A reação machista e a batalha dos corpos

A reação machista e a batalha dos corpos

Para especialistas, reações à campanha #NãoMereçoSerEstuprada mostram que a sociedade constrói sujeitos machistas e ainda vive sob a égide do patriarcado

Por Marcelo Hailer

“Ninguém nasce mulher, torna-se”, é a célebre frase da obra “O Segundo Sexo”, de autoria da filósofa existencialista Simone de Beauvoir, publicada em 1947. No mesmo trecho onde se encontra a famosa frase, Beauvoir continua e afirma que nenhuma mulher pode ter o seu destino reduzido ao fator biológico e por fim ela decreta: a mulher não existe. O que nos ensinaram sobre o “ser mulher” é um conceito masculinista, ou seja, “a mulher” é um discurso feito por homens que ao longo da história sempre rebaixaram-nas. Ou seja, a mulher construída sempre a partir do prisma do homem.

Mas, o que se deve buscar entender com a sentença de Beauvoir é que, a partir do momento em que ela retira o debate do corpo e, principalmente, das genitálias, abre-se uma nova era no debate feminista e no mundo político. Pois, já não interessa apenas discutir as questões a respeito da diferença biológica entre homens e mulheres, mas discutir toda a estrutura cultural do patriarcado que oprime as mulheres, pois tais valores sociais são passados dos pais aos filhos, dos mestres aos alunos e assim sucessivamente. Interessa debater as construção social e cultural dos sujeitos.

De Simone de Beauvoir para cá muita água se passou e tantos outros pensadores aprofundaram o debate iniciado por ela e sempre com a perspectiva de superar as definições baseadas nas genitálias, talvez o eco mais radical esteja na Teoria Queer. Mas, o que chama atenção é que em pleno 2014 tenhamos de resgatar o pensamento de Beauvoir (que ainda, com as devidas proporções, segue atual). E por que retornamos à década de 1940? Ora, porque se pensávamos o discurso biológico e, mais especificamente, o da supremacia peniana, estar superado, a reação machista diante da campanha #NãoMereçoSerEstuprada nos mostrou o quão equivocados estamos e de que, sim, há uma longa caminhada para libertarmos a sociedade da estrutura patriarcal que ainda persiste.

“Eu tenho o direito de ser machista”

A jornalista Nana Queiroz [foto no alto], frente ao resultado da pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea), no qual foi levantado que 58% dos entrevistados declararam que se as mulheres se comportassem melhor haveria menos casos de estupro, lançou na última quinta-feira (28) uma campanha em seu perfil no Facebook: ela se cobria com os braços nos quais estava escrito a chamada #NãoMereçoSerEstuprada.

Rapidamente a campanha viralizou, porém, se Queiroz ganhou forte apoio no Brasil inteiro, do outro lado, ela foi ameaçada de morte e de estupro, o que fez com que a presidenta Dilma Rousseff se pronunciasse e declarasse que a lei e o governo “estão do lado de Nana Queiroz”.

Como se não bastasse toda a reação machista contra a campanha de Nana Queiroz, uma resposta foi criada sob a chamada #EuTenhoODireitoDeSerMachista e o que mais chamou a atenção é que foi uma ação majoritariamente coordenada por adolescentes, meninos e meninas, com idade entre 15 e 18.

A sociedade falhou?

E a pergunta é inevitável: por que a reação feminista diante de dados escabrosos que as tentam culpar pelo estupro ainda gera tanta reação machista?

“O machismo sempre responde fortemente a qualquer manifestação de peso que venha do movimento de mulheres – mesmo daqueles movimentos que equivocadamente não se reconhecem como feministas. Me parece que em uma sociedade como a nossa que desconhece a história do movimento de mulheres ou que, o que conhece é pela contrapropaganda, ou seja, pelo modo como os meios de comunicação, machistas e cheios de estereótipos costumam retratar as mulheres – feministas ou não – não espera que as mulheres se manifestem com tamanha força tanto no que se refere à resposta dada à pesquisa do Ipea quanto em relação ao movimento contra o assédio sexual no transporte público. Para a sociedade conservadora e machista, é um espanto que reações como essas aconteçam e, como sempre acontece, reage violentamente a elas”, analisa a socióloga e pesquisadora do Departamento de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Carla Cristina Garcia.

Carla Cristina Garcia acredita que é necessário "desgenitalizar os discursos"

Carla Cristina Garcia acredita que é necessário “desgenitalizar os discursos” (Foto: Arquivo pessoal)

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Para a filósofa Marcia Tiburi, a reação acontece porque ainda vivemos sob a “lógica da dominação masculina”. “O homem se autocompreende como quem ‘é’, sendo que as mulheres, nas visão machista, ‘não são’. Nesta lógica, que é a do que ainda podemos chamar de ‘patriarcado’, os homens se entendem como ‘sujeitos’ e as mulheres, como ‘objetos’. Pode parecer engraçado, mas para um homem machista esse tipo de campanha soa como ‘pedras estão falando’. As mulheres não têm o direito de denunciar essa lógica. Se o fazem são tratadas mal porque atrapalham o silêncio, que é uma arma importante da lógica da dominação masculina no seu processo de automanutenção”, critica Tiburi.

Tica Moreno, da Marcha Mundial das Mulheres, disse à reportagem que a “reação é forte porque o machismo na nossa sociedade é muito forte, e incomoda que os homens percam esse lugar de poder que eles têm”. Moreno também atenta para o fato de que a campanha #NãoMereçoSerEstuprada gerou outras manifestações positivas e de solidariedade. “É importante olhar para o que a campanha gerou, além da afirmação de que nenhuma mulher merece ser estuprada, que foi justamente um grande número de relatos de meninas e mulheres que foram violentadas ao longo da vida. Falar sobre essas experiências é importante para enfrentar o trauma, para que outras meninas se identifiquem e saibam que o que aconteceu com elas não foi culpa delas mas sim do homem, ou dos homens que as violentaram. Que existe um método compartilhado pelos homens, existem frases que eles repetem, então acho importante a solidariedade que muitas mulheres encontraram a partir dessa campanha”, avalia.

A questão de jovens criarem campanhas com teor machista choca, mas devemos questionar: a sociedade falhou na construção dos jovens? “Falhou na educação como um todo no que se refere aos direitos humanos: falhou ao educar para a diversidade sexual, para a diversidade étnica, para as questões de gênero em geral. Entretanto, se levarmos em consideração o fato de que a sociedade brasileira é profundamente conservadora, tendo como representante desse pensamento a classe média branca do Sudeste do país. Ela não falhou, não! Ela educou para se conservar machista, homofóbica, classista, para continuar ditando quem deve ou não ocupar o espaço público e de que maneira deve fazê-lo: sejam mulheres, pobres, gays, qualquer grupo social que não esteja enquadrado na lógica heteronormativa e branca”, disse Garcia.

Para Tica Moreno, a sociedade forma sujeitos machistas e a mídia ajuda nisso. “Quando os casos de violência são espetacularizados, quando cada mulher vítima de violência é novamente violentada, simbolicamente, na mídia ou nos comentários das notícias. Por exemplo, a Elisa Samudio, que foi assassinada daquela forma brutal: quantos jornais fizeram matérias falando sobre a vida sexual dela? Sobre com quantos homens ela tinha transado? Insinuando que só estava atrás de homem com dinheiro? Ou seja, a mensagem é justamente que alguma coisa que ela fez deve justificar a violência contra a mulher. Isso é a formação de uma sociedade machista, que julga a pessoa que foi vítima ao invés de julgar o assassino ou agressor”, analisa a ativista da Marcha Mundial das Mulheres.

Marcia Tiburi também acredita que a sociedade falhou e que “é importante que se veja a responsabilidade da formação dos jovens como sendo da sociedade, não apenas das mães, ou dos pais. Creio que há muita confusão nesse aspecto. Muitos colocam toda a “responsabilidade sobre a educação” na mão de mulheres. O que é um erro imenso”.

Para Marcia Tiburi os machistas são homens ignorantes e paranoicos (Foto: arquivo pessoal)

Para Marcia Tiburi os machistas são homens ignorantes e paranoicos
(Foto: arquivo pessoal)

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De volta para o discurso genital?

Outro fator que se pode verificar nas reações contra a campanha #NãoMereçoSerEstuprada é o discurso da genitália masculina enquanto marcador da diferença entre homens e mulheres e sendo o pênis o objeto que garante a supremacia do homem sobre a mulher, algo, como apontamos acima, que se tenta desconstruir desde o início do século XX. Será que voltamos para o início do século XX, ou mesmo para o XIX, quando as teses eugenistas insistiam nas diferenças biológicas para desqualificar mulheres e outros sujeitos fora da norma?

“Acho que tem gente que nunca saiu dessa época, ou de antes até. Esse é um assunto supercomplexo, mas cabe pensar que, ao mesmo tempo que do lado das mulheres (mesmo as que não se identificam como feministas; sejam cis ou trans), o questionamento a esse discurso biológico é muito mais presente e entendido do que entre os homens (mesmo os de esquerda, que dizem apoiar e serem solidários com a luta contra a violência e a desigualdade). O que mostra que, desde o feminismo, a gente tem conseguido questionar esse discurso biológico que vira desigualdade social e impõe para as mulheres o destino obrigatório da maternidade para serem completas”, reflete Tica Moreno a respeito do debate sobre destino biológico e construto social.

Para Marcia Tiburi, a utilização do discurso biológico desnuda a ignorância dos homens machistas. “Os machistas são muito ignorantes de um modo geral. Não têm senso histórico, nem teórico, nem ético-prático. E são também paranoicos, eles se sentem o centro do mundo e perseguidos por “feministas” que eles tomam como inimigas. Mas, sobretudo, eles são o melhor exemplo da personalidade autoritária de nossa época. Aquela que é incapaz de ver o lugar do “outro” como um igual, um sujeito de direitos”, define Tiburi.

Carla Cristina Garcia também desconfia de que ainda vivemos, no que diz respeito ao discurso social, no início do século XX. “Às vezes tenho a impressão de que, em termos de discurso social, não saímos das primeiras décadas do século XX. O discurso biológico/genital continua sendo o mais forte em todos os níveis e não apenas no que refere ao genital masculino como marcador de diferença. Basta ver as campanhas pela saúde da mulher: todas voltadas para a sua capacidade reprodutiva, todas voltadas para o câncer em seus órgãos reprodutores, todas voltadas para a sua função social mais importante: a criação dos filhos. Essas são as campanhas que mais têm visibilidade na mídia em detrimento de outros programas. Então, na minha opinião, o discurso genital continua sendo forte tanto para homens quanto para mulheres. É preciso desgenitalizar os discursos”, finaliza Garcia.

Tica Moreno afirma que a sociedade ainda vive sob o regime do patriarcado  (foto: arquivo pessoal)

Tica Moreno afirma que a sociedade ainda vive sob o regime do patriarcado
(foto: Arquivo Pessoal)

(Crédito da foto da capa: Reprodução/Facebook)

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