Pelo direito de ser homossexual e marroquino

Pelo direito de ser homossexual e marroquino

Coletivos LGBT lutam contra a homofobia em Marrocos, onde a homossexualidade é vista como algo “importado do Ocidente, que destrói os códigos morais do Magreb”

Por Omnia Nur, original em LaMarea | Tradução por Ítalo Piva

Imagine que você é um marroquino, e apenas por encostar a mão em seu parceiro em Tanger, ou na praça Jamaa el Fina, em Marrakesh, é abordado por um carro de polícia e acaba dormindo no calabouço. Por ter uma “atitude afeminada”, se é um homem, ou ao contrário, se é uma mulher, pode acabar marginalizado por seus amigos, familiares e vizinhos. Se você confirma sua homossexualidade, pode cumprir até seis anos de prisão.

Depois das revoltas árabes, que chegaram a Marrocos, surgiram coletivos como Aswat (“vozes”, em Árabe), que reivindicam os direitos e trabalham pela visibilidade dos homossexuais no país. Seus membros têm que lutar no anonimato, e se utilizam principalmente das redes sociais para evitar represálias legais, sociais e familiares.

Em 17 de maio, Dia Internacional Contra a Homofobia, foi lançada uma campanha por ativistas e simpatizantes da Aswat no Marrocos, na qual foram divulgadas fotos de pessoas com os rostos tapados, mostrando cartazes com diferentes dizeres. Foi mais do que um único dia de luta, já que até agora as imagens continuam circulando nas redes sociais.

"Sou homossexual. Tenho direito de viver com dignidade, sem medo", diz o cartaz

“Sou homossexual. Tenho direito de viver com dignidade, sem medo”, diz o cartaz

Com o slogan “O amor não é um crime”, iniciaram um protesto contra a homofobia e a perseguição de homossexuais. Circularam vídeos (como este ou este) em que aparecem conhecidos intelectuais do país.

Os ativistas LGBT contam que, nas ruas, um simples gesto de amor ou uma atitude considerada própria de homossexuais pode custar entre três meses e seis anos de prisão, ou uma multa de até 1200 Dirhams (cerca de 120 euros). Apesar da reforma constitucional iniciada há três anos – e forçada pelas primaveras árabes – pelo rei de Marrocos, Mohammed VI, o artigo 489 do código penal, que criminaliza “atos licenciosos ou contra a natureza com um indivíduo do mesmo sexo”, permaneceu intacto, permitindo que continue a discriminação contra homossexuais.

Nos vídeos, personalidades como o ativista Berber Ahmed Assed denunciam que, na cultura marroquina, “não se dá prioridade às pessoas, mas sim à tradição e à religião”. Outros, como o professor universitário Abdulah Beda, afirmam que há uma “hipocrisia social”, já que “se evita falar de algo que existe, e sempre existiu na sociedade marroquina, porém não se quer reconhecer”. Dias depois da publicação dos vídeos, a polícia deteve seis pessoas acusadas de homossexualidade e julgadas no tribunal de Fegih Bensalah.

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Neste outro, intitulado “Chamado contra a homofobia no Marrocos”, uma ativista, de cara vendada para não ser reconhecida, afirma que seu país não dá aos homossexuais o direito de amar e expressar amor da mesma maneira dada aos heterossexuais.

Até no poder, se apoia a aceitação da homofobia como uma atitude valente, heroica e característica da identidade marroquina. Os homossexuais são vistos como algo estrangeiro, “importado do Ocidente, que destroem os códigos morais do Magreb”. Assim, o coletivo LGBT se vê condenado à clandestinidade, e existem principalmente através das redes sociais, já que em qualquer momento podem ser vítimas de prisão. De novo, os marroquinos que lutam para fazerem avanços na sociedade se veem encurralados na clandestinidade.

Jovem com cartaz, onde se lê "a homofobia mata", embaixo da placa com sinal de "pare"

Jovem com cartaz, onde se lê “a homofobia mata”, embaixo da placa com sinal de “pare”

A justiça não é a única que causa problemas para os homossexuais: qualquer atitude suspeita é motivo de discriminação, exclusão e perseguição violenta (“zamel”, ou veado em português, é um grito comum em Marrocos). Muitos se calam para não serem repudiados por suas próprias famílias ou excluídos por seus amigos.

De fato, alguns grupos se dedicaram a ameaçar e agredir os homossexuais que atreveram a se manifestar no dia 17, Dia Internacional Contra a Homofobia. Protestar contra a discriminação por motivos sexuais é equivalente à uma agressão à dignidade e ao Islã. Membros do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD), a ala conservadora que encabeça o governo, reagiu duramente contra a campanha: “Essas mensagens que apoiam a homossexualidade não são prejudiciais apenas à nossa cultura muçulmana, mas também ameaçam acabar com a ordem social”, afirmou a deputada do PJD Amina el-Maa Ainein.

Apesar da criminalização generalizada no norte da África, coletivos como Aswat fortalecem pouco a pouco seus laços com diferentes movimentos LGBT da região. Continuam sua luta para visibilizar e reivindicar seus direitos. Nos últimos dias se celebrou o Mazawin, o maior festival de música do país. Durante o show do Ricky Martin, pessoas do coletivo ergueram uma bandeira gay no meio do público. São nesses espaços que as novas gerações empurram o Marrocos para um futuro onde possam ser livres.

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