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olhar
Sombrero
na mão
por
Anselmo Massad
O
México se tornou a décima economia do planeta depois do Nafta, mas viu a
quantidade de pobres crescer de 16% da população para 58%
Tortillas
de milho fazem parte da dieta do mexicano que, em média, come 10 delas por dia.
Todo esse apetite sempre garantiu mercado para pequenos produtores e indígenas.
Em 2001, os agricultores mexicanos produziram 18 milhões de toneladas de milho,
mas 3 milhões simplesmente não foram aproveitadas. Acontece que outras 6 milhões
de toneladas do grão chegaram dos EUA com preços até 40% inferiores. A causa,
segundo a Organization for Economic Cooperation and Development (OECD), é que,
para cada hectare de terra cultivada, os EUA gastam US$ 122 em subsídios,
contra US$ 53 do governo mexicano.
A
crise enfrentada pelos produtores de milho tem sérias implicações para a
população indígena e agrícola, gerando fome e perda da terra para 6 milhões
de pessoas. Para piorar, o trauma não fica restrito ao cereal. Se antes do
acordo, em alimentos, o país importava US$ 790 milhões, esse número subiu
para 8,9 bilhões em 2000, representando 50% de todo alimento consumido no país.
O
México sofreu transformações radicais desde 1994, quando o North American
Free Trade Agreement (Nafta), a área de livre comércio da América do Norte
começou a vigorar. Investimentos estrangeiros e exportações triplicaram,
impulsionando a economia à posição de décima potência mundial e gerando 6,2
milhões de empregos, só com a instalação de novas empresas. Milagre que só
o modelo neoliberal pode operar, alardeavam polianas de plantão.
Tais
dados, porém, escondem o real. “O Nafta foi interessante apenas para as
grandes corporações americanas”, denuncia Altamiro Borges, editor da revista
Debate Sindical e organizador do livro Para entender e combater a Alca.
Um
exemplo desse favorecimento é o capítulo 11 do acordo, que as coloca com o
mesmo estatuto legal dos Estados membros. Isso quer dizer que, alegando prejuízos,
podem questionar em tribunais especiais novas leis aprovadas pelos governos que
as desfavoreçam perante as companhias do país, exigindo compensações
ou até a revogação. “Algumas universidades mexicanas estatais foram
questionadas por faculdades privadas do Texas que queriam receber os mesmos subsídios
para funcionar”, destaca Borges.
Já
os efeitos negativos atingiram até os trabalhadores norteamericanos. Para se
ter uma idéia, nos quatro primeiros anos do Nafta os EUA perderam 700 mil
empregos. “Isso por conta das empresas que migraram em busca de mão de obra
mais barata e isenção fiscal”, afirma Borges. Ele ainda aponta que hoje
metade da força de trabalho do país atua no mercado informal. Em relação aos
salários, tiveram aumento médio de 135%. Acontece que a inflação foi de 560%
no mesmo período. A pobreza aumentou, saltando de 16% da população (11 milhões
de pessoas) em 1994, para 58% (51 milhões) em 2001. Os indigentes, aqueles que
ganham menos de 1 dólar por dia, representam hoje 20% da sociedade.
Sem
falar do aumento da dependência em relação aos EUA. “A condição do México
se assemelha ao estatuto de Estado livre de Porto Rico”, aponta Nildo Ouriques,
professor de economia da Universidade Federal de Santa Catarina. Das importações,
74% vêm dos EUA e 89% das exportações vão para lá. Vale notar que o aumento
desses valores pós-Nafta não foi tão grande, já que a relação comercial
com os EUA beirava os 80%. Ocorre que a desnacionalização é latente em quase
todos os setores. As instituições financeiras estrangeiras (principalmente dos
EUA) detêm hoje 83% do mercado mexicano.
“A
elite sabia que essa dependência cresceria com o Nafta, mas apostava que
poderia negociá-la melhor com o acordo”, garante Ouriques. “Isso porque os
EUA usam todo os seus recursos militares e políticos para impor seus interesses
e não há nenhuma forma de evitar isso. Mesmo que se obtenha alguma vantagem,
ela é passageira, sendo retirada na primeira das atualizações do tratado”,
completa.
Tullo
Vigevani, professor de ciências políticas da Unesp, concorda que a situação
chegou a esse ponto por decisão das elites. “Eles acreditavam que uma ampla
abertura seria o único caminho para a modernização do México, que o motor da
economia seria o comércio internacional”, aponta.
Segundo
Vigevani, isso promoveu mudanças em pontos clássicos da política do país. Até
o final da década de 80, o México era a única nação da América Latina que
votava por Cuba nos fóruns continentais e mantinha relações com os países
comunistas.
Pura
maquiagem
“A
gente tem de lembrar sempre que comércio exterior não é padrão para medir
grandeza de um país; os EUA, por exemplo, exportam apenas 15% do que
produzem”, lembra Ouriques. No caso do México, elas estão restritas
principalmente a dois setores, a indústria petrolífera e as maquiladoras.
A
Pemex – estatal de extração de petróleo – mantém 9,6% do total de
exportações do país, mas com uma alteração essencial em relação ao
patamar anterior ao acordo. O México (dono da 10ª maior reserva do mineral do
mundo) vendia derivados, o que não ocorre mais. Como petróleo é questão de
segurança nacional nos EUA, eles se reservam o direito de comprá-lo bruto dos
mexicanos. Detalhe: depois revendem a gasolina para eles.
Quanto
às maquiladoras, em geral transnacionais que a partir de peças importadas
montam produtos usando e abusando da mão-de-obra barata, aumentaram muito
depois da entrada em vigor do Nafta, chegando atualmente a cerca de 4 mil. Elas
funcionam em zonas francas – isentas de impostos – e se concentram em regiões
fronteiriças.
Num
primeiro momento, a justificativa para criá-las era a de que conteriam o fluxo
migratório de mexicanos para os EUA. Mas atualmente passaram a se instalar também
em grandes cidades, como Guadalarrara e Cidade do México. Afinal, proporcionam
enormes lucros para o chamado mercado. “Os gastos das empresas são
exclusivamente em óleo, papel e mão-de-obra”, aponta Ouriques. As condições
dos trabalhadores são as piores possíveis. Sem direito a férias,
aposentadoria, hora-extra ou associação sindical e com salários entre 8 e 10
vezes menores do que o de um norte-americano na mesma função.
Na
região da fronteira, o salário não passa de US$ 0,40 por hora. Cerca de 70% são
mulheres entre 16 e 24 anos que, em muitas fábricas, são obrigadas a comprovar
periodicamente que não estão grávidas – por meio de exames ou até
mostrando o absorvente usado – segundo denúncias de ONGs da região.
Mas
nem com toda essa situação precária, as maquiladoras estão firmando-se no México.
Algumas – responsáveis por mais de 85% das exportações do país – vêm se
retirando nos últimos anos. De dezembro de 2000 a novembro de 2002, 16% dos
trabalhadores das maquiladoras foram para a rua. Os motivos são a estagnação
da economia norte-americana e a saída das empresas do país. “Tendo em vista
a política dos EUA de firmar áreas de livre comércio e patrocinar a entrada
de mais países na OMC – incluindo a China – a situação pode se agravar
mais”, alerta Tullo Vigevani. A proximidade pode deixar de compensar devido
aos salários ainda mais baixos pagos em outras regiões do mundo, especialmente
na Ásia.
Rotas
de fuga
Sair
da situação de extrema dependência parece bastante improvável. “O México
precisaria tomar medidas de defesa de sua soberania, estabelecer políticas de
diversificação nas relações exteriores”, sugere Altamiro Borges. Buscando
outros mercados, o país poderia se livrar da vinculação total.
Esse
tipo de visão vem sendo, ainda que timidamente, buscada pelo governo. Tanto
assim que firmou em 2000 um acordo de livre comércio com os países da União
Européia e outro semelhante com os vizinhos da América Central.
No
entanto, é difícil imaginar uma mudança tão simples. “Hoje, o México não
dá nem um passo sem estar amarrado ao Nafta”, adverte Nildo Ouriques.
“Tanto os acordos bilaterais como outras áreas de livre comércio não vão
garantir a diversificação de que o país precisa”, lamenta. Para ele, a única
saída seria a retomada do protagonismo. “Que se perdeu quando a revolução
se institucionalizou (em 1945) e mais ainda nos últimos 20 anos. Hoje os
partidos de esquerda de lá não representam nada”, aponta.
Tullo
Vigevani lembra ainda que há um outro entrave: os imigrantes (em grande parte
ilegais) presentes nos EUA. As remessas de dólares deles equivalem a US$ 11
bilhões, superando até os investimentos diretos de empresas norte-americanas
(equivalentes a 10 bi). É uma questão não resolvida, motivo de tensão nas
relações entre os países, especialmente depois do 11 de setembro, quando
virou tabu definitivamente.
Assim,
qualquer ação mexicana que desagrade aos interesses americanos pode ser
retaliada com medidas contra essa população de imigrantes. “Qualquer partido
que esteja no governo, até o PRV – que é o mais à esquerda entre os grandes
– precisaria manter uma política de boa vizinhança com os EUA, evitando o
enfrentamento direto”, sustenta Vigevani.
As
tais maquiladoras
Das
4 mil maquiladoras que funcionam no México gerando 1,28 milhões de empregos,
muitas são acusadas de desmatamento de reservas florestais e de despejar
poluentes no ar sem controle algum, sem contar o fato de não respeitarem
acordos trabalhistas. Separando as 100 empresas que mais empregavam em 2002,
tem-se uma boa amostra das áreas de atuação delas. De origem americana são
80 sendo que as demais estão dividas entre o Japão, México, Alemanha, Coréia
do Sul, China, Canadá e Holanda. A indústria de eletro-eletrônicos fica com
40, a automobilística com 20 e a têxtil domina 8. Segue abaixo uma descrição
da região da fronteira – onde se encontra o maior número de empresas
desse tipo – com algumas características de cada parte.
Baja
Califórnia: São 1290 empresas com cerca de 278 mil trabalhadores nas
maquiladoras. É onde está instalado o Cartel de Tijuana, que leva o nome da
principal cidade da região, a quarta maior do México, com mais de um milhão
de habitantes. Companhias na região: Goldstar, Sony, JVC, Mitsubishi, Samsung,
Sanyo, Hitachi, Panasonic, Pioneer, Acer, Canon.
Sonora:
108 mil pessoas trabalham em 290 maquiladoras. Da mão de obra delas, apenas
23,11% atuavam em 13 companhias que não eram dos EUA. A região de Nogales é a
maior porta de entrada de produtos estrangeiros do México, computando 2/3 de
todo o tráfego comercial do Arizona. As companhias de atuação em Sonora são
a Bose, Ford, Daewoo, Acosa, American Safety Razor, Sara Lee, Midcom.
Chihuahua:
Aproximadamente 452 maquiladoras com 303,7 mil trabalhadores. Passam pela região,
um quarto de todo o comércio entre o México e os EUA. É a região de Ciudad
Juarez, onde está instalado outro importante cartel de tráfico de drogas. As
companhias que atuam em Chihuahua: Acer, Toshiba, Zenith.
Coahuila:
286 empresas empregam 110,6 mil mexicanos. A mineração é uma das atividades
mais importantes deste estado e de maior extração em nível nacional,
incluindo ferro, titânio, ouro, prata, zinco etc. Coahuila contabiliza 36% da
produção mexicana de aço e isso estimulou o estabelecimento de novas plantas
automobilísticas. As companhias de atuação na região: General Motors e
Chrysler.
Nuevo
Leon: 62,1 mil trabalhadores em 162 maquiladoras. As empresas de atuação em
Nuevo Leon: CYDSA, Visa, Pioneer, Nippon Denso, Vitromatic.
Tamaulipas:
Cerca de 397 indústrias com 178,3 mil trabalhadores. A principal linha de trem
que sai do México e vai para os EUA passa por essa fronteira. As companhias de
atuação em Tamaulipas: Matsushita, Deltronics, Zenith
Chile,
o mais liberalizante
Em
13 de janeiro deste ano, o Chile anunciou um acordo bilateral com os EUA. As
negociações foram iniciadas logo após a entrada em vigor do Nafta, em 1995.
As negociações do governo chileno com os EUA não são uma medida isolada, já
que o país vem se concentrando em estabelecer acordos desse tipo. O México e o
Canadá foram os primeiros a fechar pactos de livre comércio. Coréia do Sul e
União Européia vieram depois. O acordo com os EUA chamou mais atenção
porque, de certa forma, se antecipa às negociações da Alca, a Área de Livre
Comércio das Américas.
“O
Chile preferiu antecipar, acreditando que poderia obter privilégios em curto
prazo do ponto de vista econômico e externo”, aponta Tullo Vigevani. “Não
abriu totalmente os mercados, mas fez acordos de transição que prevêm isso em
15 anos. De qualquer forma, o Chile conseguiu abrir o mercado americano”,
completa.
De
imediato, serão isentos de tarifas mais de 85 % do comércio bilateral de
produtos industriais. Os demais serão liberalizados em quatro anos. Para
produtos agrícolas, o Chile vai eliminar gradativamente, durante quatro anos,
75% das tarifas aplicadas às importações americanas. As taxas só serão
eliminadas por
completo neste setor em 12 anos.
O
principal produto de exportação chileno é o cobre, mas não seus processados.
Com o caminho aberto para a entrada de empresas norte-americanas, os chilenos
temem que a possibilidade de desenvolver esse tipo de indústria fique muito
reduzida.
O
controle chileno de fluxo de capitais estrangeiros, apontado como exemplar por
críticos da economia neoliberal para fugir dos capitais especulativos, poderá
ser mantido por pelo menos um ano. Este é o prazo máximo para que os
congressos dos dois países ratifiquem o acordo. Porém, é difícil que o país
consiga manter esta ação, já que a pressão norteamericana será muito forte.
Uma das principais causas do fracasso das negociações de um acordo semelhante
com Cingapura foi a exigência do país asiático em manter seu sistema de
controle de capitais.
Regina
Vargo, vice-representante de Comércio dos EUA (USTR) para as Américas, ao
anunciar os detalhes do acordo, classificou como “o mais liberalizante” que
os Estados Unidos já negociaram com qualquer de seus parceiros comerciais.
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