A naturalização da violência contra a mulher em frases do cotidiano

Imagem de uma mulher negra com a frase “Violência contra mulher também é problema seu. Ligue 180” Thaís Campolina A...

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Imagem de uma mulher negra com a frase “Violência contra mulher também é problema seu. Ligue 180”

Thaís Campolina

A violência contra a mulher é sistêmica e se apresenta de diversas formas, desde a violência simbólica através da desumanização/objetificação do gênero feminino e a violência psicológica até o estupro e o feminicídio. E se faz presente em diversos espaços: na rua, em casa, no parto e até no ambiente virtual. E o que elas têm em comum? Machismo, misoginia e a naturalização de tais opressões em comportamentos e discursos.

A naturalização da violência contra a mulher coloca as agressões dentro de um relacionamento como um descontrole, um mero desentendimento, um problema privado e até mesmo como algo motivado pela própria vítima e essa culpabilização faz com que o silêncio e a vergonha façam parte do cotidiano de muitas mulheres.

Um político, agressor confesso de uma mulher, deter um cargo público e ser pré-candidato à prefeitura de uma das maiores cidades do país e falar sobre a agressão nos grandes jornais como um episódio de descontrole só mostra como a normalização de tais violências está internalizada em nossa cultura.

Muitas falas que achamos inofensivas, muitas vezes, contribuem para a violência misógina ser tão naturalizada e acabam por legitimar, socialmente, as agressões. É necessário refletir sobre elas e deixar de usá-las. Os discursos mais comuns são representados pelas frases, a seguir:

Falar “Ele te bateu porque gosta de você” para crianças

Essa frase coloca a violência como uma forma de demonstrar amor/carinho/afeto. É comum ser dita para meninas quando elas apanham na escola de meninos. Falar isso para crianças é ensinar que a violência faz parte do amor. Essa frase muitas vezes sofre variações como “meninos são assim mesmo, não sabem demonstrar como sentem e fazem isso”.

O uso do termo “crime passional”

O termo implica que o crime foi motivado por amor, paixão. Sendo que não é o amor, paixão ou desejo que motivam o crime e sim a ideia de que a mulher é um objeto do parceiro. Usar esse termo é ignorar que há uma desumanização da vítima, por parte do agressor, já que ele não a vê como sujeito de vontades, sentimentos e com direitos.

“Chamar um feminicídio de crime passional é ignorar os aspectos culturais que induzem homens acharem que mulheres são propriedade deles e assumir que paixão/amor são capazes de fazer pessoas agirem com tamanha violência. Sendo que não é o amor, paixão ou desejo que motivam essa violência e sim as relações de poder e a naturalização de relacionamentos abusivos como românticos.”

 Falar que há mulheres que gostam de apanhar

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“Não existe mulher que gosta de apanhar. O que existe é mulher humilhada demais para denunciar, machucada demais para reagir, com medo demais para acusar e pobre demais para ir embora”

Muitas vezes a mulher agredida não denuncia por medo de ser assassinada, dos filhos sofrerem agressões ou de perder a guarda deles. Além do medo, a dependência emocional, a dependência financeira e até mesmo a vergonha/sentir culpada também influenciam que mulheres não denunciem seus agressores. É preciso parar de usar essa frase porque isso só intensifica a culpabilização da vítima e faz com que mulheres se mantenham em silêncio sobre o que passam ou passaram.

 Falar “mas ela deve ter feito alguma coisa pra que isso acontecesse”

Esse frase é um exemplo de culpabilização da vítima. Ao falar “ela provocou”, você coloca a vítima como responsável pela violência sofrida. Você ameniza o que o agressor fez. A mulher que sofreu um estupro não precisa falar sobre as roupas que usava, sobre seu histórico sexual, sobre consumir ou não bebida alcoólica, porque tais comportamentos não a fazem mais ou menos vítima. Quando as pessoas insistem em falar “ela deveria ter escolhido melhor com quem se relacionar” também é culpabilização da vítima. O discurso de culpabilização alimenta o silêncio e a vergonha das vítimas de violência e muitas, por temer o estigma, deixam de fazer boletim de ocorrência.

A agressão e o estupro não são culpa da vítima. Mesmo que ela tenha traído o marido, isso não justifica um assassinato ou uma agressão, por exemplo.

Alimentar o mito de que ciúme é prova de amor

Controle motivado por ciúme não é amor e não é romântico. Precisamos parar de falar que controlar as roupas da parceira é uma forma de demonstrar afeto ou de se mostrar preocupado com o relacionamento, por exemplo. Controlar o que a parceira veste, com quem ela conversa, onde ela vai, proibir que ela faça algo não é sintoma de paixão, é sinal de que o relacionamento é abusivo, nada saudável.

Falar para a vítima “Se você for melhor, talvez ele mude”

Essa é mais uma forma de culpar a vítima pela violência sofrida, afinal, põe a responsabilidade da mudança nas ações dela e não do agressor. A frase, além de tudo, é irresponsável, porque incentiva que a vítima continue a se relacionar com o parceiro violento. Quebrar o silêncio e sair de um relacionamento abusivo é muito difícil e a pessoa precisa receber apoio de amigos e parentes e não ouvir comentários culpabilizadores.

A cultura machista influencia em tudo: em como o judiciário vai aplicar a lei, em como os profissionais de saúde e os policiais atenderão a vítima de violência e em como vamos encarar a violência sofrida por uma mulher em nosso cotidiano. E é por isso que é preciso desmistificar tais discurso.

Petição que pede a exoneração imediata do Pedro Paulo: http://www.prefeitodeoexemplo.meurio.org.br/

Leia também alguns textos do Ativismo de Sofá sobre a Lei Maria da Penha:

“Machismo e a naturalização da violência psicológica”
“Esquerda, tem que ver esse machismo aí”
“E a igualdade?”
“Violência doméstica não é piada”
“Feminicídio e misoginia: por que é tão importante usar essas palavras?”









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