#PorqueNãoMeCalo

Por Flávia Simas. Há algumas semanas, uma hashtag linda e feminista tomou conta do Twitter: a #PorqueNãoMeCalo contou com a participação de mulheres de todo o Brasil em solidariedade para com a blogueira Lola, que vem sofrendo com abusos online. A história toda pode ser...

Por Flávia Simas.

Há algumas semanas, uma hashtag linda e feminista tomou conta do Twitter: a #PorqueNãoMeCalo contou com a participação de mulheres de todo o Brasil em solidariedade para com a blogueira Lola, que vem sofrendo com abusos online. A história toda pode ser conferida no próprio blog da Lola, link aqui.

apoio lola

Apesar de não ser adepta do Twitter, eu passei um bom tempo lendo as respostas e ponderando sobre a minha própria jornada de ativismo. Eu não me calo oficialmente desde 2008. Antes de prosseguir com o meu “causo” de hoje, eu sinto que é preciso fazer uma distinção entre silêncio e silenciamento. Parece óbvio, mas quando se trata de mulheres ocupando espaços públicos, inclusive aqueles de domínio virtual, as coisas não são tão simples assim. Deviam, mas não o são.

Então, eu não tenho nada contra o silêncio em si. Existe uma diferença enorme entre ficar em silêncio para organizar sua casa interior, para refletir, aprender coisas novas, e entre ficar em silêncio por medo. O patriarcado funciona, em grande parte, através da insistência no privado. Desde muito pequenas, somos praticamente treinadas a não emitir nossas opiniões, sob pena de sermos ridicularizadas, ou consideradas inadequadas para um relacionamento sério com algum rapaz. Porque tudo, ao menos teoricamente, gira em torno de encontrar um bom partido. Essa dinâmica do público x privado é tão arraigada que não é raro encontrarmos posts condenando a exposição de nossas figuras em redes sociais. Já perdi a conta das vezes em que li que o facebook não é lugar para ‘desnudar a alma’, que roupa suja se lava em casa, e não nas redes sociais – e outras variantes do tipo, que sempre convergem em algo relacionado a manter certas coisas no âmbito privado pelo bem da auto-preservação de uma suposta imagem de respeitabilidade.

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Acontece que quando você percebe que, em se tratando de gênero, o âmbito pessoal é também político, você acaba quebrando um pouco essa dinâmica de omissão em que estamos inseridas. A não ser que você decida se restringir a discutir teorias online, você acaba invariavelmente se expondo. É aí que entra a tensão com muitas pessoas amigas e da sua própria família. Porque a partir do momento que você decide falar sobre a sua própria opressão, você expõe todo um sistema que de certa forma deixa algumas pessoas em uma posição cômoda, em que cada um fica no seu ‘quadrado’, esmerando-se por transmitir a melhor imagem possível de si. E a partir do momento em que você toca em certas feridas, que se interconectam através de opressões diversas como a de gênero, classe e raça, as coisas se tornam ainda mais complicadas. Às vezes o que te resta é o desapego, pois afinal, se você se dispõe a desconstruir em si os seus preconceitos, desapegar daqueles que insistem em continuar em um caminho que você não deseja mais trilhar é fácil.

Então, acerca dessa campanha do #PorqueNãoMeCalo: eu creio que ela se insere dentro deste rompimento de certos paradigmas que o patriarcado nos impõe. O que o sistema espera de uma mulher como a Lola? Ora, obviamente, que ela se esconda, que ela se envergonhe de ser quem é, se sentindo inclusive mal consigo mesma. Seus abusadores se sentem tão incomodados com a existência dela, que eles precisam tentar colocá-la em seu devido “lugar”. Afinal, como é que pode uma mulher se sentir FELIZ consigo mesma e se aceitar e não ter medo de expor suas idéias? Ah, vamos avacalhar, que ela merece! Afinal, tá falando muito, não é mesmo? E assim vai. Uma repórter é alvo de chacotas por não ter um corpo perfeito? Quem mandou se expor! Alguma mulher é vítima de revenge porn? Quem mandou se expor!

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Seria menos pior se toda essa agressividade se restringisse ao ambiente online, mas sabemos que não é isso que acontece. Através da teoria do “comportamento exemplar”, a cultura do estupro pune mulheres vítimas de violência. Se ‘expor’ virou sinônimo de “tava pedindo”. Então acaba que essa dinâmica se transfere para o ambiente online. Em outras palavras: a vítima é culpabilizada tanto no mundo real como no virtual. O que os masculinistas e machistinhas de plantão não esperavam era essa reação de suporte à Lola, com mais e mais mulheres dando um basta nesse silenciamento.

Então, um exemplo recente de assédio que aconteceu comigo me propulsionou a escrever este texto. Infelizmente ele não foi o primeiro, e certamente não será o último, mas com certeza é algo que reforça o #PorqueNãoMeCalo que eu carrego dentro de mim há anos. Eu fiz este post em inglês (para quem está conhecendo o blog agora, eu estou fora do Brasil há 7 anos) no meu blog pessoal. Achei que seria prudente traduzir (mais ou menos) o que eu escrevi lá, como uma forma de demonstrar o porquê dessa minha insistência em não me deixar silenciar. É só através do protesto e da problematização de conceitos arraigados que podemos enxergar formas melhores de lidar com certas situações. O que aconteceu comigo pode simplesmente ser resultado de um louco/maníaco sem noção e sem semancol que encafifou comigo, mas eu acredito não ser a única vítima disso. E acredito que o sistema em que vivemos permite sim e até encoraja a existência de caras desse tipo. Vamos ao ocorrido:

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Há cerca de um mês eu conheci esse cara em uma barraquinha onde eu fazia trabalho voluntário. Nós inicamos uma conversa e eu pude ver que tínhamos muito em comum: imigrantes, ativistas, idealistas. A conversa desenvolveu, e nós nos adicionamos no facebook. Eu o achei meio deslumbradinho ao narrar seus papéis e conquistas na Irlanda, mas nada que me preocupasse muito. Na ocasião, eu o convidei, juntamente com o resto do grupo, a participar comigo de uma outra reunião de ativismo. Era pra tratar de uma outra causa, também relacionada a direitos humanos. Acabou que ninguém pôde ir no final, mas ele foi. Na reunião, ele logo começou a se exibir de novo, e eu comecei a ficar irritada. Um amigo percebeu que o cara era realmente estranho e deslumbrado. Depois da reunião, ele decidiu andar comigo até a minha casa, porque era no caminho da casa dele. Paramos em frente à minha casa, e ele querendo entrar. Eu disse que a casa estava uma bagunça, e que eu o convidaria pra um café outro dia, como alguém que diz AGORA NÃO. Ele ficou lá tentando estender a conversa e eu já estava tão perturbada que eu entrei e literalmente bati a porta em sua cara.

No outro dia cedo, bem cedo, ele me ligou. Eu senti um ar gelado subir e descer a minha espinha, e decidi não atender. Então, ele me mandou inbox no facebook. Eu respondi algo educado, porque eu tinha na minha mente que eu precisava ser amigável. Eu pensei que ele estava apenas sendo irritante, e que talvez ele apenas estivesse empolgado com a nova amizade. Eu honestamente entendo o sentimento. Sabe, como imigrante, uma das primeiras coisas que você percebe ao mudar para longe é o quão difícil é para fazer e manter novas amizades. Como nós aparentemente temos um histórico similar (somos ambas pessoas não-brancas do Sul Global), eu pensei que aquilo pudesse ser apenas uma reação normal de entusiasmo.

Ele continuou me ligando por dias, e eu nunca atendi. Eu pensei que ele ia captar a mensagem e me deixar pra lá. Agora, existe aquela parte em mim que me vê em suas ações. Eu reconheço aqui que eu também sou irritante. Eu reconheço a dimensão cultural das novas amizades. Eu estou aprendendo o jeito “Ocidental” (me refiro a europeus e norte-americanos), que geralmente significa manter uma certa distância. Eu acho que eu já fiz as pessoas se sentirem assim. Só que eu percebo as coisas logo, e deixo as pessoas em paz. Eu me envergonho um pouco, mas acho que eu nunca fui longe demais como esse cara. Afinal de contas, eu fui socializada a me sentir envergonhada o tempo inteiro, e mesmo que a minha cultura permita uma abertura maior, eu geralmente me sinto inconveniente e acaba que isso é bom para a minha sobrevivência aqui, pois eu acabo voltando pra minha concha de novo.

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Apesar de ter parado de me ligar todo dia, ele nunca captou a mensagem completamente. Ele às vezes me chamava no inbox do facebook. Eu o ignorava na maioria das vezes, mas de certa forma me esforcei em ser educada e diplomática. Tipo um dia que ele me convidou para um seminário. Eu respondi que eu estava ocupada, e o agradeci pelo convite. Eu não cheguei a dizer “ah, mas vamos encontrar outro dia”. Então ele tentou iniciar uma conversa no outro dia, e eu realmente não tive ânimo. Então eu acabei deixando o “oi tudo bem” sem resposta.

Na minha opinião, eu sempre tentei ser compassiva e compreensiva. Porque eu me via refletida nas suas ações. Apesar de eu estar ‘vendo’ o pior de mim, eu tentei reconhecer e perdoar e entender. Porque às vezes a gente não percebe que está atrapalhando. Às vezes a gente não percebe que está invadindo o espaço alheio, sendo xereta. Às vezes a gente recebe um pouquinho mais de atenção e acaba abusando de uma pequena abertura dada pela outra pessoa, na ânsia de expressarmos qualquer coisa. Acontece.

Mas então, voltando ao cara. O quê exatamente fez com que ele não percebesse que eu não queria interagir? Quer dizer, eu dei sinais claros que eu não estava interessada em aprofundar nada (não atendi telefone, dei respostas esparsas no facebook, não se tratam de sinais claros que alguém não está interessada?). Bom, eu realmente fico intrigada, mas eu não consigo pensar em nada além de privilégio masculino. Ele estava tentando flertar comigo? Não necessariamente. Eu não sei quais eram as suas intenções. Honestamente, eu acredito que ele só estava empolgado com a nova amizade, e eu posso entender isso. No entanto, quando eu penso em suas ações e as comparo com as minhas, eu realmente entendo que tudo se encaixa nas nossas socializações dentro de papéis de gênero.

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De novo, como eu expliquei acima, eu já sufoquei pessoas no passado. Em conversa com a minha terapeuta, eu percebi que não sou a única. No entanto, o que eu acho perturbador nessa história é o fato que ele não se tocou de jeito nenhum. Considerando o seu histórico, que eu não acho apropriado expor aqui (dica: envolve religião), eu penso que é razoável concluir que ele fez o que fez porque ele achou que tinha o DIREITO de agir assim. Eu não acho que seja apenas coincidência que a maioria dos stalkers seja homem. Eu acredito sim que o gênero tenha um papel nisso, mas parece que a sociedade de forma geral reluta em admitir isso.

Então é isso: ele foi um stalker pra mim. Acredite, pra eu chegar ao ponto de dizer que me senti perseguida, é porque realmente as coisas perderam o rumo. Eu sou muito tranquila quando se trata de falta de noção. Eu considero o meu nível de tolerância bem mais alto que o das minhas amigas, por exemplo. Eu acredito que exista um elemento cultural nisso tudo. Agora que eu vivo no “Ocidente”, eu percebo que o estereótipo de que os latinos são mais impulsivos não é de todo errado. Eu entendo que o que é pouco pra mim é muito pra maioria das minhas amigas (que aqui na Irlanda são em sua maioria européias e brancas). Então sim, mesmo com todos esses elementos sociais em mente, eu me senti perseguida. E intimidada. E insegura.

Então no sábado passado ocorreu a gota d’água. Eu entrei no facebook e vi que tinha mensagem. Quando eu li a mesma, eu não pude acreditar: “Sua foto de capa é hilária… me lembra você :D”. Eu fixei meu olhar naquela palavra: hilária. Eu olhei pra minha foto de capa e não vi nada de hilário nela. Na verdade, eu a escolhi por justamente achá-la bonita, artística e séria. Nunca passou pela minha cabeça que a imagem que eu coloco abaixo poderia ser considerada hilária.

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Daí eu perguntei: “Hilária?”   E ele respondeu: “Cadela no chuveiro – risos! ;)” “Foto engraçada :D” (nota: estou considerando a tradução literal da palavra ‘bitch’, mas o sentido é ‘puta’)

Bom, sem acreditar no que eu tinha lido, e me sentindo totalmente impotente, eu o bloqueei. Eu tirei um print da interação, mas agora eu me arrependo de não ter capturado todas as conversas. Não foram muitas, mas teve aquela em que ele veio ao meu inbox para comentar sobre um vídeo que eu havia compartilhado. Era basicamente um vídeo de dança contemporânea, na minha opinião sobre as dificuldades inerentes aos relacionamentos. Ele viu o vídeo como sendo sexo explícito. Eu pensei que isso era devido ao seu conhecimento de mundo, e não me preocupei muito na hora. Agora eu percebo que eu deveria tê-lo bloqueado ali mesmo, ao invés de aguardar até que as coisas piorassem desse jeito.

Abuse

 

Mas aí, pra piorar tudo, ele me apareceu com um segundo perfil (tipo, oi?) para me dar uma explicação: “O desenho é sexy. Mas eu estava brincando como amigo. Eu não estava flertando. Eu acho que houve um mal-entendido. Boa noite, amiga :)”. Eu respondi, “você não é meu amigo. Por favor não fale comigo”. E bloqueei o segundo perfil, mas eu já estava me sentindo intimidada e insegura novamente. Então eu desativei minha conta do facebook. Porque eu tive medo de que ele aparecesse do nada com algum comentário sem-noção de novo. E não é exatamente isso que os homens fazem com as cantadas de rua? Eles não deixam as mulheres com medo e desconcertadas?

 

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Ele não mentiu, não. Isso não é sobre flerte. Afinal, quem iria acreditar que isso trata-se de um flerte, afinal? Trata-se claramente de colocar a outra pessoa em posição de desconforto. Está claro que se trata de poder. Eu colocaria as ações dele na mesma categoria de cantadas de rua, que também não tem nada a ver com flerte ou cortejo. Trata-se de poder, de uma tentativa de silenciamento, de colocar as mulheres em seus devidos ‘lugares’. Ele provavelmente pensou que já que eu postei algo ‘sexy’, então eu merecia ouvir merda. Eu fui automaticamente colocada por ele na posição de ‘puta’, porque se eu me expus, então eu não poderia reclamar.

Então. Eu sei que o texto está deveras longo, então eu vou deixá-los com alguns questionamentos: Por que nós não podemos ir além dessas hierarquias e tratar todas as pessoas com bondade e respeito? Por que ele não viu em mim a tal da respeitabilidade e decidiu simplesmente fazer esses comentários doentios? Por que nós ainda hierarquizamos as mulheres desta maneira, como se o respeito estivesse diretamente relacionado à nossa capacidade de ficar em silêncio? Como essa divisão público/privado normaliza a cultura do estupro? O que a narrativa da ‘vítima perfeita’ nos diz acerca da nossa cultura como um todo, uma cultura que paulatinamente desrespeita todos que não abaixam a cabeça?

Por fim, eu estava mesmo ‘pedindo’ quando eu postei a imagem?

Muita gente acredita que a resposta à minha última pergunta é sim. É por isso, exatamente por isso, que eu não me calo.

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1 comment

  1. Clevison Responder

    Bom, primeiramente, é muito nobre de sua parte de exposto essa situação constrangedora, segundo que essa pessoa que você conheceu é desequilibrada, simplesmente ele não conseguiu lhe conquistar e a defesa dele foi atacar você com esse tipo de palavras demonstrando a sua pura falta de educação e o quão fraco conquistador é! A mulher tem que ser tratada com carinho e não como um mero objeto, vivemos em um mundo moderno, não existe essa coisa de machismo, homens que vive nesta época são homens de pensamento mínimos que não merecem ser amados e sim tratados.