O Ceticismo Gnóstico de Jean Baudrillard (parte 1)

Falecido em 2007 aos 77 anos, intelectual iconoclasta e provocador, influenciou o cinema (homenageado no filme “Matrix”...

Falecido em 2007 aos 77 anos, intelectual iconoclasta e provocador, influenciou o cinema (homenageado no filme “Matrix” na sequência do livro oco cuja capa é o título de uma obra de Baudrillard), televisão, web art e duas gerações na sociologia. Mas, o que é pouco conhecida, é a matriz gnóstica do pensamento no qual se baseia suas obras das três últimas décadas. Para ele a realidade do mundo fora seduzida pelo Mal e acreditava na impossibilidade do conhecimento através de algum princípio racional ou materialista.


Sempre o pensamento de Baudrillard esteve associado a uma crítica materialista da sociedade de consumo e da cultura midiática. Se nos primeiros livros encontramos um pesquisador sóbrio e cuidadoso com os conceitos envolvidos nos estudos sobre signos e a semiologia, nas três últimas décadas encontramos livros de um pensador com insólitos paradoxos, provocações, aforismas hiperbólicos, paroxismos.
De repente Baudrillard parece ter sido tomado por um “terrorismo metafísico”: “Para mim a realidade do mundo foi seduzida, e isso é o que é fundamentalmente maniqueísta em meu trabalho. Tal como os Maniqueos, não acredito na possibilidade de conhecer o mundo através de algum princípio racional ou materialista  – daí a diferença entre o meu trabalho e o processo de evocar a dúvida radical em Descartes”[1]

Desde a década de 1980 Baudrillard empreendeu uma rigorosa demolição, através de um ceticismo radical, de todo e qualquer referencial empírico ou real seja no pensamento científico ou na própria sociedade: a Economia se converte em ritual Potlach; a escala de necessidades humanas que justificaria a sociedade de consumo jamais existiu; Guerra do Golfo ou o atentado aéreo ao WTC em 11 de setembro de 2001 foi um “não-acontecimento”, simulacro midiático; o real foi assassinado através de um “crime perfeito”: a hegemonia do imaginário da presunção da catástrofe, mais mobilizador do que o imaginário do progresso.

Baudrillard viu por todos os lados a “sedução da realidade do mundo” pelo Mal. É evidente nessa lógica a influência do pensamento gnóstico, principalmente de Mani como demonstra essa outra declaração: O mundo não é dialético, ele tende para extremos, não para equilíbrio, tende para o antagonismo radical. Esse é também o princípio do Mal.”[2]

Portanto, vamos iniciar nessa primeira postagem uma investigação sobre as conexões entre o pensamento de Jean Baudrillard e o Gnosticismo.


“Um peculiar tipo de ceticismo”

Os textos de Baudrillard têm seduzido muitos pesquisadores. Suas análises da cultura, mídia e sociedade servem de fundamento tanto para as análises de crítica de fundo marxista quanto às hipóteses pós-modernas. Porém, a maioria das leituras das obras de Baudrillard, principalmente da sua fase pós-marxista, procura fugir ou ignorar seu terrorismo metafísico e seu niilismo gnóstico. Não é fácil para os leitores de Baudrillard compreender a insistência de uma formulação baseada em princípios tão arcaicos como o Bem e Mal.

O ceticismo radical do
grego Pirro
A leitura de conceitos tão caros da obra baudrillardiana como “simulacro”, “hiperrealidade”, “aparência”, “simulação” se esvazia ao contrapô-los ao pano de fundo da tradicional crítica da ideologia como mera “falsa consciência”. Ao interpretar estes conceitos como simples munição para os argumentos de crítica à manipulação midiática ou da dominação política, acaba-se deixando de lado conceitos de difícil compreensão como “reversibilidade”, “troca simbólica”, “precessão da simulação”, as sutis oposições entre o “signo” e o “simbólico”, assim como entre “simulação” e “simulacro”. Tal leitura procura fugir do aspecto mais virulento e radical da obra de Baudrillard: a influência da especulação metafísica gnóstica, principalmente de origem Maniqueísta e no ceticismo grego de Pirro.

Virulento e radical, porque tal influência traz em seu bojo um violento e peculiar tipo de ceticismo em relação ao primado do racionalismo ocidental que distingue claramente real/aparência, verdade/mentira, ilusão/realidade ou, mais precisamente, conduz à negação do próprio estatuto da representação como o fundamento de toda e qualquer teoria da linguagem ou pensamento crítico.

Muitos autores pressentiram esta radicalidade no pensamento de Baudrillard. Morris e Foss, por exemplo, passam ao largo na admissão das influências gnósticas maniqueístas, mas admitem que seja a obra de um homem marcado por “raízes mágicas” e um “peculiar tipo de ceticismo”.[3]  Por outro lado Wernick, Genosko e Botting[4]perceberam o Maniqueísmo do pensamento baudrillardiano, mas negligenciaram o ceticismo radical do grego Pirro.

Antes de contarmos a história de como Baudrillard tornou-se o primeiro metafísico do ceticismo na moderna filosofia ocidental, vamos traçar um breve esboço destas origens gnósticas.

Jatos contra arranha-céus: um pensamento Maniqueísta

Mani, filósofo gnóstico, que viveu no Irã no século III DC, sustentava que o cosmos é dividido em dois poderes opostos: Bem e Mal, Luzes e Trevas, Espírito e Matéria. Influenciado pelo dualismo de Zoroastro, Mani cria uma visão de alta intensidade dramática: a doutrina das Três Eras que é a chave para o gnosticismo de Baudrillard.

No início o universo foi dividido entre deidades das Trevas (habitando os círculos materiais) e da Luz. A certa altura o mundo material atacou as regiões espirituais. Para contra-atacar, Deus criou um ser humano primordial (anthropos, uma figura cósmica não ligada a Adão ou a outros seres humanos, a não ser de forma indireta) para descer ao mundo material e combater as forças das Trevas armado com cinco elementos (fogo, vento, água, luz e éter). Mas foi ostensivamente derrotado e aprisionado. O Rei da Luz enviou, então, um espírito para trazer esse anthropos de volta para casa. Porém, apenas a sua forma conseguiu retornar, deixando para trás os cinco elementos que compunham a sua alma. Para libertar essas partículas, Deus criou o cosmos com Adão e seus filhos. A cada momento, a criatura humana, um anthroposdecadente, ouve o chamado da luz para que, ao cultivar o espírito, emancipe partes da alma até que todas as almas sejam libertadas e a matéria seja aniquilada (Terceira Era: a separação da Luz das Trevas). É claro que as forças das Trevas procuram impedir esse intento por meio de uma dramática luta cósmica.

Aqui, a criação do mundo material ocorreu na Segunda Era, quando anthropos foi aprisionado pelas forças das trevas. O mundo material foi criado tendo o Mal o controle do processo. A ele Baudrillard refere-se como o “Gênio do Mal da matéria”.

Esse “Gênio do mal” é também conhecido pelos gnósticos como o Demiurgo que deu vida a um mundo instável e defeituoso, no qual uma porção da divindade caiu como prisioneira. O gnosticismo acredita que se o mundo é falho é porque foi criado de maneira falha. O mundo não decaiu, foi imperfeito desde o começo. Foi obra de uma divindade imperfeita, o Demiurgo, uma forma híbrida de consciência emanada de um plano transcendente e harmônico (a Pleroma) a partir do Deus original e perfeito. Ele fez a forma, mas não a vida interior do mundo. Inebriado com o poder e por acreditar ser o único deus do universo, aprisiona o homem e a sabedoria (Sophia) no interior da criação, aprisionando-os. Com a ajuda dos maliciosos Arcontes, distrai o homem ao seduzi-los com as ilusões materiais, fazendo-os renunciar a qualquer tentativa de encontrar dentro de si a fagulha de Luz que os reconduziria de volta à Pleroma.

O “11 de setembro”: a reversibilidade entre
o Bem e o Mal
E por que este mundo material criado pelo Demiurgo é imperfeito? Por que nele encontram-se inconciliáveis e, ao mesmo tempo, inseparáveis, o Bem e o Mal. Dessa forma, para cada ato bom produz-se um efeito perverso: a produção reverte-se em destruição, a paz produz a guerra, a realidade a ilusão, e assim por diante. Veremos que esta convicção gnóstica no pensamento de Baudrillard é a base para a crença de uma reversibilidade simbólica constitutiva do mundo, ou seja, o de que a realidade foi seduzida pela ilusão nas suas origens, produzindo uma reversibilidade perversa escamoteada pelo jogo das aparências. Dessa maneira Baudrillard vai analisar os atentados contra o World Trade Center em 2001: “O ponto crucial sobre o 11 de Setembro é o seu poder em comprovar como Bem e Mal avançam juntos, como partes de um mesmo movimento”[5]. E ele explica depois: “a realidade do mundo é totalmente ilusória, acompanhada pela sedução original, porque um gênio maligno a criou para subjugar Deus”[6]

Na sua análise sobre os atentados de 11 de setembro, Baudrillard precisa ainda mais essa reversibilidade entre o Bem e o Mal:

“Esse é precisamente o ponto crucial – a total incompreensão da parte da filosofia ocidental, da parte do Iluminismo, sobre a relação entre o Bem e o Mal. Ingenuamente acreditamos que o progresso do Bem, o seu avanço em todos os campos (ciências, tecnologia, democracia, direitos humanos), corresponde a derrota do Mal. Ninguém parece entender que o Bem e o Mal avançam juntos, são partes de um mesmo movimento. O triunfo de um não eclipsa o outro – longe disso. Em termos metafísicos, o Mal é considerado como um infeliz contratempo, mas esse axioma, do qual todas as formas maniqueístas de batalhas entre o Bem o Mal derivam, é ilusório. O Bem não conquista o Mal, ou vice-e-versa: ambos são irredutíveis em relação ao outro, e inextrincavelmente relacionados.”[7]

Através de um jogo de aparências (simulações e simulacros), todos os sistemas (econômicos, políticos, midiáticos, sociais etc.), procuram encobrir ou ignorar esta reversibilidade simbólica: o fato de que o Real e o Bem foram seduzidos pelo Mal, que o destino de cada ação no sentido do Bem (progresso, transparência, desenvolvimento, funcionalidade, racionalidade etc.) resulta em uma espécie de efeito entrópico: dissolução, regressão, opacidade.

Por isso Baudrillard vê nos jatos que se chocam contra as torres gêmeas um fato de moralidade ambígua, para além do Bem e do Mal, a “pura aparência”: uma singularidade, um momento efêmero que não pode ser interpretado ou assumido por algum sentido ou valor. Como fato midiático, os atentados terroristas demonstram a própria reversibilidade dos sistemas de comunicação. Os jatos chocam-se não para a História, mas para as ondas concêntricas da mídia. As câmeras nada mais conseguem mostrar do que a opacidade de um fato que apenas aconteceu por que as mídias estavam presentes (veremos mais adiante que Baudrillard vai chamar esses episódios de “não acontecimentos”). Da transparência à auto-referencialidade, a presença do Mal nos sistemas midiáticos. Nenhuma interpretação moral ou política pode ser dada: o atentado foi uma ação sem sentido político ou estratégico –  não visava a tomada do Poder e, muito menos, a desestabilização do sistema político. Espetáculo puro, aparência pura. Mas, através de uma estratégia de simulação, a mídia procura racionalizar, tenta trazer o episódio para o seu horizonte de sentido: fanatismo islâmico? Vingança de Bin Laden? Bonapartismo Civil de Bush? Todas as alternativas de explicação do porquê do atentado terrorista se anulam e se equivalem numa espiral interpretativa sem fim.

O objetivo gnóstico nesse drama cósmico é a purificação, isto é, destilar o Bem do Mal, Luz das Trevas, Deus do Demônio, Espírito da Matéria. Já o objetivo da gnose baudrillardiana é o de encontrar a “pura aparência” ou “o efêmero momento no qual as coisas surgem antes de assumir qualquer sentido ou valor.”[8]Ela emerge do “jogo das aparências” dos sistemas, para expor a dissolução de toda racionalidade ou finalidade na ritualização, no espetáculo, no puro simbólico. “De um lado: a política, a economia, produção, o código, o sistema, simulação. Do outro: potlach, desperdício, sacrifício, morte, o feminino, a sedução e, no final, o fatal.”[9]

O ceticismo lógico de Baudrillard

Um demônio confundiu e seduziu a linguagem
desde o seu início
Baudrillard deseja alcançar o “absoluto além”, a transcendência de todos os códigos e signos que procuram eclipsar o simbólico, busca a pura aparência, até “expurgar o homem para ver o mundo na sua pureza original”[10]

Posicionando a sedução ou simulação original como o primeiro princípio, isto é, a sedução da realidade pela ilusão desde tempos imemoriais, como vislumbrar a pureza original do mundo para além das oposições Bem/Mal, Ilusão/Realidade? Resposta: através de um ceticismo radical em relação à própria linguagem, de tal maneira que suspenda toda forma de juízo, interpretação ou racionalização. Para Baudrillard, a própria linguagem foi seduzida pela ilusão de sorte que ela própria foi estruturada por uma espécie de “regressão infinita” que impede o homem de conhecer com certeza qualquer verdade.

Partindo do ceticismo grego de Pirro que fundamentará a dúvida gnóstica em relação à realidade, Baudrillard observa que um demônio confundiu e seduziu a linguagem desde o seu início através de uma regressão lógica infinita: toda afirmação para ser provada exige outra, que requer outra, até o infinito. Existe uma circularidade no código dos signos em todo e qualquer sistema lingüístico o que impede a verificação empírica de qualquer argumento. Baudrillard coloca em xeque o próprio estatuto da representação: pode o signo representar algo externo à própria linguagem ou está condenado à circularidade do código, tornando-se sem sentido?

Um signo somente pode ser pensado por meio de outro signo pré-existente, o que conduz a espiral infinita que os semióticos entendem por “semiose”. Para Baudrillard, significa afirmar que o signo precede a realidade, o modelo antecipa a própria existência do objeto. Em outras palavras, a simulação e não a representação define a natureza da linguagem:

“Estamos na lógica da simulação, que já nada tem a ver com a lógica dos fatos e uma ordem das razões. Simulação é caracterizada pela precessão do modelo, de todos modelos ao redor do mero fato – o modelo vem primeiro e a circulação orbital constitui o genuíno campo magnético dos eventos. Os fatos não têm mais uma trajetória própria, nascem da intersecção de modelos ao mesmo tempo. Esta antecipação, esta precessão, este curto-circuito, esta confusão do fato com o seu modelo, é sempre ela que dá lugar a todas as interpretações possíveis, mesmo as mais contraditórias – todas verdadeiras, no sentido em que a sua verdade é a de se trocarem, à semelhança dos modelos dos quais procedem, num ciclo generalizado”[11]

Baudrillard procura fundamentar seu Maniqueísmo metafísico ao sugerir que a reversibilidade original está estampada na circularidade lógica no interior de todos os discursos através da Regressão Infinita. Todas as hipóteses que fundamentam qualquer discurso necessitam de pressupostos anteriores que as fundamentem e que, por sua vez, necessitam de mais hipóteses e assim ao infinito. Isso significa que todas as hipóteses contrárias são logicamente equivalentes (isto é, a Regressão flui delas mesmas) até chegar a um momento em que todos os discursos são intercambiáveis e reversíveis. Verdade e mentira são discursos logicamente equivalentes porque, no final, todo discurso é a precessão do modelo sobre o próprio real.

Baudrillard dá o exemplo de um atentado à bomba na Itália: foi obra de um atentado de extremistas de esquerda ou uma provocação da extrema-direita? Ou uma encenação centrista para desconsiderar todos os extremos terroristas? Todas as hipóteses são verdadeiras e a busca de provas e mesmo da objetividade dos fatos só faz aumentar a espiral interpretativa.

Tomemos, por exemplo, o caso da morte da menina Isabela Nardoni em 2008, de apenas seis anos, que caiu do sexto andar do apartamento onde morava em São Paulo. Deimediato, os pais tornaram-se os principais suspeitos. Defesa e promotoria iniciaram, através da mídia, a apresentação de uma série de hipóteses, ataques e contra-ataques. De nada adiantaram os indícios, evidências e provas levantadas pela polícia científica. A cada informação divulgada pelos relatórios dos peritos, cada um dos lados vinha através da mídia declarar que tal divulgação vinha reforçar a sua tese. As provas objetivas apenas impulsionavam ainda mais a inflação interpretativa. Ambos os discursos são logicamente corretos e equivalentes. Todos são verdadeiros no sentido de que são verdades intercambiáveis, assim como seus modelos que precedem, retro-alimentando um ciclo interminável.

O gnóstico Baudrillard chama essa anomalia lógica como “o demônio maligno da comutação”[12]: a circularidade dos códigos lingüísticos fazem todos os sistemas curvarem-se sobre sua própria superfície.
Tomemos o caso do sistema político, tal qual analisado por Baudrillard em seu texto “Partidos Comunistas: o Paraíso Artificial da Política”[13]. Se todo o sistema curva-se sobre si mesmo, todas as posições do espectro político se equivalem. Direita, Esquerda ou Centro. Porque de fato o poder, o verdadeiro poder, já não existe mais (o que demonstram os atentados terroristas, espetáculos puros que não visam mais o poder). Foi substituído por uma complexa gestão de uma crise financeira interminavelmente simulada por um sistema global. A dissolução do Poder faz o sistema perder a referência, fazendo os discursos ideológicos orbitarem em torno da sua própria simulação midiática. O sistema, assim como a linguagem dos discursos, não consegue representar algo que lhe seja externo (o Poder, a Política): o modelo passa, portanto, a preceder o fato político.  A situação simula deter uma vontade política (veja, por exemplo, toda a mitologia criada em torno do presidente dos EUA, como se o seu assassinato resultasse, de fato, numa queda do Estado), e a esquerda simula a tomada do poder.

Mas uma ameaça entrópica paira sobre o sistema: e se as pessoas descobrirem que todos os discursos se equivalem e que nada faz diferença?  Não importa qual discurso ideológico assuma o poder, será apenas um manequim posicionado à visibilidade midiática. Por isso o sistema agônico deve ser regenerado pela simulação do escândalo:

“Seria demorado percorrer todo espectro da negatividade operacional, de todos estes cenários de dissuasão que, como Watergate, tentam regenerar um princípio moribundo pelo escândalo, o fantasma, o assassínio simulados – espécie de tratamento hormonal pela negatividade e pela crise. Trata-se sempre de provar o real pelo imaginário, provar a verdade pelo escândalo, provar a lei pela transgressão (…) Tudo se metamorfoseia no seu termo inverso, para sobreviver de forma expurgada. Todos os poderes, todas as instituições falam de si próprios pela negativa, para tentar, por simulação de morte, escapar à sua agonia real”[14]

O escândalo é a estratégia de simulação do sistema político. A cada denúncia de corrupção, a cada assassinato, é como se salvaguardasse a integridade referencial. No Brasil, os sucessivos escândalos, repercutidos diariamente pela mídia, que envolvem o PT e a figura do presidente (“mensalão”, “caos aéreos”, etc.) simulam uma diferença entre os discursos ideológicos do espectro político-partidário. No final, encobrem o fato de que um partido de esquerda, quando no governo, não consegue efetivar na vida real o programa ideológico professado (revolução, socialismo): tal qual o governo antecessor, dá continuidade às mesmas políticas econômicas ortodoxas ou neoliberais. Um governo de esquerda que “desse certo” poderia tornar-se potencialmente detonador de uma perigosa crise sistêmica: a exposição da reversibilidade de todos os discursos político-partidários e, por fim, a apatia política dos cidadãos e a crise regenerativa. A verdadeira “desobediência civil”.

Este modelo analítico proposto por Baudrillard pode ser aplicado a todos os sistemas. A reversibilidade simbólica entre o Bem e o Mal constitui a estrutura e os discursos dos e sobre os sistemas. Por exemplo, a produção econômica produz o seu contrário, a destruição e o desperdício. O discurso econômico racionalista ocidental concebe o fenômeno econômico com uma dinâmica que, tendencialmente, evolui para o Bem: a satisfação de todos os valores de uso, o combate à escassez, a racionalização dos recursos da sociedade. Mas o Econômico foi seduzido pelo Mal. Assim como no potlach, todo o valor de uso é volatizado na circulação das trocas. Para o valor se realizar no mercado é necessário produzir-se além do necessário para que o excedente seja queimado, destruído ou convertido em objetos descartáveis. A sedução pelo espetáculo e pela ilusão (guerras, publicidade, embalagens, design, etc.) conduz ao fascínio pela inutilidade. O escândalo moral que o discurso ecológico mobiliza contra esse sistema é a contraparte reversível de um todo. A possibilidade de reciclagem dos restos (lixo, gás carbônico, árvores arrancadas e assim por diante) de um sistema obeso, simula a existência de um referencial, de um valor de uso que ainda possa ser resgatado. Da mesma maneira, a existência da fome e da pobreza não é a denúncia, mas outra contraparte reversível da produção, o seu espelho: sem desigualdade social é impossível atribuir valores no mercado[15]. Status e luxo somente podem existir em uma escassez simulada, por exemplo, na destruição de gigantescos estoques de alimentos em guerras e crises econômicas cíclicas.

Tal raciocínio baudrillardiano demonstra essa convicção pós-marxista e anti-dialética que o aproxima do dualismo maniqueísta gnóstico: o mundo não tende para a síntese, mas para um jogo de oposições inconciliáveis e, ao mesmo tempo, inextricavelmente conectadas:

“De acordo com o Maniqueísmo a realidade do mundo é uma total ilusão. Foi corrompido desde o início. Foi seduzido por uma espécie de princípio de irrealidade desde tempos imemoriais … Todavia, deve-se reconhecer a realidade da ilusão; e entender a base dessa ilusão e do próprio poder que ela exerce. É aí que entra o elemento Maniqueo em meu trabalho. Essa é a chave de todo posicionamento: a idéia do mais fundamental e radical antagonismo, a impossibilidade da existência de uma reconciliação da ilusão do mundo com a realidade do mundo … Para mim, a realidade do mundo foi seduzida, e isso é o realmente Maniqueo em meu trabalho. Como os Maniqueos, não acredito na possibilidade de entender o mundo através de algum princípio racional ou materialista”[16]

Marx estava enganado, afirma o gnóstico Baudrillard. “o mundo não é dialético, tende para extremos e não para o equilíbrio, está destinado ao radical antagonismo, não para reconciliação ou síntese”[17]Isso porque o destino humano é ser prisioneiro de um drama cósmico: “em cada ação humana”, explica Baudrillard, “sempre há duas divindades em luta, nunca derrotadas e o jogo não tem fim.”[18]

Uma Teoria Não-Materialista da Linguagem

Com essa combinação do ceticismo grego do filósofo Pirro com a metafísica gnóstica do persa Mani, Baudrillard cria uma autêntica Teoria Não-Materialista da Linguagem. O centro desta teoria está na oposição da dupla espiral dos signos e símbolos.

Disneylândia: um modelo perfeito
para todos os simulacros
Para Baudrillard a reversibilidade simbólica é a superação do impasse do valor que permeia a teoria do signo em sua vertente saussuriana. Em Saussure o signo é desinvestido de qualquer relação simbólica, mas submetido a uma lógica social que o abstrai da relação de transitividade sujeito/objeto e o integra numa relação articulada com outros signos, produzindo um sistema autônomo de signos. O signo lingüístico é arbitrário e imotivado por não existir uma relação natural e necessária entre significante e significado. Se fosse fechado em si mesmo, esse processo de significação (de união entre significante e significado) tornaria a linguagem uma mera nomenclatura. Por isso as palavras devem ter um valor de troca e devem ser comutáveis. Esse valor é contextual porque emana de um sistema. É, portanto, um valor puramente distintivo, definido não positivamente pelo seu conteúdo, mas negativamente por suas relações com os outros termos do sistema.

Assim, o referente torna-se uma simples miragem. O sistema lingüístico autônomo define o que é “real” a partir da binariedade do código, do valor-signo definido pela negatividade das oposições: real/imaginário, verdade/mentira, verdadeiro/falso e assim por diante. A implicação dessa crítica baudrillardiana da economia do signo é que tudo o que a linguagem define como referências de uma suposta representação (valores funcionais tais como fala, uso) não passam de transcrição dessacralizada da lei moral em termos de funcionalidade e do princípio de equivalência. A linguagem tende para o fetiche, ritual, magia, para a simulação e o simulacro, enfim, já que ela nada espelha (razão, funcionalidade, valor de uso, realidade) a não ser as oposições distintivas do sistema.

Dessa maneira, a binariedade do código simula a referência. Por exemplo, para Baudrillard a Disneylândia é o modelo perfeito para todos os simulacros. O princípio de realidade cria um imaginário débil e infantilizado para, através da negatividade, salvaguardar a miragem do real.
“O imaginário da Disneylândia não é nem verdadeiro nem falso, é uma máquina de dissuasão encenada para regenerar no plano oposto a ficção do real. Daí a debilidade deste imaginário, a sua degenerescência infantil. O mundo quer-se infantil para fazer crer que os adultos estão noutra parte, no mundo ‘real’, e para esconder que a verdadeira infantilidade está em toda parte, e é a dos próprios adultos que vêm aqui fingir que são crianças para iludir a sua infantilidade real”[19]
Os referentes se afirmam através da sua própria negação. O efeito do real é apenas um efeito estrutural dessa disjunção dois termos distintivos e esse famoso princípio de realidade, com suas implicações repressivas e normativas, nada mais é do que a generalização deste código distintivo em todos os níveis.

Contra essa binariedade do código, Baudrillard evoca a reversibilidade simbólica: rituais de troca simbólica usando uma matriz dualística que movem os adeptos para além do princípio de realidade governado por signos dialeticamente binários. Para ele, o simbólico:
“… não é nem um conceito, nem uma instância ou uma categoria, num uma ‘estrutura’, mas um ato de troca e uma relação social que põem fim ao real, que resolve o real e simultaneamente a oposição entre o real e o imaginário”[20]

O simbólico é o fatal, uma espécie de “exorcismo da realidade”: potlach, desperdício, sacrifício, morte, o feminino, a sedução. Um exorcismo da realidade através do poder mágico da pura ilusão, da pura aparência. É o reino do fatal: quando uma pessoa, um evento ou ato alcança o nível da pura aparência. Uma aparência que de tal forma não possa ser decifrada ou interpretada. “O que me importa”, explica Baudrillard, “é a possibilidade de um puro evento que não mais possa ser manipulado, interpretado ou decifrado”[21]

Um evento impossível de ser racionalizado, pura aparência, sedução. Se os sistemas têm terror da ilusão e criam a simulação do efeito de realidade para o exorcizarem, a pura aparência é o êxtase da simulação via troca simbólica: simulação que de tão “real” explode a capacidade de racionalização do código. Por isso Baudrillard vai se referir aos ataques terroristas de 11 de setembro como “a mãe de todos os eventos”. Impossível de racionalizar diante da sua “inutilidade”, diante da sua perfeita simulação de realidade com um ato absolutamente sem sentido. Por isso, midiaticamente, foi um evento tão sedutor.
NOTAS


[1] Idem. The Evil Demon of Images. Sydney: Power Publications, 1987, p.46.
[2] BAUDRILLARD, Jean. Las Estrategias Fatales.Barcelona : Editorial Anagrama, 1983, p.5.
[3] Cf. MORRIS, Meagan. “Room 101 or a Few Worst Things in The World” e FOSS, Paul. “Despero Ergo Sum” In: FRAKOVITS, A. (org.) Seduced and Abandoned: The Baudrillard Scene, Glebe: Stonemoss Services
[4] Cf. WERNICK, Andrew. “Post-Marx: Theological Themes in Baudrillard’s America”, In: BERRY, Philipp and WERNICK, Andrew (Eds.), Shadow of Spirit: Postmodernism and Religion. London:Routledge, 1992; GENOSKO, Gary. Baudrillard and Signs: Signification Ablaze. London: Routledge, 1994;  WERNICK, Andrew. “Jean Baudrillard: Seducing God”, in BLOND, Phillip (Ed.) Post-Secular Philosophy: Between Philosophy and Theology. London: Routledge, 1998, e BOTTING, Fred, “Bataille, Baudrillard and Postmodern Gothic”, in Southern Review, Volume 27, Number 4, December 1994.
[5] BAUDRILLARD, Jean, “The Spirit of Terrorism”, In: Le Monde, 11/11/2001
[6] Idem, The Evil Demon of Images. Sydney: Power Publications, 1987, p.44.
[7] Idem, The Spirit of Terrorism and Requiem for the Twin Towers.London: Verso, 2002, p. 13.
[8] Idem, “Forget Baudrillard”, IN: Forget Foucault. New York: Semiotext(e), 1987, p.88.
[9] Idem, The Ecstasy of Communication. New York: Semiotext(e), 1988, p. 79.
[10]Idem, El Crimen Perfecto. Barcelona: Editorial Anagrama, 1996, p. 33.
[11]Idem, Simulacros e Simulações. Lisboa: Relógio D’Água, 1991, p. 26.
[12]Idem., Ibid., p.28.
[13]Idem. Partidos Comunistas: Paraísos Artificiais da Política. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.
[14]Idem, Simulacros e Simulações, p. 27.
[15]Isso quando a própria pobreza e desigualdade não se convertem, elas próprias, em mercadorias como, por exemplo no caso das favelas nos morros do Rio de Janeiro. Foram incorporadas como atrações numa espécie de city tour alternativo para turistas à procura de experiências semelhantes a um safári africano.
[16] Idem. The Evil Demon of Images, Sydney: Power Publications, 1987, p. 44-46.
[17]Idem, Las Estratégias Fatales.Barcelona: Editorial Anagrama, 1984, p. 5.
[18] Idem, Impossible Exchange. London: Verso, 2001, p. 100.
[19]Idem. Simulacros e Simulações. Lisboa: Relógio d’Água, 1991, p. 21.
[20]Idem. A Troca Simbólica e a Morte. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p. 204.

1 comment

  1. Anonymous Responder

    otima analise, estou comecando a estudar esses conceitos e adorei o texto.