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Entrevista com Renata Dias Gomes

 Renata Dias Gomes, colaboradora da novela Amor & Revolução, fala de independência criativa, do conflito ideologia x entretenimento e do curioso fato de que a Globo hospedasse dramaturgos comunistas na ditadura. 

Por Renata Arruda [28.07.2011 08h09]

 

A opção por novela vem de alguma herança de família?

Quando eu comecei a escrever novela, comecei porque acreditava nisso. Eu fiz faculdade de cinema e sofri um preconceito muito grande na faculdade. Eu dizia que queria trabalhar com televisão e ficava todo mundo me olhando torto. Mas eu acredito muito nas novelas. Tem a ver com herança de família também porque vi novelas boas dentro de casa, então acredito que dá pra fazer novela e fazer um produto de qualidade.

 

Você declarou “Novela é industria, tem obrigação de dar lucro e retorno ao investidor, mas é feita por artistas”. Como é o desafio?

A gente tenta não entrar nessa onda da indústria, a gente tenta ser artista. Pelo menos a minha postura é essa, tentar manter o meu trabalho isento. E aí o meu trabalho pra isso é fazer da melhor forma possível pra não precisar de interferência. É aquela história, se você dá audiência você vai ter liberdade criativa. O caminho é esse. Tem uma linha de pessoas que acham “vou escrever novela pra classe C e D, classe C e D gosta disso e então eu vou escrever isso”. Eu sou contra isso, eu acho que você não tem que menosprezar o seu espectador. Eu acho que você tem que contar a tua história, da melhor forma possível, e se você fizer isso bem, se for uma boa história, o público compra a tua ideia.

Eu acho que o público ainda está interessado em histórias politizadas, mas não se faz mais novelas assim.

Por quê?

Não sei, acho que rola um pouco de preguiça, de medo. Eu não acho que o público tenha emburrecido não, se alguém emburreceu foram os autores. Acho que a culpa é nossa. Isso é uma questão pra mim também, eu fico pensando no que será que aconteceu. Mas eu penso também que assim: morreu Dias Gomes, morreu Bráulio Pedroso, morreu Janete Clair, morreu um monte de gente que escrevia essas coisas e ainda não surgiram outros que façam esse tipo de trabalho. Eu acho que é o medo do autor. O autor quer fazer sucesso, aí ele fica com medo de ousar e de fazer um negócio diferente porque pode não dar certo.

 

Você colabora com Amor e Revolução, que vem sendo criticada... 

O público achou a novela violenta. Quando a novela estreou, o público criticou a violência pela violência, porque era gratuita. O problema é que a novela estreou mostrando tortura pesada. E aí tem outra coisa. A pessoa que, se não viveu aquilo, conhece alguém que vivenciou – o que é totalmente diferente de uma violência ficcional – aquilo fala fundo pra um monte de gente. Eu conheço um monte de gente que viveu as torturas na época e que falam “eu adoro a novela, mas não consigo ver as torturas, me remete à coisas”, tem esse fator. Mas o grande problema é que a novela tinha as cenas de tortura, fortes pra caramba, muito bem feitas, mas você não sofria pela personagem que estava sofrendo, você não tinha o envolvimento. Incomodava o público porque ele não estava envolvido com aquela história. Se o público tivesse envolvido, ele não ligaria, eu tenho certeza. Amor e Revolução veio para mostrar isso [a tortura], mas deviam ter apresentado primeiro os personagens, a história deles, como eles viviam na época, pra depois entrar com o golpe. 

 

E a cena do beijo gay? Li que nos bastidores do SBT a novela vinha sendo apelidada de “Sessão Prive” e alguns atores não estavam gostando muito

A repercussão foi ótima. E eu acho que tem mais é que fazer, eu acho que precisa acabar com isso de uma vez. O casal criou a maior química, elas estão super bem, é o casal que tem mais torcida na novela.

Os atores eu não sei, porque eu não tenho contato. O problema não é ter beijo gay, o problema é ter beijo gay fora do contexto. Beijo gay, beijo hétero, cena de sexo hétero, pra tudo isso você tem que ter uma história envolvente.

 

E o corte dos depoimentos?

Eu não sei o que houve pra eles tirarem os depoimentos agora. Mas os depoimentos eram ótimos! A posição oficial do SBT é que eles não conseguiram depoimentos de direita, só conseguiram depoimentos de esquerda. Apesar do Jarbas Passarinho ter falado, eles argumentaram que queriam colocar os dois lados.

Eu me lembro que logo na coletiva de imprensa o [Reynaldo] Buri falou “a gente tá aberto pra receber depoimentos de todos os lados”, mas ninguém de direita procurou. Depois disso, dois de direita procuraram e foram ao ar. A produção tentou o depoimento de alguém forte de direita, acho que do Ustra e ele não quis porque ficou com medo de ser editado. Não sei, eu não mexo com nada disso, meu trabalho é só escrever.

 

A espectadora Valéria Fernandes comentou, em blog, o seguinte:

"Eu queria ver nesta novela as diferenças de pensamento tanto na direita, quanto na esquerda. Queria ver as pessoas comuns que apoiaram o Golpe(...)”

É, faltaram pessoas que não tinham nada a ver com isso. A maioria das pessoas, inclusive, não se envolveu. Muita gente apoiou o golpe, muita gente tinha medo do comunismo. Eu sou de uma família de esquerda, então pra mim o mais natural é achar qualquer tipo de ditadura militar um absurdo e o comunismo um projeto interessantíssimo. É lógico que eu sempre tive interesse em conhecer o lado que pra mim era a direita, mas pra mim o normal, é alguém chegar e defender mesmo o país, a democracia. É absurdo alguém não defender a democracia. Mas eu consigo entender que assim: o comunismo, em todos os lugares em que foi implantado, virou uma ditadura. O comunismo entrou não só como uma ditadura de poder, mas como uma ditadura de ideias. Então as pessoas tinham medo, elas não queriam a ditadura. Quando o exército entrou, ele era muito apoiado pela classe média.

Acho que, se a gente tivesse mostrado o lado da direita também, iam sobressair as ideias da esquerda, não ia ser o contrário. A solução não é defendê-los como certos, mas acho que você tem que colocar os dois lados e deixá-los duelarem entre si e o público entende,até porque depois a ditadura mostrou o lado horrível dela.

Eu acho que as emissoras não estão interessadas em ideologia e política, no caso das novelas. Mas tanto é que meu avô fazia novelas politizadas dentro da Globo no auge da ditadura. Meu avô era comunista e trabalhava na Globo! A maior prova, pra mim, de que as emissoras são comerciais e não ideológicas é isso. O meu avô fez O Bem Amado no auge da ditadura, dentro da TV Globo. Meu avô nunca foi mandado embora do país. Você acha que se ele não fosse contratado da Globo não teria sido preso, torturado e exilado? É lógico que teria sido, como todo mundo foi! Ele ficou aqui por dois motivos: primeiro, a minha avó era a esposa dele e se ele fosse embora ela iria junto, e ela era a maior audiência da Globo. E segundo, que ele também fazia novelas de sucesso. Tem aquela frase famosa do Roberto Marinho que diz “Dos meus comunistas cuido eu”. Ele pegou o meu avô, Mário Lago, Lauro César Muniz, Bráulio Pedroso. Os comunistas todos trabalhavam dentro da TV Globo naquela época.

Então o importante é você contar uma boa história, a questão é a audiência, não a ideologia.

 

E você acompanha a política?

Eu gosto muito de política mas não sou filiada a nenhum partido. Pra ser artista, eu preciso ser isenta pra criticar tanto a direita quanto a esquerda, acho que faz parte da função do artista, pelo menos dessa área que eu gosto. Acho que a arte está aí pra isso. Eu bato na tecla da novela porque o cinema não alcança o público no Brasil ainda. Filme nacional é super difícil de penetrar, e a novela penetra. Acho que a gente tem esse poder nas mãos e a gente pode usar isso de uma forma positiva. É lógico que tem que ter na cabeça que a gente não tá fazendo Telecurso, tá contando história. A gente tem que tomar cuidado pra não levantar bandeira, pra não ir pra um lado ou pro outro, precisa colocar os dois lados pra duelarem e deixar que o público tome partido.

 

Como foi o contato com seus avós e suas obras?

Eu vivi bastante com meu avô, quando ele morreu eu já tinha 15 anos. Eu nunca quis saber muito das novelas dele, porque eu sabia que queria escrever, então eu não quis me influenciar. Eu tive mais contato com o meu avô como avô. Eu sabia que uma hora seria inevitável, meu avô era adotado na escola, então eu sabia que uma hora eu ia ter que ler.  

Já com a minha avó foi uma relação diferente, porque eu não a conheci. Eu fui conhecendo a obra dela aos poucos, essa coisa assim do mito, de ela ter sido a maior autora, de ela ter dado cem pontos de audiência. Pra mim, ela era a minha avó, que morreu logo depois que eu nasci.

Ela sofreu muito preconceito dos amigos do meu avô, porque diziam que a arte dela era alienada e ela não era alienada, ela tinha as bandeiras dela que eram diferentes das bandeiras deles. A minha avó era feminista. Eu pego a sinopse dela do Astro e tem a personagem que é a Lili, que dirige um táxi. Isso em 78 era uma revolução, uma mulher que dirige um táxi! E aí ela sofreu muito preconceito dos intelectuais de esquerda, diziam que ela era alienada mas eles não compreendiam a obra dela, eu acho. Era muito popular, e eu acho que ser popular não era legal pra eles. Quando ela deu cem pontos, eu pergunto assim “o que estavam assistindo os intelectuais de esquerda quando ela deu cem pontos de audiência?”

Meu avô também fazia novelas de muito sucesso mas como ele era da patota, as pessoas não tinham problemas com ele fazer novela. Ele foi escrever novela pensando também na audiência, tem isso na biografia dele, ele fala que a novela tem a plateia que o teatro nunca deu a ele, mesmo ele tendo sido um grande dramaturgo. O filme dele ganhou Cannes e as pessoas não sabem, mas as pessoas assistiram muito mais O Bem Amado do que O Pagador de Promessas. Foi o primeiro filme [brasileiro] indicado ao Oscar e é do meu avô.

 

E pensa em adaptar sua avó algum dia?

Não é o meu ideal de vida adaptar uma novela dela nesse momento, eu queria primeiro conseguir fazer o meu trabalho, que as pessoas conhecessem o trabalho da Renata pra depois adaptar uma obra dela e virar uma homenagem, porque senão fica parecendo que eu estou me aproveitando do trabalho dela pra me lançar. Ou então, espera aí: a Janete Clair é um mito, não tem como ser melhor do que ela. Então se a novela for bem é porque a Janete Clair é boa pra caramba. Se for ruim, é porque a Renata estragou. Então melhor não agora, é muita responsabilidade fazer Janete Clair, eu prefiro fazer mais pra frente.

Tenho projetos em outras áreas que não consigo tocar agora porque a novela tomou tempo. Tenho projeto de uma peça de teatro e tenho sinopses de novela também, mas acho que as histórias surgem com seus formatos. Eu gosto é de escrever. Ponto.


Tags: SBT   televisão   Dias Gomes   novelas   anos 60  




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