Jardim Rosana, um ano depois: a PM no banco dos réus e um bairro com medo

Jardim Rosana, um ano depois: a PM no banco dos réus e um bairro com medo

Começou o julgamento da chacina que vitimou o DJ Lah e outras seis pessoas. Caso ilustra a violência policial nas periferias

Por Igor Carvalho

imagem da rua Reverendo Peixoto de Lima. Do lado esquerdo, com a porta azul , o bar onde ocorreu a chacina" (Foto: Google Earth)

Vista da rua Reverendo Peixoto de Lima. Do lado esquerdo, com a porta azul , o bar onde ocorreu a chacina” (Foto: Google Earth)

Sexta-feira de muito calor em São Paulo. Nas conversas pelo bairro, ainda repercutiam as festas de final de ano. Era 4 de janeiro de 2013, por volta das 23h, no Jardim Rosana, zona sul. No número 75 da rua Reverendo Peixoto de Lima, praticamente na esquina, o dono de um bar estava ansioso para fechar o estabelecimento.
“Ah, fazia um tempo que bares estavam sendo atacados nas periferias, sempre de noite, sempre homens encapuzados, não era bom ficar até tarde ali”, lembra Rita de Cássia de Souza, moradora do Jardim Rosana.

Testemunhas relatam que, pouco antes das 23h, um Monza e uma moto tinham rondado no local, chamando a atenção dos frequentadores. Alguns, ressabiados, começaram a levantar a possibilidade de que os ataques pudessem se repetir.
“Policiais da Corregedoria tinham passado na mesma rua, uns dois dias antes, e avisaram que ‘tinham que ficar esperto’”, recorda Paulo Magrão, morador do Jardim Rosana há 40 anos e fundador da ONG Capão Cidadão.

Sem se preocupar com os alertas, Brunno Cassiano, de 17 anos, ficou no bar, contrariando a mãe, Rita de Cássia de Souza. “Ele estava jogando carteado com outros meninos.” Poucos metros para o lado, na porta do estabelecimento, estava Laércio de Souza Grimas, de 33 anos, conhecido com DJ Lah. No mesmo ambiente, mais para o fundo, próximo ao balcão, Ricardo Genuíno da Silva, de 41 anos.

“Eram fogos?”

Fátima da Silva tinha acabado de se deitar. Minutos antes, colocara a filha para dormir e estava repousando enquanto o marido não retornava. “Ele jogava futebol com os amigos toda sexta-feira. Naquele dia tinha me pegado no Terminal Capelinha, me deixou em casa e foi para o jogo”, afirmou a companheira de Ricardo Genuíno da Silva, recordando aquele 4 de janeiro.

Porém, não teve futebol naquela sexta-feira e, por volta das 22h, Ricardo ligou para Fátima avisando que estava indo para casa. Pouco depois das 23h, vieram os barulhos. Diversos e seguidos estampidos. “Levantei assustada, ainda não sabia o que era. Não sabia a diferença entre tiro e fogos de artifício. Quando saí na janela, meu vizinho estava na rua e eu perguntei: ‘Eram fogos?’. Ele disse que eram tiros”, lembra Fátima.

Ato contínuo, a companheira de Ricardo, que mora na rua de baixo da Reverendo Peixoto de Lima, correu para a frente da casa e viu que na esquina já havia uma grande concentração de pessoas. “Comecei a ligar para o Ricardo, mas o celular só dava caixa postal. Então, telefonei para os irmãos dele e começamos a procurar, nem imaginava que o Ricardo poderia estar no bar”, lembra Fátima.

Já eram 3 horas da madrugada do dia 5 de janeiro quando, depois de uma noite inteira entre saídas à rua e telefonemas, Fátima confirmou que o companheiro era um dos assassinados da chacina. “Um dos irmãos dele que me deu a notícia. Subi na rua e vi o carro do Ricardo parado em frente ao bar. Não tenho dúvida, foram policiais que mataram meu marido”, sentencia Fátima.

“Se ele não está nessa aqui ainda, dê graças a Deus”

Rita de Cássia de Souza tem o hábito de dormir tarde, estava bem desperta quando os barulhos de tiros apoderaram-se dos ouvidos e do imaginário dos moradores do Jardim Rosana. “Pensei um milhão de coisas, mas não imaginei que meu filho tinha morrido”, lamenta Rita.

Os 14 homens encapuzados desceram dos três carros e correram em direção ao bar gritando “polícia”. Brunno relutou em admitir que pudesse ser um episódio que resultaria em violência. “Ele não acreditava que isso poderia acontecer ali, com a gente, e quando gritaram que era da polícia ele deve ter pensado que era alguma operação”, lembra Rita. Depois de se anunciarem, os encapuzados dispararam, inúmeras vezes, em qualquer alvo que se movesse. Contrariando o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, até mesmo quem não reagiu morreu.

Quando Rita saiu de casa em direção ao bar não havia passado “nem dois minutos” e a rua já estava repleta de viaturas policiais, deixando a mãe de Brunno surpresa. “Não é suspeito? Não tive tempo nem de ligar para o Samu e tanta polícia chega assim, do nada? É óbvio que eles fizeram tudo combinado para limpar a sujeira.”

Dos dez policiais denunciados pelo Ministério Público, três seriam “responsáveis por fazer a limpeza”, de acordo com o promotor João Carlos Calsavara, responsável pelo caso. “Eles chegaram logo após a chacina e recolheram as cápsulas, porém, não o fizeram corretamente, pois várias foram encontradas na cena do crime.”

Logo que conseguiu se aproximar do bar, Rita viu um homem obeso no chão. Pensou que fosse o filho. Não era. Ao se afastar, foi interpelada por um policial. “Nessa hora, teve um PM maldito e nojento que me disse, enquanto eu procurava meu filho: ‘Se ele não está nessa aqui ainda, dê graças a Deus’. O ‘ainda’ dele queria dizer que fariam de novo?”

Brunno, conhecido como “Gordão”, tomou um tiro na perna enquanto tentava escapar, e foi então que o filho de Rita correu para uma viela que ladeia o bar e pulou o portão da casa de uma senhora idosa. Ao ver entrando em sua sala um adolescente baleado, sangrando e pedindo socorro, ela começa a gritar por ajuda e, mesmo sem querer, entregou “Gordão” aos seus algozes.

“Essa senhora, que não quer contar o que viu, infelizmente, diz que os policiais [encapuzados] entraram na casa dela e começaram a bater no meu filho, depois o levaram para a viatura”, conta a mãe de Brunno. Segundo ela, o adolescente entrou na viatura ferido por apenas um disparo, na perna, mas chegou no hospital com seis tiros e morto. “Executaram meu filho na viatura”, acusa.

Calsavara confirma que a versão é “possível”, mas, apesar de confirmar que Brunno chegou ao hospital com seis tiros, não se pode atestar que ele tenha saído do bar ferido por apenas um disparo na perna. “Tivemos que retirar do processo esse fato porque, se não comprovássemos a tese, poderíamos prejudicar a acusação.”

Recado dado

DJ Lah exercendo sua profissão" (Foto: Reprodução/Facebook)

DJ Lah em evento (Foto: Reprodução/Facebook)

Quase dois meses antes do fatídico 4 de janeiro, mais precisamente no dia 12 de novembro de 2012, a TV Globo levou ao ar uma sequência de imagens que mostravam o servente de pedreiro Paulo Batista do Nascimento sendo executado por cinco policiais militares. A rua onde o flagrante foi feito é exatamente a Reverendo Peixoto de Lima, porém, a casa do servente ficava no número 92, no lado par do logradouro, quase de frente ao bar da chacina. É possível notar, no vídeo, que quem o gravou estava em uma posição na diagonal da casa de Nascimento e do alto de um sobrado, com tijolos à vista.

Uma mulher, que reside na rua mas não quis se identificar, afirma que o fluxo de policiais no local foi intenso nas semanas seguintes à divulgação do vídeo. “Passavam várias viaturas, às vezes paravam e ficavam olhando para cima e todo mundo aqui já sabia que eles estavam procurando quem tinha gravado o vídeo.”

Há uma avaliação comum entre os moradores do Jardim Rosana ouvidos pela reportagem. O que aconteceu no dia 4 de janeiro foi um recado dado pela Polícia Militar do Estado de São Paulo. “Não tenho dúvida de que eles vieram responsabilizar quem caguetou eles”, afirma Magrão. A tese é defendida, também, pela promotoria. “A divulgação do vídeo é, de acordo com o que foi investigado, o que motivou a ação dos policiais no Jardim Rosana”, analisa o promotor Calsavara.

À época, boatos espalhados pelo bairro atribuíam ao DJ Lah a responsabilidade pela gravação e divulgação do vídeo. Segundo uma moradora, escutada por Fórum mas que preferiu não se identificar, o músico já teria confirmado a versão em conversas com amigos.

Calsavara confirma que o DJ Lah reforçou o rumor. “Ao que consta, o Laércio estaria se vangloriando de que ele teria sido o autor da filmagem, mas apenas para se promover entre os vizinhos. Já concluímos que ele não fez a gravação.”

“Aqui não tem vagabundo”

Ironicamente, quando integrava o grupo Conexão do Morro, DJ Lah já falava sobre a violência policial nas periferias. Na letra da música “Click Clack Bang”, o músico parece narrar sua própria morte.

“De uniforme cinza assassinos são os homens
Pilantras como eles por aqui existem um monte
…Ratos e mais ratos circulando as favelas
Muito bem, saiam da mira dos tiras
São eles é quem forçam,
são eles quem atiram
Reze pra sobreviver”

Veja videoclipe da música Click Clack Bang:

No dia 4 de janeiro, “Click Clack Bang” se tornou mais real para Laércio de Souza Grimas, que nasceu e passou toda a vida no Jardim Rosana, onde se casou com a namorada da época de adolescência, Débora Cavalcante, e teve quatro filhos, todos criados na mesma casa onde cresceu. Débora se afastou do caso, mas demonstra ainda sofrer com a morte do companheiro e não atende a imprensa.

O Dj, com seus quatro filhos" (Foto: Reprodução/Facebook)

O Dj, com seus quatro filhos” (Foto: Reprodução/Facebook)

Nas poucas palavras que trocou com a reportagem de Fórum, afirmou que se recuperou de uma depressão e que já conseguiu retornar ao trabalho, mas que nesse intervalo passou necessidades. A ausência do Estado foi lembrada por Débora, que afirma nunca ter sido procurada por ninguém do governo. “Eles mataram, eles nos tiraram nossos maridos e pais, então deveriam ao menos nos ajudar.”

Quando os encapuzados se precipitaram à entrada do bar, foi DJ Lah quem gritou: “Aqui não tem vagabundo”. O primeiro tiro foi na perna. Após virar de costas, já sentindo o efeito do primeiro disparo, o músico teria sido alvo de outros tiros.

Polícia pra quem?

A relação já partida entre as periferias e a Polícia Militar de São Paulo se rompe completamente quando chacinas ocorrem e agentes da corporação não são responsabilizados quando cometem atos criminosos. O que se vê, nas esquinas, durante as noites, é uma simbiose de medo e ódio.

“Não confio na polícia, tenho horror a eles. Quando vejo um policial, tenho um nojo enorme e um medo profundo”, diz, sem titubear, Fátima, companheira de Ricardo.

Magrão cita os confrontos de décadas passadas para justificar a relação com a PM hoje. “A cultura do medo aqui é foda. Nos anos 1980 era bandido contra bandido e morria gente pra caralho, mas a gente sabia onde e quando ia acontecer, era entre eles. Agora mudou, o crime não mata mais na quebrada, quem mata é a polícia, você nunca sabe de onde vai partir o tiro.”

Rita conta que policiais intimidam jovens no Jardim Rosana. “Em outubro do ano passado, enquadraram uns meninos aqui e disseram que se não pararem de reclamar [da chacina] vão voltar e matar sem capuz.” Magrão confirma a prática de amedrontamento policial, no bairro. “Escuto muito que existe uma intimidação da polícia, eles passam no local, ficam olhando e chegam a parar quando tem grupinhos. Se houver qualquer movimentação em grupo, eles cercam.”

“No Jardim Rosana, as pessoas não andam mais na rua depois das 21h, temos medo porque não sabemos o que pode acontecer com esses policiais aí na rua. Além da impunidade, parece que tem uns que participaram da chacina e que estão soltos”, alerta Magrão.

Dez indiciados

Apenas cinco policiais estão presos, os outros cinco, do total de dez indiciados, aguardam o julgamento em liberdade. Porém, para os moradores do Jardim Rosana, esse número é baixo, pois consideram que pelo menos 14 homens tenham entrado atirando no bar, assassinando sete pessoas e ferindo outras duas.

“Uns mataram, outros vigiaram e outros passaram, depois, limpando a cena do crime. Não descarto que mais pessoas estejam envolvidas e não tenham sido identificadas pela investigação”, atesta o promotor Calsavara. As identidades não apuradas e os policiais que aguardam o julgamento em liberdade são fatores que cooperam para a sensação de medo a que estão submetidos os moradores do Jardim Rosana. “Sempre nos perguntamos se eles vão voltar”, conta Fátima, que ainda mora na mesma casa, próxima ao bar.

Dos dez policiais indiciados apenas quatro foram acusados por participarem da chacina. Os demais policiais acusados na denúncia formulada pelo Ministério Público teriam dificultado o trabalho da perícia ao limpar a cena do crime e facilitado a ação dos atiradores. Um dos réus pode ter retirado ilegalmente uma espingarda do 37º Batalhão da Polícia Militar (BPM), no Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

Os réus responderão pelos homicídios de Brunno de Cássio Cassiano Souza (17 anos), Carlos Alexandre Claudino da Silva (27 anos), Ricardo Genuíno da Silva (39 anos), João Batista Pereira de Almeida (34 anos), Edilson Lima Pereira Santos (27 anos), Almando Salgado dos Santos Júnior (41 anos) e Laércio de Souza Grimas (33 anos). Outras duas acusações recaem sobre os réus: duas tentativas de homicídio e alteração do local do crime. O processo está na 1º Vara do Tribunal de Júri, na Barra Funda, e corre em segredo de justiça. Duas audiências já foram realizadas e uma terceira está prevista para fevereiro.

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