Os diversos “e eu com isso?” que a sociedade manifesta quando se fala de crimes contra mulheres

Por Thaís Campolina Jane Fonda revelou ter sido estuprada durante a infância e mais velha, assediada no trabalho. Alexandre Garcia, jornalista, comentou essa notícia dizendo “E eu com isso?”. O comentário dele choca pela insensibilidade, mas não é uma novidade num mundo que considera...

Por Thaís Campolina

Jane Fonda revelou ter sido estuprada durante a infância e mais velha, assediada no trabalho. Alexandre Garcia, jornalista, comentou essa notícia dizendo “E eu com isso?”. O comentário dele choca pela insensibilidade, mas não é uma novidade num mundo que considera a violência masculina contra as mulheres algo que não é problema de todos.

O “e eu com isso?” se manifesta de diversas formas quando a gente fala de crimes contra mulheres. Esse texto, busca expor e contra-argumentar algumas delas:

Julgar justo que um homem considerado um feminicida se torne novamente um ídolo do futebol

Bruno foi condenado em primeira instância por homicídio, sequestro, cárcere privado e ocultação de cadáver. Bruno aguarda a análise do recurso de defesa dele na segunda instância e por isso conseguiu um habeas corpus para que possa aguardar a decisão em liberdade, conforme o direito prevê. Ao vê-lo solto, nove clubes manifestaram interesse no passe dele. Bruno ficou preso quase sete anos sem treinar, mas ainda assim, times consideraram contratá-lo simplesmente por verem isso como uma forma de chamar atenção. Aparentemente, para o mundo do futebol, contratar um feminicida é marketing. É preciso lembrar que o futebol cria ídolos e ele ainda é considerado ídolo de muitos e esse tipo de ação naturaliza que ele continue sendo visto dessa forma.

Além disso, a mídia tem tratado o caso de uma forma que faz com que essa “estratégia de marketing” faça algum sentido, já que eles tem dado muito espaço para tudo que Bruno e seu advogado falam e o tratam sempre como “ex goleiro”, jamais como “condenado em 1ª instância pela morte de Eliza Samúdio”. Esse sensacionalismo e humanização da figura do Bruno ajuda a naturalizar a violência contra a mulher ao ponto de um cara vestir de cachorro para tirar foto ao lado dele, por exemplo. Num país que é o 5º lugar num ranking de “quem mata mais mulheres” e tem um histórico de negligência e impunidade nos crimes contra nós, essa postura alimenta um “e eu com isso?” coletivo.

Não ver problema nenhum em homens denunciados por violência de gênero continuarem suas carreiras com muita facilidade

As pessoas podem mudar, claro. Só que homens que são denunciados por violência de gênero continuam fazendo seus filmes, suas turnês e ganhando prêmios com uma facilidade enorme. Eles são intocáveis. Quando as denúncias continuam sendo ignoradas pela indústria do cinema, gravadoras e premiações, a gente percebe que o suposto talento desses homens é visto como algo mais importante do que o que eles fizeram.

Desqualificar a vítima ao se deparar com uma denúncia de violência de gênero.

Quando uma notícia de violência toma as manchetes, sempre há quem diga “ela provocou”, “o que ela fez, hein?”, “era uma vadia”, “o que ela estava fazendo nesse lugar?”. Não só duvidam da vítima, mas também a desqualificam como merecedora de respeito. Quando falam “ela deve ter feito alguma coisa”, o que se entende é que se a vítima é mulher, dependendo do comportamento dela, há justificativas para os atos criminosos que a vitimaram. Isso é desumanização e é um gigantesco “e daí?”, já que coloca crimes contra mulheres como algo que tem uma motivação plausível, um fundamento compreensível.

Dizer “e eu com isso?” ou “quer ganhar mídia” quando se depara com um relato de violência feito por uma mulher

Quebrar o silêncio numa sociedade que desqualifica e culpa a vítima é um desafio. Mulheres, mesmo anônimas, são acusadas de buscar fama ao relatarem violências sofridas. Isso é mais uma forma de desqualificar a vítima e seu relato e ignora que denunciar pode ser muito difícil, especialmente em casos que envolvem relacionamentos abusivos.

Quando uma mulher pública ou não relata algum episódio de violência, ela o faz por saber que isso pode ajudar mulheres a se sentirem menos culpadas e a denunciarem. Sendo famosa, isso tem um alcance bem maior. Dizer “e eu com isso?” quando uma famosa relata um estupro do passado ou mesmo uma agressão doméstica atual é uma forma de desprezar o relato e o que ela sofreu, além de ignorar os efeitos que isso pode ter na vida de vítimas anônimas.

Além disso, é preciso ressaltar que Alexandre Garcia, enquanto jornalista, ter dito “e eu com isso?” coloca a notícia sobre o estupro sofrido por Jane Fonda quando criança como algo que não é notícia, é uma espécie de fofoca, e isso ignora não só os efeitos positivos que quebrar o silêncio publicamente pode ter, mas também coloca crimes como mulheres como algo que não é de interesse geral, o que alimenta a ideia de que a violência contra a mulher não é um problema social.

Dizer “e os homens?”

Muitos dos que dizem “e eu com isso?”, por exemplo, alegam que especificar que uma mulher foi vítima de um crime por causa de seu gênero é pregar a desigualdade ou ignorar os homens também são assassinados, agredidos e estuprados, mas não é bem assim. Homens também sofrem violência e essa violência também é condenável, a questão é que mulheres sofrem violências específicas que não são bem combatidas se a gente ignora essas especifidades.

Dizer “e os homens?” é uma forma de negligenciar a violência sistêmica que atinge mulheres por serem mulheres. Feminicídios, estupros, agressões e assédios contra mulheres devem ser vistos como assuntos de interesse geral, o fato das vítimas serem mulheres não torna o problema menor. É preciso reconhecer a misoginia como motivador de alguns crimes para que o combate deles seja efetivo e para isso, é preciso perceber que a violência não atinge os seres humanos de uma forma igual, ela vitima grupos vulneráveis de acordo com suas especifidades. Mulheres são um desses grupos, assim como crianças, idosos, pessoas negras, LGBT*s e pessoas com deficiência.

Além disso, é preciso ressaltar que a maior parte da agressões, estupros e assassinatos são ações feitas por homens. Isso não se dá porque homens são naturalmente malvados, cruéis e violentos e sim por causa da construção social da masculinidade incentivar comportamentos agressivos que também atingem homens. Quando a gente fala sobre a violência específica que atinge mulheres e explica que ela é decorrente do machismo, de certa forma, a gente propõe uma discussão da masculinidade, o que tem potencial de atingir todos. Se te interessa tanto diminuir a violência geral, ainda assim a discussão importa para você, sabia?

Dizer “nem todo homem”

Não parece grave dizer “nem todo homem”, né? Só que quando isso é dito, tira-se o foco do que é denunciado para focar em como a denúncia foi feita. Quando se ignora o que está sendo denunciado para focar em dizer o quanto você é diferente, você mostra indiferença ao que a vítima sofreu.

 









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Comentários

1 comment

  1. Broderagem? Diretor Kenneth Lonergan sai em defesa de Casey Affleck, ator acusado de assédio sexual - Prosa Livre Responder

    […] sérias acusações raramente são penalizados por suas ações. Pelo contrário, eles continuam ganhando prêmios, conseguindo trabalhos e fazendo dinheiro. É como se a violência contra a mulher fosse sempre algo menor. E aos olhares da sociedade, ela […]