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trabalho
A
corda costuma arrebentar de um lado
por
Frédi
Vasconcelos e Luciana Ackermann
A
mudança geraria mais desemprego e piora das condições de trabalho com a
liquidação da muitas empresas nacionais, o que já vem ocorrendo desde a
implantação das políticas de abertura comercial e desregulamentação
iniciada no governo Collor e consolidada no de Fernando Henrique Cardoso
foto: Gerardo
Lazzari/ Nau

O subsecretário de Comércio Internacional dos Estados
Unidos, Grant D. Aldonas destaca, em documento disponível na Internet,
que a Alca é a prioridade comercial dos Estados Unidos e que, com a
abertura, os trabalhadores beneficiam-se de novos empregos, quase sempre
com melhores remunerações. E os agricultores obtêm acesso a novos
mercados. “A Alca promoverá não apenas o desenvolvimento econômico
e a governança democrática entre nossos parceiros comerciais, ela também
fortalecerá nossa economia interna – beneficiando os agricultores,
empresários, trabalhadores e consumidores americanos”, escreveu.
Como se pode ver pelo exemplo mexicano (págs 12 a 15),
as coisas não são bem assim. Na realidade, até agora, as maiores
beneficiadas pelo Nafta foram as multinacionais americanas, que tiveram
acesso a mercados e mão-de-obra mais barata ao cruzar as fronteiras sem
restrições. A tendência é isso se repetir no resto da América.
Estudo feito pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
(Fiesp) mostra que os Estados Unidos e suas empresas seriam os mais
beneficiados com a implantação da Alca, com saldo positivo de US$
2,668 bilhões por ano, seguido pelo Canadá, com US$ 1,419 bilhão. O
Brasil passaria de uma balança comercial positiva de US$ 1,182 bilhão
– valor registrado em 2000 – para um déficit de US$ 2,128 bilhões.
Essa mudança resultaria na perda anual de US$ 1,150 bilhão em exportações,
levando em conta apenas as relações comerciais entre as nações que
possivelmente integrarão o mercado comum. A mudança geraria mais
desemprego e piora das condições de trabalho com a liquidação de
muitas empresas nacionais, o que já vem ocorrendo desde a implantação
das políticas de abertura comercial e desregulamentação iniciada no
governo Collor e expandida no de Fernando Henrique Cardoso.
“Em contraste com outras experiências históricas, a
Alca visa a desregulamentação financeira e comercial da América
Latina, levando à fracassada receita do Consenso de Washington. Por
isso, o movimento sindical e social se voltaram contra o acordo”,
resume Renato Martins, da Rede Brasileira pela Integração dos Povos.
Para ele o movimento sindical tem atuado de forma bastante propositiva
em relação à Alca. Na Cúpula das Américas, realizada em Miami, em
1994, chegou a manifestar-se a favor de uma negociação que
contemplasse a integração dos povos de fato, assim como a promoção
do emprego, a justiça social e os direitos humanos. Entretanto,
analisa, até agora a proposta do acordo tem sido meramente comercial.
Estudo da American Federantion of Labor – Congress of
Industrial Organizations (AFL -CIO), central sindical dos trabalhadores
do Estados Unidos, também mostra que os temas do mundo do trabalho estão
totalmente ausentes das mesas de negociação, como a representação de
sindicatos. O documentotambém é critico à restrição do acordo
apenas aos aspectos comerciais, sem considerar as dimensões dos
direitos humanos, das cláusulas sociais de proteção ao trabalhador e
de defesa do meio ambiente, facilitando o aumento da exploração dos
povos do continente pelas empresas transnacionais.
Outro crítico dos efeitos da Alca para o Brasil e para
os trabalhadores é Kjeld Jakobsen, secretário de relações
internacionais da prefeitura de São Paulo e que construiu sua carreira
no movimento sindical ligado à CUT. Para ele, nas condições atuais
dificilmente haverá fatores positivos para o Brasil. “O governo
norte-americano apresenta muito claramente o que quer e o que não dará
em troca”. Ele desataca que na proposta de Trade Promotion Authority (TPA),
autorização dada pelo Congresso americano para que o acordo seja
negociado pelo governo Bush, todos os produtos que exportamos para os
Estados Unidos e em relação aos quais somos competitivos teriam
de ser revistos pelo Congresso.“É evidente que os deputados da Flórida
não permitirão que o Brasil aumente sua exportação de suco de
laranja, os da Carolina do Norte não aceitarão a elevação da exportação
de têxteis, e assim sucessivamente. Cada um defenderá sua indústria
local e seus interesses”. Outro ponto, segundo Kjeld, é que o TPA diz
que o governo norte-americano não poderá mexer na sua legislação
comercial, o que significa a continuidade do aparato protecionista que
mantém hoje e não permite a entrada de mais produtos brasileiros.

"A
implementação da Alca, nos moldes em que se apresenta, poderá trazer
desemprego em vários setores da economia em diferentes ramos de
produção. Não somente para o Brasil como para a maioria dos países
da América Latina"
João Felício
presidente da CUT
"Até
agora o debate foi superficial. Primeiro devemos arrumar a nossa casa a
partir de um modelo de desenvolvimento social para o país, depois disso
dar um passo tão decisivo"
Mônica Lourenço
secretária geral do
Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, ligado à Força Sindical
"É
evidente que os deputados do Flórida não permitirão que o Brasil
aumente sua exportação de suco de laranja, os da Carolina do Norte
não aceitarão a elevação da exportação de têxteis, e assim
sucessivamente. Cada um defenderá sua indústria local e seus
interesses"
Kjeld Jakobnsen
secretário de
relações internacionais da prefeitura de São Paulo
Mônica Lourenço, secretária geral do Sindicato dos
Metalúrgicos de Osasco e região, ligado à Força Sindical, acrescenta
que é indispensável aprofundar a discussão sobre a área de livre comércio
junto a sociedade, priorizando levantar os impactos desse acordo para o
país. Ela sustenta que “até agora o debate foi superficial” e por
isso diz que “primeiro devemos arrumar a nossa casa a partir de um
modelo de desenvolvimento social para o país, depois disso dar um passo
tão decisivo”. Lourenço também destaca que episódios recentes em
torno do aço e dos subsídios agrícolas tiveram efeito muito negativo
entre trabalhadores e sindicalistas.
O peso do frete
O estudo da Fiesp citado anteriormente também mostra
diferenças gritantes nas relações comerciais entre Brasil e EUA. Para
exportar uma mercadoria de US$ 20 mil de São Paulo para Denver,
Colorado, é preciso desembolsar US$ 1.444,96 a mais, além esperar
quatro dias adicionais do que no trajeto inverso. “A implantação da
Alca, nos moldes em que se apresenta, poderá trazer desemprego em vários
setores da economia em diferentes ramos de produção. Não somente para
o Brasil como para a maioria dos países da América Latina”, diz João
Felício, presidente da CUT. “O receio é que o acordo entre as Américas
coloque o Brasil numa posição já vivida no passado, de exportador de
matéria prima, produtos de baixa tecnologia e relacionados à agroindústria”,
complementa. Para ele, setores como o químico, o automotivo, o
eletroeletrônico e de tecnologia de ponta perderiam por não poderem
competir com a produtividade, a escala e a capacidade norte-americana.
“São indústrias que deverão quebrar e gerar ainda mais desemprego.
Preservar postos de trabalho para nós é questão de absoluta importância
nesse debate. Ninguém é contra por princípio a área de livre comércio,
ao intercâmbio cultural, comercial e político entre os povos, mas não
é essa a proposta”, avalia Felício.
Sindicalismo na UE
Caso a integração fosse de verdade e seguisse os
passos, por exemplo, da formação da União Européia, ela teria de ser
feita de maneira bem diferente. Lá, antes da integração total,
abertura econômica e moeda única foram investidos massivamente
capitais para desenvolver as economias de países mais pobres, como
Portugal, Grécia e Espanha. Sem contar que, pouca gente sabe, foram os
movimentos sindicais que estiveram à frente do processo da unificação.
Giorgio Romano Schutte, mestre em relações
internacionais pela USP, lembra que aUnião Européia teve como marco
inaugural a estruturação da Comunidade do Carvão e do Aço (Ceca), em
1952. A indústria concentrada na região fronteiriça entre França e
Alemanha, cuja disputa entre os países foi uma das causas das guerras
mundiais, também gerou a integração. Depois da Segunda Guerra
Mundial, os sindicatos de trabalhadores do setor tomaram a iniciativa
para evitar nova guerra. E desde o início do processo de unificação
existia a cultura de consultas, com comissão de representantes dos
sindicatos e participação extremamente ativa de Alemanha, Luxemburgo,
Bélgica e França, países do canal do aço. Essa cultura continuou na
União Européia, que surgiu não só por motivos comerciais, mas para
garantir um crescimento pacífico.
“Já o processo da Alca é muito diferente. Não tem
nada a ver com a formação da União Européia. Aqui propõe-se a
integração econômica de apenas um país fortíssimo a outros periféricos”,
analisa Romano Schutte. Para ele, essas diferenças têm de ser
entendidas e o movimento sindical necessita pensar o país. “É necessário
que os sindicatos pensem nas estratégias de desenvolvimento, não podem
se prender às negociações salariais anuais. É necessário pensar na
estratégia de inserção do Brasil no mercado internacional, o que e
para quem exportar a partir de uma agenda nacional. Há enormes
possibilidades na análise de políticas industriais no Brasil”.
E é bom que esse debate estratégico sobre o Brasil e o
movimento sindical aconteça logo. No artigo do subsecretário
norte-americano do comércio, Grant Aldonas, é dito explicitamente que
a pedra fundamental da agenda da política comercial latino-americana do
presidente Bush é garantir a criação da Alca. “Como disse o
presidente Bush, trata-se de uma meta difícil, mas consideramos que
pode ser alcançada. A Alca é uma oportunidade de levar mais
prosperidade econômica para a região e de apoiar iniciativas econômicas,
sociais e políticas de longo prazo que facilitarão o crescimento e a
democracia. Mas para conseguir isso, os governos precisam fazer mais do
que apenas eliminar tarifas”.O pacote, já pronto, continua, “Eles
precisam trabalhar em áreas que têm sido quase sempre tratadas de modo
inadequado. Precisamos garantir que as nações promovam o Estado de
Direito e instituições democráticas, como judiciários independentes,
agências reguladoras confiáveis, sistemas fidedignos de aplicação da
lei e serviços bancários e sociais eficientes. Precisamos estimular órgãos
reguladores transparentes, uma base sólida de poupança fiscal e
previdenciária, responsabilidade fiscal, privatização, concorrência
e melhorias na educação e na saúde. Nossos esforços, junto com os
das outras nações do hemisfério, garantirão prosperidade e liberdade
para todos os habitantes da região”, afirma.
Para quem se assustar com a receita já elaborada sem a
participação das dezenas de países do continente, é bom desde já ir
botando as barbas de molho. Acabada a guerra do Iraque, nada impede o
começo de uma nova cruzada. A da Alca, em que as bombas econômicas
podem fazer tantos estragos, como já visto no México, quanto o avanço
das tropas da coalizão em busca do petróleo iraquiano. Anterior
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