Dez filmes arruinados pelas novas tecnologias

Com as novas tecnologias cada vez mais intrusivas e onipresentes, o Cinema vive um paradoxo: os filmes não têm o menor problema para...

Com as novas tecnologias cada vez mais intrusivas e onipresentes, o Cinema vive um paradoxo: os filmes não têm o menor problema para fazer o público acreditar em fantasmas, gremlins, maníacos sobrenaturais, feiticeiros, vampiros, poltergeists ou extraterrestres. Mas está cada vez mais difícil fazê-los aceitarem que o herói de um filme não esteja munido com a tecnologia necessária (smartphones, Ipads, GPS etc.) para frustrar as intenções do Mal. O avanço tecnológico está criando um impasse entre roteiristas e diretores: muitos plots de filmes do passado, hoje seriam impossíveis de serem realizados como “Esqueceram de Mim”, “Psicose” etc. Internet e dispositivos móveis estão cada vez mais inviabilizando os arquétipos clássicos do cinema que tornavam dramática a jornada do herói. Por isso, os roteiristas ou se voltam para filmes ambientados em décadas passadas ou fazem de tudo para anular esses dispositivos – perda de sinal etc., o que pode tornar o roteiro inverossímil. Vamos analisar uma lista de dez filmes cujos plots hoje seriam impossíveis de serem filmados.

Sempre nos acostumamos a pensar como o cinema, e principalmente os filmes de ficção científica, tendem a moldar ou antever as tecnologias do futuro. Foi assim, por exemplo, como o comunicador do Capitão Kirk na série Jornada nas Estrelas nos anos 1960 que anteviu o telefone celular.

Mas desta vez vamos olhar para esse mesmo processo de fora para dentro do cinema: a evolução tecnológica afeta o modo como escrevemos argumentos e roteiros? Não estamos nos referindo a softwares especializados para a redação de roteiros ou programas de edição. Vamos tratar especificamente do impacto nos temas narrativos do cinema em um mundo que se torna cada vez menor graças à tecnologia de comunicações móveis como celulares, smartphones, tablets, GPS etc.

A existência de smartphones e GPS inviabilizariam tramas como a de “Depois de Horas” (1985) de Scorsese

Muitos roteiros de filmes do passado como, por exemplo, Esqueceram de Mim (Home Alone, 1990), hoje seriam inverossímeis. O filme basicamente explora um dos tropo mais reconhecíveis do cinema – a comédia de erros baseado em mal entendidos e a dificuldades de comunicação. Hoje, uma simples mensagem de texto destruiria a situação da mãe que esqueceu o filho em casa e tenta retornar da Europa, tentando desesperadamente uma ligação para casa e para a polícia.

Ou ainda o filme Depois de Horas (After Hours, 1985) onde o protagonista vê sua única nota de dólar voar pela janela do táxi para depois passar a madrugada perdido no submundo de Nova York, tentando desesperadamente achar um telefone para ser resgatado de lá. Perigo, paranoia, ansiedade, incomunicabilidade, desorientação e perseguição se tornaram temas privilegiados para o Cinema. Mas hoje, no mundo das comunicações instantâneas onde uma simples mensagem de texto ou o GPS podem rapidamente nos tirar de enrascadas, essas situações deixam de serem plausíveis.

Arquétipos do Cinema e novas tecnologias

Alguém poderia afirmar que um roteirista experiente o suficiente pode se adaptar à forma como a tecnologia funciona, propor novos plots e situações que incluam celulares e mensagens de textos.

Mas para o crítico e pesquisador Witney Selbold as coisas não funcionam assim no Cinema. O público ama arquétipos, tropo tradicionais e personagens familiares. Fatalmente, as jornadas dramáticas escritas para o cinema sempre vão se estruturar dentro da chamada Jornada do Herói – sobre isso leia “Technology Vs. Screenwriters! Fight!”.

“Enterrado Vivo”: roteiros adaptam celulares nas suas atuais disfunções e limitações

Imagine a cena de um herói corajoso com sua heroína perdidos em uma escura floresta, perseguidos por um maníaco com um machado. Certamente nos seus bolsos estarão telefones celulares com recursos que, na vida real, resolveriam rapidamente o problema. Por isso, os roteiristas têm que anula-los de alguma maneira – bateria esgotada, perda de sinal, o telefone caiu, foi perdido, destruído – não seria surpreendente lançarem hoje um filme de terror com o título “Serviço Não Disponível”.

Mesmo em filmes como Enterrado Vivo (Buried, 2010) onde o protagonista é enterrado por terroristas em um caixão em algum lugar no Iraque e contracena unicamente com seu celular, o plot principal é a tensão com as limitações do dispositivo: a bateria está acabando, o sinal se perde, recepção é fraca – e na vida real, os avanços tecnológicos tendem a minimizar ou eliminar esses problemas, prometendo enrascadas ainda maiores para os roteiristas no futuro.

Como anular a tecnologia nos roteiros

Em outras palavras, na atualidade roteiristas e diretores, em primeiro lugar, lutam contra a tecnologia, inventando maneiras diferentes de eliminá-la para que o plot arquetípico possa continuar sem perturbações.

A segunda alternativa é simplesmente ignorá-la, o que pode trazer grandes buracos e inverossimilhanças no roteiro como no caso do filme Desconhecido (Unknow, 2011) com Liam Neeson: bastaria um e-mail ou até mesmo uma fotografia enviada por fax para que toda a premissa do filme se desintegrasse diante dos olhos do espectador.

“Super 8”: retro de outras décadas para fugir das novas tecnologias

Outra tendência atual é a produção em série de filmes cujas narrativas estão ambientadas em décadas passadas como Bastardos InglóriosRobin Hood, Argo, Super 8, Um Olhar do Paraíso, Black Dynamite, The Runways, Inherent Vice, o revival do gênero western com Cowboys & Aliens etc.

Cresce o número de filmes ambientados nos anos 60, 70 e 80 onde as tecnologias modernas como telefones celulares, Internet, Twitter, Facebook, Google, Droids e Ipads não existem para estragar a jornada dramática.

Sem falar nos filmes históricos bíblicos recentes como GladiatorNoé e Êxodo: Deuses e Reis, entre outros.

Em síntese, com rápida mudança das tecnologias das comunicações que tornam o mundo cada vez menor, roteiristas vivem o perigo de continuar explorando os grandes arquétipos narrativos que tanto aguardam público e cinéfilos sob pena de criar narrativas inverossímeis, anulando uma das principais ferramentas da profissão: a suspensão da incredulidade.

Para ilustrar esse tema vamos examinar casos onde as novas tecnologias teriam arruinado plots de filmes que, em muitos casos, impossibilitariam até a chance de serem refilmados.

10. The Ring (2002)

Tanto no original japonês quanto no remake americano, todos que assistem a uma determinada fita VHS morrem no prazo de sete dias, porque uma menina assustadora desliza para fora da televisão para assustá-los até a morte. VHS tornou-se obsoleto e o DVD segue rápido esse caminho. Talvez poderíamos fazer uma versão sobre pessoas que morrem por baixar um filme de algum sinistro servidor da Deep Web.  Mas mesmo nesse cenário, podem haver problemas porque um monte de gente assiste vídeos piratas em seus tablets ou celulares: até a mais sobrenatural menina teria dificuldades em deslizar para fora de dispositivos tão pequenos…

Além disso, por razões que a só a semiótica pode explicar, o mal não conseguiria se disseminar de forma digital… o mal é analógico –  clique aqui sobre a “Semiótica da Macumba”.

09. Poltergeist (1982)

 Há algum tempo atrás os canais de TV saiam do ar no final da programação, deixando o chamado “ruído branco” na tela e um áudio com um irritante chiado.

Em Poltergeist, o ruído branco de aparelhos cujos espectadores esqueciam ligados porque pegavam no sono, era o veículo por onde fantasmas presos no limbo se comunicavam e saiam para raptar uma pequena menina.

Hoje, tudo isso ficou datado. Os canais são 24 horas, a TV é a cabo. E o que é pior para os espíritos: nas HDTVs não existe mais o ruído branco: a tela fica escura com um aviso de que não há sinal… Os fantasmas acabaram com o fim das TVs com aqueles pesados tubos de raios catódicos.