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retrato
Simón
Bolívar
Ele
sonhou antes... e diferente
por
Marco Frenette
Em
15 de agosto de 1805, Simon Bolívar fez o famoso juramento do Monte Sacro,
expressando o ideal de libertação da América pelo uso da espada e jurando
não descansar até consumir todas as suas forças
Napoleão
Bonaparte, o mais famoso militar de todos os tempos, influenciou um sem número
de pessoas pertencentes á nata da humanidade. Entre os que se renderam ao seu fascínio estão
músicos como Beethoven, Berlioz e Schönberg; e escritores como Goethe, Byron,
Balzac e André Malraux. Entre tantos ilustres, um destacou-se por ir além de
uma admiração sem conseqüências. Em 2 de dezembro de 1804, Simon José
Antonio de la Santísima Trindad de Bolívar y Palácios era apenas um
venezuelano de 20 anos que estava entre a multidão que assistia, em Paris, à
cerimônia de coroação do imperador Napoleão I, feita pelo papa Pio VII. Reza
a tradição que nesse momento plantou-se no coração daquele jovem o profundo
desejo de grandiosidade que o levaria, alguns anos mais tarde, a tornar-se o
libertador das Américas e o propagador maior da idéia de uma única e grande
nação latino-americana.
Não
que o jovem sonhador tenha tido apenas esta grande influência. Tudo
em sua vida sempre pareceu empurrá-lo e prepará-lo para seu grande destino.
Descendente de uma rica família basca que se estabeleceu na Venezuela no século
XVI, Bolívar perdeu o pai aos três anos de idade, a mãe aos nove e o avô aos
dez – as três pessoas que sustentavam seu mundo afetivo –, para terminar
aos doze sob os cuidados de um tutor, seu tio Dom Carlos Palácios. Aqui, se
revelou um dos primeiros episódios que demonstrariam a fibra de Bolívar.
Considerando seu tio um homem rude e ausente, fugiu e buscou
abrigo na casa de sua irmã Maria Antônia. Ali começou sua verdadeira formação.
Antônia e seu marido contrataram para educá-lo um mestre-escola chamado Dom
Simon Rodrigues, um reformista depositário das idéias humanistas de
Jean-Jacques Rosseau. Rodrigues viu no órfão aristocrata a pessoa ideal em
quem incutir as famosas práticas pedagógicas de Rosseau presentes em seu livro
Emílio.
Desde
cedo, Bolívar viu seus conhecimentos teóricos germinar nos solos férteis da
prática. Em 1797, com apenas catorze anos ingressou no Batalhão da Milícia
Branca de Aragua. Nesse mesmo ano, viajou para o México, Cuba e Espanha onde
aprofundou seus conhecimentos de história e literatura clássica e moderna, além
de aprender francês. Aprendeu também esgrima e equitação. Foi um período em
que poliu seu espírito e assimilou mais a contento as regras de convívio
social vigentes entre pessoas civilizadas.
Neste
período, parece que nada revelava em Bolívar que ali se forjava um futuro
revolucionário. O famoso cientista alemão Alexander von Humboldt, por exemplo,
que o encontrou em Paris em 1804, declararia décadas depois que havia se
enganado completamente sobre o jovem venezuelano, pois à época tomarão por um
“homem pueril e incapaz de uma empresa tão fecunda” como a emancipação da
América espanhola, embora visse nele um “sonhador e amante da liberdade dos
povos”, de “conversação animada e entusiasmo sustentado pelas criações
de uma imaginação brilhante”.
No
entanto, quando Humboldt o encontrara, algo já havia se modificado
fundamentalmente em seu interior, decorrente de um fato primordial para o
redirecionamento de sua vida. Em 1800 ele havia conhecido em Madri o único
grande amor de sua vida: Maria Tereza Rodríguez Del Toro y Alayza. Dois anos
depois, completamente apaixonado, casou-se com ela e a trouxe consigo para
Caracas. Em carta a seu amigo Pedro Joseph Dehollain disse sentir-se “como o
ser mais feliz desse mundo” por ter alguém como Tereza ao seu lado. Porém,
predestinado que estava a cercar-se de morte, perdeu a esposa em janeiro de
1803, vítima de febre. Bolívar lamentou seu destino, maldisse aos céus e
jurou que nunca mais se casaria. Anos depois, porém, admitiria que foi
justamente a morte de sua esposa que o impulsionou para coisas mais grandiosas.
Bolívar descreveu, em 1828, seu estado afetivo e emocional quando retornou para
a Venezuela em 1802 como alguém que tinha a “cabeça cheia dos vapores do
mais violento amor e não de idéias políticas”. Sendo assim, sem a morte de
Tereza não haveria desaparecido “a vida de doçuras” que levava ao seu
lado, e o revolucionário que havia nele poderia continuar adormecido para
sempre.
Foi
com o coração em luto que voltou à Europa em 1804. Dessa vez, escolheu Paris
para sua estada. Lá bebeu em companhia de literatos e políticos e dançou em
salões requintados. Em meio à dissipação necessária para esquecer a amada
perdida, terminou por ver a coroação do imperador Napoleão, acontecimento que
acenderia dentro de si a chama que o iluminaria para seu grande destino. No ano
seguinte, viajaria para Roma em companhia de seu mestre Simon Rodriguez. Foi
quando, segundo reza a tradição, teria feito, em 15 de agosto de 1805, o
famoso juramento do Monte Sacro, onde teria expressado o ideal de libertação
da América pelo uso da espada, não descansando até que suas últimas forças
fossem consumidas com este objetivo.
A
partir desse ponto, começa a morrer o Bolívar insular e prisioneiro de suas
tragédias pessoais para nascer o homem generoso e histórico que o jornalista
venezuelano Enrique Altazini chamou de “ese maravilloso hombre de pequeña
estatura y gran corazón”. O Bolívar que retorna à Venezuela em 1807 tem uma
idéia fixa e grandiosa em sua cabeça: libertar a América do domínio
espanhol. E tem a seu favor uma visão moderna e humanista de mundo, e uma
tenacidade e persistência incomuns. É, ao mesmo tempo, um homem culto e um
homem de ação, sabendo manejar tanto as palavras quanto a espada. E, desse
modo, inicia-se a história desse herói quase mítico.
Sonho
revolucionário
A
revolução contra o domínio espanhol começa na Venezuela, em 1810, com a
declaração de independência feita em 1811. Nesse ano, torna-se oficial do exército
revolucionário. No ano seguinte, os colonizadores retomam o poder. Francisco
Miranda, líder da revolução, é preso, e Bolívar deixa o país. Mas em 1819,
sob comando de Bolívar e com a ajuda do Haiti, a Venezuela finalmente ganha sua
independência, e é convocado o Congresso de Angostura para elaborar as leis da
nova nação. Ao mesmo tempo, havia iniciado-se a campanha de libertação de
Nova Granada (a atual Colômbia). O exército bolivariano cruza os Andes e após
uma cruenta batalha de Boyacá, em 7 de agosto, Nova Granada é libertada. Bolívar
então propõe, juntamente com o General Francisco de Paula Santander, a formação
de um novo estado, batizado de Grã-Colombia. Constituído em 1821 e composto
pelos atuais territórios da Venezuela, Colômbia e Equador, foi a primeira
parte da realização do sonho de uma América unificada. Em 1824, Bolívar
liberta também o Alto Peru, tornando-se o primeiro presidente desta República
que, em sua homenagem, passaria a se chamar Bolívia.
Após
anos de lutas incessantes, Bolívar finalmente atingia a glória com que
sonhara. Mas este cidadão do mundo que impressionara-se com a unificação dos
Estados norte-americanos e com o poder de conquista de Napoleão, planejava
realizar uma federação das nações da América do Sul, ampliando a já
existente Grã-Colômbia. No entanto, quando Bolívar convocou o Congresso das
Nações da América Hispânica, em 1826, apenas quatro países compareceram. E
em vez da união e fortalecimento da Grã- Colômbia, ocorreu a ruptura de sua
confederação. Os problemas de administração se agigantaram. Em 1826, a Colômbia
passou por uma guerra civil, e antigos aliados tornaram-se inimigos, a exemplo
de Santander. Bolívar via, cada vez mais desesperançado, o surgimento de
processos separatistas. Em 1829, a Venezuela e a Colômbia separaram-se, e o
Peru aboliu a Constituição bolivariana. A província de Quito tornou-se
independente com o nome de Equador. Desse modo, em 1830, ruiu diante dos olhos
do grande visionário o sonho de uma América unificada.
Neste
mesmo ano, o herói detentor do título “El Libertador”, conferido pelos
parlamentos dos países por ele libertados do jugo espanhol, morreria
abandonado, tuberculoso e exilado na Colômbia. Meses antes ainda lamentaria o
fracasso de sua tentativa de unificação da América Latina dizendo que seu
trabalho foi como passar “o arado no mar”. No entanto, sua obra foi
grandiosa, e seu arado cavou fundo na terra firme dos espíritos mais
conscientes. No campo das transformações reais, após décadas de
deslocamentos por planícies, montanhas e pântanos e de derramamento de sangue
em mais de duzentas batalhas, libertou do domínio espanhol as regiões que hoje
formam cinco nações: Venezuela, Colombia, Equador, Perú e Bolívia.
No
campo teórico, as teses de Bolívar ainda são bastante atuais. Em seu célebre
discurso de Angostura, de 15 de fevereiro de 1819, verdadeiro clássico da
literatura política, afirma que “el sistema de gobierno más perfecto es
aquel que produce mayor suma de felicidad posible, mayor suma de seguridad
social y mayor suma de estabilidad política”, e que “a excelencia de un
Gobierno no consiste en su teoría, en su forma, ni en su mecanismo, sino en ser
apropiado a la naturaleza y al carácter de la Nación para quien se instituye”.
Mas
talvez, as melhores palavras para definir o que Bolívar tem a oferecer no lugar
das atuais estratégias de dominação econômica das grandes potências são as
palavras do general Santander, ex-aliado de Bolívar e personalidade dominante
no cenário político emancipacionista colombiano, que se tornou o seu mais
implacável adversário, e que o acusou – acusação que é um elogio – de
fazer na Grã-Colombia “uma guerra interior na qual ganhem os que nada têm,
que sempre são muitos, e que percamos nós, os que temos, e que somos
poucos”. Como se vê, nem tanta coisa mudou na perspectiva de certos senhores
que discutem um projeto de integração do continente americano.
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