Seu blackface terá nosso backlash. Sempre.

Texto de Flávia Simas.  ...

Texto de Flávia Simas.

 

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Cena da peça que foi cancelada pelo Itaú cultural. Imagem retirada do facebook.

 

Blackface: maquiagem utilizada por atores brancos para representar pessoas negras.

 

Backlash: uma forte reação negativa por parte de um grupo, relativa a algum evento social ou político.

 

Pois bem. Resolvi colocar as definições (bem simplificadas) acima para facilitar a vida de quem porventura não tenha compreendido o título do meu texto. Pretendo discutir, de forma breve, o último episódio de racismo em nome da “arte”, que gerou uma imensa quantidade de protestos por parte de pessoas negras de todo o país. Trata-se da peça A Mulher do Trem, da Cia teatral Os Fofos Encenam, que seria encenada no Itaú Cultural no dia 12/5 e que foi cancelada devido ao backlash das pessoas que se sentiram ofendidas. Esse tipo de ação revela muito sobre o poder da mobilização em redes sociais e, ainda que seja lamentável que os diretores da peça ainda não consigam compreender a dimensão do racismo embutido em tais manifestações artísticas, um primeiro passo já foi dado em direção ao aprofundamento do debate acerca do racismo estrutural e das relações de poder que permeiam a nossa sociedade.

 

Fiquei sabendo do ocorrido meio tarde. Jarid já havia postado a respeito aqui (como sempre, em um texto excelente). Lendo os comentários em seu texto e em posts diversos de facebook, fiquei estarrecida com a quantidade de pessoas brancas tentando justificar o injustificável. “É arte!” bradaram umas. “Liberdade de expressão!” gritaram outras. Houve até quem tentasse justificar o blackface – com muito academicismo – através de uma teoria de ‘arquétipos’. Sim, pra essa gente, a visão estereotipada da pessoa negra é nada além de um arquétipo. Ao ler tais comentários eu só pude pensar no quão arraigado é o racismo na nossa sociedade. E talvez foi o que me motivou a traçar essas pequenas linhas de descontentamento, ainda que me encontre em celebração ao fato de que a peça fora cancelada.

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Evento do facebook: terça sem teatro

De acordo com o Itaú Cultural, ao invés da peça, haverá um debate acerca das questões levantadas, creio eu que seja acerca do racismo e espero, sinceramente, que atores, diretores e todas as pessoas (geralmente brancas) que defendem o blackface percebam o quão contraproducente é o resgate de tais técnicas artísticas que só existiram porque o racismo existe. Sim, pelo que entendi do engodo todo, a peça se encaixa numa série de espetáculos que visam resgatar as tradições circenses de improvisação numa espécie de esforço para recuperar valores culturais como o teatro melodramático, que fora colocado em um patamar de marginalidade ao longo dos anos (segundo essa fonte aqui).

 

Longe de mim querer desmerecer todo o trabalho de pesquisa feito pela equipe teatral liderada por Fernando Neves. Foi interessante ler que o Neves tem uma motivação pessoal para seguir adiante com o seu projeto (a reportagem que li diz que ele vem de uma família que dirigiu um famoso circo-teatro no Brasil). Eu entendo a motivação. O que me falta entender é que com todo esse esforço e investimento em pesquisa, não tenha sido possível aos diretores da peça perceberem que em pleno século XXI não dá mais para continuar a repetir os erros dos nossos antepassados, por mais ‘inocentes’ que possam parecer.

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Blackface: velho e bom racismo

Sim, há toda uma teoria, há toda uma tradição por trás do blackface, que a própria trupe se encarrega de elucidar em sua página do facebook:

 

“A partir da observação do Homem em diferentes regiões, os artistas circenses elaboraram máscaras que, como na Commedia Dell’Arte, representam tipos sociais e portanto revelam e amplificam as relações daquela época, incluindo inevitavelmente relações de poder que retratavam a sociedade brasileira do final do século XIX até meados do século XX. A máscara do negro faz parte desse painel e, portanto, não podemos ignorá-la assim como a nenhuma outa máscara do nosso universo de pesquisa. A máscara do negro foi forjada por todos os circos e em todos eles apresenta as mesmas características (assim como a máscara da ingênua, do galã, da patroa megera, etc) o que revela o seu caráter de máscara operadora de uma linguagem e, portanto, mesmo que seja um ator negro a representar a personagem ele terá que pintar o rosto de preto. Assim como as trupes de teatro popular buscavam escancarar as relações sociais vigentes, com o objetivo de questioná-las e eventualmente transformá-las, Os Fofos Encenam buscam na sua expressão artística lançar um olhar sobre a sociedade em que vivemos”

 

Apesar de entender perfeitamente como a máscara da ingênua, a do galã, a da megera possam funcionar como arquétipos para o entendimento geral do público, não consigo pensar em nenhuma outra motivação que não seja simplesmente a exotificação da figura negra, com uma visão que nada mais é que uma interpretação racista daquilo que artistas brancos imaginam acerca da cultura e aparência de pessoas negras. Não enxergar isso trata-se de um privilégio. Infelizmente, ao apontarem tais privilégios online, muitas negras foram chamadas de ‘antas’ por pessoas ligadas ao teatro (e se eu compreendi bem, de pessoas ligadas à peça).

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Resolvi postar, ainda que tardia e redundantemente, essa nota de repúdio ao uso do blackface por qualquer companhia artística ou teatral, pois há pesquisas e mais pesquisas acerca dos malefícios de tais práticas (tais como a perpetuação de estereótipos que cimentam uma idéia de inferioridade de todo um grupo diversificado de seres humanos). Em outras palavras, não, não vamos mais nos calar. Sempre que houver blackface, nós responderemos com backlash. Se isso implica em termos que ouvir ainda mais insultos, que seja. Afinal de contas, a Audre Lorde já nos ensinou que não dá para destruir sistemas de opressão com as ferramentas do opressor. E o Augusto Boal já nos ensinou que o teatro não deve se basear no monólogo, e sim no diálogo, e se não ocorreu nenhum tipo de diálogo com a população negra acerca dessa representação esdrúxula (e lembrando que cor de pele não é linguagem, não é arquétipo), então o que nos resta é protestar.

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Augusto Boal, teatrólogo, idealizador do Teatro do Oprimido. Retirado do Google.

 

Não tenho muitas esperanças que as pessoas – como já disse, em sua maioria brancas – entendam a dimensão do erro tão cedo (ainda teremos que ouvir muito que é mimimi, histeria coletiva, burrice, que somos antas). Mas acredito sim que esse cancelamento da peça, para que um debate ocorra em seu lugar, seja um passo necessário no processo de humanização da pessoa negra brasileira. Não poderei participar do debate dia 12/5, mas faço coro com todas as pessoas que dirão, em alto e bom tom: revejam seus privilégios. Melhorem! 


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