Prosa livre: representatividade, cultura pop e ativismo

O espaço virtual, nos últimos anos, se tornou um espaço de resistência e militância para muitos grupos sociais. A internet e as redes sociais são vistas por muitos ativistas como uma forma de ampliar o alcance de seus discursos e hoje vemos vários blogs,...

O espaço virtual, nos últimos anos, se tornou um espaço de resistência e militância para muitos grupos sociais. A internet e as redes sociais são vistas por muitos ativistas como uma forma de ampliar o alcance de seus discursos e hoje vemos vários blogs, sites, páginas de Facebook divulgando ideias, comentando notícias, marcando atos e eventos.

O Prosa Livre é um desses espaços de resistência. Criado e alimentado por Artur Francischi, com arte de Jean Carlos Gemeli, o site fala bastante de representatividade e através de entrevistas e matérias, Artur dá voz a vários grupos sociais. Com o foco na cultura pop, famosos, acontecimentos virtuais e estímulo de bons projetos, Artur trata de assuntos que poderiam ser encarados como difíceis de uma forma acessível, didática e mais leve. Bati um papo com o Artur sobre o projeto, suas motivações e sobre representatividade.

Como surgiu o site Prosa livre?

Artur: O Prosa Livre surgiu em 2014, logo depois que eu acabei a faculdade de jornalismo em dezembro de 2013. Eu achei que seria legal ter um espaço onde eu pudesse escrever e, quem sabe, alguém leria e me contrataria pra trabalhar. Essa era a minha ideia inicial. Antes de começar, eu havia lido que eu precisava me prender a um tema específico. Só que eu não sou especialista em nada, aí pensei: vou escrever sobre tudo. Não queria me limitar. E se você for pro começo do blog, vai ver que a cada dia saía um post diferente. Foi no começo de 2015 que eu peguei firme mesmo com entretenimento e questões sociais, porque são duas coisas que eu adoro. E acho que o entretenimento chega a tantas pessoas, principalmente os jovens, que seria legal levar a eles exemplos positivos que merecem ser encorajados, e temas que precisam ser mais conversados.

Suas pautas sempre tratam em algum nível de questões relacionadas ao ativismo feminista, LGBT, negro, de direitos humanos num todo, isso é uma questão para você na hora de escolher as pautas? Se sim, por qual motivo?

Artur: Eu acho que a gente precisa levar essas discussões para o maior número de pessoas, principalmente pros mais jovens, porque eles consomem muita cultura pop. Então é legal que elas entendam quais mensagens são positivas e entendam quais não são, mesmo que as consumam mesmo assim. Assim nós vamos formando pessoas mais conscientes e que podem, de alguma maneira, repensar a sociedade e mudar a forma como ela é estruturada. Parece um sonho maluco, mas é uma pessoa que começa a olhar pra si e pro outro de forma diferente, e a gente já tá fazendo uma revolução. Mesmo que seja pequena, lenta e silenciosa.

Representatividade importa?

Artur: Para falar sobre representatividade e sua importância, eu sempre lembro do adolescente que eu fui: confuso, inseguro, que escondia a sexualidade por conta do medo do bullying dos colegas de escola (o que já acontecia diariamente) e da reação dos familiares. Eu não me encaixava em nenhum grupo, e até me afastava de outras pessoas consideradas gays ou lésbicas pelo pessoal da escola. Eu tinha medo de que pensassem que eu era um deles. Eu vivia com medo. Lembro daquela novela “América”, na qual o personagem do Bruno Gagliasso daria um beijo em um outro rapaz no último capítulo. Eu não era muito de ver novela, mas lembro de ter ficado curioso para ver aquilo. Eu não tinha consciência de representatividade, mas queria muito ver o beijo. Porém, como a gente sabe, ele foi cortado. Não foi ao ar. Fiquei muito decepcionado. Fui ver outro beijo gay em 2011, no seriado “Glee”. Eu revi aquela cena várias vezes, porque não acreditava que eu estava mesmo vendo dois rapazes se beijando e trocando carinho e afeto. Mas até então, eu achava que aquilo jamais aconteceria comigo, eu achava que aquilo só poderia existir nos Estados Unidos. Aqui no Brasil eu jamais poderia ser feliz daquele jeito. Até que assisti o beijo entre o Félix e o Niko na novela “Amor à Vida”. Quando vi aquilo, senti que eu também tinha direito a ser feliz. Aquilo me fortaleceu muito, foi como se eu tivesse finalmente tido a “permissão” para ser quem eu era. Pouco tempo depois, contei à família e aos amigos que eu era gay. Foi como se um peso tivesse saído de mim. Então, eu acho que representatividade importa porque ela nos ajuda a acharmos nosso lugar no mundo. Ela nos ajuda a fortalecer nossa identidade e ainda colabora para que outras pessoas possam compreender e ter empatia por indivíduos com quem não se parecem.

O Prosa Livre tem dois anos, não é? Nesse meio tempo, quais foram as matérias e quais os comentários que você recebeu que te fez pensar que valia a pena continuar?

Artur: O blog tem dois anos e meio. De lá pra cá, eu mudei muito e aprendi muita coisa com o que escrevia e com o feedback das pessoas, embora eu ainda fique muito nervoso antes de publicar algo, pois ainda não aprendi a lidar com críticas muito bem.

Acho que os textos sobre como foi sair do armário pra mim, meu primeiro beijo da vida aos 24, e algumas entrevistas que realizei com algumas pessoas, como a April Reign, criadora da hashtag #OscarsSoWhite, estão entre as matérias que mais gostei de fazer. O feedback e a oportunidade de conversar com alguém tão diferente da minha realidade me motivaram a continuar em frente, apesar de que às vezes penso em desistir. Escrever em blog é mais trabalhoso do que as pessoas acham.

O que te motiva manter o Prosa Livre em atividade?

Artur: Me motiva saber que estou plantando uma sementinha boa na internet. Infelizmente a gente vê tanta coisa ruim ou conteúdo que não acrescenta em nada por aí, que me deixa feliz ver que eu vou na contramão disso. É um projeto pequeno, mas que sei que faz algum bem nesse mar de informações.

O que você espera alcançar com o site? Você tem intenção de ampliar o Prosa Livre e levá-lo para outras plataformas?

Artur: Eu espero que ele cresça mais e chegue a mais pessoas, embora eu também tenha um pouco de medo disso, porque, comunicar pra mais gente é muita responsabilidade. Mas quero que ele cresça e que atraia marcas que queiram anunciar ou fazer ações com ele. Claro que não toparia nada que fugisse da linha editorial do Prosa Livre, mas há espaço sim para que isso aconteça. Monetizar meu blog é um sonho ainda.

Eu penso em começar a fazer vídeos nas redes sociais do Prosa Livre, transformando alguns posts em vídeos, já que muita gente prefere assistir a ler alguma coisa na internet hoje em dia. E pretendo fazer uma newsletter! Já tenho uma ideia de como ela será, espero que eu consiga transformá-la em realidade logo.

Por Thaís Campolina









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