17 de janeiro de 2012 às 5:33
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Tradução do cartaz: “A sociedade ensina: ‘Não seja estuprada’ ao invés de ‘Não estupre’”
Régis Debray escreveu tempos atrás que vivemos sob uma sociedade da imagem e cujo poder se legitima pela sedução. Em termos comparativos, ele afirma que o antecessor da sociedade da imagem era a da escrita com o poder sendo exercido pela autoridade do conhecimento e, antes disto ainda, a sociedade da oralidade e o poder da fala. Uma sociedade da sedução coloca para os indivíduos a valorização do exibicionismo – a sua validade é diretamente proporcional à imagem que constrói.
15 de dezembro de 2011 às 12:37
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O filósofo alemão Jürgen Habermas, autor de obras clássicas como “A mudança estrutural da esfera pública” e “Teoria a ação comunicativa”, considerado um dos herdeiros vivos da tradição da Escola de Frankfurt, publicou dois artigos interessantes, um no jornal
The Guardian e outro no
Der Spigel em que faz críticas duras a como o modelo de integração europeu foi feito com base em acordos das elites políticas europeias comandadas pelo mercado. Estes dois artigos foram comentados de forma interessante pelo companheiro
blogueiro Idelber Avelar. Vou colocar a minha colher nesta discussão.
Habermas ainda acredita em uma possibilidade de construção de uma cidadania no sentido “puro”, a partir do que ele chama de uma solidariedade ativa: “Um elemento envolvido neste é a solidariedade: uma vez uma comunidade constitucional se estende além das fronteiras de um Estado único, a solidariedade entre os cidadãos que estão dispostos a apoiar uns aos outros deve expandir-se para manter o ritmo com ele.”
O que o pensador alemão tem detectado é que todo o protagonismo de ação contra a crise europeia parte de mercados, destacando como estes mesmos mercados foram os principais responsáveis pelas quedas dos governantes da Itália e da Grécia. Por aqui mesmo no Brasil, o jornalista Clóvis Rossi chamou a queda de Berlusconi na Itália de “golpe de mercado”. A cidadania pura de que fala Habermas foi bombardeada quando o ex-premiê da Grécia aventou a possibilidade de submeter a proposta de “ajuda” da CEE a plebiscito – afinal, a população é que deveria decidir se topa sacrificar-se mais uma vez em benefício dos mercados.
02 de dezembro de 2011 às 4:16
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A mídia hegemônica resolveu repercutir a ação do Ministério Público e da Justiça que condenou o prefeito Gilberto Kassab, o secretário Eduardo Jorge e a empresa Controlar por irregularidades no contrato de concessão da inspeção veicular. Este blog já tratou deste problema em dois posts, com grande repercussão. Naquele momento, ressaltei a blindagem que a mídia hegemônica fazia da Controlar, apesar das várias reclamações dos serviços prestados.
Levantei – no que fui acompanhado por vários leitores deste blog – outro problema: a total ausência do Poder Público municipal à medida que os proprietários de veículos não tinham nenhum órgão público para recorrer caso se sentissem prejudicados com a ação de uma empresa privada concessionária de um serviço público com força normativa (a inspeção é obrigatória, gera multas pesadas e impede o licenciamento do veículo). Notem bem a diferença que existe deste tipo de concessão com as existentes em outros serviços, como telefonia, aviação, transporte etc. São serviços essenciais, mas não tem caráter normativo e teoricamente existem órgãos reguladores específicos (embora eles não funcionem como deveriam).
No caso da Controlar, a promiscuidade de Poder Público e capital privado chegam às raias do absurdo que há acusações de que a empresa tem acessos a dados do Detran. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente, a quem caberia fiscalizar este serviço, não tem nenhum departamento de controle, de regulação ou sequer uma ouvidoria. A delegação de um poder normativo para uma empresa privada quebra um princípio básico do Estado moderno: o poder coercitivo cabe única e exclusivamente ao aparelho de Estado. Aqui, na capital, quem detém este poder neste caso da aplicação da lei da inspeção veicular é uma empresa!!! Para não ser multado, você depende de passar em testes feitos por ela, em ter o selinho dado por ela, em pagar uma taxa diretamente para os cofres dela.
17 de novembro de 2011 às 5:11
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Há pouco mais de um ano, publiquei um artigo (reproduzido em vários sites, entre eles o Observatório da Imprensa) que comentava sobre o “mal estar da grande mídia” em função do acordo obtido pelo governo brasileiro e turco com o Irã a respeito do contencioso sobre a questão nuclear.
As grandes potências bombardearam o acordo e a mídia hegemônica repercutiu amplamente isto, como se a política externa brasileira devesse buscar credibilidade apenas e tão somente nestas “grandes potências” que hoje se debatem em como sair de uma crise econômica que se arrasta sem fim.
A ideia de que foi uma “perda de tempo” e que a ação foi “ingênua” dominou os noticiários e as análises. Lembro que os comentários que recebi, principalmente após os EUA rejeitarem o acordo feito, foram de que o meu “otimismo petista” deu com os burros n’água, como se o meu referencial de análise se limitasse ao que o governo dos EUA pensa.
11 de novembro de 2011 às 11:00
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Quero deixar bem claro uma posição pessoal: não apoiei e nem apóio a ocupação da reitoria feita pelo grupo de estudantes na semana passada. Não apóio porque ela desrespeitou a decisão legítima e soberana de uma assembleia de estudantes. Não tenho nenhuma posição legalista a respeito de ações de movimento social pois, se assim fosse, nunca teríamos o direito de greve que era considerado crime passível de pena de morte no século XIX. Criticar o governo na ditadura militar era crime. Movimento social existe justamente por divergências com o pacto social estabelecido e as normas legais nada mais são que a legitimação deste pacto social. Ora, se este pacto ou partes dele estão sendo contestados, a ação do movimento social não se referencia em normas legais instituídas. A referência de avaliação de ações de movimento social é a sua legitimidade.
A ação da ocupação da reitoria por um grupo de alunos carece de legitimidade porque foi feita em desrespeito a uma instância deliberativa – a assembleia de estudantes. Reitero: questiono a legitimidade desta ação de ocupação específica e não a ocupação em si pois não considero correto avaliar ações de movimentos sociais sob o paradigma da legalidade instituída.
Isto é uma coisa.
03 de novembro de 2011 às 6:28
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OK, o pessoal que está cobrando coerência do ex-presidente Lula de se tratar no SUS já que ele defende tanto o sistema conseguiu me convencer. Por isto, abro aqui uma campanha de coerência geral.
- Que o ex-presidente FHC que chamou os aposentados de “vagabundos” abra mão das suas cinco aposentadorias para mostrar coerência.
- Que o ex-candidato José Serra só se trate com medicamentos genéricos e sempre pegos no programa Dose Certa.
- Que o prefeito Gilberto Kassab só ande de ônibus e não de helicóptero.
- Que os donos das empresas de comunicação demitam todos os seus filhos e parentes dos comandos de redação para combater o nepotismo de que tanto falam ser contra.
- Que a revista Veja, o jornal Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo prestem contas à sociedade do dinheiro público que recebem da venda de milhares de assinaturas feitas pelo governo estadual, assim como cobram das entidades e ONGs que recebem verbas do governo.
- Que o pessoal do CQC se tiverem filhas consideradas feias que permitam que sejam estupradas e ainda agradeçam.
- Se vivo fosse, seria justo pedir que o ex-ministro Paulo Renato de Souza matriculasse seus filhos nas escolas estaduais (pois foi secretário de Educação de SP), que vivesse com o salário de um professor da rede (pois foi contra o aumento da categoria quando era secretário) e também que exigisse que os seus filhos estudassem nas faculdades e “unis” particulares da qual foi responsável pela sua expansão quando era ministro.
- Que os brancos que adoram “Casa Grande e Senzala” obriguem suas filhas a trabalharem como domésticas em casas de famílias negras e que sejam estupradas pelos patrões como eram as africanas escravizadas na época da colonização.
- Que os “democratas” da Europa e EUA apóiem a proposta de referendo do primeiro ministro grego com relação ao pacote econômico imposto pelos credores.
- Que quem chama prostituta de mulher de vida fácil passe noites e noites ao relento exposto a violência e topando transar com quem se dispor a pagar.
- Que todo homem que acha certo bater na companheira, tope casar com uma mulher maior, mais forte e de preferência capoeirista faixa preta.
- Que quem é contra o Estado da Palestina tope que uma família inimiga da sua, agressiva e bem armada tome conta de 2/3 da sua casa e que decida quando você pode sair e entrar na sua própria casa.
- Que quem acha que favelado é privilegiado porque não paga conta nenhuma troque sua confortável casa por um barraco em qualquer favela.
- Que quem defende que a Polícia e as Forças Armadas devem entrar nos morros do Rio de Janeiro arrepiando para pegar os “traficantes” tope que façam o mesmo no seu bairro (inclusive com tanques passando por cima de carros estacionados como foi no Rio) caso apareça alguns meninos fumando um baseado na esquina.
- Que quem condena as religiões de matriz africana porque maltrata os animais pare de comer qualquer carne, não tome mais nenhum remédio, vacina ou soro (pois ela é feita com base em experiências e procedimentos em animais).
18 de outubro de 2011 às 7:47
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O número de pessoas assassinadas por policiais militares fora do serviço aumentou 50% entre setembro de 2010 e agosto de 2011, segundo reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, de 17/10 (clique aqui para ler). Isto aconteceu no mesmo momento em que há uma queda nos homicídios no estado e no país. A reportagem também mostra um aumento nas lesões dolosas cometidas por policiais militares fora do serviço – o aumento no período foi de 17%.
Um dado importante sobre a violência no Brasil refere-se a queda nos homicídios que vitimam brancos e um aumento de vítimas negras. Segundo o Mapa da Violência de 2011, o número de vítimas brancas caiu de 18.852 para 14.650, o que representa uma significativa diferença negativa, da ordem de 22,3%; já entre os negros, o número de vítimas de homicídio aumentou de 26.915 para 32.349, o que equivale a um crescimento de 20,2%. Este mesmo estudo calcula o índice de vitimização negra, que significa qual é a probabilidade (maior, igual ou menor) de vitimização de negros em homicídios no Brasil. Este índice vem aumentando:
- em 2002, morreram proporcionalmente 45% mais negros que brancos em casos de homicídio;
22 de setembro de 2011 às 9:37
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A 66ª Assembleia Geral da ONU teve um simbolismo duplo: foi aberta, pela primeira vez, por uma mulher, a presidenta Dilma Roussef. Na sequência, o segundo a discursar foi um negro, o presidente Barack Obama, dos EUA. O órgão maior das nações unidas abertos por uma mulher e um negro, justamente grupos sociais dos vitimizados dos processos de violência e miserabilização no planeta em toda a história.
Mas comparando os discursos, percebe-se a diferença ideológica. Enquanto a presidenta Dilma, apoiada por uma coalizão progressista, fez referências claras a discriminação de gênero, lembrando a subalternização social das mulheres no mundo; o presidente estadunidense não fez qualquer menção a questão étnica pois ele só está lá – e continua no poder da maior superpotência do planeta – porque abriu mão de qualquer discurso de afirmação racial.
E o discurso da presidenta, dentro dos limites de um discurso governamental em um órgão internacional e com todos os cuidados de espaços diplomáticos, tocou nas questões essenciais do mundo contemporâneo: a ausência de regulação dos fluxos dos capitais especulativos, a necessidade do reconhecimento do Estado da Palestina, a reforma do Conselho de Segurança da ONU, tudo apontando para a necessidade da construção de uma ordem internacional mais equilibrada.
05 de setembro de 2011 às 10:56
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A recente decisão de corte dos juros da taxa Selic evidenciou uma situação que merece ser mais refletida sobre o jornalismo econômico: a sua estreita vinculação com o mercado especulativo que se manifesta, de forma sutil, pela preferência de trabalhar com fontes apresentadas como “técnicas” mas que expressam interesses particulares de determinados segmentos da economia.
Analisando rapidamente a cobertura da decisão do corte da taxa de juros por parte do Copom em 31/08, na revista Veja e nos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo levantamos as seguintes fontes que foram entrevistadas pelos órgãos de comunicação:
1 – Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Telecomunicações no governo FHC e atual sócio da consultoria de investimentos Quest Investimentos empresa que atua no mercado de títulos mobiliários;
20 de julho de 2011 às 13:29
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Adorei a entrevista do Antonio Cândido no jornal Brasil de Fato. Embora discorde de algumas coisas ditas por ele, são discussões assim que elevam a alma da gente, coisa que está totalmente ausente da mídia hegemônica preocupada neste denuncismo seletivo que praticamente poupa as gestões demotucanas embora estas esteja cheias de indícios de irregularidades.
Cândido lembra a passagem do Ideologia Alemã, de Marx e Engels em que este fala das necessidades humanas serem cumulativas e irreversíveis – isto é, a medida que o ser humano vai incorporando novos artefatos produzidos pelo seu trabalho ao seu cotidiano, vai se transformando e também mudando as suas demandas. É nesta roda irreversível de criação de necessidades e sua superação que o capitalismo assenta suas bases de acumulação. Marx e Engels, no Manifesto Comunista, apontam o grande potencial revolucionário do capitalismo ao incrementar este processo, mas ao mesmo tempo, os entraves causados pelo modo de produção baseado na expropriação da mais valia. Em outras palavras, o capitalismo e sua classe dominante, a burguesia, tem um limite no avanço deste processo, o que torna a ruptura para o socialismo como uma necessidade histórica.
Marx escreveu isto no século XIX, foi um visionário e até hoje um pensador de referência. Efetivamente, o capitalismo transformou sobremaneira o ser humano. As necessidades foram se acumulando a ponto de hoje determinados luxos do passado viraram verdadeiras necessidades, não só por status, mas por questões de trabalho, de exigência de mobilidade, de informação, entre outras coisas. Por isto, desconfio sempre daqueles discursos que tentam classificar necessidades reais e necessidades falsas. O que é uma necessidade falsa? Em um outro texto (clique aqui para ler), comentei sobre a questão do uso do automóvel em São Paulo muitas vezes tratada de forma extremamente generalista e que não dá conta das necessidades específicas de determinadas atividades profissionais que uma parte significativa dos cidadãos vive.