Guardei no Armário: descobrir-se homossexual para um homem negro e ex-evangélico

Samuel apresenta seu livro em evento Samuel...

Samuel apresenta seu livro em evento
Samuel apresenta seu livro em evento

Samuel de Paula Gomes é ativista das causas LGBTs, designer gráfico e toca um projeto chamado “Guardei no Armário”. O projeto é composto por um livro e um canal no Youtube de mesmo nome e se originou devido aos anseios do autor para se entender. Samuel é um jovem paulistano, gay, periférico, negro e ex-evangélico. Seu processo de descobrir-se homossexual perpassou por questões como a pressão exercida pela Igreja e o medo do inferno e foi registrado por ele através de textos em um blogue, que posteriormente se tornou um livro.

A iniciativa de Samuel com o “Guardei no Armário” é fantástica porque desperta a empatia em quem não vive os conflitos de se descobrir gay numa sociedade homofóbica e excludente e ajuda quem está passando por esse momento e precisa de um apoio. Num país em que a maioria dos escritores no mercado editorial são homens brancos, Samuel resiste como escritor e conta sua história e apresenta ao leitor também a resistência do negro e do periférico. Conheça melhor o projeto e as intenções dele nessa entrevista:

O que te motivou a escrever sobre ser gay, negro, periférico e ex-evangélico num blog e transformar isso posteriormente em um livro? Como foi o processo de escrita?

Esse blog nasceu despretensioso, com a intenção apenas de registrar minhas memórias, conquistas e histórias que tinha contato. Através dos comentários que recebi nele durante os quase cinco anos que o alimentei e por mais dois amigos, eu fui incentivado a reescrever minha história, minhas lembranças e todo conhecimento literário que tive ao longo desse processo de aceitação em um livro. Foi um processo doloroso, pois tive que relembrar coisas que marcaram minha vida dentro da igreja. Lembrar de amigos que não fazem mais parte da minha vida hoje, das decepções, dos medos, das pregações dentro da igreja que me condenavam. Nesse processo, percebi o quanto cresci e como era importante ter um livro como esse.

Minha vida já estava mais estabilizada, já havia me formado (fui prouni) e tinha guardado uma grana para fazer um intercâmbio, mas vi nessa ideia uma oportunidade de ajudar outros “Samucas” como eu. Usei esse dinheiro do intercâmbio para pagar todos os custos que teria para a produção e lançamento do livro. Enquanto escrevia o Guardei no armário, percebi que seria prepotência demais falar sobre meu processo de aceitação como sendo o único caso a ser conhecido. Tem tanta gente com histórias diversas sobre esse assunto que abri um canal só para elas serem ouvidas. Foi assim que nasceu o canal Guardei no armário no youtube. Entrevisto outros lgbts com a intenção de saber por quais caminhos passaram até se aceitarem, terem o respeito da família e da sociedade.

Quem surgiu primeiro: o livro em si ou o projeto?

O que surgiu primeiro foram minhas dores e questionamentos em relação a quem eu era. Desde os 4 anos já sabia que meu interesse não era por meninas, mesmo na inocência de uma criança, os afetos, os carinhos e os suspiros desde aquela idade eram para os coleguinhas. Levei essas dúvidas comigo até o começo da minha vida pós colégio. Iniciada a faculdade, com novos amigos e condições para passar numa psicóloga, pude conversar com pessoas na internet e com ela, para poder dizer o que eu sentia. Depois que as sessões acabaram, senti uma necessidade de registrar num blog tudo que falaria pra ela nas sessões. Foi assim que surgiu o Guardei no armário (na época ele se chamava Dupla vida, pois ainda vivia uma vida dentro da igreja e outra fora dela). O blog cresceu junto com o meu amadurecimento. Comecei a participar de uma ong lgbt “Projeto Purpurina”, que me deu uma bagagem muito maior sobre o mundo da qual até então eu não fazia parte.

Escrever sua história deve ter sido dolorido e provocado muitas reflexões relacionadas ao autoconhecimento, você acha que seu livro pode ajudar jovens a se conhecerem melhor?

Eu não sabia que tocaria tanto as pessoas com esse meu livro e projeto. A ideia de fazê-lo veio da necessidade de mais referenciais positivos dentro meio literário negro e lgbt. Semanalmente recebo mensagens por e-mail ou mesmo no canal no youtube, de pessoas que através desse projeto, conseguiram um pouco mais de forças para seguirem lutando. Essa mensagem que deixo aqui, foi de uma das leitoras do livro: “Sobre o livro guardei no armário? Só tenho que parabenizar meu amigo Samuca pois teve a coragem de escrever sobre a vida dele como muitos não teriam a coragem de se abrir. Me identifiquei muito com o livro e algumas partes me tocou muito. Foi difícil conter as lágrimas. O medo e a angústia de guardar tudo isso dentro de nós por medo da reação dos nossos pais, família, amigos e igreja faz com que fiquemos sem rumo sem saber com quem se abri. Estou recomendando o livro pra todos que eu conheço até para minha mãe. Depois de ler tudo isso me deu mais forças para sair do armário… Orgulhosa de você Samuca que venha mais lançamentos nessa sua nova e grandiosa fase”

Muito se discute hoje sobre representatividade. Na literatura, por exemplo, a maioria dos autores seguem sendo homens brancos. Qual a importância que você dá ao assunto? O que você tem a falar sobre?

Participei da Bienal do Livro e fui pessoalmente andar pelos corredores e questionar a falta de diversidade dentro da literatura nacional. Isso é comprovado pela pesquisa da professora, escritora e crítica literária brasileira Regina Dalcastagnè. Ela fala dos números de protagonistas negros na literatura nacional. Mais de 72% dos escritores são homens e mais de 90% são brancos. Mais de 80% dos personagens na literatura nacional são heterossexuais, quase 80% são brancos. Mais de 70% são homens e a maioria dos personagens que não são homens brancos tem papel coadjuvante. Um dado ainda mais assustador é que mais de 55% dos romances nacionais sequer tem um personagem que não seja branco. Enquanto isso, mais de 55% dos adolescentes negros retratados nos romances brasileiros são dependentes químicos. Vivemos numa época onde necessitamos nos ver representados. Cresci sem tantos referenciais negros ou lgbts e sei hoje o quanto esses poucos foram importante pra mim. O jovem da periferia precisa ter interesse pela literatura e talvez isso só aconteça quando as publicações literárias também forem feitas pela periferia, como é o caso do meu livro.

Projetos como esse no atual momento que estamos vivendo é necessário. Eu sou um grande incentivador de sonhos e projetos pessoais que tenham como base principal a empatia e o empoderamento das minorias. Cresci em meio a uma cultura muito fundamentalista, rígida, racista e machista. Eu entendo a importância que a igreja tem dentro da periferia, o papel socioeconômico. Quando eu frequentava a igreja, me sentia parte de um grupo, mas é necessário ser crítico e ficar sempre atento para o poder dela sobre os direitos individuais. Não cabe a igreja dizer como deve ser meu corte de cabelo, as roupas que uso ou a pessoa que amo.

Quais os próximos passos do seu projeto?

Colocar o livro nas grandes livrarias desse país a preços acessíveis, pois meu objetivo é falar com o maior número de pessoas possíveis. Acredito muito no potencial que esse livro tem para gerar empatia nas pessoas e ensiná-las a reconhecerem seus preconceitos e deixá-los de lado. O projeto também está ganhando muitos seguidores no youtube e venho recebendo muitos convites para palestrar e participar de eventos que falem de periferia, afrohomoafetividade e empoderamento negro. Isso está me dando muito animo para ampliar ainda mais o conteúdo do Canal Guardei no armário. Uma novidade que ainda não tinha falado pra audiência é que estou produzindo alguns episódios especiais para o canal. Em novembro, por ser o mês da consciência negra, teremos uma série de vídeos só com negros e negras falando sobre o processo de aceitação, mas também falando sobre representatividade com as conquistas que tiveram nas suas vidas. Em dezembro o canal terá um série especial sobre saúde. o “No armário – Saúde sexual”, terá a ajuda de especialistas no assunto que serão tratados nos vídeos e agora para dezembro teremos um especial sobre HIV.

Site: www.guardeinoarmario.com

Facebook: www.facebook.com/GuardeiNoArmario

Youtube: www.youtube.com/c/guardeinoarmariooficial

Texto por Thaís Campolina.