A Comissão da Verdade tem um papel pedagógico

“Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.” (Voltaire)

Apesar de todas as suas limitações, a instalação da Comissão da Verdade no dia 16 de maio, foi um marco importante na construção da democracia no Brasil. Dos países latino-americanos que passaram por ditaduras militares nos anos 1970, o Brasil é o país mais atrasado no tocante aos ajustes históricos a serem feitos com o período repressivo.

O problema mais visível é o esclarecimento de situações que envolvem vítimas da repressão política que até hoje se desconhece o paradeiro. Decorrente disto, a visibilização de agentes que atuaram na repressão política, muitos deles atuando hoje sem qualquer tipo de condenação, ainda que moral.

A questão que se coloca aqui não é o temido “revanchismo”, mantra repetido pelos segmentos conservadores e por parte da mídia hegemônica. Mas sim o ajuste de contas com um período em que a prática política da violência tornou-se central. Relevar este problema tem consequências implícitas graves na atualidade, uma delas é a manutenção de uma tolerância com a violência nas práticas políticas e de agentes públicos.

Sobre Alexandre Pires, indústria cultural e racismo

“Sinto-me profundamente chocado com qualquer leitura racista ou sexista num clipe protagonizado por mim, negro com orgulho da minha cor, autor e intérprete de música romântica, sem que isso nunca tenha sido confundido com sexismo. Devemos tratar toda e qualquer brincadeira com macacos e gorilas como uma referência a ser apagada da nossa memória? King Kong, Chita, Monga, eram todos personagens com alguma leitura que não a do genuíno entretenimento? Não me consta que meu histórico deixe alguma dúvida sobre o meu respeito à mulher ou ao negro, e a edição deste filme em nenhum momento faz brotar qualquer insinuação similar.”

Esta é a íntegra da nota oficial lançada pelo cantor Alexandre Pires como resposta à denúncia de crime de racismo feita pela Procuradoria Geral da Justiça de Uberlândia. O clipe em questão mostra Pires, o jogador Neymar e Mr Catra vestidos de macacos (em alusão a King Kong) dançando com várias meninas de biquíni em uma piscina. As críticas ao clipe vão de racismo ao machismo.

A mídia e o partido do capital

Tempos atrás, no lançamento do livro O artilheiro indomável, sobre a vida do Serginho Chulapa, estavam eu, Renato  Rovai e o José Augusto Camargo, o Guto, presidente do Sindicato dos Jornalistas de S. Paulo, conversando sobre o papel que a mídia hegemônica vem desempenhando no país.

O Guto disse que tinha publicado no blog dele uma matéria mostrando as intricadas redes entre os proprietários da mídia e o mundo financeiro e empresarial. Uma reflexão muito interessante que lembra um dos tópicos da pesquisa do Noam Chomsky e Ed Herman – “O Consenso Fabricado” – em que ele diz que um dos filtros da mídia é o “porte e propriedade dos meios de comunicação de massa”.

Chomsky e Hermann mostram que boa parte das empresas estadunidenses de mídia são propriedades de grandes transnacionais que têm negócios em determinados países do mundo, o que acaba por modular o tipo de cobertura internacional destes órgãos.  Na pesquisa conduzida pelos dois professores do MIT, ficou comprovado que o apoio midiático às ações intervencionistas do governo dos EUA a determinados países estavam diretamente vinculadas a interesses (contrariados eventualmente por governos destes países) destas corporações transnacionais.

A Senzala começa a entrar na Casa Grande

Depois da votação unânime do Supremo Tribunal Federal ontem a favor das cotas raciais nas universidades, fiquei pensando em como o racismo está impregnado fundo na sociedade brasileira. E este racismo se combina com um elitismo que parece até atávico em certas pessoas.

Os argumentos dos que são contrários as cotas raciais nas universidades lembram falas de vários tempos passados em momentos que se discutiam – e aprovavam – normas que beneficiavam grupos sociais excluídos. Algumas delas foram bem lembradas pelo jornalista Elio Gaspari, em coluna publicada na FSP de 25/04 e republicadas no portal Viomundo:

Em 1871, quando o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre, argumentou-se que libertando-se os filhos de escravos condenava-se as crianças ao desamparo e à mendicância. “Lei de Herodes”, segundo o romancista José de Alencar.

São Paulo: mudança ou barbárie

Mino Carta, em diversas ocasiões, comentou que a cidade de São Paulo é “autofágica”. Boa parte desta perspectiva paulistana decorre de uma presença forte de um pensamento conservador baseado, principalmente, em uma visão excessivamente privatista, endógena e, de quebra, intolerante.  Alguns fatos, aparentemente desconectados entre si, ilustram isto:

1. A respeito da tragédia que vitimou um jovem torcedor do Palmeiras na briga das organizadas deste time e do Corinthians recentemente. Conversei com vários jovens que fazem parte de torcidas organizadas e falei sobre este caso, demonstrando a barbárie que virou esta briga de torcidas. Um deles virou e disse: “O problema é que ele estava na hora errada e no lugar errado”. Estupefato com esta afirmação, perguntei se ele achava, então, que era justo uma pessoa morrer por um motivo tão banal, poderia ser um amigo ou parente dele. A resposta:  “Antes ele do que eu. Se fosse eu no lugar dele, ele estaria rindo agora”.

2. Já de há muito tempo, ministro uma disciplina no curso de jornalismo na ECA/USP que produz um jornal comunitário para  favela do Jardim São Remo, próximo ao campus do Butantã da USP. Tempos atrás, uma turma de alunos deixou de produzir uma edição especial do jornal sobre meio ambiente que tínhamos combinado com a comunidade. Como a edição seria produzida após o semestre letivo, a turma praticamente abandonou a produção, não cumprindo uma coisa combinada com a comunidade. Naquele ano, houve uma greve de funcionários e a reitoria decidiu ampliar o prazo para inserção das notas – não tive dúvidas, baixei a nota dos alunos que não cumpriram o prometido. Houve uma revolta geral. Argumentei que aquele comportamento prejudicava o relacionamento da universidade com a comunidade, podendo trazer problemas, inclusive, para as turmas seguintes. O comentário de uma aluna: “Não estou nem aí, não vai ser mais a gente que vai fazer isto”.

Questões nebulosas sobre a presença da PM no campus da USP

A Universidade de São Paulo, desde o ano passado, vem passando por um intenso debate acerca da segurança, principalmente no campus Butantã. Após a tragédia que vitimou um estudante da FEA, vítima de latrocínio, o tema segurança passou a ser agendado na opinião pública como o maior problema da instituição.  Cerca de três meses após a entrada da PM no campus, a reitoria e o governo do estado “comemoraram” a queda de 92% nas ocorrências. A notícia não esconde o que tem sido prioridade na política de segurança na ótica conservadora: os índices que mais caíram e foram “comemorados” pelas autoridades foram a queda nos roubos e furtos de veículos, indicando a preocupação com a preservação do patrimônio.

O agendamento da opinião pública teve um caráter classista. Não obstante o caráter trágico da morte do estudante da FEA, os índices de violência na USP são muito inferiores a qualquer bairro periférico. Porem, o discurso midiático praticamente “naturalizou” a violência na periferia e “tornou trágica” qualquer ocorrência nos lugares onde a classe média e alta frequenta.

Por esta razão, passou quase que despercebido pela maior parte da mídia hegemônica a reportagem veiculada no Jornal da Band no início de abril que fala do envolvimento de policiais do 16º. Batalhão de Polícia Militar com a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).  Segundo a reportagem, elaborada pelo jornalista Sandro Barboza, investigações da Corregedoria e da Polícia Civil sobre o envolvimento de PMs com o crime organizado tem sido sistematicamente ignoradas pelo comando da corporação.

O pessimismo de Stuart Hall é um alerta importante para os rumos da esquerda na América Latina

Stuart Hall, pensador jamaicano radicado há 60 anos na Inglaterra, concedeu uma entrevista ao The Guardian às vésperas de comemorar o seu 80º aniversário.  Demonstrou que está mais pessimista do que tempos atrás quando escreveu os famosos textos que marcaram sua trajetória acadêmica (a maior parte deles publicados no Brasil na coletânea Da diáspora, Editora UFMG). Naquele momento, Hall enxergava na diversidade cultural e no interculturalismo possibilidades reais de transformação social. Fez uma releitura do pensamento marxista, a partir de Gramsci e Althusser, propondo que a relação entre a instância econômica e a cultural não fosse marcada por uma determinação linear (como uma apreensão mais ingênua do marxismo prega), mas sim de forma dialética.

“Eu me envolvi em estudos culturais, porque eu não acho que a vida foi determinada unicamente pela economia. A questão é que, em última instância, a economia vai determinar isso. Mas quando é a última instância? Se você estiver analisando a conjuntura atual, você não pode começar e terminar na economia. É necessário, mas insuficiente.“ Hall exemplifica com os protestos de Tottenham e também com a crise nos países europeus para falar sobre isto. O motivo dos protestos e a crise têm um fundo econômico, entretanto, a dificuldade de se construir alternativas políticas se deve ao fato de se pensar as possibilidades sempre no campo do economicismo. Para Hall, parte dos protestos de Tottenham se deve ao fato de que o imperativo neoliberal de consumir não é realizável por aqueles grupos sociais. Não é à toa que parcela dos manifestantes saquearam lojas em busca de objetos fetichizados pela sociedade de consumo.

Com a saúde debilitada, Hall fala sobre o sistema de saúde privatizado. Aborda de uma forma já batida – como é possível transformar a saúde em mercadoria, questiona ele – mas apontando para uma deformação dos sujeitos operadores de um modelo como este. “Quem lucraria com problemas de saúde de alguém? Que tipo de pessoa que seria isso? Você confiaria a tais pessoas o seu orçamento, e mais a sua saúde ou a saúde de um ente querido? O caso moral não está sendo colocado com força suficiente, na verdade, não está sendo colocado em nada.”

Polêmicas no MinC não são briga por cargos, como quer a Folha de S. Paulo

São Paulo está sediando um evento importante para a discussão dos rumos da política cultural: o I Fórum Internacional de Gestão Cultural. O evento começou na quarta, dia 21 e vai até sexta, dia 23, na Livraria Cultura. O evento é promovido pelo Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação, núcleo da USP, em parceria com a livraria que sedia o fórum. Por um acaso, o fórum coincidiu com um aumento da discussão sobre a atual gestão do Ministério da Cultura, expresso principalmente com os manifestos defendendo mudanças no ministério (ver post no blog do Rovai).

O caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo publicou, nesta quinta, uma entrevista com o ex-ministro Juca Ferreira, em que o mesmo faz críticas à atual gestão do MinC. A matéria foi pautada no sentido de explorar um racha entre a atual e a anterior gestão do ministério, apesar de, em diversas vezes, Juca Ferreira insistir que não queria fazer uma avaliação da atual gestão. Também houve insistência do jornal em transformar o ex-ministro em candidato à sucessão de Ana de Hollanda. O que salta aos olhos desta matéria do “jornal a serviço do país” é transformar uma discussão de fundo que aborda concepções de políticas de Estado para a cultura em uma briga por cargos ou um racha na aliança governista por cargos. No portal UOL, onde está a íntegra da entrevista, percebe-se que todas as perguntas e respostas que tratam das questões mais de fundo (inclusive o tema do fórum, uma gestão para além do mercado) foram cortadas em prol de enfatizar uma técnica preconcebida do jornal de se tratar de mais uma briga por cargos.

A abertura do Fórum contou com as conferências de Juca Ferreira e Alfredo Manevy, ex-secretário executivo da pasta. As discussões apresentadas por Juca e Manevy foram na direção dos contrapontos conceituais do q ue é cultura, gestão cultural e papel do Estado na formulação de políticas públicas de cultura. Enfim, os motivos pelos quais ambos criticam a atual gestão do MinC.
Assim, a discussão existente atualmente referente ao atual ministério da Cultura se dá não por um desejo de ocupação de cargos mas sim por uma questão de conteúdo e concepção que tangencia, necessariamente, uma reflexão sobre qual é o papel do Estado neste campo. Manevy, em sua fala na abertura como as do Fórum, defendeu que a “cultura e o tema ambiental são os novos espaços de repolitização da sociedade”. Isto porque a emergência da visibilidade da diversidade cultural e os problemas ambientais mais graves forçam uma discussão política global sobre como o Estado deve atuar nestes campos, uma vez que está claro que o mercado, por si, não só não tem capacidade de resolver mas tende a agravar os problemas que se verificam, como as intolerâncias, o racismo e a destruição do ambiente.

Quem ganha com o vandalismo no samba?

O que aconteceu na apuração dos desfiles das escolas de samba de São Paulo foi lamentável, mas que sirva de alerta sobre o risco que o carnaval paulistano está tendo com a admissão das “torcidas organizadas” como escolas de samba.

Sou Vai-Vai desde criança, coisa de família. Saí muitas vezes pela Vai-Vai e, mesmo torcendo apaixonadamente pela escola do Bixiga, onde nasci, frequentei nos anos 1990, sem problemas, o saudoso botequim do Camisa Verde (pagode de qualidade aos sábados) e o Cantinho do Peruche aos domingos. Ia até aos ensaios de outras escolas em que muitos amigos e amigas minhas desfilavam. Sambas memoráveis da então maior rival da Vai-Vai, a Camisa Verde e Branco não me saem da memória como “Mareou, maré levou, indo afora a mostrar, voar, voei, cruzei o mar, eu sou cinema popular” (tetracampeonato da Camisa em 1974).

Ou ainda “Não é preconceito/Negro e branco tem direito/Nossa escola não faz distinção de cor (…) A nossa escola enaltece a negra gente/Que nunca ficou chorando/Sempre viveu cantando/Fingindo contente”. Neste ano, acho que foi 1982, o Camisa perdeu o carnaval para o Vai-Vai que saiu com o samba “É Orun/Orun-Ayê/O eterno amanhecer/E lá no alto quando o sol brilhou/Eu avistei a pedreira de XangÃ?”. Fiquei feliz com a vitória, mas lembro deste lindo samba do Camisa que saiu com uma batida diferente na bateria.

As exigências feitas ao Enem são ideológicas e não técnicas

Fernando Haddad pôs o dedo na ferida ao considerar que as exigências que alguns promotores e a Justiça têm feito ao Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) têm muito mais aspectos ideológicos que técnicos.

Em nenhum processo seletivo, seja os vestibulares das universidades mais famosas, como os realizados pela Fuvest (USP), Vunesp (Unesp), concursos públicos realizados pela Fundação Carlos Chagas, pela própria Vunesp ou outras instituições, a maioria privadas, o Ministério Público se mobiliza para questionar critérios de correção, exigir devolução de provas para conferência, entre outros.

A argumentação de que os critérios de correção são “subjetivos” é piada. Vários concursos públicos para cargos de nível superior em instituições públicas são feitos com base em questões dissertativas e até incluem redações. Ou ainda concursos para docentes em universidades que incluem “entrevistas” – os critérios não são subjetivos?

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