Eduardo Coutinho: retratista da vida cotidiana

Eduardo Coutinho: retratista da vida cotidiana

Cineasta assassinado domingo (2) pelo filho é considerado um dos principais documentaristas do Brasil e do mundo, mas também suas opiniões sempre corrosivas e irônicas fizeram dele uma figura ímpar

Por Marcelo Hailer

Quando apareceu a primeira matéria informando que o cineasta Eduardo Coutinho tinha sido assassinado esfaqueado pelo filho no último domingo (2), muita gente não acreditou e chegou a se cogitar a possibilidade de ser uma trollagem, mas não, minutos depois todos os portais da internet noticiavam o trágico fim daquele que é considerado um dos principais documentaristas do Brasil e do mundo. Tanto é que, em qualquer conversa sobre cinema e quando se caía no gênero documentário, o nome dele era naturalmente citado.

Mas, Eduardo Coutinho não se tornou a figura que é apenas pela qualidade de seus trabalhos, mas também pelas suas opiniões quase sempre corrosivas e irônicas. A jornalista Mariana Simões conversou com Coutinho, em 2011. Questionado se o documentário é uma extensão do jornalismo, Coutinho não mede palavras pra dizer: “Questões gerais eu odeio. Se você me pergunta a diferença do documentário pra ficção nós não vamos sair do lugar. Não, eu fiz nove anos de jornalismo para a TV Globo, trabalhei três anos em jornal também, até fui jornalista, dirigi filmes para o Globo Repórter. Mas eu, desde que eu saí do Globo Repórter, tudo que eu faço é contra o jornalismo”, disse Eduardo Coutinho.

Eduardo Coutinho partiu, mas, o seu trabalho ficou e com certeza vai influenciar muitas gerações de documentaristas. E graças à rede, hoje podemos ter acesso com facilidade ao seu material: os documentários, entrevistas e outros.

Trajetória: do Sertão a Copacabana

Eduardo Coutinho (1933-2014), além de ser documentarista, trabalhou em jornais, teatro e no programa Globo Repórter entre as décadas de 1980 e 1990 e chegou a cursar direito na USP, mas não concluiu a faculdade. O seu primeiro contato com o cinema foi no Seminário do Masp. Logo depois, Coutinho vai para França estudar cinema no Institut des Hantes Études Cinématographiques (IDHEC).

O início de sua carreira no cinema se dá com a ficção, quando faz parcerias na direção e no roteiro com Leon Hirzsman, Eduardo Escorel, Bruno Barreto e Zelito Viana. Neste momento Coutinho se aproxima do Centro Popular de Cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes) e é partir desta integração com a cultura e a política que o cineasta começa a realizar os seus primeiros trabalhos como documentarista. E será justamente nos anos 60 que ele irá dar início a um de seu documentários mais famoso,  “Cabra Marcado pra Morrer” (1964-1985), que conta a história de João Pedro Teixeira, líder dos trabalhadores rurais que foi assassinado. Porém, com o golpe militar do dia 1 de abril, as filmagens são encerradas. Coutinho retoma o projeto nos anos 80, e o que incialmente seria uma obra de ficção se transforma em um documentário, gênero que Eduardo Coutinho adotaria dali pra frente.

“Cabra Marcado pra Morrer” se tornou um marco no cinema, mas não é equivocado dizer que os trabalhos realizados por Eduardo Coutinho na metade dos anos 90 e começo do século XXI o tornaram mais popular. Destaque para o documentário “Babilônia 2000”. Gravado na favela Babilônia, no Rio de Janeiro, o filme se passa durante o último dia do ano de 1999.  Coutinho conversa com os moradores do morro sobre os mais variados assuntos até o momento da virada do ano. E nesta obra já fica registrada a marca de Coutinho: as câmeras gravam os bastidores e a conversa não tem um roteiro pré-produzido, tudo surge numa conversa, como se estivesse numa mesa de bar.

Em 2002 Coutinho lança “Edifício Master”, que fez grande sucesso e se tornou um filme popular, coisa muito incomum para documentários. O longa entrevista vários moradores do Edíficio Master, que fica em Copacabana. A história de Henrique, um senhor que vive sozinho, se tornou um clássico, pois, ao contar a sua vida, ele revela que a música “My Way”, de Frank Sinatra, é a trilha de sua vida. No término da cena, ele canta a música e vai às lagrimas. Com mais de dez anos de produção, é uma das cenas mais comentadas e lembradas.

Em “Edifício Master” fica clara a genialidade do método de Coutinho, que consistia em escutar as pessoas, deixá-las falar e, aos poucos, entrar em sua vida. Dessa maneira, o diretor consegue revelar histórias que parecem emergidas de um roteiro de cinema, mas não, é pura e simplesmente o retrato de vidas cotidianas que no dia a dia ordinário permanecem invisíveis ou retraídas nas particularidades de quem as carrega.

A vida inteira Coutinho foi ligado à política e à esquerda. Em 2002, ano em que Lula se tornaria presidente do Brasil, Eduardo Coutinho lança o documentário “Peões”, que resgata a história do movimento metalúrgico dos anos 80 a partir do depoimento de pessoas que eram operárias e fizeram parte dos atos políticos à época. Em sua maioria eram pessoas que migraram do Nordeste para São Paulo. Além de toda a história dos metalúrgicos, eles também contam a história de Lula, sua liderança e as expectativas de ele chegar à presidência da República. “Peões” ganhou o prêmio de melhor filme no festival de Brasília, em 2004.

Em 2005, Coutinho realiza o seu trabalho mais radical, intitulado de “O Fim e o Princípio”. O diretor e equipe partem para o sertão da Paraíba sem pesquisa prévia, a ideia é achar alguma história em algum lugar de São João do Rio do Peixe. Lá eles descobrem o sítio Araçás, onde vivem 86 famílias, a maioria com ligação de parentesco.

Com “Jogo de cena” (2006), Coutinho faz uma pesquisa com mais de 80 mulheres e suas histórias. Mas, ao invés de entrevistar as verdadeiras mulheres, Coutinho convidou as atrizes Marília Pera, Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marly Sheila, que interpretaram estas histórias, mas como se estivessem sendo entrevistadas e fossem as verdadeiras mulheres. Ou seja, Coutinho faz uma mistura de levantamento histórico, documentário e teatro e isso resulta numa obra-prima.

Coutinho repete o método de “Jogo de cena” em “Moscou” (2009), no qual ele acompanha um grupo de teatro e aqui os limites entre documentário, filme, real e ficção ficam ainda mais tênues, mas que obtém um resultado poético.

Outros registros

Além de todo este material disponível na rede, há também outros registros que valem a pena para quem conhece e para aqueles que desejam conhecer o trabalho e outras facetas do diretor. Um deles trata-se de uma entrevista do Coutinho ao Paulo Cesar Peréio, no programa “Sem Frescura”, exibido em 2011 no canal Brasil. Amigos de longa data, acompanhamos as história de quando trabalharam juntos, em início de carreira e outro contos políticos sobre aventuras no Beco da Fome e na Boca do Lixo.

Há também livros que se debruçam sobre a obra de Coutinho. Um deles se chama “Eduardo Coutinho”, da editora CosacNaif, de Milton Ohata. A obra é uma homenagem aos 80 anos do cineasta e reúne dois ensaios e dez entrevistas com o cineasta, depoimentos de pessoas que trabalharam com ele e uma série de textos sobre os seus filmes escritos por cineastas e jornalistas. Outro livro sobre Coutinho é “O documentário de Eduardo Coutinho”, uma pesquisa de Consuelo Lins que acompanhou 40 anos de trabalho do cineasta para compreender o método de criação do documentarista.

Não há texto que dê conta de homenagear Eduardo Coutinho, melhor mesmo é, assim como iniciamos, encerrar com as palavras do próprio explicando por que odeia o jornalismo e com certeza odiaria este texto:

Cineasta trabalhou em jornais, teatro e chegou a cursar direito na USP (fotos: Wikimedia Commons)

Cineasta trabalhou em jornais, teatro e chegou a cursar direito na USP (fotos: Wikimedia Commons)

“Eu odeio o jornalismo. Não estou interessado em jornalismo. Não estou interessado em informações, mapas, em filme militante, em filme político. Deus me livre. Aquecimento global, liberar maconha. Não estou interessado em filmes políticos, sociais, genéricos. Nada que é genérico me interessa. Quero saber das pessoas que eu filmo, só. Então comigo é uma exceção, um tipo de cinema particular que eu faço, do qual é o único que eu sei falar. Não falo sobre o cinema em geral porque, bom, o documentário pode ser tudo, né? Jornalistas podem fazer excelentes documentários jornalísticos, evidente. O Michael Moore é jornalista, no fundo um cineasta, e que é um tipo engraçado e tal, mas que é um populista evidentemente de esquerda e que, enfim, usa metas que eu não usaria. Mas é um cara altamente eficaz, está milionário e tal, mas é jornalismo. E seus filmes são úteis? São, em certa medida são. Tratar dos assuntos que ele trata, agora, as metas que ele usa, não me interessa”.

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