Um hipócrita chamado Walt Disney

Um hipócrita chamado Walt Disney

A Disney tomou cuidados para que o que ela fez com o legado de Grimm e Eisner, entre outros tantos, não ocorresse com seu bem mais precioso, Mickey Mouse, e a proteção de copyright  se tornou a cruzada pessoal de fábrica dos sonhos, mesmo que isso implicou jogar sujo em mais de uma ocasião.

Por Mónica Zas Marcos, original em  El Diario.

Tradução de Ítalo Piva

Esta semana entra em cartaz Saving Mr. Banks, cujo título poderia ter sido “Acuso e derrubo”. O filme nos conta sobre a campanha de Walt Disney para conseguir os direitos autorais de Mary Poppins, da escritora P.L. Travers. Nessa versão educadora dirigida por John Lee Hancock, Walt é um tipo encantador. Na realidade, idealizava um relacionamento que é mais próximo do caos do que a camaradagem.

Muitas sombras rodeiam a Disney, mas Maryl Streep já se encarregou com essa lista negra. Pelo intercâmbio de royalties sabemos que Disney utilizou toda sua artilharia pesada para convencer Travers, depois confessando que só queria fazer suas filhas felizes. Como é natural, um não constrói um império sem antes varrer sua própria casa. A de Mary Poppins é uma das jogadas mais limpas na historia da fábrica dos sonhos, mas nem todas foram. Leiam e vejam.

Lei de proteção do Mickey Mouse

Uma das estratégias que garantiram a permanência da Disney no limbo das empresas acionárias é o copyright. Desde seu humilde começo como morador num compartimento de carga de um navio a vapor, até se tornar o residente mais famoso do Reino Mágico, Mickey Mouse trabalhou com muitas coisas. Inclusive como modelo nas campanhas mais agressivas em apoio aos direitos do autor.

Até relativamente pouco tempo atrás, as grandes obras entravam no domínio publico para o benefício de todos os demais. Qualquer um pode tirar uma partitura da Quinta Sinfonia ou reutilizar o cavalheiro Dom Quixote. Tanto Beethoven como Cervantes são autores livres para a reprodução, distribuição e remixagem. Isto porque não lhes ocorreu nascer alguns séculos depois.

As leis que protegem os direitos autorais nos Estados Unidos passaram por numerosas ampliações nos últimos tempos. A princípio eram 28 anos, depois o prazo se ampliou para 56, depois foi a cinquenta anos depois da morte do autor, e finalmente, os grandes sucessos de Hollywood se estenderam até os 75 anos pós mortum. Para entender o que o Mickey Mouse tem a ver com tudo isso, tem que se relembrar de outubro de 1998, quando o presidente Bill Clinton salvou o roedor de seu inescapável destino.

Naquele outono, o Congresso dos Estados Unidos revisou o sistema e aprovou “A Lei de Extensão do Prazo de Sonny Bono”, popularmente conhecida como a lei de proteção ao Mickey Mouse, porque a Disney pagou US$ 6,3 milhões em forma de doações para a campanha de Clinton. Se não fosse por isso, Mickey teria entrado no domínio público em 2003.

O reino da hipocrisia

O impacto da extensão do copyright é imenso. Não só mantém os ícones da cultura popular congelados, mas também impede a reedição e recuperação de obras mais desconhecidas, que são esquecidas em um espiral de proteção ao intelecto do autor. Também perdem sua capacidade de serem divulgadas. De fato, uma ironia que ilustra a importância de que obras passem ao domínio publico é assistir aos filmes da Disney.

Que Disney enfrentou de peito a possibilidade de perder seu ratinho mais precioso não é em si uma maldade. Porém, o próprio Mickey é uma adaptação. Sua semente germinante é o curta Steamboat Bill, que é uma paródia de um filme mudo chamado Steamboat Bill Jr, e por qual Disney não pagou nem um centavo. Justamente quanto o querido Billie e seu barco estavam prontos pra zarpar à liberdade, Clinton lhes fechou o cerco. Por isso, o fundador da Creative Commons, Lawrence Lessig, diz em seu livro Cultura Libre que a lei de copyright sofre uma extensão toda vez que Mickey Mouse vai entrar em domínio público.

Cena de "Steamboat Bill Jr", filme que teria inspirado a criação de Mickey. (Foto: reprodução)

Cena de “Steamboat Bill Jr”, filme que teria inspirado a criação de Mickey. (Foto: reprodução)

Lessig diz também que Disney não queria que alguém fizesse com Mickey o que ele tinha feito com o legado de outros autores: com Branca de Neve, Cinderela, A Bela Adormecida, Pinóquio, Alice no País nas Maravilhas ou a Pequena Seria, por quais Disney não teve que pagar nada aos herdeiros legítimos de Eisner, Grimm e Carroll. A melhor maldade é que sabem esquivar as maldades que já cometeram.

Quando a Disney mostra as garras

"A Branca de Neve", mais uma história que não é de Disney. (Foto: reprodução)

“A Branca de Neve”, mais uma história que não é de Disney. (Foto: reprodução)

Nem toda estratégia da Disney tem sido defender seus copyrights; também já jogou sujo. Já perseguiu até os estabelecimentos mais humildes e já se aproveitou da propriedade intelectual japonesa. Aqui reunimos alguns de seus trâmites mais conhecidos.

Uma de suas cruzadas mais famosas foi precisamente contra um jardim de infância na Flórida. Chegou aos ouvidos da multinacional que haviam divulgado em suas paredes alguns dos personagens mais emblemáticos. Felizmente, o assunto nunca chegou aos tribunais porque a escolinha retirou os murais voluntariamente. Imagine dezenas de crianças na rua, porque sua escola não pode pagar uma multa à sua adorada Disney.

Durante a transmissão do Oscar em 1989, foi feito ao vivo um musical da Branca de Neve. A atriz principal usava uma tiara e um vestido parecidos com os do primeiro filme de Disney, que gerou uma reclamação das grandes. A empresa denunciou a Academy of Motion Pictures and Science. E ganhou.

Não respeitam nem as lendas, por mais velhas que sejam. Em seu filme de 1952 A Dama e o Vagabundo, a produtora contou com a voz da cantora Peggy Lee, que acertou um contrato com a quantidade habitual de royalties pelas vendas ao público (entradas e projeções). O problema chegou três décadas depois, quando começaram a vender o filme em VHS e não a pagaram nada, com a desculpa que a tecnologia de vídeo caseiro não existia quando assinaram o contrato original. Por sorte, os tribunais decidiram em favor de Peggy Lee, que na época tinha 70 anos.

"O Rei Leão" teria sido baseado em uma história japonesa, e Disney não pagou nada por isso. (Foto: reprodução)

“O Rei Leão” teria sido baseado em uma história japonesa, e Disney não pagou nada por isso. (Foto: reprodução)

Por último, o popular caso da historia do Rei Leão “original”, que na realidade não é deles. Existe um anime japonês sobre um leão albino chamado Kimba que parece perigosamente ser a ideia no qual o filme da Disney se baseou. A história e os personagens são casualmente – muito – parecidos. Mufasa, Scar, Zazú, a pequena Nala, as hienas malvadas… Julguem vocês mesmos. Sem contar que animaliza uma das obras mais famosas de Shakespear, Hamlet, que, sim, está no domínio público.

 

 

Alguma Solução?

A Disney nunca perde, mas não porque tenha razão. Histórias como a de Steamboat Willie e O Rei Leão só interessam aos estudiosos, e a ninguém mais. A única maneira de enfrentar o gigante das ilusões seria assumir os bilhões de dólares que apaziguariam os processos judiciais. A bagagem multimilionária da Disney a permite fazer isso, disto não há dúvida. E quem mais?

Duzentos  anos se passaram desde que Thomas Jefferson falou do bem comum em uma carta de 1813, mas se alguém pode desafiar a palavra dos presidentes, essa é a Disney.

Além disso, mesmo sem as extensões do copyright, seria impossível usar a figura de Mickey sem permissão. A razão é que o próprio ratinho é uma marca registrada e, diferentemente de direitos autorais, que tem prazos de vencimento, as marcas das companhias são válidas até que a empresa decida não as usar mais. Em outras palavras, enquanto a Disney mantenha Mickey em suas planilhas, ele é intocável.

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