Eu não sou cachorro não. Que pena!

Redação
Por Redação janeiro 23, 2012 11:11

No final da manhã de domingo eu estava dando uma caminhada e ouvindo rádio, e ouvi a notícia de que uma ação policial feita de surpresa cumpria um mandado de reintegração de posse, dada pela Justiça, na área chamada Pinheirinho, em São José dos Campos, ocupada por milhares de famílias.
Um repórter entrava ao vivo e dava notícia de que houve vários choques e pelo menos quatro pessoas estavam hospitalizadas, uma delas em estado grave, baleada pelas costas.

Fiquei surpreso, porque no meio da semana havia lido que a reintegração estava suspensa por um acordo com a Justiça, dando um prazo de quinze dias para tentar uma solução.

Mas eu mesmo me critiquei: “E quem é que acredita em acordo com Justiça, governo ou patrão?”. Só gente besta. Acordo, só pobre cumpre.
O repórter entrou várias vezes no noticiário, mas deu meio-dia e entrou um programa de esportes. Mudei para outra emissora para tentar ouvir mais notícia da ação no Pinheirinho.

Nessa outra emissora, havia uma cobertura ao vivo de um assunto que também achei interessante: manifestações em várias cidades contra maus-tratos a animais. Ótimo que a imprensa dê cobertura a isso. Acho que ninguém normal é a favor de maltratar animais.

A reportagem começou por São Paulo, com repórter na manifestação, ouvindo manifestantes que exigiam leis mais duras contra quem trata mal os animais, referindo-se sempre a cachorros abandonados, maltratados ou mortos pelos donos. Depois, chamaram Brasília, também com repórter presente, ouvindo manifestantes. E assim foi também com as manifestações de Belém, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

Aí, finalmente, informações sobre a ação policial no Pinheirinho. Lá, não tinha repórter presente, nem palavras de manifestantes. A notícia foi uma nota da Polícia Militar, dizendo que havia um ferido. E só.

Então me lembrei de Antônio Rogério Magri, quando era ministro do Trabalho do governo Collor. Um carro oficial do Ministério foi flagrado levando uma cadela do ministro ao veterinário.

Magri reagiu bravo, justificando o uso indevido do veículo: “Cachorro também é gente”, disse ele.

Mas acho que essa lógica deve ser invertida: para merecer a atenção de certos setores da mídia, os pobres deviam reivindicar: “Pobre também é animal”. Aí, talvez dessem atenção a eles.

Redação
Por Redação janeiro 23, 2012 11:11
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5 Comentários

  1. William janeiro 23, 15:41

    Sensacional análise. como citei hoje no facebook: “humanizam-se os animais e animalizam-se os humanos”.

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  2. vera oliveira janeiro 23, 15:50

    muito bom seu artigo,adorei e compartilhei no meu perfil do face.

    Reply to this comment
  3. Tânia Oliveira janeiro 24, 10:57

    Grande Mouzar!

    Entrei hoje no teu blog justamente para averiguar se tinha algum post se referindo a este caso. Dei sorte!

    Ontem cheguei cansada do trabalho, e como de costume, “olhava” pra televisão… até q noticiaram algo sobre Pinheirinho.
    Até então, não tinha prestado atenção… quando comecei a me atentar ao fato… fiquei horrorizada!
    Uma senhora com um bebê no colo, segurava o choro, enquanto tentava “gritar” essa injustiça no microfone do repórter.
    Mas é um grito q ninguém ouve.

    Isso tudo é atroz!
    E me dá uma sensação péssima de impotência!
    O q fazer?!
    Minha força perante os “imperadores” é NADA!
    E pior de tudo, a força do POVO é NADA!
    A ação da “cúpula” é muito silenciosa… e quando se faz barulho, pode crer que são gritos desses pobres “animais”!

    Quando li aquelas histórias do teu livro, fiquei pensando:
    - Tanta luta… tantas pessoas querendo mudar… tantas pessoas mortas, presas e torturadas… em nome de um país melhor.. pra hoje em dia, nem a ditadura, nem a democracia… e sim o “regime da bandalheira”!

    Tudo está de cabeça pra baixo, meu caro Mouzar.

    Grande abraço.
    PAZ!

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  4. César janeiro 25, 16:42

    Uma pena essa situação!
    Principalmente sabendo que os interesses que compõe o caso estão ligados à massa falida do Naji Nahas – mega especulador na bolsa de valores! Lembram desse nome?!
    Embora a lei preotege propriedades e assim deve ser, a forma urgente da decisão da justiça e da ação policial não é compátivel com os animais e os pobres!

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  5. virgilio janeiro 25, 18:11

    mouzar:

    o mais trágico da patética intervenção da pm paulista (muito parecida com a de minas, a do rio, etc) são as declarações patéticas de que “aqui no ha pasado nada” do comandante da pm e do chefe dele.
    é difícil termos que esperar até 2014 para podermos, nos respectivos estados de sp, mg e rj, defenestrar esses que pensam que a questão social é um caso de polícia.

    excelente texto, como sempre.
    abração,

    ps.: como é possível um terreno em que o alegado proprietário deve mais de 16 milhões de reais de impostos territoriais ter a “reintegração de posse” determinada???

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Sobre o autor

Mouzar Benedito, mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).

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