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O povo acordou
por
Miguel Graziano
(de Buenos Aires)
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O correspondente da revista Fórum na Argentina envia um relato emocionado do que se passa em seu país. Leia a seguir.
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"Vou ser o presidente de um povo feliz". Foi sua frase de campanha em 1999. Uma das tantas recordadas com tristeza na quinta-feira, 20 de dezembro. Nesse dia, durante a tarde, Fernando De la Rúa teve de deixar a Casa Rosada em um helicóptero, depois de uma última e desesperada tentativa de permanecer no poder. Nas ruas, milhares de pessoas sofriam uma das mais violentas repressões policiais desde a volta da democracia, em 1983: vinte e um mortos e mais de quinhentos feridos foi o saldo dos conflitos que aconteceram durante o anunciado dia D da crise social. E a Praça de Maio voltou a ser um símbolo da luta popular.
A queda de De la Rúa começou 48 horas antes, com uma revolta popular nascida nas camadas mais pobres. Cerca de 50 mercados foram saqueados e pelo menos 16 pessoas morreram em todo o país durante as primeiras 24 horas de manifestações. Os pobres saíram as ruas desesperados em busca de comida. E ainda, em alguns casos, havia pessoas infiltradas que promoviam violência, o protesto foi uma verdadeira resposta à política que aumentou o número de indigentes de 2 para 5 milhões de pessoas.
Durante toda a tarde, esperou-se um discurso presidencial que só aconteceria às 22h30. Aquele momento marcou um antes e um depois. Um ponto de inflexão. Assim que a televisão terminou a transmissão do discurso de De la Rúa, as pessoas saíram às ruas para protestar batendo em panelas. Era a primeira resposta ao estado de sítio imposto naquele momento pelo governo. "Que boludo, que boludo, ao estado de sítio, se lo meten en el culo", bradavam na Praça de Maio os milhares de manifestantes que se reuniram espontaneamente. Fenômeno semelhante repetiu-se nas principais praças de todas as capitais provinciais. À uma da madrugada, Cavallo entregou sua renúncia e as pessoas - ao saberem da notícia -, compreenderam que era seu primeiro triunfo. A comemoração estendeu-se por toda a madrugada, sem que nenhum partido político tenha se apropriado da festa. A palavra "panelaço" foi incorporada definitivamente ao dicionário dos argentinos.
Os argentinos decididos a exteriorizar seu mal-estar saíram em caminhada. Cada passo trazia uma grata surpresa. Outros "loucos" golpeando frigideiras, buzinando e aplaudindo.
Em princípio, ninguém pensou na repressão. O medo havia desaparecido. Cada indivíduo havia se disposto a se expressar depois de tantas humilhações. E cada passo era acompanhado por outros muitos milhares "com a mesma vontade a começar mais uma vez a escrever um pouquinho da história", contou à Fórum um manifestante que escapou dos gases e voltou à Praça. Houveram incidentes, mas foram menores se comparados aos que se produziram poucas horas depois.
As manifestações continuaram na quinta-feira pela manhã: um dia que será lembrado pelo terror. Desta vez a repressão foi feroz. Emocionadas com um protesto surgido das ruas, milhares de pessoas que, até então, haviam se mantido à margem de qualquer manifestação política ou sindical,foram à Praça de Maio, que voltou a receber um grande grupo de pessoas: "Chamamos todo o povo para combater todos os políticos corruptos que entregaram o país", convocaram os manifestantes.
Mas o dia representaria uma grande vergonha. Em um cenário típico da ditadura militar, as Mães da Praça de Maio foram reprimidas. A polícia atirava cavalos contra seus corpos cansados. "Minha companheira tem 90 anos e eles a golpearam. São uns hjijos de mil putas mal paridos", disse uma das Mães. A situação era incompreensível. Logo começaram os disparos com bala de borracha e o gás lacrimogêneo. Escutaram-se gritos de terror e até a juíza federal de plantão, María Servini de Cubría, foi ao local "para parar a repressão".
Impávida, a repressão continuou. E continuaram os manifestantes. Em resposta a cada assalto da polícia montada, uma nova leva de pessoas chegava a Praça de Maio.
Mais de 500 pessoas ficaram feridas nos conflitos com a polícia que se estenderam por toda a tarde. Extra-oficialmente, se fala em 25 mortos.
No meio da tarde, De la Rúa fez sua última e desesperada tentativa para manter o poder. Aceitou a renúncia de seus ministros para formar um governo de coalizão. Sua sorte estava lançada, tão clara como o não do Justicialismo. O homem que chegou a presidência da Argentina para " ajustar a política e não o povo" dilapidou todo seu capital político em 739 dias. Sua "Argentina Distinta" estava marcada pelos desacertos econômicos. Durante seu mandato, por dia, mil pessoas perdiam o emprego. Hoje, são 14 milhões de pobres no país.
"Dirijo-me a vocês para apresentar minha renúncia como Presidente da Nação. Minha mensagem de hoje para assegurar a governabilidade e construir um governo de unidade foi rechaçada por líderes parlamentares", se desculpou em uma carta escrita de próprio punho.
O fracasso do governo que se foi não garantirá tempos felizes. Teremos que esperar para saber se o povo aceita ser governado por velhos políticos ou, como crêem os milhares que se animaram a manifestar-se, esta mobilização impulsiona uma verdadeira mudança popular. A esperança voltou a ganhar os corações... mas a história apenas começa a ser escrita... outra vez.
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