrema direita, muitas vezes ligadas ao narcotráfico. Além disso,
tido como o maior fornecedor mundial de drogas, o país é alvo preferencial da
política antidrogas norte-americana.
Sob
o pretexto de ajudar o governo da Colômbia a combater o narcotráfico e
controlar as guerrilhas internas, os Estados Unidos financiam desde 2000 o Plano
Colômbia, provendo apoio financeiro e militar ao exército local.
Essa
ajuda se caracterizou como uma verdadeira intervenção militar no país,
agravando uma situação já tensa. Relatório divulgado pela Anistia
Internacional, pela Human Rights Watch e pelo Washington Office on Latin America
revela que desde o início do Plano Colômbia, em agosto de 2000, a média de
mortes em combate e assassinatos políticos tem aumentado, chegando a 14 pessoas
por dia.
Além
disso, uma prática muito usada no combate às plantações de coca na região,
as fumigações, causam danos intensos ao meio ambiente da região, parte da
floresta amazônica e um dos mais ricos do mundo em biodiversidade. As fumigações
destroem ainda outras lavouras, eliminando a chance de substituição do plantio
da coca.
Em
termos de exportações, os principais produtos da Colômbia são o petróleo e
o café. No caso do segundo, o país é o maior exportador mundial, batendo o
Brasil, seu maior concorrente no ramo.
Bolívia
Os
bolivianos têm um volume pequeno de exportações, alcançando apenas US$ 1,45
bilhão em 2000. Deste valor, destacam-se os produtos vegetais (US$ 140 milhões),
principalmente a soja, farelo de soja para animais (US$ 170 milhões) e os
produtos minerais, responsáveis por cerca de um terço do total (US$ 438 milhões).
Dentre estes últimos, o gás natural e o zinco são as maiores fontes de
divisas do país.
Mas
o maior problema surge no campo político. A Bolívia tem tradição no cultivo
da folha de coca, o que a torna alvo da política anti-narcotráfico dos EUA.
Essa interferência externa no país é combatida principalmente pelos
movimentos indígenas, liderados por Evo Morales. Ele foi candidato à presidência
do país, conseguindo uma votação de 21,88%, a segunda maior do pleito, e
perdendo num segundo turno indireto (via Congresso). No entanto, foi um dos 35
parlamentares eleitos por seu partido, o Movimento ao Socialismo (MAS) em um
Congresso com 157 membros.
Força
política ascendente no cenário boliviano, o MAS e o movimento indígena que
ele representa são a ponta de lança na luta contra a instalação da
Alca. Evo declarou, em entrevista a Fórum, que com a Alca quem vai ganhar são
as transnacionais de no máximo cinco países, não os povos.
Equador
O
petróleo também é o principal produto de exportação equatoriano, sendo
responsável por 44,5% do total de US$ 4,8 bilhões em 2000. Outra semelhança
está no destino desse petróleo. Os Estados Unidos compram pouco menos da
metade da produção do país. O restante vai principalmente para seu vizinhos
da América Latina. O Equador possui ao menos mais uma mercadoria relevante em
termos de exportações que é a banana, alcançando US$ 820 milhões do total
exportado.
Uma
peculiaridade da economia equatoriana é o fato de ela ter sido dolarizada em
2000. Uma vez que o controle da taxa de câmbio não é feito pelo governo do país,
surge uma dificuldade adicional para competir por mercados. Desvalorizar a moeda
para tornar os preços mais atraentes não é uma opção.
Outro
ponto interessante quanto ao Equador diz respeito ao seu novo presidente, o
ex-general Lucio Gutiérrez. Eleito com propostas de esquerda e com o apoio de
partidos indígenas do país, Gutiérrez indicou para o Ministério das Relações
Exteriores a líder indígena Nina Pacari, que adota uma posição bastante crítica
frente à aliança comercial.
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