A inflação e a vodka

Há menos de um mês anunciaram que o preço da gasolina abaixou. Os comentaristas de política e de economia, assanhados, alinhados ao governo mas se fingindo independentes, mostravam ares de felicidade e diziam que, embora fosse uma redução pequena, não deixava de ser novidade promissora....

Há menos de um mês anunciaram que o preço da gasolina abaixou.

Os comentaristas de política e de economia, assanhados, alinhados ao governo mas se fingindo independentes, mostravam ares de felicidade e diziam que, embora fosse uma redução pequena, não deixava de ser novidade promissora.

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Fizeram uma festa, elogiando e falando que agora sim, tinha um governo sério. Não pouparam elogios. E muita gente acreditou.

Mas, surpresa! Quem foi abastecer o carro em seguida viu que foi enganado, o preço que baixou nas refinarias não chegou às bombas de gasolina e, em vez de baixar, subiu.

A explicação, confinada a pequenos espaços, foi que “o custo da produção do álcool misturado à gasolina aumentou”.

E não ouvi nenhum comentário, nenhuma crítica. Os jornalistas governistas ficaram de bico calado. Nenhum ousou sequer simular uma pequena autocrítica ou criticar o comportamento do governo que anunciou uma coisa que não valia.

Assim funciona a nossa grande imprensa, assim funciona muita gente que se julga no direito de fazer a cabeça do povo.

Como dizia Rubens Ricúpero, na época ministro da economia de Fernando Henrique, o que é bom a gente divulga, o que é ruim a gente esconde.

Mas o curioso é que muitas pessoas metidas a entendedoras de política acreditam, ou fingem acreditar, nesses comentaristas que só veem o bem de um lado e o mal do outro.

Ajudam a propagandear falsidades ou meias verdades, filtrando informações de acordo com os que lhe convém.

Eu me lembro do Plano Cruzado, quando governo Sarney tabelou os preços de um monte de coisas e fez uma grande propaganda como se o custo de vida não estivesse mais subindo.

Os salários foram congelados, mas segundo se dizia, os preços das mercadorias também não aumentavam.

Só que não era bem assim. Na prática, os salários compravam cada vez menos.

Na época, tinha até gente que se dizia comunista ou pelo menos progressista que enchia o governo Sarney de elogios. E pior, tratavam nós que éramos críticos como verdadeiros traidores.

Lembro-me de quando ia para o trabalho ouvindo o rádio do carro e entrou Joelmir Betting comentando uma pesquisa, segundo a qual – se não me engano – 94% dos brasileiros apoiavam o Plano Cruzado.

Mas o que me impressionou foi o comentário dele: “Só há 6% de traidores no Brasil”. Era assim que se referia aos críticos do plano. Praticamente recomendava tratar os contrários como inimigos do povo e do país e que os queimassem em fogueiras inquisitórias…

Fiquei indignado. Joelmir era diretor do Sindicato dos Jornalistas e fui lá, protestar. Achei legal que alguns colegas (pelo menos alguns escapavam da onda bajulatória) tiveram a mesma ideia.

Mas muitos continuaram a tratar Sarney como um messias, salvador da pátria.

Na época eu trabalhava no Guia Rural Abril e lá havia um jornalista que se dizia de esquerda e só via maravilhas no governo Sarney.

Um dia, alguns meses depois do lançamento do Plano Cruzado, como sempre fazia, ele elogiava Sarney, mas começou a exagerar. Afirmava eufórico que o Plano aumentou o poder aquisitivo da população, e eu contestei. Argumentei:

— Quando o Plano Cruzado foi implantado, meu salário dava para comprar 187 litros de vodka no supermercado perto de casa. Agora só dá para comprar 123. O poder de compra caiu mais de 30%.

Não era mentira. Eu tinha feito a conta.

Ele reagiu dizendo que vodka não valia como “moeda” para avaliar a evolução do poder aquisitivo. Mas insisti: para mim, era o que interessava, o que eu consumia, a moeda que valia.

Podia usar o preço da cerveja também, dos vinhos, da cachaça, de tudo que a gente consome regularmente. Por que considerar só os preços que o governo controlava? Se fôssemos usar como medidor da inflação apenas as coisas que o governo tabelou, logicamente o resultado seria inflação zero. Mas a gente não consome só o que o governo quer, não é?

Sem argumentos, ele ficou calado. Mas até hoje, quando encontro alguns colegas que acompanharam essa discussão, eles se divertem lembrando que um dia a vodka foi usada por mim (e aceita por eles) como referência de poder aquisitivo dos salários.

Depois eu soube que um professor, amigo de um amigo meu, havia usado o mesmo argumento que eu, avaliando a evolução do preço de algo que gostava: o leite condensado.

Cada um com seus gostos. Valeu também.

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