O mundo da arte e a musificação das mulheres

Texto de Thaís Campolina Guerrilla Girls é um grupo de feministas anônimas formado por artistas que questionam o machismo e o racismo presentes no mundo da arte. O grupo surgiu em Nova York em 1985, há 30 anos atrás, entretanto seus questionamentos continuam bem...

Texto de Thaís Campolina

Guerrilla Girls é um grupo de feministas anônimas formado por artistas que questionam o machismo e o racismo presentes no mundo da arte. O grupo surgiu em Nova York em 1985, há 30 anos atrás, entretanto seus questionamentos continuam bem atuais.

2012Naked
Imagem de Guerrilla Girls – 2012

Numa das imagens mais famosas do grupo, há a pergunta: “Mulheres tem que estar nuas para estarem no Metropolitan Museum of Art?” E também a informação de que em 2012 havia menos de 4% dos artistas mulheres presentes nas seções de arte moderna, enquanto 76% das imagens nuas são de mulheres. Recentemente, a imagem foi editada e passou a perguntar sobre precisar estar nua para aparecer em clipes de música, enquanto os caras estão 99% das vezes vestidos.

O mundo da arte é um reduto masculino, branco e extremamente elitista. A história da Arte (e de toda a nossa sociedade) é contada pela ótica masculina, branca e ocidentalizada, enquanto isso, a maior parte das produções que fogem dessa tríade são negligenciadas e acabam sendo apagadas da narração da história que conhecemos.

Há uns meses atrás, eu vi a chamada de uma série documental que unia dois assuntos que gosto muito, que é arte e mulher. Inicialmente, pensei que a intenção da série era comentar o trabalho de grandes artistas do país, como Tarsila do Amaral, Tomie Ohtake e Anita Malfatti. Também cheguei a pensar que era uma série que buscava artistas atuais e tinha a intenção de divulgar seus trabalhos, suas motivações e suas dificuldades, mas não, a série tratava de um artista plástico que viaja pelo Brasil e pinta mulheres nuas. O jeito que a série foi construída nos leva a crer que a intenção era colocar a beleza da mulher brasileira como um patrimônio nacional, o que é claramente objetificador.

Desde então, eu não me canso de me perguntar “O que há de novo em encarar a mulher sob a ótica masculina?”, “O que há de novo em colocar homens pra retratar mulheres sendo que há tantas mulheres artistas fazendo o mesmo e buscando um espaço nesse reduto masculino que o mundo da arte é?”. Artistas homens elegendo musas e enaltecendo suas características físicas e dizendo que toda sua obra se baseia nelas está presente no mundo da arte desde sempre e é só mais um sintoma de como mulheres são vistas como inspiração ou algo que enfeita e não como indivíduos capazes de produzir arte, ciência, lutar pelo que acreditam e que vão muito além de formas harmoniosas que agradam aos olhos.

Sabe quando os portais midiáticos elegem musas nas olimpíadas e ignoram que as eleitas são atletas, buscam uma medalha, representam um país e as resumem a um corpo bonito para atrair clique? A musificação no mundo do arte objetifica da mesma forma, só que com status de arte que faz com que tudo pareça mais aceitável.

Privilegiar essa ótica masculina que se baseia em homenagear a mulher enquanto forma, corpo, beleza e na busca da “essência feminina” reproduz a objetificação, o padrão de beleza e o machismo. O machismo se faz presente porque reduz a existência da mulher a um corpo bonito e não a uma pessoa completa com sentimentos, sonhos e personalidade, além de exaltar o comportamento feminino culturalmente definido como aceitável.

Nossas obras continuam fora das galerias, exposições, livrarias e cinemas, enquanto o corpo designado como feminino continua sendo explorado.

Bons links:

Não quero ser musa!” do Ativismo de Sofá

Me trate como gente” do Lugar de mulher

Site oficial do grupo Guerrilla Girls (em inglês)

Documentário “Mulheres Desenhadas”, criado por Raquel Vitorelo.


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