GREVE

Alunos da Unifesp Diadema decretam paralisação de uma semana

"Estamos com a corda no pescoço", diz estudante; quase mil também concordaram em deflagrar greve no próximo semestre.

Estudantes da Unifesp Diadema buscam mobilizar outros campus.Créditos: Acervo Pessoal/Tarciso Galli
Escrito en BRASIL el

A assembleia geral estudantil da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Diadema (SP) decretou paralisação de uma semana em mobilização na última terça-feira (21). Mais de 950 votos foram contabilizados em votação no formato híbrido que estabeleceu uma semana de paralisação com atos, entre quarta-feira (22) e a próxima terça-feira (28).

"Agradecemos a todos pela mobilização incrível! Em apenas 8 horas, nosso formulário recebeu quase mil respostas, mostrando o poder da nossa comunidade unida. A jornada está apenas começando! Amanhã marca o início de um caminho mais longo, e é essencial que permaneçamos unidos", comunicou a Liga Acadêmica da UNIFESP Diadema (LAUD), que reúne seis centros acadêmicos da faculdade.

Os estudantes também aprovaram indicativo de greve em assembleia estudantil no dia 17 deste mês, com início marcado para o início do próximo semestre, que deve ocorrer em 2024, com aprovação total ou parcial de 88,1% dos votantes. Apenas 113 dos 950 votos foram contrários ao indicativo de greve.

A última medida determinada em votação é a presença em atos em que a reitoria da universidade estará presente: no dia 27 de novembro, o órgão estará em reunião na unidade de Osasco (SP); no dia seguinte, no dia 28 de novembro, o campus da Zona Leste receberá a reitoria; e em 1 de dezembro, ao ato será na reunião na reitoria, com sede na Vila Clementino, na capital paulista.

Documentos com o cronograma de atos, perguntas sobre a paralisação e esclarecimento de dúvidas serão divulgados nos próximos dias, conforme nota da LAUD. Confira a nota do movimento grevista na íntegra:

"Esse é um dos momentos mais importantes da recente história do nosso campus.

Um momento da união, da mobilização, da manifestação dos nossos ideais, valores e, principalmente, insatisfações perante inúmeras falhas, sejam elas de estrutura, de permanência estudantil ou de segurança.

Quando entramos na UNIFESP, tivemos grandes expectativas, dada a reputação que a mesma explicita de 'melhor federal do Brasil', porém, o que testemunhamos são problemas básicos como falta de luz, de água, comida com presença de vermiformes, para citar alguns.

Não existe momento melhor. Mais apropriado. Mais desejável. Existe o AGORA. E todos nós podemos, juntos, lutar pelo que nos foi prometido.

Comunidade acadêmica da UNIFESP Diadema, é hora de fazer greve!

Vamos nos unir já!"

As reivindicações dos estudantes

Os estudantes da Unifesp Diadema convivem com problemas estruturais que acompanham a universidade há anos: carência de infraestrutura, sistema de transporte precário, desafios na permanência estudantil e qualidade na alimentação oferecida no restaurante universitário.

De acordo com Tarciso Galli, estudante de graduação em Ciências Ambientais na Unifesp Diadema, os entraves têm razão financeira: "Nosso campus está inserido em um contexto de precarização em decorrência da falta de orçamento e da má gestão orçamentária do Ministério da Educação e da Secretaria de Ensino Superior".

O estudante conta que houve uma reunião com a Reitoria no dia 16 de novembro com a finalidade de exposição das realizações da gestão nos últimos meses e contato sobre os recorrentes problemas enfrentados pelo corpo estudantil.

Aproveitamos a oportunidade para expormos nossos problemas, o que surpreendeu a reitora e sua equipe uma vez que alunos, professores e funcionários lotaram o auditório. Perante as respostas insatisfatórias dadas pela gestão às nossas reivindicações, decidimos por uma Assembleia Geral Extraordinária que se realizou na sexta e, a partir da qual, votamos por um indicativo de greve, a qual terá sua data de início definida em Assembleia.

Segundo ele, durante a reunião, a reitoria teria informado que o orçamento anual previsto para o campus da universidade teria redução em 2024, se comparado com os valores investidos em 2023. A alegação do órgão foi de que a decisão orçamentária é de nível federal. "A gente [estudantes] está com a corda no pescoço porque a situação está precária demais", comentou.

A paralisação ocorre semanas após as greves deflagradas na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que se somaram às greves do Metrô, da CPTM e da Sabesp. Está agendada uma greve geral de servidores públicos do estado de São Paulo no último dia previsto de paralisação, dia 28 de novembro.

Infraestrutura

De acordo com Galli, a Unifesp Diadema passa por dificuldades com a infraestrutura apesar de conclusão de reforma prevista para 2020:

  • Falta de energia elétrica: cancelamento frequente de aulas por problemas no chaveamento interno;
  • Falta de água;
  • Ventilação insuficiente: falta de ventiladores e ar condicionado;
  • Queda do teto: aulas ministradas em container;
  • Falta de rampas de acesso;
"Não abra, pode cair", diz inscrição na janela de prédio do campus Diadema [Acervo Pessoal/Tarciso Galli]

Permanência estudantil

O elevado índice de evasão é apontado como um dos principais resultados da falta de políticas de permanência estudantil aos estudantes do campus Diadema:

  • Valores de auxílio insuficientes para que os alunos possam se manter na universidade;
  • Valores do auxílio referente à 2023 não recebido por alunos que teriam o direito;
  • Falta de moradia estudantil prevista no Plano Diretor do campus;
Cartaz com reivindicações estudantis [Acervo Pessoal/Tarciso Galli]

Transporte

O transporte é um dos principais obstáculos para a plena formação acadêmica dos estudantes da instituição, dividido em três unidades –Complexo Didático, Prédio de Vidro e Eldorado. O deslocamento entre elas é realizado por meio de micro-ônibus popularmente denominados como "businhos". 

Tarciso Galli comenta que o estado de manutenção dos veículos é bastante precário: "Os businhos apresentam problemas como buracos no acabamento interno… A pouca frequência com que rodam faz com que, frequentemente, a superlotação coloque nossa integridade física em risco", declara. Ele exemplifica com uma contagem feita por alunos que registrou 75 pessoas em um percurso realizado do Eldorado para o Complexo Didático.

Interior de veículo danificado e sem manutenção [Acervo Pessoal/Tarciso Galli]

As disciplinas de campo – nas quais os estudantes visitam locais para transposição didática entre o que é visto nas aulas e o que poderá ser aplicado pelo futuro profissional – têm constantes dificuldades com a condição do transporte. No dia 13 de novembro, um ônibus tinha apenas duas marchas em funcionamento, o que colocou a segurança dos passageiros em risco e deixou o trabalho incompleto, conforme relato de estudantes.

O que diz a Unifesp

Em nota de esclarecimento sobre a situação do campus, a Unifesp Diadema declarou que a Reitoria e as pró-reitorias estão acompanhando a as questões apresentadas pelo corpo estudantil, "promovendo diálogo e uma série de ações de curto, médio e
longo prazo.".

A nota também esclarece as medidas que a universidade tem tomado pela resolução dos problemas estruturais mencionados e reafirma o "compromisso permanente de lutar pela universidade pública, gratuita, laica e de qualidade para todos(as)". Leia a nota na íntegra:

Esclarecemos que a Unifesp é uma universidade que compõe o sistema federal de universidades públicas brasileiras e atualmente é composta por sete campi e que realiza sua gestão político-pedagógica e administrativo-financeira de forma descentralizada.

Em relação ao campus Diadema da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a instituição esclarece que a Reitoria e as pró-reitorias estão acompanhando as questões apresentadas pela mobilização dos(as) estudantes, em conjunto com a direção acadêmica do campus, promovendo diálogo e uma série de ações de curto, médio e longo prazo.

Buscando manter a transparência permanente com a comunidade acadêmica do campus Diadema, foram realizadas duas reuniões entre a direção, a gestão central da Universidade e a comunidade local, respectivamente nos dias 16 e 21 de novembro. Já em 17 de novembro ocorreu uma reunião emergencial da Comissão Local de Alimentação, com a presença da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e Políticas Afirmativas (Praepa). Além disso, houve a instalação de um grupo de trabalho permanente entre gestores e representantes estudantis para discutir as questões de Infraestrutura apresentadas pelos(as) estudantes.

Em relação às demandas referentes à alimentação oferecida no restaurante universitário, a direção do campus comunicou que já existe um processo para licitação e contratação de um novo fornecedor de restaurante e cantina. Além disso, eventuais falhas cometidas pela empresa são notificadas e, nos casos cabíveis, penalizadas, com base nos termos previstos em contrato.

No que diz respeito à falta de energia, a Pró-Reitoria de Planejamento informou que houve a queima de equipamentos da cabine primária do edifício de acesso, provavelmente ocasionada por oscilação na rede externa, muito comum na região. Enquanto as peças eram adquiridas, um gerador adicional foi contratado para manter o fornecimento de energia.

Em relação aos conteúdos que seriam abordados nas aulas canceladas em razão da falta de energia, houve reunião entre a Pró-Reitoria de Graduação e a Câmara de Graduação do campus, que decidiu pela reposição pelos(as) docentes responsáveis, de modo a garantir o cumprimento do planejamento previsto nas unidades curriculares.

Por fim, a Reitoria da Unifesp, as pró-reitorias e a direção do campus declaram que respeitam as decisões tomadas pelos(as) estudantes e se mantêm abertas ao diálogo e comprometidas a realizar as ações encaminhadas nas reuniões e, em conjunto com as demais Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), a recomposição do orçamento para 2024 junto ao Governo Federal e aos(as) parlamentares, com o compromisso permanente de lutar pela universidade pública, gratuita, laica e de qualidade para todos(as).

* Reportagem atualizada no dia 24/11 às 09h00 com o posicionamento da Unifesp.