Relato: O assediador pode estar ao seu lado

As diversas formas de violência contra a mulher encontram no silêncio, na culpa e na vergonha uma forma de se perpetuar. A falta de reconhecimento do problema faz com que relatos de violência ainda...

As diversas formas de violência contra a mulher encontram no silêncio, na culpa e na vergonha uma forma de se perpetuar. A falta de reconhecimento do problema faz com que relatos de violência ainda sejam vistos de forma naturalizada, mas isso tem mudado.

A internet possibilitou que mulheres compartilhassem suas histórias com maior facilidade. O que antes era dito em voz baixa, só entre mulheres, veio à público. Um silêncio coletivo e secular tem se quebrado e mulheres tem descoberto que seus sofrimentos pessoais não são merecidos, isolados ou naturais, são fruto do machismo sistêmico.

Relatos e denúncias tem o poder de ajudar mulheres a perceberem que o que passam não é aceitável, por isso, compartilhamos esse depoimento de Litta Mogoff.

“No primeiro semestre de 2015, durante uma madrugada de terça-feira, no espaço de um grupo de teatro com o qual trabalhei, conversava com o diretor deste grupo, que também era meu amigo próximo, sobre um abuso que havia sofrido por parte de um colega de organização política. Contei a ele que o citado colega havia me prensado na parede, me apalpado e me beijado contra minha vontade. Durante a conversa, esse homem, que era meu amigo, e que é visto por muitos como referência intelectual, de esquerda e “feminista”, me disse que o que havia acontecido comigo não era assédio ou abuso era, nas palavras dele, “roubar um beijo”. A conversa seguiu, em dado momento fui ao banheiro, ao sair ele repetiu a agressão que eu havia lhe relatado. Me prensou contra a parede, apalpou e pressionou seu pênis contra o meu corpo e tentou me beijar. Eu o afastei e questionei o que era aquilo, ao passo que ele respondeu que: “isso é roubar um beijo. Não é assédio, vai dizer que eu te assediei? Fiz isso para te provar um ponto.” Me afastei para um outro ambiente do espaço, peguei minha bolsa e fui embora. Eu não sabia como reagir. Eu me abri, contei a alguém que eu confiava algo que me afligia e havia me machucado pelo seu conteúdo de assédio e recebi como resposta, ao invés de apoio, mais assédio, o qual foi bizarramente justificado pela necessidade de um homem provar um ponto, afirmar que estava certo.

 

É importante dizer que este homem, trabalhador da cultura, diretor de uma companhia de teatro, era uma pessoa por quem eu tinha profunda afeição, muito carinho, uma pessoa em quem eu confiava muito. A relação pessoal que tínhamos, juntamente ao afeto que eu nutria pelo grupo de teatro, me impediu, naquele momento, de falar e compreender o que tinha acontecido comigo. Continuei participando de alguns encontros do grupo de teatro, justamente porque demorei para compreender que aquele homem por quem eu tinha tanto carinho havia me feito algo que eu jamais poderia imaginar. Ainda mais, sendo ele alguém que sabia que eu passava por um momento de fragilidade, em que eu estava fazendo um relato oficial para minha organização política sobre a agressão que sofri por um colega dessa organização política. Tive muito receio das pessoas do grupo de teatro se afastarem, medo da grande amizade que as pessoas ao meu redor nutriam por ele e medo de ficar muito sozinha e sem apoio, assim tentei esquecer, tentei apagar da memória. Tudo que eu queria era que aquele dia fosse apagado da história. Eu tentei, mas era difícil ver as pessoas e não contar, era difícil vê-lo e fingir que nada havia acontecido. Eu vivia com um receio constante de expor e ser prejudicada por ele em outros espaços teatrais. Depois de algum tempo, pude perceber outros elementos da nossa relação pessoal e profissional. A relação dele comigo minava minha auto estima, meu prazer artístico e destruía minhas relações pessoais. E foi assim até culminar na agressão relatada, que ocorreu num momento de extrema fragilidade. Me pergunto até quando os homens poderão se sentir seguros de agir da forma que lhes convém sem respeitar os limites das outras pessoas. Reestabelecer a autoconfiança, assim como voltar a confiar nas pessoas foi difícil. Ainda é. Escrevo este relato pois acredito que precisamos lutar contra o machismo e a violência. Estou aqui para romper o silêncio. Viver para além da agressão.”