Está tudo pegando fogo e eu estou gostando

Está tudo pegando fogo e eu estou gostando

Considerada “fora dos padrões”, a cantora, compositora e ilustradora Karina Buhr fala sobre carreira, política, indústria cultural e feminismo

Por Anna Beatriz Anjos e Isadora Otoni

“Em vários lugares, quando chego pra entrevista, a pessoa fica esperando que eu dê cambalhota. Mas é porque é outra coisa, palco é outra história.”

Precisamos admitir que, bem no fundo, éramos movidas por essa expectativa quando chegamos ao estúdio Traquitana, no bairro paulistano do Bexiga. Queríamos ouvir o que a Karina Buhr, entrevistada daquela noite, tinha a dizer sobre os mil temas que havíamos elencado em nossas cabeças e em nossos bloquinhos de repórteres. Sempre que a vemos em algum show ou fotografia de revista, Karina, que é cantora, compositora, ilustradora e tantas outras coisas, mostra-se uma figura marcante. Ela gosta de pintar os olhos, às vezes mais, outras menos, mas sempre ostenta aquele olhar castanho intenso, emoldurado pela camada de tinta que recobre suas pálpebras e cílios.

Mas as pessoas são, na maioria das vezes, meras imagens construídas pelo nosso imaginário, que insiste constantemente em nos convencer de suas criações. Com Karina não foi diferente: nada de maquiagem carregada ou roupas chamativas. Encontramos uma profissional no fim do expediente – uma cantora recém-saída do estúdio, onde, com outros músicos, ensaiava o espetáculo do próximo fim de semana. O palco será o Sesc Vila Mariana. Em cena, o projeto Goma-Laca, dirigido pelo maestro baiano Latieres Leite, do Orquestra Rumpilez. Como protagonistas, novos arranjos de canções afrobrasileiras.

Sentada em um banco de madeira, ela cruzava e descruzava as pernas a cada dois minutos. Tudo com uma espontaneidade que só cresceu durante a conversa. De calça legging e blusa simples, cabelos tingidos de loiro e soltos, olhar despido, mas ainda assim forte, ela contou para a Fórum um pouco da sua carreira, desde a época de Banda Eddie, no Recife, até a fase atual, com dois discos gravados e ótimas críticas na bagagem. Com muita personalidade, não hesitou em responder nossas questões sobre feminismo, manifestações, direitos autorais e Copa do Mundo.

O resultado você confere a seguir.

Fórum – Quando você começou a se envolver com arte? 

Karina Buhr – Desde pequena eu gostei disso. Na época do vestibular, nunca quis fazer nada das opções disponíveis. Já pensei em fazer jornalismo. Mas era o que eu achava mais legal do que tinha, não era algo que eu realmente queria. Tentei Educação Artística por dois anos, era licenciatura e eu nem sabia o que era licenciatura naquela época.

Fórum – Isso lá em Recife?

Karina – Em Recife. Eu nasci em Salvador, mas fui pra Recife com oito anos. Morei lá, comecei a ter influências lá. Agora é engraçado porque eu estou voltando bastante para Salvador, tenho vários compromissos por lá, shows, participações. Mas a maior parte do que eu aprendi a tocar foi em Recife.

Fórum – Sua família mora em Recife?

Karina – É. Minha mãe mora em Recife, e meu pai, em Salvador. Minha mãe é da Alemanha e meu pai, do interior da Bahia.

(Foto: Isadora Otoni)

“Você vai na loja de discos e tem lá o setor ‘Cantoras’, e pode ser quem for. Tem lá eu, Maria Bethânia, Lurdez da Luz, todo mundo junto. Você não vê Otto e Fábio Jr. em ‘Cantores´” (Fotos: Isadora Otoni)

Fórum – Uma de suas músicas foi escrita em alemão (“Telekphonen“). Você é fluente no idioma?

Karina – Eu já falei, agora não falo mais. Aquela música alemã eu fiz de propósito. Era uma conversa, aí entra uma pessoa que não sabe falar direito, e a pessoa de lá não atende e ela fica em uma agonia. Fiz questão de deixar ela meio esquisita mesmo. Minha mãe é professora e queria corrigir um negócio, aí eu falei: “Não, mãe, é a ideia. Deixa errado mesmo”.

Fórum – Alguma das suas influências musicais veio da sua família?

Karina – Em Salvador eu era muito pequena, mas sempre amei as coisas que tocavam no rádio de lá nos anos 80. Gostava muito de Gerônimo, Luiz Carlos, Sarajane. Ouvia tudo. Fora iê-iê-iê, essas coisas. Eu morava com meus avós, e meu avô tocava piano. Mas era outra parada. E minha mãe ouvia muita música brasileira em casa. Ney Matogrosso, Os Mutantes, Caetano, Gil, Gal Costa… Aí fui conhecer o rock’n’roll gringo depois, indo pra farra com os amigos, em outros lugares. Acabou que gosto muito de tudo um pouco e eu adorava quando tinha essas mudanças de cenário, que eu podia ouvir. Porque as coisas que tocavam em Salvador eu só conseguia ouvir lá. Meu avô tocava aquelas coisas que eu só conseguia ouvir ali. Então eu gostava de ficar sapeando, ainda bem.

Fórum – E seu processo de criação? Como funciona?

Karina – Não tem, cada vez é de um jeito. Não gosto nem de pensar nisso, fico tentando pular essa fase. Porque não é uma coisa que você domina completamente. Você tem uma ideia, aí para e faz, vai guardando coisinhas, depois junta. Às vezes você senta para fazer alguma coisa e faz tudo de uma vez. Se tivesse controle, todo mundo sentava e fazia coisas maravilhosas a cada sentada.

Fórum – Quando pensa em fazer um disco, já tem muita coisa pronta ou tenta criar coisas novas?

Karina – Não, eu pego as coisas que estão prontas e, quando decido o que vou fazer, saem algumas outras coisas. Cai fora um pedaço daquele, entra uma coisa nova. Tem música que era pra entrar no primeiro disco, mas por algum motivo acabou entrando só agora, sabe?

Fórum – O que significa ser mulher para você? Já sentiu algum tipo de preconceito em sua vida artística por conta disso?

Karina –  O que significa ser mulher, sei lá, eu nunca fui outra coisa. Então não sei o que isso significa. Mas isso de machismo sempre, toda hora e todo dia. Às vezes é alguma coisa mais séria. Por exemplo, quando eu comecei a tocar percussão, não podia tocar em um monte de lugar. Comecei a tocar percussão para tocar em candomblé, e nunca pude. Então toquei vários anos em maracatu, na Maracatu Estrela Brilhante, na Águia de Ouro, Afoxé… Sempre toquei, em banda e tudo, mas nunca pude tocar em candomblé. Mas em banda também, por mais que não tenha uma placa dizendo proibido. Por isso que tem mais homem tocando e muita mulher cantando. Cantar é uma coisa mais reservada para mulher. Você pode fazer isso, tocar piano, flauta, violino. As outras coisas não têm mulheres fazendo, mas não é que não pode, é porque não te convidam. Você tem que brigar para fazer. Mulher que vai tocar bateria é porque quer muito tocar bateria. A que joga futebol é porque quer muito jogar futebol. E pro cara você fala: “Toca, filho” e ele “quero não”. Aí quando você vê, ele está tocando pra caralho.

(Foto: Isadora Otoni)

“O ideal é ninguém precisar dizer que é (feminista). O ideal é isso ser natural, ser tudo igual, tranquilo, homem e mulher, e o absurdo seria alguém ser machista”

Fórum – Por não seguir um padrão de artista mulher, você encontra dificuldades pelo caminho?

Karina – Essa coisa de fazer o balaio de cantora já é um absurdo. Com homem não tem isso. Você vai na loja de discos e tem lá o setor “Cantoras”, e pode ser quem for. Tem lá eu, Maria Bethânia, Lurdez da Luz, todo mundo junto. Você não vê Otto e Fábio Jr. em “Cantores”, eles são separados por estilo, pelo que tocam. A gente não, é mulher e bota lá.

Logo que eu lancei meu trabalho, foi muito louca essa coisa de analisar a voz. Tinha essa coisa chata de ficar junto com aquele grupinho de mulheres, o que te impede de crescer, muitas vezes. Na hora de analisar quem faz música, são os caras, né? Meu show não é o que se espera de um show de cantora. Realmente, eu não toco um monte de coisa que é pra cantora tocar.

Fórum – Nunca passou pela sua cabeça mudar o jeito para ser aceita?

Karina – Quando é forçado assim, não funciona. Acho que só funciona se for de verdade. Mesmo se tem um empurrão de muita grana, de muita estrutura, você saca. Às vezes, tem uma história que faz sucesso pra caralho, mas você sabe que não é de verdade. Não tenho muito saco pra fazer isso. Preferiria fazer outra coisa da vida. Fazer outra parada, que desse dinheiro logo de cara.

Fórum – Demorou muito pra que você alcançasse uma estabilidade financeira?

Karina – Ainda não alcancei, não. Não alcancei de jeito nenhum. Sem chance.

Fórum – O que você pensa sobre a indústria cultural do Brasil e de São Paulo?

Karina – É sempre uma coisa muito viciada, por mais que tenha mudado o esquema de gravadora. Só se escuta aquelas 10 pessoas no rádio, aquelas 10 pessoas na televisão. Insuportável. E tem muita coisa maravilhosa rolando, mas que é sempre tratada como música alternativa. Às vezes eu falo que alternativo é quem ganha pouco dinheiro, né? Porque não é o tipo de música que você faz que te define como alternativo. Mesmo a imprensa legal, que escreve legal, trata dessa forma. Na MTV mesmo, quando rolou a história de abrir um espaço pra esse outro tipo de música, foi muito bom, mas, ao mesmo tempo, eles faziam do jeito errado. Do jeito que se falava, parecia que estavam fazendo um favor. “A gente está abrindo espaço pra isso aqui, olha como a gente está ajudando”. Em vez de ser “olha, como vai ser do caralho”. O jornalismo, a crítica musical são muito responsáveis por isso. Tem muito jornalista que ama um monte de música que está bombando, mas fala com medo. Às vezes, nem quer que seja conhecida, pra pode falar “olha como eu gosto disso aqui, como é obscuro”.

Fórum – As iniciativas como a Virada Cultural, ou esses festivais que estão rolando agora no Anhangabaú. Você acha que ajudam os artistas a divulgar seu trabalho?

Karina – Acho isso muito bom, adoro tocar na rua. São Paulo é muito caro. Tem o Sesc que salva, é mais barato, todo mundo pode ver, mas na rua é mais ainda. No Sesc você vai sabendo o que vai ver. Na rua, você vai passando, às vezes nem sabe quem vai tocar. Está passando e para ver algo que chamou a atenção.

Fórum – Qual é a sua opinião sobre direitos autorais e proteção à propriedade intelectual? E sobre as biografias não autorizadas pelo artista?

Karina – A propriedade intelectual tem que ser protegida mesmo. Direito de autor. Mas no caso das biografias, não é isso. O biografado tem todo direito de protestar, de processar, fazer o que for se ali forem ditas coisas que não são verdade. Mas isso de autorizar antes eu acho um absurdo. Naturalmente, as biografias que são mal feitas não vão adiante. Aquilo ali já se quebra, ninguém quer comprar. As biografias que fazem sucesso,que  ficam pra história e vendem são aquelas bem feitas. E isso eu acho que o biografado só tem a agradecer.

Escrever biografia dá um trabalho miserável, precisa de muito esforço, muito talento. Quem faz isso, escolhe uma pessoa que acredita ser importante para a história do país. E o Brasil sofre muito com o fato de ter poucas biografias. Esse é um jeito muito importante de se conhecer a história do país, a cultura, a política.

Nesse fuzuê de proibir, muita coisa aconteceu. A biografia de Garrincha quase não sai porque a família não queria que falasse que ele era alcoólatra, mas todo mundo já sabia disso. Tem essas coisas: normalmente o que as pessoas não querem que seja dito na biografia todo mundo já sabe.

Fórum – Mas e a questão da propriedade intelectual mesmo? Quando o artista escreve uma letra, faz uma música?

Karina – Acho que tem que ser respeitada sempre. Vai de cada caso. Se o artista só quiser que se espalhe se pagarem um valor X, direito dele. Agora, tem um monte de coisa que eu questiono sobre família herdar direitos autorais. Isso também varia de caso em caso. Acaba que muita coisa que o autor liberaria é impedida de acontecer pela família, que às vezes nem representa o que ele queria. Muitas vezes, sim, e é maravilhoso. No caso de Itamar Assumpção, por exemplo, o que a Anelis e a Serena (filhas) fazem é maravilhoso.

Agora, a regra geral é respeitar o direito do autor. Porque é a única coisa que você tem. Essa coisa que você falou de estabilidade econômica, como assim? Não tem. Quando você ganha milhões tocando loucamente no rádio, aí você tem, e mesmo assim, é por causa do direito de autor. É o seu patrimônio. Aí você pode liberar, também. Se quiser, coloca lá “Creative Commons” e libera, deixa as pessoas usarem o quanto quiserem, desde que deem o crédito. Os meus dois discos são de graça pra quem quiser baixar. Eu acho maravilhoso estar na rua. Pra mim, o problema é outra pessoa ganhando dinheiro com aquilo ali. Se for pra ganhar dinheiro, quero minha parte. Mas pra ouvir, quero que todo mundo ouça.

Fórum – Você se considera feminista?

Karina – O ideal é ninguém precisar dizer que é. O ideal é isso ser natural, ser tudo igual, tranquilo, homem e mulher, e o absurdo seria alguém ser machista. Mas, enquanto não for assim, tem que ser. Até ficar igual, falta muito. Ainda tem Kinder Ovo rosa e azul. Fui passar o Natal com a minha família e as meninas ganharam bonecas, jóias e maquiagem. Pros meninos, é coisa de cientista, jogo, carro. Enquanto tiver isso, não tem jeito.

Fórum – Você acha que existe uma onda de conservadorismo aumentando no mundo ou que os debates em torno dos direitos das mulheres estão se ampliando?

Karina – Tenho essa sensação de que está regredindo, porque as mulheres são inimigas. Na lua contra o racismo, claro que tem muito negro racista, mas a maioria quer seus direitos. Com as mulheres, não, tem muita mulher machista. Isso é um impedimento muito forte. E é engraçado, porque em várias vertentes de movimentos sociais que lutam por liberdade há machismo. Em todos os meios.

Fórum – A discussão do aborto, no seu ponto de vista, está muito distante de ser séria?

Karina – A discussão é muito rasa. Todo mundo quer imitar a Europa, os Estados Unidos, mas não quer prestar atenção no que acontece lá com relação a isso. É um debate que está muito baseado na ignorância, e isso por parte das próprias mulheres.

Tem que legalizar e pronto. Quem vai presa e quem morre é mulher pobre. É isso. Se está ruim o debate, vamos recorrer às estatísticas. É o mesmo caso da legalização da maconha. Em vez de achar ruim ou bom, veja os números e pronto.

"Quando é forçado assim, não funciona. Acho que só funciona se for de verdade. Mesmo se tem um empurrão de muita grana, de muita estrutura, você saca" (Foto: Isadora Otoni)

“Quando é forçado assim, não funciona. Acho que só funciona se for de verdade. Mesmo se tem um empurrão de muita grana, de muita estrutura, você saca”

Fórum – A agenda política e social do Brasil está movimentada em 2014, com Copa do Mundo e eleições presidenciais. Como você acha que serão os debates?

Karina – Está tudo pegando fogo e eu estou gostando. Dá um desespero porque, muitas vezes, pegam uma coisa que você falou ou fez e usam do jeito contrário ao que você queria. Isso tanto no âmbito pessoal como em protesto. Eu fui pra rua no 17 de junho e, de repente, estou lá no meio da multidão, achando maravilhoso tudo aquilo, e aí começa um grito: “Dilma, sua vaca. Libera a catraca”. Pensei, meu Deus, as pessoas estão gritando e nem sabem direito o quê, estão achando que é a Dilma que tem que liberar a catraca. Muita coisa das manifestações foi usada, mas, ao mesmo tempo, foi tudo muito importante.

Fórum – Qual a sua opinião sobre a presidente Dilma Rousseff?

Karina – Eu admiro muito a Dilma. Por tudo o que ela fez – pelo pulso, por ter colocado o Brasil no centro de vários debates, por colocar moral em várias áreas. Tem que trocar ministro, vai e troca. Não fica defendendo. Por outro lado, ela não conversa com índio, diz que é contra o aborto. Tem o lado ruim também. Mas acho que, no meio disso tudo, ela conquistou uma força muito grande. De jeito nenhum minha intenção é segurar a Dilma, quero que o bicho pegue, todo mundo faça e fale o que quer. Passei muito por isso em Recife, em prefeituras passadas do PT, de acreditar no projeto e, quando via, tinha muita coisa decepcionante acontecendo.

Acho que não pode esconder, tem que falar. A Dilma tem que dizer que é a favor do aborto. Sei que não disse antes porque precisava se eleger. O que espero é que, ganhando, ela agora sim faça um monte de coisa que quis fazer e não pode diante desse plano de poder.

Fórum – Copa do Mundo: o que você acha que vai acontecer e o que pensa sobre a forma com que as coisas vêm sendo feitas?

Karina – Brasileiro tem aquele eterno complexo de vira-lata, de achar que o Brasil é uma merda. Outros países sede também tiveram muitos problemas, mesmo sendo mais desenvolvidos do que nós. A gente faz o carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro, um monte de evento imenso. A gente sabe fazer isso. Tem tudo pra ser maravilhoso. Mas fica aquela velha coisa: chega a Marisa Monte linda, de Iemanjá, e tem gente que fala que está ruim. Mas, ao mesmo tempo, tem o lado social que está uma bosta. E aí eu acho mais é que tem que ter o Não Vai ter Copa mesmo, embora vá ter Copa. Tem que ter um contraponto.

 

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