Tá vendo aquele edifício, moço?*

Revista Fórum
outubro 21, 2011 15:50

Entulhados entre números de aumento de emprego na construção civil e de aquecimento do mercado imobiliário estão pedreiros, eletricistas, pintores, carpinteiros, encanadores, serralheiros. Gente ocupada em um tipo de trabalho extenuante em que reinam a informalidade e as condições precárias

Por Anselmo Massad

 

Todo dia de semana começa às 4h da manhã para Ivan Teles de Menezes. Aos 32 anos, ele mora em Parelheiros, extremo sul da capital paulista. Natural de Cícero Dantas, município do nordeste baiano, desde os 14 anos trabalha como pedreiro. O mais novo de cinco irmãos e uma irmã, foi o único dos homens, todos na mesma profissão, a se aventurar para o “sul”, em 1990. Ele foi com a irmã para Vargem Grande Paulista, município da região Oeste da Grande São Paulo. A aposta era de que teria mais trabalho e estabilidade do que na cidade natal, em que recebia “diária”. Em três meses, conseguiu o emprego, numa grande construtora onde permanece até hoje.
Isso faz 15 anos, algo incomum na construção civil, apesar de ser um dos setores que mais absorve mão-de-obra. Só em São Paulo atualmente são 430 mil trabalhadores – dos quais 225 mil são registrados. É verdade que na década de 1970 eram 1 milhão só em São Paulo. Número próximo ao de trabalhadores com carteira assinada atualmente no país, 1,2 milhão. O cálculo é que para cada trabalhador registrado, dois estariam na informalidade, segundo dados do sindicato patronal, Sinduscon.
O setor respondeu por 7,3% do PIB em 2005 e tem crescimento esperado de 6% a 7% para 2006. Esse aquecimento do mercado levou a um crescimento do emprego de 11,6% em todo o país em setembro deste ano comparado ao mesmo mês em 2005. O avanço deve-se, segundo analistas de mercado, às mudanças no financiamento da casa própria e à desoneração tributária, realizada em fevereiro pelo governo federal, de uma cesta de 41 produtos. A empolgação dos empresários e economistas vai longe, mas, como era de se esperar, pelo seu histórico, não considera os trabalhadores.
Para Vilma Santana, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia, a profissão carrega estigmas sociais fortes, que, em sua visão, a transformam no equivalente masculino da empregada doméstica. A socióloga conduziu estudos estatísticos sobre acidentes de trabalho em geral, e participou da confecção de um relatório sobre a construção civil para o Serviço Social da Indústria (Sesi) baiano. Em sua análise, são funções que guardam resquícios da escravatura na relação de trabalho, já que os salários são baixos e alguns trabalhadores chegam a dormir no serviço, além de sofrerem muito preconceito. “Outra semelhança é que, em cidades como Salvador, é comum se recrutar empregadas domésticas e pedreiros em favelas próximas ao local de trabalho. E ambos iniciam-se muito precocemente no meio, muitas vezes na infância”, revela.
Segundo o estudo organizado por Vilma, em Salvador, 28% dos envolvidos em acidentes de trabalho na construção começaram a aprender o ofício antes dos 10 anos e 41%, entre 11 e 14. A legislação brasileira só permite a contratação a partir dos 16 sob o regime de CLT, ou como jovem aprendiz aos 14. Para ela, o setor é uma porta de entrada para o mercado de trabalho. É abandonado por parcela significativa quando são encontradas alternativas mais rentáveis e seguras.

Pequenas obras
Quando Ivan, o pedreiro do início da reportagem, já percorreu quase todo o trajeto no ônibus, às 6h da manhã, outro trabalhador sai de casa, no extremo oposto da cidade, no bairro do Butantã, zona Oeste. Waldecir Mariano, de 36 anos, tem uma rotina diferente, já que trabalha como autônomo. Nos últimos dois meses, está na reforma de uma loja de cozinhas planejadas no Ipiranga, na zona Sul. O percurso é feito de carona com um colega vizinho. No começo da obra, era pedreiro, depois passou a ser encanador, eletricista e, nos quinze dias finais, assumiu a função de pintor. Quando precisou, em outros trabalhos, foi encarregado-geral ou mestre de obras. Há um ano, não teve a tranqüilidade de contar com caronas diárias de carro e, cansado de esperar o ônibus, preferia correr. Literalmente.
– Demorava uma hora e meia num ritmo bom, enquanto de ônibus seriam duas horas – relata com uma ponta de sorriso orgulhoso de quem percorria aproximadamente 16 quilômetros todas as manhãs. – Aqui, vale mais a pena ir de carro e correr depois de chegar em casa, no meu bairro mesmo.
Waldecir lembra fisicamente o medalhista olímpico Robson Caetano. E ele até poderia ter chegado mais longe como atleta, pois haja vigor físico para correr e trabalhar como leão o dia inteiro. Waldecir já disputou oito provas da São Silvestre, além de provas em cidades próximas. A prática da corrida surgiu quando se mudou para São Paulo, vindo de Nova Esperança, no Paraná, onde trabalhava na sericicultura. Aos 21 anos, não achava tempo nem espaço para jogar futebol, então preferia praticar um esporte individual. Ele garante que, com as corridas, sente mais disposição para o trabalho, por lhe garantirem bom condicionamento.
Se o meio de transporte é alternativo, as condições de trabalho não são. Segundo dados do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged), 85,5% dos trabalhadores do setor estão em pequenas e médias empresas. A grande maioria não tem registro profissional ou é autônomo. Waldecir trabalha por conta própria por não ter encontrado boas oportunidades em grandes construtoras. Capacete, máscara, luvas e outros equipamentos de segurança ele não usa, porque teria de comprar do próprio bolso. Garante a agenda de trabalhos por meio de indicações de engenheiros, arquitetos, colegas e clientes para quem já prestou serviço.
– Quando estou aqui, hoje, já tem outra obra programada, esperando. É o jeito para não faltar trabalho.
Esse é o tipo de realidade que torna a construção civil um dos setores mais vulneráveis em termos sociais e de acidentes de trabalho. Sem estabilidade, a subnotificação é regra, já que em obra pequena, por não haver altura, a sensação dos operários é de que os acidentes são menos graves, o que não necessariamente é verdade. Sem contar as lesões por esforço repetitivo e a exposição, sem a proteção devida, a ruído excessivo e materiais tóxicos.
Nas grandes construtoras, alvos de fiscalização governamental e sindical, a preocupação com a prevenção de acidentes vem aumentando nos últimos onze anos, especialmente devido à renovação da Norma Regulamentar 18 (NR 18), de 1995. São 820 procedimentos de segurança, mas o descumprimento é grande. Segundo dados do Ministério da Previdência de 2004, foram registrados 24,7 mil acidentes na construção (7% do total) com 1.174 casos de invalidez e 319 mortes (respectivamente 9% e 11,4% do total). Considerando a informalidade em dois terços dos empregados, o cenário é ainda pior.

Quem sabe
uma mortadela?

Às 7h da manhã, começa a jornada dos operários. Em 1991, o sindicato de São Paulo conseguiu das construtoras o direito a café da manhã: pão com margarina e café com leite. Mesmo sem atingir todos os canteiros nem ter a qualidade esperada (“passam a faca uma vez para espalhar a margarina e outras duas para tirar”, segundo o sindicalista), a luta há dois anos é por queijo e presunto, ou quem sabe uma mortadela, mais uma fruta no desjejum para “balancear” a dieta.
Antonio de Sousa Ramalho, presidente da entidade, conta que a conquista começou em 1990, quando entrou como suplente na chapa eleita. Por insistir havia quatro anos na necessidade do pãozinho, foi convocado pela direção para uma reunião com o sindicato patronal, o Sinduscon. Explicou a necessidade de uma boa alimentação acompanhada por nutricionistas para aumentar a produtividade e reduzir acidentes. Diz ter ouvido do então presidente Julio Capobianco:
– Você vai na reunião com as construtoras pedir o café da manhã, mas não diga nada sobre reduzir acidentes, só de aumentar a produtividade. Eles não querem saber se o trabalhador vai morrer ou não. Se morre um, entra outro no lugar.
Segundo Ramalho, a sinceridade do representante dos patrões dizia menos respeito a ele próprio do que aos outros donos de construtoras.
A atual rotina de Ramalho é de visitar obras para conversar com os operários para “articular o movimento sindical”. Ele chega à sede do sindicato, no Glicério, centro de São Paulo, em um ômega preto com câmbio automático e Piti, um cão da raça lhasa apso, no banco do passageiro. O melhor amigo do sindicalista passa o dia na garagem da entidade, enquanto ele visita obras e despacha no local.
Candidato a deputado estadual em 1º de outubro pelo PDT, conseguiu a terceira suplência. Fez campanha com Alckmin, mas afirma: “Em todas as obras, a média é de 95% ou mais de votos para Lula”.

A última notícia do jornal O anonimato de quem sofre acidentes deixou de ser regra em um caso ocorrido às 10h40 do dia 14 de setembro, em um condomínio de luxo no Morumbi, zona Oeste de São Paulo. José Roberto da Conceição Santos, baiano de 36 anos, funcionário da administradora do condomínio e pai de dois filhos, morreu com uma explosão que causou a queda do andaime utilizado para a limpeza externa do edifício. O acidente feriu outros três. As chamas e o funcionário pendurado por uma corda no andaime foram fotografados por um morador e a imagem publicada por toda a imprensa, chamando a atenção para o caso. A versão da empresa é a de que uma lata de thinner se incendiou com uma bituca de cigarro acendido por Santos, que não fumava segundo a irmã. Os sobreviventes, sem saber dizer a causa, afirmaram que os andaimes estavam bem instalados.
O lado mais fraco levar a culpa não é novidade. Cristiane Aparecida Silveira é pesquisadora da Faculdade de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto, autora de um estudo sobre saúde no trabalho a partir de 6.122 prontuários médicos de pacientes vítimas de acidentes de trabalho. “Ainda hoje, quando há ferimentos em andaimes mal instalados, é comum eles dizerem que se descuidaram ou não prestaram a devida atenção. Se estava mal instalado, ele não deveria sequer ter aceitado subir”, protesta.
O foco do estudo era mais o preparo dos profissionais de saúde para aprender a identificar e se relacionar com o paciente. “O operário da construção é um pai de família, sem seguro saúde, normalmente não tem registro profissional nem direito a INSS; quer dizer, uma semana parado no hospital é tempo sem dinheiro algum”, avisa. A avaliação é de que os médicos sequer atentam à profissão do paciente. “Além de humanizar a relação, são informações que podem até mudar o tratamento”, esclarece.
Outra pesquisa, desta vez conduzida por Raimunda Mangas da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), unidade da Fiocruz no Rio de Janeiro, traçou o perfil de 25 operários mortos em acidentes de trabalho no setor de 1997 a 2001. Além das Comunicações de Acidente de Trabalho (CATs), ela buscou ocorrências policiais, notícias de jornal e entrevistas com familiares para compor o histórico de cada caso. O resultado é que, devido à necessidade de emprego, as vítimas se submetiam a condições precárias de trabalho, muitas vezes, sem um contrato formal com a empresa.
Quanto aos parentes, além de enfrentar a dor da perda e graves dificuldades financeiras, muitos permanecem com dúvidas sobre as verdadeiras causas do acidente. Reforçam as suspeitas o fato de que, em casos acompanhados pela pesquisadora junto com representantes do sindicato no local do acidente, o isolamento da área não havia sido respeitado e o cenário havia sofrido modificações, o que prejudica as investigações e permite que haja manipulação.

Modernização
O dia segue até as 11h, quando vem a hora de almoço. Seja na marmita, seja na alimentação terceirizada produzida fora e fornecida no próprio canteiro, a qualidade não garante a reposição da energia e dos nutrientes ao organismo. Há muitos casos em que nem a hora é respeitada, principalmente para os trabalhadores contratados como tarefeiros, remunerados de acordo com a produção mensal. Edilson Fidelis, de 36 anos, começou como servente aos 18 e hoje aplica gesso nas paredes internas de novos edifícios. Empregado de uma grande construtora paulistana, com carteira assinada por R$ 700 fixos, conta que chega a faturar R$ 1.600 na “medida da trena” de paredes que recebem o acabamento. Por isso, procura comer rápido para retomar a atividade.
– Preferi trabalhar com gesso, porque não tem risco de subir em andaime, ficar do lado de fora do prédio, de cair – confessa o cearense de Fortaleza. – Também precisava de um jeito de ganhar mais, porque tenho esposa e moro com três dos meus cinco filhos.
O tipo de trabalho realizado por Edilson é uma das inovações técnicas em uso no Brasil. Malhas de aço revestidas de gesso formam as paredes internas de no máximo 10 cm de espessura dos novos edifícios. Menos material e trabalho para assentar blocos de alvenaria, significa menos emprego. “Comparado com as obras do exterior, o uso de novas tecnologias é pequeno no Brasil porque a mão-de-obra é barata”, calcula Ubiraci Espinelli Lemes de Souza, professor do departamento de Construção Civil da Escola Politécnica da USP. “Na Europa ou nos Estados Unidos, o uso de novos materiais e gruas para erguer material, por exemplo, é mais amplo. Ainda assim, a mão-de-obra continua correspondendo a metade do custo do projeto”. A matemática é simples: os novos procedimentos demandam menos horas-trabalho, mas são mais caros por serem pré-moldados.
Ubiraci se orgulha, porém, de eliminar o preconceito bastante comum de que o operário brasileiro é menos produtivo ou mais preguiçoso do que o de outros países. Estudos comparativos apresentados em congressos da área mostram que, dadas as mesmas condições, a produtividade é a mesma. “Hoje é consenso que, com o mesmo tipo de bloco e as mesmas ferramentas, um trabalhador em Recife leva o mesmo número de horas para erguer uma parede que um francês ou norte-americano”, sintetiza. O que infelizmente não é igual é a condição salarial. Mais de sete em cada dez (72,3%) ganham até três salários mínimos. A informalidade é grande e piora as condições de trabalho. Para se ter uma idéia, 78% do material de construção é comercializado em 106 mil depósitos em todo o Brasil, voltado para pequenas obras e reformas, longe de grandes construtoras que, pela escala, preferem comprar direto das distribuidoras.

Fim do expediente
E chega as 17h, o trabalho acaba pelo dia. Britadeiras, pás e espátulas são encostadas. O pedreiro Ivan Teles, que começou a jornada às 4h, se prepara para ir para casa.
– Quem mora longe, vai logo embora. Menos sexta-feira, quando dá tempo de parar no bar para espairecer a cabeça – confessa.
Waldecir chega em casa, se veste com o uniforme de corrida e treina pelas ruas do bairro, porque sente a diferença de condição física para o trabalho. E Edilson encara duas horas e meia de trânsito para reencontrar a família em Ferraz de Vasconcelos, zona Leste. E esperar o próximo dia de trabalho. F

*Cidadão
Zé Geraldo
Composição: Lucio Barbosa

Tá vendo aquele edifício moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado, tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

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