O Feminismo de Cara Nova

Revista Fórum
novembro 8, 2012 19:15

Se há um aspecto na nudez que atrai a mídia, essas manifestações não devem se resumir ao impacto das imagens e precisa, a meu ver, passar algum conteúdo feminista. Do contrário, se transforma num protesto vazio e midiático

Por Vange Leonel

Parece que a chamada “velha” mídia não aprecia o feminismo ou evita analisar o feminismo a fundo. Quando aparece alguma notícia sobre o assunto, geralmente está associada a alguma denúncia ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), e relacionada a comerciais machistas. De uns tempos pra cá, os jornalões começaram a noticiar as novíssimas feministas seminuas ucranianas do Femen (há até citação ao grupo em um comercial de automóvel) ou as mais vestidas e não menos atrevidas ativistas da banda punk russa Pussy Riot.

É verdade que tivemos uns flashes nos noticiosos sobre as Marchas das Vadias, que, desde o ano passado, foram realizadas em várias cidades brasileiras. Há tempos eu não via uma passeata, marcha ou parada feminista receber este destaque, ainda que tímido. Peitos de fora geram boas imagens, diriam alguns. Sim, as manchetes gostam de peitos expostos, mas isso não tira a legitimidade do movimento. Pelo contrário, a nudez aí é um grito de reapropriação dos nossos próprios corpos.

Porém, se há um aspecto na nudez que atrai a mídia, essas manifestações não devem se resumir ao impacto das imagens e precisa, a meu ver, passar algum conteúdo feminista. Do contrário, se transforma num protesto vazio e midiático, a exemplo do incipiente Femen Brazil (no momento em que escrevo, o grupo sofre justificadas críticas de outras feministas por causa de suas inconsistências e porque uma de suas integrantes parece ter uma atração irresistível pelo integralismo).

O fato é que existem muitas jovens feministas aqui no País, e muitas dessas meninas foram influenciadas pelo mesmo movimento que ensinou os primeiros passos ao Pussy Riot: o Riot Grrrl. Este levante punk feminista da década de 1990 rendeu frutos no Brasil, e sua principal expressão foi e ainda é a banda de hardcore feminista Dominatrix, criada em 1995. Vocalista e guitarrista da banda, Elisa Gargiulo é exemplo do que algumas jovens feministas vêm fazendo no Brasil, de maneira independente e à sombra da velha mídia. Elisa realizou seis edições do LadyFest (festival de rock com bandas feministas e ativismo, que reúne cerca de 2 mil participantes a cada edição) e criou, junto com Geisa França, um projeto lesbofeminista importante: um espaço/oficina para conscientizar lésbicas sobre violência doméstica (sim, lésbicas também batem e apanham de suas parceiras, assunto que até outro dia era tabu entre LGBTs).

Para Elisa, “o Riot Grrrl inspirou o modo de construção do Pussy Riot como coletivo autônomo feminista artístico, para além de partidos políticos, congressos e meios acadêmicos”. Para ela, as integrantes da banda “colocam os próprios corpos como arma política, escrevendo a revolução com o corpo. Essas manifestações são diretas, agressivas e certeiras, como um garrancho feminista. Estêncil, megafone, palavrão escrito nos braços, reapropriação. É a escrita de mulheres que não querem mais se calar, e ainda dançam a revolução”.

Elisa soube dançar bonito durante um ato “Pró-Vida” patrocinado pelo finado bispo Bergonzini em março deste ano. Um grupo de apoiadores do bispo, contrário à descriminalização do aborto, se aglomerava nas escadarias da Sé, no centro de São Paulo, erguendo cartazes com os dizeres “Em memória das vítimas do aborto”. Elisa, com a calma que lhe é particular, se meteu no meio do grupelho e, em silêncio, levantou uma cartolina rabiscada com as palavras: “Em memória das mulheres vítimas do aborto ilegal”. Simples assim. E bem Riot. F

 

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novembro 8, 2012 19:15
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2 Comentários

  1. Lia Drumond fevereiro 1, 20:13

    Elisa Rox!!!

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