Machismo no futebol: Pode isso, Arnaldo?

“Nossa, você é ruim em matemática”. “Nossa, garotas são ruins em matemática.” Texto de...

“Nossa, você é ruim em matemática”. “Nossa, garotas são ruins em matemática.”

Texto de Thaís Campolina

A manchete “Bandeira musa erra feio e irrita jogadores e dirigentes do Cruzeiro” é apenas a ponta do iceberg do machismo que envolve o caso. O jornalismo esportivo é conhecido por ser um antro de machismo, em toda oportunidade que se preze, são eleitas musas no meio. Ele é feito como se apenas homens héteros acompanhassem esportes e mulheres são vistas apenas como atrativos de cliques, sejam atletas, sejam apresentadoras, sejam comentaristas ou árbitras. 

 

O comentário do diretor de futebol Alexandre Mattos sugerindo que a bandeira Fernanda Colombo abandonasse sua profissão e já que é “bonitinha” posasse para Playboy é uma amostra dessa objetificação. É mais uma vez o machismo dizendo que o lugar de mulher é enfeitando. E se a bandeira estivesse fora do padrão de beleza e fosse considerada feia? Ela continuaria sendo desqualificada pelo erro e também por ser feia e não ser capaz de exercer o papel primordial da mulher, que é enfeitar, ser musa.


 

Fernanda Colombo cometeu um erro e seu erro foi considerado um argumento para desqualificar todas as mulheres. O erro da bandeira virou “argumento” contra bandeiras serem mulheres. Foi ela errar, que choveram comentários que afirmam que lugar de mulher não é no futebol. E eu pergunto, quando homens erram ao arbitrar um jogo falam que nenhum homem sabe arbitrar? Falam que futebol e homem não combinam? Falam que homem não entende nada de futebol? Porque é essa a repercussão machista e sem noção do caso: ela errou e o erro dela passou a servir de argumento pra afirmar que todas as mulheres não servem para serem bandeiras. 

 

A desqualificação de todas as mulheres por causa do erro de uma mulher não é exclusividade do futebol. Isso acontece em todos os meios considerados espaços masculinos: uma mulher desrespeita a sinalização de trânsito e causa um acidente e o que é falado é “só podia ser mulher mesmo”, “mulher é barbeira demais” e até absurdos como “mulher tinha que ser proibida de dirigir”. E se esse mesmo acidente for causado por um homem? Nesse caso, apenas o homem causador do acidente será considerado ruim motorista e às vezes o machismo é tão grande, que se esse acidente ocasionado por imprudência do motorista homem envolver uma motorista mulher que estava fazendo tudo certinho na hora, a frase “só podia ser mulher” será ouvida. Além do trânsito, a matemática e as ciências, no geral, são consideradas áreas masculinas e por isso, durante o ensino fundamental e médio, muitas meninas ouvem que mulheres não servem para essas áreas. Uma garota da sala tem dificuldade em matemática e a dificuldade dela, para o machismo, se torna “mulheres tem dificuldade em matemática” e fica por isso mesmo. Enquanto isso, um garoto que não se destaca em matemática jamais ouvirá “é assim mesmo, fulano, homens são péssimos em matemática”, pelo contrário, vai ouvir estímulos para continuar os estudos e obter melhores resultados.

 

O futebol é visto como um assunto masculino e a desqualificação de Fernanda parte do pressuposto de que há lugares para mulheres e lugares para homens e que ela invadiu um lugar masculino e por isso ela merece ser rechaçada por falhar uma vez durante uma partida. Seu erro, para o machismo, é uma prova de que ela não deveria ter saído do seu lugar de mulher. 

 

Jornalismo Punheteiro – tumblr que critica a objetificação de mulheres no meio esportivo.

“Não quero ser musa” – texto do Ativismo de Sofá.

 









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Comentários

2 comments

  1. Bruna Benevenutti Responder

    Ele acha que ela “invade” um lugar que é só dele. É medo, se ele achasse que ela é ruim mesmo, não ficaria insultando ela desse jeito, pediriam simplesmente para a comissão demitir.