Guerra contra as drogas: os EUA querem realmente vencê-la?

Guerra contra as drogas: os EUA querem realmente vencê-la?

Do cultivo de ópio no Afeganistão à sangrenta fronteira EUA-México; passando pelas plantações de coca da Colômbia e pelos luxuosos bancos internacionais na Europa – existe algum interesse em acabar com um dos negócios mais bem sucedidos da História do capitalismo?

Por Vinicius Gomes

Se você olhar para a guerra às drogas do ponto de vista puramente econômico, o papel do governo é de proteger o cartel das drogas” – Milton Friedman, Nobel de Economia

Faz quase um mês que as forças de segurança do México, contando com apoio dos EUA, chegaram à cidade costeira de Mazatlán, entraram em um quarto de resort com vista para o Pacífico e prenderam, sem disparar um único tiro, o líder do Sinaloa, o mais poderoso e sofisticado cartel de drogas no mundo. O mexicano Joaquín “El Chapo” Guzmán era considerado o maior traficante da história recente – apesar de seus 1,68m.

A notícia foi tida como uma enorme vitória para o time dos “bonzinhos” na guerra contra as drogas. O presidente mexicano Enrique Peña Nieto não perdeu tempo e correu para o Twitter a fim de ser o primeiro a contar a novidade ao mundo. De fato, a captura de El Chapo é bem simbólica e até importante do ponto de vista propagandista, afinal, ele era o homem mais procurado do mundo e nomeado o inimigo público n°1 da cidade de Chicago. Os dois últimos homens a carregarem tais títulos foram Osama Bin Laden e Al Capone, respectivamente.

Mas a pergunta que geralmente não é feita feita quando se é noticiada a prisão de um barão das drogas é se isso realmente atingirá o narcotráfico no mundo. A resposta é fácil: não.

Por muito tempo a política de guerra contra as drogas dos EUA teve como norte o combate à produção dos narcóticos em outros países como Colômbia e México, assumindo que o problema derivava da oferta – nunca de sua gigantesca demanda doméstica. Em 1986, o Departamento de Defesa dos EUA – o famoso Pentágono – financiou um estudo no qual se constatou que o uso de forças armadas para cortar o fluxo de drogas entrando no país tinha pouco ou quase nenhum efeito no tráfico. De fato, foi apontado que as chances eram de que ocorresse uma proliferação dos cartéis de drogas e dos crimes associados ao comércio de entorpecentes – desde corrupção e lavagem de dinheiro às milhares de mortes ao redor do mundo.

Seria natural então dizer que só simples fato de que, 40 anos e 1 trilhão de dólares depois não exista nenhum indício de queda na oferta e muito menos na demanda, a guerra contra as drogas fracassou. Principalmente com os debates acerca da legalização de algumas delas – a maconha principalmente – ganhando cada vez mais força ao redor do mundo atualmente. A partir disso, chega-se a outra pergunta: se décadas atrás o maior órgão militar dos EUA já havia concluído que tal guerra não podia ser vencida – pior, só faria crescer o crime -, por que ela continuou sendo travada?

Para Thiago Rodrigues, pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP) e autor de Narcotráfico: uma guerra na guerra; existe uma ambiguidade na situação:.“A ‘guerra às drogas’ é um ‘fracasso exitoso’. ‘Fracasso’ porque não se aproximou, nos seus 40 anos de combate aberto, e nos 90 anos de proibicionismo, da meta de eliminar hábitos e mercados relacionados a algumas drogas psicoativas. Ao contrário, aquilo que no início do século XX não era um problema de saúde pública ou de segurança pública, hoje é uma séria questão nesses campos e, também, no plano da segurança internacional”, explica. “Todavia, é um ‘êxito’ para muitos setores e interesses; há a movimentação de muitos bilhões de dólares que transitam entre a economia legal e ilegal, sempre interligadas, favorecendo negócios legais, bancos, indústria de armamentos, indústria de insumos químicos etc.”, completa.

Existem, entretanto, aqueles que enxergam na morte de milhares de pessoas por conta da violência, um sinal de sucesso, por exemplo. Em um negócio que só em 2013 movimentou 320 bilhões de dólares (756 bilhões de reais), existiria realmente um interesse em acabar com essa guerra às drogas, por parte de seu maior combatente e, ao mesmo tempo, maior consumidor?

Duas notícias são bem sugestivas para uma possível resposta: em maio de 2001, alguns meses antes da invasão dos EUA no Afeganistão, o New York Times reportou que o Talibã havia banido com sucesso o cultivo de papoula para produção do ópio; já em fevereiro de 2014, após 13 anos com os EUA controlando o país, a notícia vinda das terras afegãs é que nunca se produziu tanto ópio como agora, com o cenário ganhando o nada lisonjeiro apelido de “Crescente Dourado“.

EUA e o tráfico de drogas: um antigo casamento de conveniência

O jornalista Gary Webb fez um relato impressionante da ligação da CIA com o tráfico nos anos 1980 - desacreditadoe difamado por todos, cometeu suicídio 8 anos depois

O jornalista Gary Webb fez um relato impressionante da ligação da CIA com o tráfico nos anos 1980 – desacreditado e difamado por todos, cometeu suicídio 8 anos depois

Quando em agosto de 1996, o jornalista investigativo Gary Webb iniciou em um pequeno jornal da pacata cidade de San Jose, na Califórnia, uma série de matérias a respeito da “explosão” de crack nas ruas da Costa Oeste norte-americana – ele acabou por expor o governo dos EUA a um de seus maiores escândalos.

Seus artigos revelaram o envolvimento da CIA com o tráfico de drogas durante a década de 1980, naquela que Webb descreveu como “uma das mais bizarras alianças na História moderna”, feita entre um dos exércitos dos Contras, financiado pelos EUA para derrubar o governo socialista revolucionário da Nicarágua (daí seu nome, de “contra-revolucionários”), e os criminosos “gangstas” dos bairros pobres e perigosos de Compton e South Central, em Los Angeles – utilizando-se das drogas vindas dos cartéis colombianos de Cali e Medellín.

Basicamente, o triângulo nefasto funcionava com as drogas provenientes da Colômbia sendo vendidas por gangues nas ruas de Los Angeles, enviando-se, em seguida, o lucro das vendas aos contra-revolucionários na Nicarágua. O tráfico de drogas que inundou as cidades dos EUA na década de 1980 foi possibilitado pela própria CIA.

Entretanto, essa não seria a primeira nem a última vez que a agência estadunidense abria as portas de seu próprio país para o mundo do narcotráfico. Na realidade, até mesmo antes de vir a existir, ela já se envolvia com aqueles a quem os EUA viriam, supostamente, combater no futuro. A história começou durante a Segunda Guerra Mundial, quando o governo norte-americano pediu ajuda aos maiores traficantes da época: a Máfia siciliana.

A precursora da CIA – o Escritório de Serviços Estratégicos (OSS, sigla em inglês) – e o Escritório Naval de Inteligência iniciaram esse casamento de conveniência com os sicilianos por duas razões: domesticamente, os italianos protegeriam as docas e portos – já dominados por eles – da costa leste norte-americana de sabotadores nazistas; enquanto no exterior, eles ajudariam no desembarque aliado na ilha de Sicília – onde seus habitantes eram inimigos históricos de Benito Mussolini – para a futura invasão do restante da Itália.

Nos anos pós-guerra, o governo norte-americano iniciou uma verdadeira batalha contra o comunismo soviético para conquistar corações e mentes ao redor do mundo e mostrar os benefícios da democracia, liberdade e justiça. Eles fizeram isso derrubando governos, assassinando oponentes, fazendo aliança com os antigos inimigos nazistas e continuando sua próspera colaboração com os criminosos italianos.

O maior nome entre os mafiosos a quem Washington solicitou ajuda era Lucky Luciano, preso na época de sua colaboração com o governo – que por sua vez, em sinal de reconhecimento por seus esforços na guerra, lhe garantiu a soltura e a deportação para a Itália. De volta à sua terra natal, Luciano então estabeleceu o primeiro mais bem sucedido “cartel” das drogas, criando uma rede de tráfico que começava entre as cidades costeiras do Mar Mediterrâneo e terminava nas ruas norte-americanas.

A investigação sobre a heroína da "Conexão França" nas ruas de Nova York viraram filme vencedor de 5 Oscars em 1972 - um ano depois em que Richard Nixon declarou guerra às drogas

A investigação sobre a heroína da “Conexão França” nas ruas de Nova York viraram filme vencedor de 5 Oscars em 1972 – um ano depois em que Richard Nixon declarou guerra às drogas

A rede começava com o contrabando de morfinas na Turquia para o Líbano, que em seguida eram enviadas para o porto francês em Marselha e lá, o sindicato criminoso corso – versão francesa da máfia siciliana, originários da ilha mediterrânea de Córsega – gerenciava os laboratórios que transformava a morfina turca em heroína – seguindo então para os EUA.

Tudo isso foi feito com o conhecimento da CIA, que ao mesmo tempo em que via os mafiosos sicilianos e os gangsteres corsos como valorosos aliados na luta anticomunista na Europa; fechava os olhos para o fato de que grande parte da heroína produzida no mundo tinha como destino as ruas norte-americanas – assim como as drogas colombianas também seriam algumas décadas depois. Essa operação ficou conhecida como a infame “Conexão França”.

Se na Europa, tal luta anticomunista servia de desculpa para se aliar a criminosos e assassinos – a mesma lógica deveria servir no restante do mundo, da Ásia até a América Latina. Por volta da década de 1950, os EUA começaram a lutar contra o comunismo na China e para isso apoiaram um homem chamado Chiang Kai-shek, líder do Kuomintang (KMT) durante a guerra civil chinesa e em sua subsequente Revolução Chinesa, liderada por Mao Zedong – que venceu Kai-shek. Desnecessário dizer que o insurgente escolhido pelos EUA já era um notório traficante de drogas (ópio) no país.

A CIA não perdeu muito tempo e reagrupou o exército derrotado do KMT, os enviando para o sul da China, próximo à fronteira com a antiga Birmânia, hoje Myanmar. O objetivo principal dessa manobra era atrair as tropas chinesas para o sul, longe das batalhas que aconteciam ao norte, na Guerra da Coreia.

A CIA sempre agiu em conluio com notórios produtores e traficantes de drogas

A CIA sempre agiu em conluio com notórios produtores e traficantes de drogas

No entanto, não demorou muito para os norte-americanos perceberem que tinham muito mais a ganhar naquela região e logo, o exército anticomunista chinês atravessou a fronteira birmanesa, dominou as regiões ricas em ópio e passou a cobrar um imposto para todos os camponeses tribais, independentemente se cultivassem ópio ou não. Enquanto isso, a CIA não apenas permitiu que isso acontecesse, como também forneceu aviões militares não identificáveis para transportar as drogas das montanhas da Birmânia. A produção e comércio de drogas naquela remota região do Sudeste Asiático onde a Birmânia, o Laos e a Tailândia convergiam, veio a ficar conhecido como o “Triângulo Dourado”.

O comércio de ópio nessa região do mundo sempre foi muito disputado pelas potências mundiais, antes dos norte-americanos chegarem, quem operava ali eram os franceses – utilizando os mafiosos da Córsega também. Quando os franceses se retiraram, a região ficou “sob nova direção”, dessa vez com os EUA no comando. A heroína produzida no Triângulo de Ouro era transportada em aviões da “Air America”, empresa aérea de fachada da CIA.

Em 1971, a Casa Branca admitiu publicamente que pelo menos 34% de todos os soldados norte-americanos no Vietnã eram viciados em heroína – e que haviam mais viciados norte-americanos no Vietnã do que em todo os EUA – e, secretamente, que a maioria dos laboratórios de heroína na região eram operadas pelos aliados da CIA nos três país do Triângulo.

Enquanto a CIA transportava ópio e heroína do Sudeste Asiático, o tráfico e consumo de drogas nos Estados Unidos se convertia em tragédia nacional. Como escreveu, o especialista no assunto e autor de Politics of Heroin in Southeast Asia, Alfred McCoy, “uma vez que não havia consumidores nativos da região, os chefões das drogas asiáticos começaram a enviar sua heroína não-consumida por soldados, para os EUA”.

O 4 principais pontos de produção de drogas no mundo - da Ásia à América Latina

O 4 principais pontos de produção de drogas no mundo – da Ásia à América Latina

Foi aí então que a administração Nixon declarou sua guerra às drogas.

“A guerra às drogas é uma ilusão”

A declaração acima é de Hugo Almada Mireles, professor da Universidade Autônoma de Juarez, no México. “É apenas uma razão para intervir na América Latina”, completa ele.

Foi na década de 1980 que os EUA começaram a olhar um pouco mais para baixo, para o seu “velho quintal latino-americano”. Pelas lições aprendidas na Ásia – ao se aliar e a controlar operações de tráfico – os EUA passaram a praticar o mesmo modus operandi na América Latina.

Manuel Noriega era um informante da CIA que depois foi "promovido" a presidente do Panamá; quando passou a não ter mais utilidade, os EUA invadiram o país para prendê-lo - matando mais de 3 mil pessoas no processo

Manuel Noriega era um informante da CIA que depois foi “promovido” a presidente do Panamá; quando passou a não ter mais utilidade, os EUA invadiram o país para prendê-lo – matando mais de 3 mil pessoas no processo

O único inconveniente dessa vez foi um presidente ter ido a público e declarar guerra às drogas – fazendo com que, teoricamente, as alianças fossem mais  discretas – o que não foi o caso, pois o governo dos EUA conseguiu formar alianças ainda mais bizarras do que aquela que Gary Webb viria a revelar apenas em 1996.

Os casos mais notáveis são os de Manuel Noriega, um traficante vinculado ao cartel de Medellín e peão da CIA que passou também a trabalhar por alguns anos como presidente do Panamá; e o ocorrido na Bolívia, onde a CIA pediu ajuda ao nazista foragido Klaus Barbie – também conhecido como o “Carniceiro de Lyon” – para recrutar mercenários a fim de derrubar o governo boliviano e assim colocar um cartel de drogas de fato no poder constitucional de um país, naquele que ficou conhecida como o “Golpe da Cocaína”.

É por isso que a hipocrisia no discurso norte-americano chega a ser escandalosa: são praticamente 70 anos financiando e se aliando à produtores, barões e cartéis das drogas; nem mesmo dois dos maiores projetos dos EUA de combate às drogas escapam das críticas: o Plano Colômbia e a Iniciativa Mérida (no México).

Depois de formar alianças com mafiosos, traficantes, genocidas e nazistas em redes inacreditáveis de tráfico – começando nas ilhas “mafiosas” da Sicília e Córsega, indo para as montanhas do Sudeste Asiático, partindo para os campos de papoula do Afeganistão até às florestas tropicais da América Latina; não é total surpresa alegar que a guerra contra as drogas parece ser mais sobre controle e não erradicação. Isso sem contar a participação essencial dos respeitáveis bancos internacionais.

A “lavanderia” internacional

Uma das mais representativas ilustrações de como o lucro obtido na venda de drogas tem de passar por um processo de “limpeza” para se tornar legal pode ser vista no seriado Breaking Bad, onde a “lavagem” do dinheiro proveniente da venda de metanfetamina acontecia através de um… lava-rápido.

A dependência é mútua entre cartéis de drogas e bancos internacionais

A dependência é mútua entre cartéis de drogas e bancos internacionais

Mas quando se fala em centenas de bilhões de dólares ilegais – como é o caso dos cartéis – o cenário muda um pouco e é necessário um lugar que realmente movimente esse montantes, para não levantar suspeita. É aí que entram os bancos internacionais.

Existe uma grande teia que atua nas sombras dentro do incrivelmente complexo sistema financeiro mundial; nesta área de finanças ocultas é onde se “lava” (legaliza) o dinheiro de grandes redes do crime organizado e quase todas as instituições bancárias importantes têm relações com a rede financeira das sombras.

Através dos bancos e, inevitavelmente, contas bancárias em paraísos fiscais, oferece-se aos clientes premium – o que cartéis das drogas definitivamente o são – a capacidade de ocultar dinheiro obtido ilegalmente e, de reintroduzi-lo no país na forma de crédito proveniente de alguma instituição respeitável. Diversos bancos internacionais foram pegos recentemente lavando dinheiro das drogas dos cartéis mexicanos e sul-americanos: CitigroupJP Morgan Chase & Co., Wachovia (incorporado à Wells Fargo in 2009), HSBC Holdings, ING Bank, Standard CharteredAmerican Express Bank International, são alguns dos principais.

Todos foram acusados de não cumprirem as leis anti-lavagem de dinheiro dos EUA – o que significa que todos possibilitaram que bilhões de dólares de transações suspeitas fossem movimentados pelo sistema bancário sem o monitoramento adequado. Mesmo assim, nenhum banco, nem seus maiores executivos foram criminalizados. Por suas transgressões, as instituições tiveram como penalidades se comprometerem a seguir a lei – que supostamente já deveria estar sendo seguida – e pagar uma multa. Em contrapartida por esse pagamento, todas as acusações seriam retiradas.

Ou seja, a situação para os bancos é extremamente confortável, uma vez que eles permitem que dinheiro sujo seja movimentado por seu sistema – cobrando uma taxa exorbitante dos criminosos – e, caso forem pegos, alegam não saberem de nada, pagam uma multa por essa “incompetência” e a vida segue.

“Todo crime financeiro possui um componente de lavagem de dinheiro”, diz Charles Intriago, presidente da Associação de Especialistas Certificados em Crimes Financeiros.  “Se você for um indivíduo e for pego, você está perdido. Mas se você for um grande banco e te pegarem movimentando dinheiro para terroristas ou chefões das drogas, você não precisa se preocupar. Basta pagar a multa e depois aumentar a taxa [para os criminosos] como forme a compensar [o risco]”, completa ele.

Um dos casos mais notórios foi o do HSBC, o maior banco na Europa, que em 2012 anunciou concordar em pagar cerca de 1,8 bilhão de dólares como penalidade por ter lavado bilhões para os cartéis mexicanos.  Considerando que o banco possui 89 milhões de clientes, 300 mil funcionários, lucros de aproximadamente 22 bilhões (no ano anterior à multa) e um valor estimado em 2,5 trilhões de dólares – a penalidade de 1,8 bilhões parece um mero incômodo temporário. Durante esse período em que o banco movimentou dinheiro do tráfico, 47 mil pessoas morreram nas mãos de traficantes mexicanos.

Essa dependência, no entanto, é uma via de duas mãos. Alguns anos atrás, o diretor-executivo do Escritório de Crimes e Drogas da ONU, Antonio Maria Costa, disse que durante a crise financeira de 2008, o dinheiro das drogas foi a única coisa que salvou os maiores bancos de não quebrarem e mantiveram o sistema financeiro vivo. “Em muitos casos, o dinheiro das drogas é o único capital líquido em investimentos. Na segunda metade de 2008, a liquidez era o maior problema para o sistema bancário mundial”, argumenta Costa, que completa: “Assim sendo, empréstimos interbancários foram financiados por dinheiro originado no tráfico de drogas e outras atividades criminais”.

Tal cenário não é tão difícil de imaginar. Se centenas de bilhões de dólares entram sempre nos grandes centros financeiros do mundo – Londres, Hong Kong, Zurique, Nova York, Dubai – não seria de interesse de nenhum grande poder – corporativo ou governamental – interromper esse fluxo bilionário. Afinal, lucro é lucro. “Se você pensar no status criminalizado das drogas, ele é criminalizado dentro das sociedades, mas no que tange os setores econômicos e financeiros – os quais deveriam ser criminalizados também – eles não o são”, argumenta Oliver Villar, especialista em tráfico internacional e PhD em Política Econômica Contemporânea na Colômbia, pela Universidade de West Sidney, na Austrália.

A contradição e os paradoxos são gritantes: os governos alegam lutar contra o narcotráfico, mas uma vez que lucram com a existência dele – através de seus bancos “lavanderias” – cria-se um sistema que financia os mecanismos para que a guerra nunca acabe. “É claro que eles preferem ter essa contradição e paradoxo, pois é isso que de fato permite que os lucros das drogas entrem. Se o governo quisesse levar a sério esse problema e realmente fazer algo contra os bancos “lavanderias”, aí sim veríamos um real esforço no combate as drogas, mas isso não irá acontecer tão cedo”, sentencia Villar.

Afinal, foi um fracasso?

O Uruguai já regulamentou a produção da maconha, fazendo com que o crime nas ruas do país caísse; quase metade dos estados norte-americanos já permite o uso da maconha para fins medicinais e recreativos e, nessa semana, o deputado Jean Wyllys protocolou o projeto para a regulamentação da maconha no Brasil. São apenas alguns exemplos que apontam o caminho para o qual o mundo provavelmente seguirá na “guerra às drogas”, mas a pergunta persiste: a guerra realmente fracassou?

“Bem, os EUA gastaram cerca de 1 trilhão de dólares ao redor do globo. Podemos dizer simplesmente que eles falharam? Eles falharam com os bancos que lavavam dinheiro das drogas? Não. Eles falharam com os centros financeiros ocidentais? Não. Eles falharam com a narco-burguesia na Colômbia ou no Afeganistão? Não. São bem sucedidos em manter essa economia política? Absolutamente”, diz Villar.

Tal análise faz eco à fala de Rodrigue.: “O que alimenta o tráfico de drogas não é o consumo – esse sempre existiu e sempre existirá em alguma medida – mas a proibição e ilegalidade, que gera uma economia ilícita de grandes proporções. O combate militarizado não o elimina, mas faz movimentar muitos interesses econômicos, políticos e geopolíticos que fazem da “guerra às drogas” um “fracasso exitoso”.

Talvez a única conclusão a se tirar é que a guerra contra as drogas não difere em nada de qualquer outra que o mundo testemunhou: alguém sempre sai lucrando – e os únicos que realmente perderam, foram os que morreram.

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1 comment

  1. Priante

    Toda a teoria parece ser verdadeira!
    Mas achar que o consumo não influência esse mercado negro é ingenuidade!
    A base do comércio é a demanda!
    A proibição não resolve mas achar que o estímulo a livre demanda é a solução vai levar ao caos na saúde pública…
    Por que não liberar o álcool para menores e a bebida ao dirigir? Todos somos responsáveis….
    Não vai acabar o tráfico porque como é dito na matéria o lucro é excelente…

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