Caos no Metrô de SP. Para Alckmin, culpa é dos usuários, que são “vândalos”

Caos no Metrô de SP. Para Alckmin, culpa é dos usuários, que são “vândalos”

Especialista em transporte, Horácio Augusto Ferreira afirma que a Linha 3-Vermelha já atua no limite de sua capacidade há pelo menos 20 anos e pede que se priorize o ônibus como alternativa de transporte

Por Igor Carvalho

Geraldo Alckmin (Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil)

Geraldo Alckmin (Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil)

Há anos, em vídeos, fotos e depoimentos, usuários reclamam do Metrô de São Paulo. São passageiros espremidos uns contra os outros, percorrendo filas perenes, aguardando longas viagens e avisos de “lentidão” por motivos diversos: descarrilamento, portas que abrem sozinhas, queda de objeto na via, chuva, falha de tração, enfim, tudo parece ter força suficiente para agredir o sistema de trens na capital paulista. Mover o braço é um luxo.

Na última terça-feira (4), um dos dias mais quentes do ano em São Paulo, por volta das 18h30, mais uma falha técnica impediu a circulação dos trens do Metrô. O ar-condicionado da composição também deixou de funcionar, elevando a temperatura dentro dos vagões. Incomodados, com um histórico de sofrimento no transporte público, que é gerido pelo PSDB há 20 anos, os passageiros decidiram reagir à violência diária.

Diversos botões de emergência foram acionados e os usuários do Metrô começaram a abandonar a composição, caminhando pela linha férrea. A ira coletiva, cultivada por anos de descaso, deixou seu rastro pelas estações da Linha 3-Vermelha. Catracas, vagões, painéis e outras estruturas do Metrô foram quebrados.

No dia seguinte, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) chamou os usuários do Metrô de “vândalos”. “Alguns exaltados, já com todo um ânimo para fazer um vandalismo, começaram a motivar, incentivar, gritar palavras de ordem, slogans, para que as pessoas pulassem na linha.”

O engenheiro de tráfego e vice-presidente da Associação Brasileira dos Pedestres, Horácio Augusto Ferreira, em entrevista à Fórum, afirmou que “a Linha 3-Vermelha já atua no limite de sua capacidade há pelo menos 20 anos” e pede que se priorize o ônibus como alternativa de transporte.

Para o especialista, é inviável continuar acreditando em um sistema que se mostra fragilizado para crescer. “Precisamos sair dessa futurologia das obras do Metrô, que nunca ficam prontas. Não podemos contar com isso.” O motivo, segundo Ferreira, é uma simbiose entre “falta de recurso e visão política falha”.

Alckmin não consegue marcar data para entregar estação Adolfo Pinheiro (Foto: (Foto: Du Amorim/Gov. do Estado de São Paulo)

Alckmin não consegue marcar data para entregar estação Adolfo Pinheiro (Foto: (Foto: Du Amorim/Gov. do Estado de São Paulo)

Obras

Na última quinta-feira (6), um constrangido Alckmin teve que responder aos repórteres que lhe aguardavam no Instituto do Câncer que não há previsão de inauguração da estação Adolfo Pinheiro, que integra a Linha 5-Lilás.

A epopeia tucana, para construir a estação, começou em 2009. Ainda em 2011, sem marcar data definitiva, o governo de São Paulo programou a inauguração da estação para 2013. Porém, em maio de 2012, Alckmin garantiu que no segundo semestre de 2013 a obra estaria finalizada e entregue.

No final de 2013, Alckmin decidiu remarcar para janeiro a abertura da Adolfo Pinheiro ao público. Mais uma vez falhou e teve que se comprometer com a inauguração para dia 1º de fevereiro, o que não aconteceu. Já são 13.634 dias de obras.

Ônibus x Metrô

Na contramão do descaso tucano com o Metrô, o prefeito da capital paulista, Fernando Haddad (PT), já inaugurou 311,4 km de faixas exclusivas para a circulação de ônibus e comprou a briga com as elites, que reclamam do espaço reduzido aos carros.

Horácio Augusto Ferreira afirma ser “extremamente favorável” aos corredores e sentencia: “Achar que o Estado tem que prover vaga para que meu carro trafegue é piada”.

Confira, na íntegra, a entrevista:

Fórum – Qual a sua opinião sobre mais esse incidente no metrô de São Paulo, nesta semana?

Horácio Augusto Ferreira – A Linha 3-Vermelha já atua no limite de sua capacidade há pelo menos 20 anos. Eu tenho batido numa tecla, que é uma sugestão, de usar a faixa reversível da Radial Leste, que é inútil, pois transporta mil pessoas por hora, pois é feita para carros. Pega essa faixa e remaneja os ônibus biarticulados para aquela faixa, operando de forma expressa, saindo da Sé, República e Parque Dom Pedro, direto para a zona leste, sem parar. Eles iriam ter uma velocidade média de 40 km/h, transportando 22 mil passageiros por hora, a Linha Vermelha atende 1 mil ou 1, 5 mil passageiros por hora. Temos que ter uma forma rápida, também, de compra de novos ônibus, para que esse espaço possa ser utilizado. Precisamos sair dessa futurologia das obras do Metrô, que nunca ficam prontas. Não podemos contar com isso.

Fórum – O melhor para São Paulo, hoje, então, é investir no ônibus e não no Metrô?


Ferreira –  Sim. O Metrô, no ritmo atual, vai demorar 50 ou 70 anos para ter uma rede. Enquanto que em um ou dois anos você resolve o problema do desafogamento do transporte público se souber investir no ônibus. A faixa reversível da Radial Leste, que acabei de falar, daria para implementar em 15 dias.

Fórum – Há muita reclamação, por parte de determinados setores da sociedade paulistana, sobre os corredores de ônibus que Haddad está espalhando pela cidade. O senhor entende que é função do Estado encontrar soluções para pessoas que usam carro?

Ferreira – Não. Isso pode chocar algumas pessoas, mas não, não é obrigação do Estado. Achar que o Estado tem que prover vaga para que meu carro trafegue é piada.

Fórum – Você é favorável, então, às faixas?

Ferreira – Extremamente favorável. Antes da eleição, eu já falava que a cidade de São Paulo precisa no mínimo de 400 km de faixas exclusivas e corredores. Esse, espero, seja o primeiro passo. Algumas avenidas da cidade permitem que você coloque o ônibus à esquerda, junto ao canteiro central e isso tem que ser aproveitado.

Fórum – Se não é função, você acha que essa ideia pode ir mais adiante. Ou seja, o Estado passar a disciplinar o uso do carro, coibindo, por exemplo, o uso de ruas para estacionamento?

Ferreira – Isso é uma medida muito inteligente e eficiente para se permitir o uso do espaço viário. Quando eu falo que o Estado não deve fazer nada para o automóvel é no sentido de não realizar obras viárias em função do automóvel. É burrada alargar vias para caber mais carro, não podemos fazer mais obras estimulando mais o uso do carro. O espaço viário é limitado.

Fórum – Por que se demora tanto para ampliar a linha férrea em São Paulo?

Ferreira – A morosidade é uma mistura de falta de recurso e de visão política falha.

Fórum – O senhor consegue vislumbrar o dia em que o transporte público será encarado como alternativa para todos e não para os pobres?

Ferreira – Isso ocorre por puro preconceito. O sujeito mora na [avenida] 9 de Julho e trabalha na Paulista, ou no Anhagabaú, mas ele quer ir trabalhar de carro. Enquanto isso, o ônibus está passando na porta da casa dele. Contra isso, não há o que se possa fazer.

Fórum – Não temos, ainda, o hábito do transporte individual. Acha que essa pode ser a hora de se discutir e implantar políticas que permitam à bicicleta ser uma alternativa possível?

Ferreira – Essa é uma mudança de cultura lenta. Há 100 anos, em São Paulo, as pessoas iam trabalhar de bicicleta. Para mudar a cultura, precisamos primeiro tirar espaço do automóvel para oferecer às bicicletas e isso, como já se provou com os corredores de ônibus, não será fácil.

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