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	<title>Dennis de Oliveira &#124; Revista Fórum</title>
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		<title>Sobre Alexandre Pires, indústria cultural e racismo</title>
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		<pubDate>Fri, 11 May 2012 14:59:33 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[&#8220;Sinto-me profundamente chocado com qualquer leitura racista ou sexista num clipe protagonizado por mim, negro com orgulho da minha cor, autor e intérprete de música romântica, sem que isso nunca tenha sido confundido com sexismo. Devemos tratar toda e qualquer brincadeira com macacos e gorilas como uma referência a ser apagada da nossa memória? King [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;Sinto-me profundamente chocado com qualquer leitura racista ou sexista num clipe protagonizado por mim, negro com orgulho da minha cor, autor e intérprete de música romântica, sem que isso nunca tenha sido confundido com sexismo. Devemos tratar toda e qualquer brincadeira com macacos e gorilas como uma referência a ser apagada da nossa memória? King Kong, Chita, Monga, eram todos personagens com alguma leitura que não a do genuíno entretenimento? Não me consta que meu histórico deixe alguma dúvida sobre o meu respeito à mulher ou ao negro, e a edição deste filme em nenhum momento faz brotar qualquer insinuação similar.&#8221;</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Esta é a íntegra da nota oficial lançada pelo cantor Alexandre Pires como resposta à denúncia de crime de racismo feita pela Procuradoria Geral da Justiça de Uberlândia. O <a href="http://youtu.be/_CU8HLcsQro">clipe</a> em questão mostra Pires, o jogador Neymar e Mr Catra vestidos de macacos (em alusão a King Kong) dançando com várias meninas de biquíni em uma piscina. As críticas ao clipe vão de racismo ao machismo.</p>
<p><span id="more-157"></span></p>
<p>A Globo já está anunciando nesta semana matéria a ser exibida domingo no Fantástico sobre o assunto, dando destaque à defesa de Pires.  Depois da decisão, por unanimidade, da constitucionalidade das cotas raciais no Supremo Tribunal Federal, os incomodados com a visibilidade da discussão do racismo e da necessidade de se implementar políticas públicas de combate às desigualdades raciais encontraram justamente em um “popstar” negro um ponto de referência. Com certeza, a tônica dos discursos destes “incomodados” será que há um “exagero” nas denúncias, de que o movimento negro vê “racismo em tudo” e, com certeza, vai sobrar para as críticas ao “politicamente correto” que tanto “atrapalha a liberdade criativa dos artistas”.</p>
<p>Duas coisas são interessantes neste assunto. A primeira são as regras implícitas que a indústria cultural coloca para a visibilidade de negros e negras. O espaço lúdico, historicamente, tem sido no Brasil a principal forma de ascensão social de negros e negras. Ascensão social e visibilidade. Isto tem relação com o poder de resistência da cultura negra e, principalmente, pelo fato dela estar enraizada na sociedade brasileira. Digo resistência porque não há como negar a força da cultura de um segmento social historicamente oprimido no país e que, mesmo assim, tingiu de negro a paisagem cultural brasileira.</p>
<p>Porém, a “negociação” estabelecida entre a indústria cultural e os protagonistas negros e negras desta cultura é que estes, para conseguirem visibilidade, abram mão de um discurso de afirmação negra e anti-racista. Assim, com raras exceções, vemos negros e negras famosos desfilando pelos espaços midiáticos porém sem expressar um discurso de afirmação étnica ou de combate ao racismo.</p>
<p>A segunda coisa que vejo nisto é que esta presença negra no cenário lúdico e cultural midiatizado contribui para o reforço do mito brasileiro de que tanto fala a filósofa Marilena Chauí: o Brasil é um país pacífico, tolerante, cordial. Por isto, no Brasil há uma democracia racial ou, no limite, o racismo acontece em práticas pontuais e permeadas por uma certa “ignorância”; não há machismo no Brasil e há uma tolerância com os comportamentos sexuais. Os fatos desmentem isto cabalmente: as periferias brasileiras tem índices de assassinatos maiores que países em guerra; mulheres são agredidas e até mortas por seus próprios cônjuges com frequência; a violência contra homossexuais cresce e todos os indicadores sociais mostram as desigualdades da população negra, bem como que os índices de violência vitimam, principalmente, jovens negros e negras.</p>
<p>Mitigando o problema, há uma grande dificuldade de discuti-lo abertamente. Recentemente, uma marca de azeite fez uma propaganda com os seguintes dizeres: <em> &#8220;Nosso azeite é rico. O vidro escuro é o segurança.&#8221; </em></p>
<p>Extremamente sutil o artigo “o”: o vidro escuro é <strong>o</strong> <strong>segurança</strong> – associa o negro a ser segurança do rico (azeite). Houve denúncia no Conar que recomendou, depois de um bom tempo, que a propaganda fosse <a href="http://adnews.uol.com.br/pt/publicidade/peca-do-azeite-gallo-suspeita-de-racismo-tera-de-ser-alterada.html">retirada</a> (decisão inútil, pois foi feita depois que a campanha tinha acabado).  Este debate gerou mais de 150 comentários no facebook, e a reação chegou a histeria de uma pessoa que me ameaçou processar por estar sendo “racista contra os brancos” (sic). Mas a ideologia do racismo é tão extrema que até mesmo afrodescendentes defenderam a propaganda. Um deles, metido a engraçadinho, disse que daqui a pouco a gente iria querer processar todo mundo que usasse roupas brancas e ficou desqualificando a discussão durante um bom tempo.</p>
<p>Enfim, é preciso que se combata a negação do racismo, machismo, homofobia e de um cenário de violência que é a práxis central das formas de acumulação de riquezas e manutenção de privilégios no Brasil. O cenário real pode ser triste, mas é preciso parar de sonhar para efetivamente se construir alternativas. A maior vigilância contra o racismo é fundamental para que se mudem estas práticas. Incomoda apenas aqueles que estão na zona de conforto do racismo.</p>
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		<title>A mídia e o partido do capital</title>
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		<pubDate>Thu, 03 May 2012 22:08:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Oliveira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tempos atrás, no lançamento do livro O artilheiro indomável, sobre a vida do Serginho Chulapa, estavam eu, Renato  Rovai e o José Augusto Camargo, o Guto, presidente do Sindicato dos Jornalistas de S. Paulo, conversando sobre o papel que a mídia hegemônica vem desempenhando no país. O Guto disse que tinha publicado no blog dele uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tempos atrás, no lançamento do livro <em>O artilheiro indomável</em>, sobre a vida do Serginho Chulapa, estavam eu, Renato  Rovai e o José Augusto Camargo, o Guto, presidente do Sindicato dos Jornalistas de S. Paulo, conversando sobre o papel que a mídia hegemônica vem desempenhando no país.</p>
<p>O Guto disse que tinha publicado no <a href="http://contextosocial.jor.br/?p=36">blog dele</a> uma matéria mostrando as intricadas redes entre os proprietários da mídia e o mundo financeiro e empresarial. Uma reflexão muito interessante que lembra um dos tópicos da pesquisa do Noam Chomsky e Ed Herman &#8211; &#8220;O Consenso Fabricado&#8221; &#8211; em que ele diz que um dos filtros da mídia é o &#8220;porte e propriedade dos meios de comunicação de massa&#8221;.</p>
<p>Chomsky e Hermann mostram que boa parte das empresas estadunidenses de mídia são propriedades de grandes transnacionais que têm negócios em determinados países do mundo, o que acaba por modular o tipo de cobertura internacional destes órgãos.  Na pesquisa conduzida pelos dois professores do MIT, ficou comprovado que o apoio midiático às ações intervencionistas do governo dos EUA a determinados países estavam diretamente vinculadas a interesses (contrariados eventualmente por governos destes países) destas corporações transnacionais.</p>
<p><span id="more-154"></span></p>
<p>Este texto do Guto é muito importante e merece ser melhor refletido pois quando falamos na ação partidária da mídia não é por conta de uma &#8220;conspiração&#8221; ou mesmo uma &#8220;deformação moral&#8221; da mídia ou de seus profissionais (embora isto possa acontecer também), mas pelos seus vínculos estruturais com certos segmentos da sociedade.</p>
<p>O discurso proferido pela mídia hegemônica e reverberado por vários colegas jornalistas é que o grau de “independência” da mídia está vinculado a sua não vinculação a estruturas partidárias ou governistas. Deixam de lado o “partido” mais poderoso da sociedade capitalista que é o “partido do capital”.</p>
<p>Em minha tese de doutorado (“Comunicação sindical, globalização neoliberal e mundo do trabalho”) – defendida na Escola de Comunicações e Artes, em 1998 &#8211; argumentei que uma das características do neoliberalismo nos países do Terceiro Mundo é a <em>ação direta do capital</em>, isto é, a redução das intermediações da esfera política na ação do capital.</p>
<p>Isto se verifica, por exemplo, na política cultural vigente nos anos 1990, em que o Estado simplesmente abriu mão de qualquer tipo de ação e deixou tudo nas mãos do “mercado” (leia-se capital). Quem exercia política cultural era o Itaú, o Unibanco, o Bradesco, entre outros. O mesmo aconteceu com a proliferação de ações sociais das empresas.</p>
<p>As agências reguladoras dos serviços públicos que passaram a ser comandados pelas empresas privatizadas (como a telefonia, energia elétrica e aviação civil) foi uma experiência construída naqueles tempos de entrada do capital no aparelho público e consolidar a ideia da “auto-regulamentação”. Enfim, a total colonização da esfera política pelo capital, esta é a utopia conservadora.</p>
<p>A presença do grande capital no comando dos principais meios de comunicação é uma das últimas – e mais fortes – trincheiras do grande capital e se torna ainda mais estridente com uma mudança de orientação no governo nos últimos anos. A oposição da mídia hegemônica ao governo federal decorre da perda de espaço desta perspectiva política da ação direta do capital. É o partido do capital querendo novamente se apossar privadamente do Estado usando toda a sorte de recursos, inclusive ameaças como a feita por um emissário da Globo para que o diretor da Editora Abril não seja convocado pela CPI do Cachoeira para esclarecer as ligações suspeitas de um jornalista da revista <em>Veja</em> com o contraventor.</p>
<p>O texto do Guto é emblemático ao constatar a presença de figuras proeminentes principalmente do grande capital financeiro e de empreiteiras na direção da mídia. Acrescento ainda, seguindo a lógica de Chomsky e Hermann, a propaganda como “mecanismo de controle”: depois da proibição da propaganda de cigarros, os maiores anunciantes da mídia são as indústrias automobilísticas e, não por acaso, possuem o <em>lobby</em> mais poderoso sobre o Estado, a ponto de serem as maiores beneficiadas com a redução de impostos no pacote anti crise nos últimos anos do governo Lula.</p>
<p>O jornalista Caco Barcellos, naquele famoso programa da Globo News que polemizou publicamente com a comentarista Eliane Cantanhede, disse, a respeito da corrupção: “Engraçado que a gente fala do corrupto mas nunca fala do <em>corruptor</em>”. Por quê? O corruptor é o capital privado, é o principal partido que teve larga atuação nos anos 1990, teve alguns interesses contrariados nos últimos dez anos, mas ainda tem a mídia a seu favor – aliás, sob o seu controle.</p>
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		<title>A Senzala começa a entrar na Casa Grande</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Apr 2012 14:08:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Oliveira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Depois da votação unânime do Supremo Tribunal Federal ontem a favor das cotas raciais nas universidades, fiquei pensando em como o racismo está impregnado fundo na sociedade brasileira. E este racismo se combina com um elitismo que parece até atávico em certas pessoas. Os argumentos dos que são contrários as cotas raciais nas universidades lembram [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois da votação unânime do Supremo Tribunal Federal ontem a favor das cotas raciais nas universidades, fiquei pensando em como o racismo está impregnado fundo na sociedade brasileira. E este racismo se combina com um elitismo que parece até atávico em certas pessoas.</p>
<p>Os argumentos dos que são contrários as cotas raciais nas universidades lembram falas de vários tempos passados em momentos que se discutiam – e aprovavam – normas que beneficiavam grupos sociais excluídos. Algumas delas foram bem lembradas pelo jornalista Elio Gaspari, em coluna publicada na FSP de 25/04 e republicadas no <a href="http://www.viomundo.com.br/politica/elio-gaspari-pelo-menos-sete-votos-a-favor-e-quatro-contra.html">portal Viomundo</a>:</p>
<p><em>Em 1871, quando o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre, argumentou-se que libertando-se os filhos de escravos condenava-se as crianças ao desamparo e à mendicância. “Lei de Herodes”, segundo o romancista José de Alencar.</em></p>
<p><span id="more-149"></span></p>
<p><em>Quatorze anos depois, tratava-se de libertar os sexagenários. Outro absurdo, pois significaria abandonar os idosos. Em 1888, veio a Abolição (a última de país americano independente), mas o medo a essa altura era menor, temendo-se apenas que os libertos caíssem na capoeira e na cachaça.</em></p>
<p><em>Como dizia o Visconde de Sinimbu: “A escravidão é conveniente, mesmo em bem ao escravo”. A votação do projeto foi acelerada pelo clamor provocado pelo linchamento de um promotor que protegia negros fugidos no interior de São Paulo. Entre os assassinos, estava James Warne, vulgo “Boi”, um fazendeiro americano que emigrara depois da derrota do Sul na Guerra da Secessão.</em></p>
<p><em>As cotas seriam coisa para inglês ver, “lumpenescas propostas de reserva de mercado”. Estimulariam o ódio racial e baixariam a qualidade dos currículos da universidades. Como dissera o barão de Cotegipe, “brincam com fogo os tais negrófilos”. Os cotistas seriam incapazes de acompanhar as aulas.</em></p>
<p><em>Passaram-se dez anos, pelo menos 40 universidades instituíram cotas para afrodescendentes e hoje há milhares de negros exercendo suas profissões graças à iniciativa.</em></p>
<p>Acrescento ainda, de minha parte: quando foram legalizadas as férias trabalhistas, houve quem dissesse que os trabalhadores iriam se perder na bebida e na vadiagem; que a aprovação do salário família iria estimular os pobres a terem filhos em demasia e ainda sobre as cotas raciais, que alunos negros tendo um desempenho inferior nos exames vestibulares por conta da sua formação deficiente no ensino médio não conseguiriam acompanhar o nível superior.</p>
<p>Infelizmente para quem pensa assim, a realidade foi para o outro lado. Principalmente porque tais argumentos estão muito mais fundados em sentimentos de racismo, de preconceito contra as classes subalternizadas, de elitismo do que em fatos.</p>
<p>Não conheço nenhum estudo que tenha comprovado uma correspondência direta entre desempenhos no vestibular e na vida acadêmica (por exemplo, se os que passaram em primeiro lugar nos vestibulares são, de fato, os melhores alunos na universidade). E nem tampouco se estes desempenhos – no vestibular e na vida acadêmica – se reverberam em qualidade profissional (será que os primeiros colocados na Fuvest viraram os melhores alunos dos cursos da USP e, daí, os profissionais mais gabaritados nas suas áreas?).</p>
<p>O que tem incomodado nas cotas é que elas se transformaram na <strong>primeira política pública efetiva de garantia de oportunidades para afrodescendentes </strong>e demonstram o reconhecimento oficial e prático (e não apenas retórico) da existência do racismo no Brasil. Por isto que, de repente, apareceu um monte de gente dizendo que “não existem raças”, “somos todos seres humanos”, “negro e branco é igual, são filhos de Deus” (sic); uma retórica vazia que tenta encobrir a realidade com um desejo moral (se é que, de fato, este desejo existe na cabeça de várias pessoas que afirmam isto).</p>
<p>Finalmente, há aqueles que, de repente, viraram os grandes defensores da “melhoria do ensino público” como forma de reduzir as desigualdades. Estranho este argumento crescer de repente pois lembro-me da polêmica que parcela significativa da sociedade, com apoio da mídia, realizou quando a ex-prefeita Marta Suplicy construiu os CEUs (Centros de Educação Unificados) nas periferias argumentando que eram “muito caros”, “exagerados” e vai por aí afora.</p>
<p>No fundo, o que incomoda é a democratização do acesso às ilhas de privilégios construídos pelas elites – entre as quais as universidades públicas. O racismo e o preconceito são os principais mecanismos ideológicos que legitimam na sociedade brasileira este pensamento elitista.</p>
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		<title>São Paulo: mudança ou barbárie</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Apr 2012 21:32:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Oliveira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mino Carta, em diversas ocasiões, comentou que a cidade de São Paulo é “autofágica”. Boa parte desta perspectiva paulistana decorre de uma presença forte de um pensamento conservador baseado, principalmente, em uma visão excessivamente privatista, endógena e, de quebra, intolerante.  Alguns fatos, aparentemente desconectados entre si, ilustram isto: 1. A respeito da tragédia que vitimou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mino Carta, em diversas ocasiões, comentou que a cidade de São Paulo é “autofágica”. Boa parte desta perspectiva paulistana decorre de uma presença forte de um pensamento conservador baseado, principalmente, em uma visão excessivamente privatista, endógena e, de quebra, intolerante.  Alguns fatos, aparentemente desconectados entre si, ilustram isto:</p>
<p>1. A respeito da tragédia que vitimou um jovem torcedor do Palmeiras na briga das organizadas deste time e do Corinthians recentemente. Conversei com vários jovens que fazem parte de torcidas organizadas e falei sobre este caso, demonstrando a barbárie que virou esta briga de torcidas. Um deles virou e disse: “O problema é que ele estava na hora errada e no lugar errado”. Estupefato com esta afirmação, perguntei se ele achava, então, que era justo uma pessoa morrer por um motivo tão banal, poderia ser um amigo ou parente dele. A resposta:  “Antes ele do que eu. Se fosse eu no lugar dele, ele estaria rindo agora”.</p>
<p>2. Já de há muito tempo, ministro uma disciplina no curso de jornalismo na ECA/USP que produz um jornal comunitário para  favela do Jardim São Remo, próximo ao campus do Butantã da USP. Tempos atrás, uma turma de alunos deixou de produzir uma edição especial do jornal sobre meio ambiente que tínhamos combinado com a comunidade. Como a edição seria produzida após o semestre letivo, a turma praticamente abandonou a produção, não cumprindo uma coisa combinada com a comunidade. Naquele ano, houve uma greve de funcionários e a reitoria decidiu ampliar o prazo para inserção das notas – não tive dúvidas, baixei a nota dos alunos que não cumpriram o prometido. Houve uma revolta geral. Argumentei que aquele comportamento prejudicava o relacionamento da universidade com a comunidade, podendo trazer problemas, inclusive, para as turmas seguintes. O comentário de uma aluna: “Não estou nem aí, não vai ser mais a gente que vai fazer isto”.</p>
<p><span id="more-147"></span></p>
<p>3. Em uma instituição religiosa espírita na zona leste de São Paulo, um casal de frequentadores foi “convidado a se retirar” porque, segundo a dirigente desta instituição, chegou a informação de que eles eram adeptos da prática de “troca de casais” (o conhecido “swing”), que feria a “moral” da instituição. Nesta mesma organização, uma das frequentadoras mais ativas atua como “laranja” em uma empresa de segurança privada tocada pelo seu irmão que é um policial da Rota. Estes fatos foram passados por uma pessoa conhecida minha que é desta casa e ela justificava a situação dizendo que, no caso da “laranja”, era um problema particular dela e, no outro caso, era um problema moral.</p>
<p>A autofagia de que fala Carta se deve a comportamentos de uma parcela da classe média que se volta a um domínio cada  vez mais privado, pensa apenas no universo do seu próprio umbigo e troca a ética pelo moralismo. O último fato é emblemático, o comportamento privado de um casal é condenado (o comportamento deles não prejudica ninguém) enquanto que a prática ilegal e antiética da “laranja” é desconsiderada (os dados mostram as consequências destas empresas de segurança mantidas por policiais, muitas delas se envolvem com o crime organizado, há um crescimento vertiginoso dos homicídios praticados por policiais nestes “bicos” além do que fortalece um conceito de privatização da segurança).</p>
<p>É por isto que esta classe média conservadora referenda práticas jornalísticas condenáveis como as da revista <em>Veja</em> (cada vez mais com indícios de envolvimento com o esquema de Cachoeira) e dela brotam comportamentos de brutal intolerância e desrespeito com o outro. Uma classe média que não se importa em se distinguir pelo acesso a bens culturais mas em ter a posse de bens materiais e de consumo (por isto, lêem a revista <em>Veja</em>, uma revista malfeita, com uma editoria cultural de péssima qualidade e um texto sofrível). A posse de tais bens de consumo já lhe confere uma “segurança” para poder atacar outro e aí vemos brotar os comportamentos intolerantes mais absurdos, como a violência racial, social, homofóbica  e de gênero. O mais grave é uma tolerância com esta intolerância, um certo ar de que “é assim mesmo” – comportamentos condenáveis que tentam se redimir na fuga ao moralismo mais tacanho e atrasado, a ponto de termos um governador da Opus Dei, do candidato tucano à presidência no ano passado fazer um discurso tipicamente de extrema direita (a la <em>neocons</em> republicanos estadunidenses) e a maior universidade do país ser dirigida por um reitor com práticas autoritárias.</p>
<p>Este comportamento é autofágico porque destrói o espaço público e uma cidade com as dimensões de São Paulo tem problemas que só podem ser resolvidos com um verdadeiro debate público. O conservadorismo só levará a cidade para o fundo do poço. Fazendo uma apologia do que diziam os socialistas, ou se rompe com isto ou teremos a barbárie.</p>
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		<title>Questões nebulosas sobre a presença da PM no campus da USP</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Apr 2012 15:20:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Oliveira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Governo Alckmin]]></category>
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		<category><![CDATA[segurança pública]]></category>
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		<description><![CDATA[A Universidade de São Paulo, desde o ano passado, vem passando por um intenso debate acerca da segurança, principalmente no campus Butantã. Após a tragédia que vitimou um estudante da FEA, vítima de latrocínio, o tema segurança passou a ser agendado na opinião pública como o maior problema da instituição.  Cerca de três meses após [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Universidade de São Paulo, desde o ano passado, vem passando por um intenso debate acerca da segurança, principalmente no campus Butantã. Após a tragédia que vitimou um estudante da FEA, vítima de latrocínio, o tema segurança passou a ser agendado na opinião pública como o maior problema da instituição.  Cerca de três meses após a entrada da PM no campus, a reitoria e o governo do estado “comemoraram” a queda de 92% nas ocorrências. A notícia não esconde o que tem sido prioridade na política de segurança na ótica conservadora: os índices que mais caíram e foram “comemorados” pelas autoridades foram a queda nos roubos e furtos de veículos, indicando a preocupação com a preservação do patrimônio.</p>
<p>O agendamento da opinião pública teve um caráter classista. Não obstante o caráter trágico da morte do estudante da FEA, os índices de violência na USP são muito inferiores a qualquer bairro periférico. Porem, o discurso midiático praticamente “naturalizou” a violência na periferia e “tornou trágica” qualquer ocorrência nos lugares onde a classe média e alta frequenta.</p>
<p>Por esta razão, passou quase que despercebido pela maior parte da mídia hegemônica a reportagem veiculada <a href="http://youtu.be/BMNHj1FAxrg">no Jornal da Band</a> no início de abril que fala do envolvimento de policiais do 16º. Batalhão de Polícia Militar com a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).  Segundo a reportagem, elaborada pelo jornalista Sandro Barboza, investigações da Corregedoria e da Polícia Civil sobre o envolvimento de PMs com o crime organizado tem sido sistematicamente ignoradas pelo comando da corporação.</p>
<p><span id="more-143"></span></p>
<p>Nos relatórios da investigação, constam suspeitas de envolvimento de policiais do 16º. Batalhão com o crime organizado e o tráfico de drogas que atua nas imediações do campus Butantã, principalmente na comunidade do Jardim São Remo. Entre as várias coincidências, o jovem que confessou ter matado o estudante da FEA é morador da São Remo e quando se entregou à polícia estava acompanhado de um advogado que tem um histórico de atuações em casos que há suspeitas de envolvimento do crime organizado. Ficou famosa a sua frase neste episódio de que “bandido profissional tem ética”.</p>
<p>Por isto, o episódio da presença da PM no campus tem questões mais nebulosas: por que os relatórios que investigam o envolvimento dos policiais com o crime organizado têm sido ignorados pelo comando da corporação? Quais são as ligações do PCC, tráfico na São Remo e o 16º. Batalhão? Estas informações são de grande relevância e trazem novos elementos para a discussão sobre a segurança e a presença da polícia no campus. Principalmente quando se observa uma tendência à radicalização da militarização da segurança no local com a contratação de um ex-coronel da PM para dirigir a segurança interna do campus.</p>
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		<title>O pessimismo de Stuart Hall é um alerta importante para os rumos da esquerda na América Latina</title>
		<link>http://www.revistaforum.com.br/dennisdeoliveira/2012/03/29/o-pessimismo-de-stuart-hall-e-um-alerta-importante-para-os-rumos-da-esquerda-na-america-latina/</link>
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		<pubDate>Thu, 29 Mar 2012 13:24:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Inglaterra]]></category>
		<category><![CDATA[marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Stuart Hall]]></category>

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		<description><![CDATA[Stuart Hall, pensador jamaicano radicado há 60 anos na Inglaterra, concedeu uma entrevista ao The Guardian às vésperas de comemorar o seu 80º aniversário.  Demonstrou que está mais pessimista do que tempos atrás quando escreveu os famosos textos que marcaram sua trajetória acadêmica (a maior parte deles publicados no Brasil na coletânea Da diáspora, Editora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Stuart Hall, pensador jamaicano radicado há 60 anos na Inglaterra, concedeu uma entrevista ao <a href="http://www.guardian.co.uk/theguardian/2012/feb/11/saturday-interview-stuart-hall">The Guardian</a> às vésperas de comemorar o seu 80º aniversário.  Demonstrou que está mais pessimista do que tempos atrás quando escreveu os famosos textos que marcaram sua trajetória acadêmica (a maior parte deles publicados no Brasil na coletânea <a href="http://pt.scribd.com/doc/36527031/Da-Diaspora-Stuart-Hall"><em>Da diáspora</em></a>, Editora UFMG). Naquele momento, Hall enxergava na diversidade cultural e no interculturalismo possibilidades reais de transformação social. Fez uma releitura do pensamento marxista, a partir de Gramsci e Althusser, propondo que a relação entre a instância econômica e a cultural não fosse marcada por uma determinação linear (como uma apreensão mais ingênua do marxismo prega), mas sim de forma dialética.</p>
<p>&#8220;Eu me envolvi em estudos culturais, porque eu não acho que a vida foi determinada unicamente pela economia. A questão é que, em última instância, a economia vai determinar isso. Mas quando é a última instância? Se você estiver analisando a conjuntura atual, você não pode começar e terminar na economia. É necessário, mas insuficiente.“ Hall exemplifica com os protestos de Tottenham e também com a crise nos países europeus para falar sobre isto. O motivo dos protestos e a crise têm um fundo econômico, entretanto, a dificuldade de se construir alternativas políticas se deve ao fato de se pensar as possibilidades sempre no campo do economicismo. Para Hall, parte dos protestos de Tottenham se deve ao fato de que o imperativo neoliberal de consumir não é realizável por aqueles grupos sociais. Não é à toa que parcela dos manifestantes saquearam lojas em busca de objetos fetichizados pela sociedade de consumo.</p>
<p>Com a saúde debilitada, Hall fala sobre o sistema de saúde privatizado. Aborda de uma forma já batida – como é possível transformar a saúde em mercadoria, questiona ele – mas apontando para uma deformação dos sujeitos operadores de um modelo como este. “Quem lucraria com problemas de saúde de alguém? Que tipo de pessoa que seria isso? Você confiaria a tais pessoas o seu orçamento, e mais a sua saúde ou a saúde de um ente querido? O caso moral não está sendo colocado com força suficiente, na verdade, não está sendo colocado em nada.”</p>
<p><span id="more-141"></span></p>
<p>Hall afirma: “sempre achei que a ideia de ego, de indivíduo egoísta de Adam Smith, era incorreta. O mundo exterior entra em nossa cabeça, há uma dialética constante, é inextirpável.” Por isto, considera que uma alternativa deve perpassar por uma reconstrução de lógicas, o que tangencia novamente a questão cultural. Limitar a disputa política dentro dos parâmetros societários hegemônicos da economia de mercado caminha, inevitavelmente, para uma sociedade administrada, sem política. É o que ele observa, de forma pessimista, na Inglaterra, ao afirmar que a esquerda “está em apuros”, sem saber o que fazer. Por isto, apesar da crise, a cabeça dos cidadãos britânicos formada pela perspectiva neoliberal não conseguem vislumbrar e nem tampouco se mobilizar por alternativas.</p>
<p>Estas reflexões de Hall são importantes, particularmente, para um contexto em que a esquerda está no governo, como na América Latina. O fato das nações do continente não terem esgotado todos os passos clássicos de uma “revolução capitalista” seduz parte da esquerda a querer ser ela a protagonista deste processo. Despreza-se, assim, muitas vezes, experiências societárias e civilizatórias de povos e comunidades que poderiam ser articuladas na construção de um caminho próprio de desenvolvimento, para além do economicismo de mercado. O pessimismo de Hall é um alerta importante neste momento. Afinal, que tipo de sujeitos queremos formar?</p>
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		<title>Polêmicas no MinC não são briga por cargos, como quer a Folha de S. Paulo</title>
		<link>http://www.revistaforum.com.br/dennisdeoliveira/2012/03/22/polemicas-no-minc-nao-sao-briga-por-cargos-como-quer-a-folha-de-s-paulo/</link>
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		<pubDate>Thu, 22 Mar 2012 19:46:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Alfredo Manevy]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Folha de S.Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Juca Ferreira]]></category>
		<category><![CDATA[Ministério da Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[São Paulo está sediando um evento importante para a discussão dos rumos da política cultural: o I Fórum Internacional de Gestão Cultural. O evento começou na quarta, dia 21 e vai até sexta, dia 23, na Livraria Cultura. O evento é promovido pelo Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação, núcleo da USP, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>São Paulo está sediando um evento importante para a discussão dos rumos da política cultural: o I Fórum Internacional de Gestão Cultural. O evento começou na quarta, dia 21 e vai até sexta, dia 23, na Livraria Cultura. O evento é promovido pelo Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação, núcleo da USP, em parceria com a livraria que sedia o fórum. Por um acaso, o fórum coincidiu com um aumento da discussão sobre a atual gestão do Ministério da Cultura, expresso principalmente com os manifestos defendendo mudanças no ministério (ver post no <a href="http://www.revistaforum.com.br/blog/" target="_blank">blog do Rovai</a>).</p>
<p>O caderno Ilustrada do jornal <em>Folha de S. Paulo</em> publicou, nesta quinta, uma entrevista com o ex-ministro Juca Ferreira, em que o mesmo faz críticas à atual gestão do MinC. A matéria foi pautada no sentido de explorar um racha entre a atual e a anterior gestão do ministério, apesar de, em diversas vezes, Juca Ferreira insistir que não queria fazer uma avaliação da atual gestão. Também houve insistência do jornal em transformar o ex-ministro em candidato à sucessão de Ana de Hollanda. O que salta aos olhos desta matéria do &#8220;jornal a serviço do país&#8221; é transformar uma discussão de fundo que aborda concepções de políticas de Estado para a cultura em uma briga por cargos ou um racha na aliança governista por cargos. No portal UOL, onde está a íntegra da entrevista, percebe-se que todas as perguntas e respostas que tratam das questões mais de fundo (inclusive o tema do fórum, uma gestão para além do mercado) foram cortadas em prol de enfatizar uma técnica preconcebida do jornal de se tratar de mais uma briga por cargos.</p>
<p>A abertura do Fórum contou com as conferências de Juca Ferreira e Alfredo Manevy, ex-secretário executivo da pasta. As discussões apresentadas por Juca e Manevy foram na direção dos contrapontos conceituais do q ue é cultura, gestão cultural e papel do Estado na formulação de políticas públicas de cultura. Enfim, os motivos pelos quais ambos criticam a atual gestão do MinC.<br />
Assim, a discussão existente atualmente referente ao atual ministério da Cultura se dá não por um desejo de ocupação de cargos mas sim por uma questão de conteúdo e concepção que tangencia, necessariamente, uma reflexão sobre qual é o papel do Estado neste campo. Manevy, em sua fala na abertura como as do Fórum, defendeu que a &#8220;cultura e o tema ambiental são os novos espaços de repolitização da sociedade&#8221;. Isto porque a emergência da visibilidade da diversidade cultural e os problemas ambientais mais graves forçam uma discussão política global sobre como o Estado deve atuar nestes campos, uma vez que está claro que o mercado, por si, não só não tem capacidade de resolver mas tende a agravar os problemas que se verificam, como as intolerâncias, o racismo e a destruição do ambiente.</p>
<p><span id="more-136"></span></p>
<p>Evidente que os jornalistas da FSP não se preocuparam em ficar para ver pelo menos uma parte das falas de Juca e Manevy. Tinham mais o que fazer, produzir mais um simulacro de matéria que desinforma o leitor.</p>
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		<title>Quem ganha com o vandalismo no samba?</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Feb 2012 16:05:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[apuração]]></category>
		<category><![CDATA[carnaval 2012]]></category>
		<category><![CDATA[torcidas organizadas]]></category>
		<category><![CDATA[tumulto]]></category>

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		<description><![CDATA[O que aconteceu na apuração dos desfiles das escolas de samba de São Paulo foi lamentável, mas que sirva de alerta sobre o risco que o carnaval paulistano está tendo com a admissão das &#8220;torcidas organizadas&#8221; como escolas de samba. Sou Vai-Vai desde criança, coisa de família. Saí muitas vezes pela Vai-Vai e, mesmo torcendo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O que aconteceu na apuração dos desfiles das escolas de samba de São Paulo foi lamentável, mas que sirva de alerta sobre o risco que o carnaval paulistano está tendo com a admissão das &#8220;torcidas organizadas&#8221; como escolas de samba.</p>
<p>Sou Vai-Vai desde criança, coisa de família. Saí muitas vezes pela Vai-Vai e, mesmo torcendo apaixonadamente pela escola do Bixiga, onde nasci, frequentei nos anos 1990, sem problemas, o saudoso botequim do Camisa Verde (pagode de qualidade aos sábados) e o Cantinho do Peruche aos domingos. Ia até aos ensaios de outras escolas em que muitos amigos e amigas minhas desfilavam. Sambas memoráveis da então maior rival da Vai-Vai, a Camisa Verde e Branco não me saem da memória como &#8220;Mareou, maré levou, indo afora a mostrar, voar, voei, cruzei o mar, eu sou cinema popular&#8221; (tetracampeonato da Camisa em 1974).</p>
<p>Ou ainda “Não é preconceito/Negro e branco tem direito/Nossa escola não faz distinção de cor (&#8230;) A nossa escola enaltece a negra gente/Que nunca ficou chorando/Sempre viveu cantando/Fingindo contente”. Neste ano, acho que foi 1982, o Camisa perdeu o carnaval para o Vai-Vai que saiu com o samba “É Orun/Orun-Ayê/O eterno amanhecer/E lá no alto quando o sol brilhou/Eu avistei a pedreira de XangÃ?”. Fiquei feliz com a vitória, mas lembro deste lindo samba do Camisa que saiu com uma batida diferente na bateria.</p>
<p><span id="more-133"></span></p>
<p>Ficava puto com as derrotas do Vai-Vai para o Camisa. Ficava feliz com as vitórias e tirava uma onda dos adversários &#8211; como o campeonato de 1976 em homenagem a Solano Trindade, música do saudoso Geraldo Filme: &#8220;Solano vento forte africano/nome que o menino recebeu/lá no Recife Pernambuco/cidade que o menino nasceu/moleque de rua/viu carnaval/o pregão da quituteira/e lapinhas no natal/ literatura de cordel/e firmou um ideal/levantar uma bandeira/pela arte popular/canta meu povo vamos cantar/em homenagem ao poeta popular/Vai-Vai é povo está na rua/Saudoso poeta a noite é sua&#8221;. Aprendi, com isto, a admirar o samba de qualidade.</p>
<p>O samba é uma das formas de manifestação e organização da população negra mais tradicional e importante do Brasil. É sintomático que uma população historicamente discriminada e explorada, desde os tempos da escravização de africanos e afrodescendentes, consiga manterem vivas organizações culturais por mais de 100 anos – em condições totalmente desfavoráveis. A existência das escolas de samba como a Vai-Vai, o Camisa Verde, o Nenê da Vila Matilde, a Lavapés, em São Paulo (só para citar algumas), ou Mangueira, Portela, Salgueiro, Vila Isabel, no Rio de Janeiro é produto da resistência tenaz da população negra contra o racismo. Esta resistência se dá pela manutenção de espaços de cultura negra. Espaços que projetaram figuras como o já citado Geraldo Filme, Pé Rachado, Pato N’água, Seu Nenê, Mestre Lagrila, Oswaldinho da Cuíca, só em São Paulo.</p>
<p>O samba paulistano se originou dos cordões, formados por negros e negras vindos do interior que vinham para a Capital tentar melhor sorte. O samba era perseguido e criminalizado, nem por isto deixou de resistir até ser reconhecido. Hoje, as estratégias das classes dominantes perante a esta cultura de resistência é diferente: ao invés de perseguir, há a tentativa de cooptar, tutelar, “branquear” e desmoralizar.</p>
<p>O que vem acontecendo no futebol, com os vândalos das organizadas afastando os torcedores comuns pode vir a ocorrer no samba. Tempos atrás, não obstante a disputa ser acirrada e haver a rivalidade entre as escolas de samba, a cada desfile de escola os sambas eram cantados pelos presentes. Por isto, uma das gírias comuns no carnaval é “este samba vai pegar” – que significa que o samba vai contagiar as arquibancadas, todos vão cantar e isto favorece o desfile da escola. E isto era um verdadeiro desafio para os compositores de sambas enredo nas escolas que quebravam a cabeça para fazer um samba que “pegasse”. Por isto, eu, um torcedor apaixonado da Vai-Vai, lembro de sambas memoráveis da Camisa Verde e Branco como o citado acima.</p>
<p>Hoje com a presença das organizadas, o comportamento nas arquibancadas vem mudando. Há um boicote pelo “silêncio” aos sambas das escolas que não são das torcidas organizadas. Perdeu-se o clima de participação na festa mesmo com a rivalidade existente entre as escolas. A intolerância das organizadas do futebol está refletindo no carnaval.</p>
<p>No sambódromo, durante a apuração, por questões de &#8220;segurança&#8221;, a PM permitiu a presença apenas dos torcedores da Gaviões da Fiel. Não foi suficiente para evitar o vandalismo.</p>
<p>Claro que os acontecimentos foram frutos de uma série de problemas: a troca em cima da hora dos jurados sem que a maioria das escolas fosse consultada, gerando já um clima de desconfiança no início das apurações, depois a atitude do membro da Imperador da Casa Verde que invadiu e rasgou as notas faltantes.</p>
<p>Mas o que se seguiu foi um festival de vandalismos típicos das arquibancadas dos estádios de futebol hegemonizados por estes grupos. Queimaram um carro alegórico da Pérola Negra, escola que nada tinha a ver com nada, foi até rebaixada, porque pensaram ser &#8220;da Dragões da Real, torcida do São Paulo&#8221;. Quase aconteceu um incêndio de graves proporções no sambódromo. Cercas, placas de metal foram destruídos. Destacamentos de policiais tiveram que ser mobilizados para conter o vandalismo &#8211; isto em uma cidade em que bairros periféricos sentem a falta de policiamento.</p>
<p>Pergunto: qual é a efetiva contribuição para o samba paulistano e/ou brasileiro que estas escolas de torcida tem trazido? Alguém sabe mencionar algum compositor, sambista, baterista, carnavalesco revelado por estas &#8220;escolas&#8221;? Vale a pena pagar este preço e este risco?</p>
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		<title>As exigências feitas ao Enem são ideológicas e não técnicas</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 19:21:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Enem]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Haddad]]></category>
		<category><![CDATA[Ministério Público]]></category>

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		<description><![CDATA[Fernando Haddad pôs o dedo na ferida ao considerar que as exigências que alguns promotores e a Justiça têm feito ao Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) têm muito mais aspectos ideológicos que técnicos. Em nenhum processo seletivo, seja os vestibulares das universidades mais famosas, como os realizados pela Fuvest (USP), Vunesp (Unesp), concursos públicos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fernando Haddad pôs o dedo na ferida ao considerar que as exigências que alguns promotores e a Justiça têm feito ao Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) têm muito mais aspectos ideológicos que técnicos.</p>
<p>Em nenhum processo seletivo, seja os vestibulares das universidades mais famosas, como os realizados pela Fuvest (USP), Vunesp (Unesp), concursos públicos realizados pela Fundação Carlos Chagas, pela própria Vunesp ou outras instituições, a maioria privadas, o Ministério Público se mobiliza para questionar critérios de correção, exigir devolução de provas para conferência, entre outros.</p>
<p>A argumentação de que os critérios de correção são &#8220;subjetivos&#8221; é piada. Vários concursos públicos para cargos de nível superior em instituições públicas são feitos com base em questões dissertativas e até incluem redações. Ou ainda concursos para docentes em universidades que incluem &#8220;entrevistas&#8221; &#8211; os critérios não são subjetivos?</p>
<p><span id="more-127"></span></p>
<p>E os processos seletivos para ingresso em programas de pós graduação nas universidades que constam de redação, entrevistas e &#8220;análise de projetos&#8221;? E muitos programas de pós graduação sequer divulgam o número de vagas e as notas dos candidatos. Em 2010, houve um processo seletivo para o programa de pós graduação em serviço social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em que a prova &#8220;dissertativa&#8221; foi feita em um dia e dois dias depois saiu o resultado dos classificados. Impressionante a capacidade de trabalho dos docentes daquele programa que conseguem, em menos de dois dias, corrigir centenas de provas dissertativas!</p>
<p>Enfim, se houvesse de fato, uma preocupação do Ministério Público e da Justiça em exigir transparência dos processos seletivos, atuaria ou faria exigências em todos estes casos. Mas o que se vê é quase que uma obsessão com o Enem.</p>
<p>Por que? Será porque ele sinaliza para uma mudança nas formas de ingresso nas universidades, acabando com os famigerados vestibulares que tanto enriquecem fundações privadas e cursinhos pré-vestibulares? Ou porque ele evidencia os problemas do ensino médio e aponta para necessidades de mudança para além do mero preparo para vestibulares? Ou ainda porque ele tem possibilitado o ingresso de estudantes de escolas públicas em universidades públicas por meio do Sisu?</p>
<p>Enfim, toda esta &#8220;vigilância&#8221; aparente do MP, da mídia e da Justiça em relação ao Enem vai muito além da defesa do interesse público.</p>
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		<title>A polêmica do Big Brother Brasil e a sociedade imagética da mídia</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 13:33:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Oliveira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Big Brother Brasil]]></category>
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		<category><![CDATA[Régis Debray]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade da imagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Tradução do cartaz: “A sociedade ensina: ‘Não seja estuprada’ ao invés de ‘Não estupre’” Régis Debray escreveu tempos atrás que vivemos sob uma sociedade da imagem e cujo poder se legitima pela sedução. Em termos comparativos, ele afirma que o antecessor da sociedade da imagem era a da escrita com o poder sendo exercido pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.revistaforum.com.br/dennisdeoliveira/wp-content/uploads/2012/01/imagem-mobilizacao-estupro.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-122" title="Cartaz mobilizacao estupro" src="http://www.revistaforum.com.br/dennisdeoliveira/wp-content/uploads/2012/01/imagem-mobilizacao-estupro-300x165.jpg" alt="" width="300" height="165" /></a></p>
<p><em>Tradução do cartaz: “A sociedade ensina: ‘Não seja estuprada’ ao invés de ‘Não estupre’”</em></p>
<p>Régis Debray escreveu tempos atrás que vivemos sob uma sociedade da imagem e cujo poder se legitima pela sedução. Em termos comparativos, ele afirma que o antecessor da sociedade da imagem era a da escrita com o poder sendo exercido pela autoridade do conhecimento e, antes disto ainda, a sociedade da oralidade e o poder da fala. Uma sociedade da sedução coloca para os indivíduos a valorização do exibicionismo – a sua validade é diretamente proporcional à imagem que constrói.</p>
<p><span id="more-121"></span></p>
<p>Acrescento ainda a isto o fato desta sociedade da imagem acontecer em um momento da “desregulamentação” e individualização extremada da sociedade, em que todas as responsabilidades de sucesso ou fracasso cabem ao indivíduo. Vencer a qualquer custo é o imperativo do momento que vivemos, e vencer significa ter capacidade de sedução nesta sociedade imagética. Por isto que a autoridade foi substituída pela celebridade midiática, célebre por tautologia – é famosa por ter espaço na mídia e ponto final.</p>
<p>Esta é a base destes programas de reality shows que povoam a programação da mídia. Temos aquela coisa horrorosa e mimética do mundo corporativo do “Aprendiz” em que jovens são submetidos ao tacão moralista e civilizatório de uma imagem caricata de empresário (feito antes por Justus e agora por Dória). E o mais famoso deles, o Big Brother Brasil, da empresa Endemol e transmitido por estas paragens pela Globo.</p>
<p>Reality show – tradução literal: mostrar a realidade! Mas que realidade? Aquela construída sob os parâmetros dos aparatos tecnológicos e estéticos da televisão. Motrar a realidade não seria tarefa do jornalismo? Mas a realidade que se quer mostrar é aquela enquadrada nos dispositivos ideológicos do momento de uma sociedade imagética, sedutora e que coloca aos indivíduos a busca do sucesso via a sua capacidade de sedução – isto é, o exibicionismo puro e simples.</p>
<p>Floresce, assim, uma das últimas fronteiras de expansão do capital, a indústria da imagem, esta mesma que sustenta toda a indústria do entretenimento (artes, esportes, lazer, eventos) e penetra em outros campos, como na política. Atletas, artistas, cidades, bairros (Cracolândia não, Nova Luz por favor!), produtos, candidatos a cargos públicos são avaliados com base nos seus potenciais imagéticos. Para tanto, contam com um aparato de “especialistas” (consultores, assessores, designers) para cuidar da construção destes simulacros.</p>
<p>E as pessoas comuns que não contam com isto? São jogadas em uma selva onde vale a lei de quem pode mais chora menos. Os seus fracassos são resultados da sua própria incompetência. O cartaz da imagem demonstra isto: “Não seja estuprada” ao invés de “Não estupre”. Aquela idéia de que é a mulher que deve “se preservar”, de “se respeitar”. A culpa é da vítima. Assim como os afrodescendentes – esforcem-se para poder entrar na universidade e não fiquem esperando “favores como as cotas”! De repente as hierarquias raciais e de gênero deixam de existir para entrarmos em um mundo de competências premiadas e incompetências punidas.</p>
<p>Os programas de reality shows consolidam isto – são “gincanas” públicas em que tais pessoas têm sua capacidade testada de sobreviver nestas regras.<br />
A polêmica do caso Daniel e Monique é a cereja do bolo desta lógica. Posso tudo, inclusive usar da força de macho para usufruir de uma mulher, deve ter pensado ele. Qualquer problema, o álcool é o álibi. E, de repente, isto pode alavancar uma audiência no programa.</p>
<p>O pay-per-view do BBB vende muito pois se baseia na lógica perversa presente no subconsciente de muitos de poder espiar alguma cena picante (que pode ser simplesmente alguém ficando nu). Qual é o prazer de ficar espiando um bando de pessoas dentro de uma casa? E ainda pagar (!!!) por isto?</p>
<p>“O amor é lindo” foi a primeira reação da emissora, achando que a repercussão do caso iria dar um “up” na audiência do programa que anda em baixa. Mas o feitiço virou contra o feiticeiro. Neste mundo imagético e de lei da selva há ainda os que se indignam. Aqueles que ainda dizem “assim não dá!”. Aqueles que acreditam que a sociedade deve se seguir não pela regra do “vença a qualquer custo”, mas sim de que “vamos construir juntos uma vida digna para todos”.</p>
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