Futebol: os jogadores vão à luta

Futebol: os jogadores vão à luta

Após invasão de CT corintiano, atletas tentam organizar greve para este fim de semana. Será que o jogo vai virar para o lado do bom senso?

Por Glauco Faria e Vinicius Gomes

“Greve é o c…, entra em campo e justifica seu salário.” Esse grito, misturado a outros como “Volta dessa greve”, eram entoados na noite de quarta-feira (5), no Pacaembu, durante a derrota do Corinthians para o Bragantino, em partida válida pelo campeonato paulista. Parte da torcida do clube da capital fazia referência à movimentação de jogadores dos clubes de São Paulo, que entregaram uma série de reivindicações à Federação Paulista de Futebol para decidir se paralisariam a rodada de fim de semana da competição ou não.

O estopim da possível greve foi justamente a ação de torcedores pertencentes a organizadas do Corinthians que invadiram o Centro de Treinamento (CT) do clube no último sábado (1), com atos de agressão física como uma tentativa de esganar o atacante peruano Paolo Guerrero. Uma funcionária da área da limpeza teria levado uma “gravata” e o médico Joaquim Grava, que dá nome ao CT e tem problemas de arritmia cardíaca, passou mal em função da confusão. Três celulares foram furtados e equipamentos, danificados. No próprio sábado, já havia sinais de reação por parte de atletas, e não só do Corinthians.

Em entrevista concedida à rádio Bandeirantes no dia do episódio, o zagueiro do Santos Edu Dracena contava que os líderes do Bom Senso FC, movimento criado no final de 2013 por jogadores em prol de melhorias no futebol, já haviam cogitado paralisar a competição no fim de semana passado, descartando a ação por conta dos prejuízos que ela acarretaria ao ser decidida de pronto. “Com a logística pronta, prejudicaria muita gente. Mas tomara que na semana que vem a gente possa dar uma solução. O Paulo André [zagueiro e capitão do Corinthians], o Fernando Prass [goleiro e capitão do Palmeiras] e outros, até o Dida [goleiro e capitão do Grêmio], que está em Porto Alegre, se revoltou. Os cabeças chegaram a pensar em não ter rodada do Paulista, mas, como a gente sempre leva para o lado do bom senso, achou melhor não fazer o protesto nesta rodada. Mas não está descartado que ocorra [nas próximas rodadas]”, disse o santista.

Ao término da partida no domingo (2), entre Corinthians e Ponte Preta, o goleiro Roberto do time da Campinas foi um dos mais contundentes nas declarações. “Chegou a hora de mudar, e nós vamos bater nisso. Estamos nos organizando para parar o campeonato, estudando uma medida legal para fazer isso. Uma coisa tem de estar clara. Em algum momento, vamos ter de mudar e, para mudar, tem de ter confronto, pacífico, mas confronto. Vamos ter de bater de frente com muitas pessoas, e o momento chegou. Alguém vai sair prejudicado. Provavelmente quem puser a cara. Mas eu não estou nem aí. Tenho uma filha e preciso brigar por um futuro melhor para ela usufruir. O momento é esse. Se o negócio não for na base do diálogo, vai ter de ser na atitude”, disse o goleiro.

Paulo André, que rebateu o presidente do Náutico no fim de 2013 em defesa dos jogadores pernambucanos (Christopher Johnson/Wikimedia Commons)

Paulo André, que rebateu o presidente do Náutico no fim de 2013 em defesa dos jogadores pernambucanos (Christopher Johnson/Wikimedia Commons)

A paralisação, evento até agora inédito no futebol brasileiro, já havia sido cogitada para acontecer na penúltima rodada do campeonato brasileiro de 2013. O Náutico, àquela altura já rebaixado para a Série B, não havia pago os direitos de imagem – que por vezes são a maior parte da remuneração de um jogador – para todo o elenco, acertando somente com parte da equipe. O fato desagradou os jogadores, que apelaram ao Bom Senso FC para organizar uma greve de todas as equipes da 1ª divisão do país. À época, o presidente do clube pernambucano, Paulo Wanderley, criticou o capitão do time, o meia Martinez, por ter “manipulado” os jogadores e exposto publicamente a situação. Um dos principais líderes do movimento de atletas, Paulo André, não tardou em rebater o cartola. “O presidente do Náutico falou grandes besteiras ontem [29 de novembro]. Tratou os atletas como gado, acha que os atletas não podem pensar, não podem se posicionar”, disse ao site da BBC.

A postura do zagueiro corintiano podia ser vista como um alento e a possibilidade do início de novos tempos. Os jogadores, principais atores do espetáculo milionário que é o futebol, passavam a reivindicar poder decisório nos rumos da modalidade no Brasil e, se fosse preciso, enfrentariam dirigentes de clubes e federações. A invasão ocorrida no CT do Corinthians parecia ser o estopim para que o discurso do movimento tomasse forma. Mas não foi o que aconteceu.

O melhor momento passou?

O presidente do Sindicato dos Atletas de São Paulo (Sapesp), Rinaldo Martorelli, afirma que o Bom Senso FC e a Sapesp estão há cerca de um mês e meio trabalhando em conjunto para alinhar e afinar as ideias e, após a invasão do CT Joaquim Grava, os jogadores corintianos teriam pedido a intervenção da entidade. Quanto à greve, ele diz existir uma série de partes envolvidas, além dos atletas, como a federação, o Tribunal de Justiça Desportiva e a Delegacia do Trabalho. “Toda greve necessita de um foco”, sustenta. “Se os atletas apenas pararem, a greve poderia ser considerada ilegal e qualquer um envolvido estaria sujeito a penalizações variadas.”

Como ela não ocorreu na rodada seguinte (quarta-feira, 5), a expectativa paira sobre este fim de semana. Em conversa com a Fórum, o goleiro ponte-pretano Roberto explica que os jogadores ainda esperam um posicionamento oficial do Sapesp. “Estamos na dependência do sindicato, sobre o que eles acertarem e o que eles definirem [nas negociações], estamos esperando eles se pronunciarem para ver o que iremos fazer.”

Por isso, até o momento do fechamento da edição, Roberto ainda não sabia se haveria uma paralisação nessa rodada do campeonato paulista. Perguntado se, além da garantia de segurança, quais outras reivindicações haviam sido elencadas, Roberto respondeu que foi requisitado a todos que não expusessem ou vazassem nada a respeito. E voltou a afirmar que apenas o sindicato irá se pronunciar sobre o que eles buscaram e o que conseguiram nas negociações.

Martorelli explica que a relação de trabalho dos atletas é atípica, pois não se resume a um empregador e um empregado, na qual, se o último não quiser trabalhar, o primeiro simplesmente o demite. De acordo com ele, existe uma série de interesses que seriam afetados por uma paralisação, ainda que ressalte o fato de, entre todos os direitos a serem respeitados, o maior é o direito à vida humana, colocado em risco no episódio de sábado. Procurados pela reportagem de Fórum, Paulo André e Edu Dracena não quiseram se manifestar sobre o assunto.

De acordo com a assessoria do Palmeiras, Fernando Prass também se recusou a falar por não querer ser o único a se expor publicamente”. “Por mais solidário que possa estar, o Prass pode ser cobrado dentro do próprio Palmeiras e por seus companheiros, já que o time vem de uma série de vitórias. Alguns deles podem pensar, em relação aos jogadores do Corinthians, ‘eles que resolvam’. Não estou justificando nem dando informação, estou fazendo uma conjectura”, afirma o jornalista esportivo Juca Kfouri.

Para Kfouri, uma grande oportunidade foi desperdiçada no último sábado. “Os jogadores do Corinthians perderam a grande chance de não ir ao jogo contra a Ponte Preta [no dia seguinte ao episódio]. O momento ideal já foi, viram o bonde passando, cogitaram pegar o bonde, mas não subiram nele”, avalia. “E eles se deixaram engabelar por três argumentos falaciosos. Primeiro, que a Federação Paulista poderia banir o clube do campeonato estadual. Ora, a entidade vai colocar pra fora o clube mais popular do Estado? Depois, alegaram que a Caixa Econômica Federal, por ser patrocinadora, poderia retaliar. Alguém pode achar que a Caixa teria condição de ir contra um movimento cujo discurso principal era antiviolência, sendo que o banco teve recentemente agências quebradas pelos black blocs? E o terceiro argumento era de que a TV Globo iria cobrar uma multa, mas a emissora brigaria com seu maior campeão de audiência por conta disso?”, questiona. “O que havia, dentro das circunstâncias, era perder a partida por WO, então, que se aceitasse esse risco e tomassem a atitude. Se tomassem, teria um efeito dominó, os jogadores de outros clubes se solidarizariam”.

Lance de Ponte e Corinthians, no domingo (2). E se a partida não tivesse acontecido?

Lance de Ponte e Corinthians, no domingo (2). E se a partida não tivesse acontecido?

Mesmo diante dessa nova realidade, Kfouri apoia a movimentação dos atletas, fazendo a ressalva em relação à forma como a movimentação vem sendo conduzida pelo Sapesp. “Agora, entrou o sindicato dos atletas, que é um cabide de empregos. O [Rinaldo, presidente do Sindicato] Martorelli não joga bola há 40 anos, e eles pediram autorização pra fazer a paralisação, foi um advogado justificar por que os atletas não querem jogar no fim de semana. Não se pede autorização pra fazer greve, se faz. Isto feito, o patrão vai reclamar na Justiça e o juiz vai julgar. Fazer uma greve com consentimento é algo absurdo.”

“O sindicato que representa a classe. No começo até houve uma divergência, mas agora o ‘movimento’ (o Bom Senso FC) e o sindicato estão unidos, então quem tem que tomar a frente e quem representa os atletas é o sindicato”, diz Roberto. “Nós temos algumas reivindicações que são bem claras para com o movimento, essa situação que aconteceu foge da nossa mobilização, o sindicato entendeu que foi uma situação extrema”, sustenta o goleiro.

Questionado se, independentemente do que ocorra, os jogadores dos 20 clubes da primeira divisão estadual estariam unidos, Roberto afirmou que dentro da Ponte Preta estão todos em concordância e que cabe ao sindicato realizar essa articulação entre todos os outros. “Essa situação é complicada, mas, como já disse antes, é apenas um reflexo da nossa sociedade. Só está acontecendo o que vemos diariamente. Um cara como cidadão tem que tentar mudar, mas algumas pessoas são difíceis…”

O que quer o Bom Senso?

Em linhas gerais, o Bom Senso FC estabeleceu três principais diretrizes para o início de sua jornada: mudanças no calendário, “fair play financeiro” e comodidade para os torcedores. Em relação ao primeiro item, o movimento atenta para o desequilíbrio existente entre clubes da elite, que podem disputar até 85 jogos em uma única temporada, e a maioria dos times profissionais do país que disputa, em média, 17 partidas por ano, o que deixa 16 mil atletas sem ocupação ao fim dos torneios estaduais.

Quanto aos torcedores, os jogadores avaliam que “segurança, comodidade, preço de ingresso, horário dos jogos etc., são tópicos fundamentais para dar credibilidade ao espetáculo e atrair o público de volta aos campos de futebol”, observando que o Brasil é apenas o 18º país no ranking de média de público nos estádios. Já o “fair play financeiro” diz respeito ao fato de, nos últimos cinco anos, as dívidas dos clubes terem crescido 74%, em que pese as receitas em geral também terem aumentado.

Em muitas ocasiões isso se traduz em inadimplência em relação ao salário e aos direitos de imagem dos atletas, principalmente se o contrato estiver chegando ao fim. “O Fair Play Financeiro é um sistema de controle das finanças que obriga os clubes a gastarem apenas o que arrecadam. O objetivo é simples e visa garantir a sustentabilidade da instituição esportiva e o desenvolvimento saudável do mercado”, diz o site do Bom Senso.

A situação econômica dos clubes de futebol é um dos principais aspectos que impedem o fortalecimento do futebol no país. Mesmo com a condescendência do poder público, equipes profissionais continuam acumulando dívidas. Na quarta-feira (5), uma comissão especial formada por Atlético Mineiro, Corinthians, Coritiba, Flamengo, Fluminense, Internacional e Vitória, propôs em uma audiência pública Câmara dos Deputados, em nome dos 24 principais clubes brasileiros, uma amortização da dívida junto à União ao longo de 20 anos. Pela proposta, 5% do total da dívida seriam pagos até 2015, 25% até 2021, 35% até 2027 e o restante até 2034. Com base em dados de 2012, o volume da dívida dos principais clubes do país chega a R$ 2,5 bilhões e, se forem incluídos os clubes menores, o montante ultrapassa R$ 4 bilhões. Flamengo, Botafogo, Fluminense e Atlético Mineiro são os clubes que mais devem à União.

Foto de capa: http://www.flickr.com/photos/jgbarah

Compartilhe

Deixe uma resposta