O texto do Haddad e o fator Serra

O papel de Serra no golpe contra Dilma, sua indicação para o ministério das Relações Exteriores e sua saída de lá ainda são situações muito nebulosas e que precisam ser estudadas

Quase tudo já foi dito sobre o texto que o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, publicou na revista Piauí, mas que foi lido por dezenas de milhares por conta da força das redes digitais. Como acontece nesses casos de textos que “bombam” teve para todos os gostos.

Gente que achou grande e vai esperar virar filme, gente que achou simplesmente sensacional, gente que considerou ter faltado auto-crítica, gente que o tratou como um depoimento histórico. E assim por diante.

É do jogo que um artigo tecido por um importante ator político com capacidade de análise para além do óbvio produza reações diversas e entusiasmadas.

Mas, no balanço de perdas e ganhos, Haddad passou com louvor pelo seu primeiro teste público pós-eleitoral. Conseguiu colocar vários assuntos para serem debatidos. E o fez de forma civilizatória. Sem acusações ou caneladas. Algo cada vez mais comum.

Mas não são os pontos defendidos aqui e ali por ele que me levam a escrever este artigo. É o fator Serra. Quase nada tinha sido dito até o momento sobre a participação de Serra no golpe contra Dilma. E Haddad teve o grande mérito de levantar essa poeira.

O trecho em que ele traz o assunto à tona é este:

Ao longo do ano de 2015, Serra trabalhou intensamente pela causa. Seu papel no impeachment foi subestimado. O ex-governador tucano aproximou-se muito de Michel Temer e lhe garantiu apoio. Era Serra quem telefonava para os governadores, sobretudo do Nordeste, e depois de uma conversa política passava a ligação a Temer, que a concluía com a senha “Precisamos unir o Brasil”. A articulação de Miguel Reale Jr. e Janaina Paschoal com Hélio Bicudo, autores do pedido de impeachment contra Dilma, teve participação direta de Serra.

Pois bem, isso me fez lembrar de uma conversa que tive com um sociólogo que tinha (e ainda tem) muitos colegas tucanos. Uns seis meses antes do impeachment, sentado ali naquele balcão do bar Estadão, este amigo me disse.

– Tô preocupado, conversei ontem longamente com um tucano muito bem informado que me garantiu que o Serra está na coordenação do impeachment.

Eu, do alto da arrogância de quem achava ele carta fora do baralho, disse:

– Se for assim, Dilma governará até o final do mandato.

Mas durante o papo este amigo foi contando os bastidores da operação. Serra estaria articulando isso de forma direta com congressistas democratas e republicanos e teria o jogo combinado com Temer. No enredo de Serra, Dilma cairia, Temer assumiria e o parlamentarismo seria implantado na sequência, com ele se tornando o primeiro ministro.

Este amigo naquela época já confirmava o que Haddad revela no seu texto. Que o senador tucano estava conversando com vários atores para convencê-los de que era melhor derrubar Dilma o quanto antes. E que em suas andanças pelo país só tratava disso.

Ontem, conversando com outra fonte fiquei sabendo que Marta foi convencida a ir para o PMDB muito mais por Serra do que por Temer. Foi ele quem fez a ponte com o partido, imaginando que Alckmin (como fez) imporia o seu candidato a prefeito.

Do alto de seu pendor pelo sucesso Marta teria, inclusive, confidenciado isso a Chalita. A ex-prefeita disse a ele que Dilma sofreria impeachment  e ele (se fosse bonzinho) se tornaria ministro da Educação. Porque Temer seria presidente. E ela prefeita.

Serra a havia convencido disso.

O papel de Serra no golpe contra Dilma, sua indicação para o ministério das Relações Exteriores e sua saída de lá ainda são situações muito nebulosas e que precisam ser estudadas. Com Serra, nada acontece por acaso. Ele é o quadro mais preparado do tucanato, depois de FHC. Só não chegou mais longe, porque sua arrogância é maior que o preparo.

Foto: Wilson Dias / Agência Brasil (23/06/2016)

 

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