Cripto-moedas: O fim de uma revolução?

Cripto-moedas: O fim de uma revolução?

A audaciosa lógica por trás da Bitcoin contravém muitos dos fundamentos dos sistemas monetários controlados por bancos centrais, e suas moedas fiduciárias, mas o futuro das cripto-moedas parece tão incerto quanto suas cotações diárias, e imerso em mistérios e controvérsias que abrangem desde hackers gananciosos até governos com medo de uma revolução no mundo das finanças

Por Ítalo Piva

Uma proposta verdadeiramente revolucionária, querendo dizer, daquelas que de fato podem mudar ao mesmo tempo âmbitos sociais, políticos e financeiros de milhões de pessoas no mundo, é difícil de encontrar, e muito mais de se implementar. Talvez muitos não coloquem cripto-moedas no patamar de ideias radicais que transformariam a sociedade, mas isto se deve ao fato de que poucos realmente entendem do que elas se tratam, como funcionam, e como poderiam mudar por completo nosso sistema financeiro.

O movimento das moedas virtuais começou oficialmente no auge da crise de 2008, quando os documentos iniciais da Bitcoin, a mãe, porém não a única das cripto-moedas, foram publicados em outubro num fórum online de criptografia. O padrinho dos esforços, até hoje desconhecido, o misterioso e obcecado por privacidade Satoshi Nakamoto (ninguém sabe se este é um nome um pseudônimo ou um grupo de pessoas), depois de concretamente estabelecer o projeto na rede, desapareceu por completo, sendo que nunca se comunicou com seus colaboradores pessoalmente, sempre por e-mails criptografados. Não foi por acaso. Satoshi já sabia que sua alternativa ao dinheiro tradicional bateria de frente com os interesses das potências do estabelecimento bancário mundial. O próprio afirmou que a Bitcoin foi inspirada nos sistemas anônimos de transações financeiras que os anarquistas Cypherpunks buscavam criar nos anos 90. Tanto eles quanto Nakamoto postulam que a criptografia é uma maneira de transferir poder das grandes instituições governamentais e privadas para os indivíduos.

A audaciosa lógica por trás da Bitcoin contravém muitos dos fundamentos dos sistemas monetários controlados por bancos centrais, e suas moedas fiduciárias. Diferentemente das tradicionais que existem fisicamente, as cripto-moedas são virtuais, apenas séries de códigos transmitidos em sigilo pela internet, sem o intermédio de instituições financeiras, e sem serem sujeitas às variações inflacionárias geradas pelas decisões de bancos centrais. Um dos programadores que trabalhou com o fundador do movimento desde o início – depois se tornando cientista-em-chefe na Fundação Bitcoin em 2010 (tomando as rédeas de Nakamoto) – Gavin Andresen, declarou em entrevista à revista Forbes que a “Bitcoin foi feita para nos trazer de volta a uma moeda descentralizada do povo… É como um ouro melhor do que ouro”.

Como funcionam? O modelo Bitcoin

Moedas como o dólar e o real são chamadas fiduciárias pois derivam seu valor do fato de que governos as declaram como formas válidas de pagamento, e da fé que os usuários do sistema têm em sua integridade e continuidade. Por exemplo, se todos de uma só vez parassem de usar o dólar, já que não é vinculado (como antigamente) à nenhuma comodidade física como ouro ou prata, ele não seria nada mais do que pedaços de papel e de sucata metálica.

Cripto-moedas, por sua vez, são uma forma de dinheiro digital que utiliza os princípios da criptografia para implementar uma economia distribuível, descentralizada e segura, onde se pode “garimpar” e trocar unidades monetárias como forma de pagamento. A maior diferença entre moedas fiduciárias tradicionais e as digitais é que nenhum único grupo pode significativamente influenciar a quantidade disponível (e logo a inflação), já que apenas uma quantia predeterminada e publicamente conhecida da moeda pode ser produzida coletivamente, com um limite final de produção também pré-estipulado, no caso das Bitcoins, 21 milhões delas, nível que se calcula será atingido em 2140.

O conceito do coletivo é muito importante no mundo do cripto-dinheiro. Não só todos os usuários sabem que a disponibilidade é finita, mas também a quantia exata em circulação, sendo capazes de monitorar qualquer transação feita através de seus códigos. Isso faz com que entidades com interesses diferentes (como lojas competidoras) possam “ficar de olho” uma na outra, assegurando de maneira natural a integridade do sistema.  A imensa complexidade criptográfica usada na formulação das Bitcoins faz com que ela seja praticamente imune a falsificação, e garante que as transações permaneçam anônimas. Seu valor é derivado puramente pela oferta e demanda, ou seja, o quanto as pessoas estão dispostas a pagar por cada unidade.

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O processo de “garimpar” Bitcoins se refere a uma das maneiras como a cripto-moeda circula no mercado, e é algo que qualquer indivíduo pode fazer. Na prática, o “garimpo” funciona muito como uma loteria, onde pessoas usam seus computadores como ajudantes do sistema, fazendo cálculos gigantescos para a manutenção da rede, na esperança que em algum momento ganhem gratuitamente unidades do dinheiro. A outra maneira é comprar a moeda através de uma das diversas bolsas de valores digitais dedicadas à venda, compra e troca de moedas virtuais. Uma vez em posse de Bitcoins, um usuário pode as usar normalmente como dinheiro para a compra de bens e serviços em inúmeros sites ou lojas físicas que aceitam este tipo de pagamento. Hoje em dia, negócios de todos os tipos aceitam Bitcoins e outras cripto-moedas, e até o bilionário britânico Richard Branson afirmou no canal financeiro CNBC no ano passado que “a Virgin Galactic é uma companhia de olho no futuro, a Bitcoin também”, quando anunciou que a companhia de turismo espacial passaria a aceitar a moeda.

Foto: Aceitamos Bitcoin

Hoje em dia, negócios de todos os tipos aceitam Bitcoins e outras cripto-moedas (Foto: Aceitamos Bitcoin)

Instabilidade e controvérsia

A natureza anônima e sigilosa das cripto-moedas a tornou uma plataforma perfeita para transações no mercado negro da internet, com sites como SilkRoad, onde se pode comprar e vender de tudo, desde drogas até armamentos, aceitando moedas como a Bitcoin para esquivar leis internacionais proibindo esse tipo de atividade financeira. Se não bastasse isso, a compra para a revenda de cripto-moedas virou uma maneira predileta de lavagem de dinheiro por parte do crime organizado. Isso chamou a atenção de muitos governos, inclusive do americano, que recentemente decretou que moedas virtuais serão tratadas como propriedade e não dinheiro, agora sendo sujeitas a impostos e investigações pela receita federal. Na China por exemplo, a compra e venda de cripto-moedas não é ilegal, porém seu uso no comércio de bens e serviços é banido, enquanto na Rússia qualquer uso de dinheiro virtual é considerado “suspeito” e não é permitido.

As controvérsias não param por aí. A Mt. Gox, uma das maiores bolsas de troca de Bitcoins no mundo, oficialmente faliu na semana passada, após o desaparecimento de 460 milhões de dólares em Bitcoin (supostamente roubadas por hackers), e denúncias de fraude contra seu presidente, o americano Mark Karpeles. Dúvidas sobre a segurança das redes onde cripto-moedas são usadas e armazenadas persistem, e o fato que os saldos de usuários não têm seguro contra a solvência ou roubo, como em bancos tradicionais, mantém muitas pessoas longe do mundo do dinheiro criptografado.

A instabilidade dos preços das cripto-moedas também é um fator que influencia muito a realidade do jovem movimento. O valor da Bitcoin por exemplo, chegou a variar mais de 100 dólares na semana passada, com uma alta de 560$, e baixa de 444$. Muitos atribuem a essa incerteza constante do mercado de dinheiro virtual, a morte por aparente suicídio de uma das figuras mais proeminentes do ramo, a presidente da First Meta (outra bolsa de câmbio de Bitcoins), a americana de 28 anos Autumn Radke. A morte de Radke foi a segunda de figuras de alto escalão do universo das cripto-moedas em menos de um mês. Em fevereiro, o programador russo por trás das moedas alternativas Huntercoin e Namecoin, Mikhail Sindeyev faleceu em circunstâncias misteriosas, levantando suspeitas de atividades nefárias ligadas às controvérsias que estão rodeando em torno do mercado.

Futuro

A audácia do conceito criado por Satoshi Nakamoto, de que uma moeda poderia existir e circular fora da esfera de influência dos bancos centrais e dos tentáculos manipuladores das grandes corporações, não é apenas seu maior mérito, mas também seu maior problema. Imagine se a popularidade de cripto-moedas chegasse a tal ponto que elas virassem a norma, excluindo moedas tradicionais como o dólar e o euro do mercado financeiro, potencialmente causando o colapso de tais moedas e dos lucros de multinacionais? É um cenário pouco provável, principalmente porque os poderes do estabelecimento monetário mundial estão pouco interessados na democratização do acesso e controle do dinheiro, como sonhou Gavin Andresen.

O futuro das cripto-moedas parece tão incerto quanto suas cotações diárias, e imerso em mistérios e controvérsias que abrangem desde hackers gananciosos até governos com medo de uma revolução no mundo das finanças, que eles tão cuidadosamente gerenciam para fins nem sempre altruísticos. O fato é que nos últimos anos a popularidade das moedas virtuais cresceu exponencialmente, contabilizando bilhões de dólares em transações, e finalmente chamando a atenção de governos, que estão se mobilizando rapidamente para regulamentar ou até completamente acabar com um mercado fora de seu domínio. Se a circulação de cripto-moedas continuar a aumentar e ser aceita na sociedade, elas com certeza entrarão ainda mais em conflito com a ira dos grandes negócios globais e das instituições governamentais que direta e indiretamente os sustentam.

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