Por um lugar ao sol

Por um lugar ao sol

Enquanto no futebol alemães celebram a vitória histórica de 7×1 contra o Brasil, e buscam o título da Copa do Mundo no país onde o sol brilha o ano todo, um grupo de requerentes de asilo em Berlim luta por melhores condições de vida na Alemanha – e também pelo direito de residir nesse país

Por Tainã Mansani, de Berlim

São cinco horas da tarde de uma terça-feira de verão em Berlim. O sol brilha. Na praça Oranienplatz, em Kreuzberg, um dos bairros mais badalados da capital alemã, turistas passeiam em meio a restaurantes ao ar livre e jovens hipsters descolados, com seus óculos “google” e penteados bacanas. Nessas tardes ensolaradas, diferentemente da escuridão dos dias de inverno, é comum se comprar cerveja, encontrar amigos e beber nas praças. Em tempos de futebol, tudo cai bem.

Mas ali, próximo às ensolaradas ruas do bairro berlinense de Kreuzberg, enquanto os turistas e a maioria dos jovens aguardava o jogo do Brasil contra a Alemanha pela semifinal da Copa do Mundo, a escola Gerhart-Hauptmann era palco da ocupação de um grupo de requerentes de asilo em protesto.

Há duas semanas, aproximadamente mil policiais cumpriram a ordem judicial para evacuar a escola onde há cerca de um ano o grupo reivindica melhores condições de vida à espera de exílio e do direito de permanecer na Alemanha. Segundo a associação Pro Asyl, nos primeiros anos de espera ou até que sua situação seja definida, os requerentes de asilo não têm direito ao trabalho ou à formação no país onde se encontram.

Em 2012, esse grupo de manifestantes chegou a Berlim em uma marcha de seiscentos quilômetros e vinte e oito dias, de Wurzburgo, no sul do país, até o nordeste, na capital alemã. Desde então eles estiveram acampados na praça Oranienplatz, no coração do distrito de Berlim-Kreuzberg. Também ocuparam o prédio abandonado da escola Gerhart-Hauptmann, no mesmo bairro, local onde se sucederam os episódios das últimas semanas.

Os protestos – conhecidos e divulgados nas redes sociais como #Ohlauer Strasse – contaram com a presença de cerca de seis mil manifestantes, conforme reportou a imprensa local. Houve detenção de ativistas e requerentes de asilo, muitos destes provenientes da África e Ásia. Durante os momentos de tensão, e para evitar a sua remoção forçada, três pessoas subiram no teto da escola Gerhart-Hauptmann ameaçando pular.

Os manifestantes tiveram apoio de moradores no local – ainda que o tema não tenha sido tão divulgado pela mídia alemã em todos os estados federais, como se tem reportado sobre os jogos da Copa do Mundo. Nas janelas das casas próximas à escola, residentes manifestaram apoio fixando cartazes como “o problema se chama racismo”.

Diante da trágica ameaça de suicídio, somada ao apoio local de ativistas e moradores, a prefeitura do distrito de Berlim-Kreuzberg chegou a um acordo com os manifestantes. Na última semana, cerca de quarenta e cinco deles obtiveram o direito de permanecer na escola. Um consenso longe de solucionar o problema. De acordo com Berenice Böhlo – advogada alemã especialista em direito a asilo –, a conquista é apenas aparente. Os requerentes podem ficar na escola, mas a residência no país lhes tem sido negada.

Em entrevista ao jornal alemão TAZ.de, a advogada reafirma que, por questões humanitárias, um país pode conceder o direito de residência ao se reconhecer uma situação particular. Berlim poderia, desse modo, solucionar o problema de maneira satisfatória para esse grupo, mas não o faz.

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As razões são políticas. Um dos nomes mais emblemáticos na oposição à concessão de residência aos manifestantes da escola Gerhart-Hauptmann é o senador conservador do partido CDU, Frank Henkel. Ele, que é membro do mesmo partido da chanceler Angela Merkel, e que teria deixado com a família a ex-Alemanha Oriental na condição de refugiado, se declara contra o reconhecimento dessa forma de acordo.

ugandense

Para Petras Bwansi, nada mudou desde a marcha de protesto que o trouxe do sul da Alemanha a Berlim (Foto: Tainã Mansani)

Mohammed, um jovem da Somália, segue esperando. Enquanto o seu futuro depende de decisões que tramitam no âmbito da política imigratória europeia, ele se senta em um banco da praça Oranienplatz, em Berlim-Kreuzberg. Junto ao ponto de informações montado por ativistas para esclarecer os acontecimentos de Ohlauer Strasse, fuma um cigarro e espera sem saber quando tudo terá um fim.

Ele é um dos quarenta e cinco solicitantes que conseguiram o direito provisório de permanecer na escola. “Agora tenho um lugar para ficar, mas como requerente de asilo não há vida, nós apenas sobrevivemos.” O jovem africano chegou a Europa há cerca de dois anos. Como ele, cerca de 335 mil pessoas, de acordo com dados da União Europeia em 2012, aguardam decisão sobre possibilidade de residir nesse continente. Para participar dos protestos das últimas semanas, ele conseguiu, com apoio de ativistas, unir-se ao grupo que desde a marcha dos refugiados está em Berlim.

A marcha dos refugiados um ano depois

Segundo o ugandês Petras Bwansi, nada mudou desde a marcha de protesto que o trouxe do sul da Alemanha a Berlim no ano passado. “Talvez haja mais visibilidade na sociedade alemã para o tema, mas nenhuma das nossas demandas foi atingida”, relata.

A situação para os requerentes de asilo é precária. Para muitos, a espera dura anos até que uma solução sobre a permanência definitiva seja tomada. A isso, soma-se o medo constante de deportação. Vigiados, não devem sair da cidade que lhes foi designada a viver. Em alguns locais, sobretudo nos povoados, há o agravante da hostilidade de grupos nacionalistas radicais.

Bwansi, que desde sua chegada a Berlim participou de todos os protestos organizados pelo grupo e por ativistas alemães, relata que o seu único sonho é ter o direito de ir e vir. Não teme mostrar a sua face, pois diz que mesmo que lhe tirem a vida, ele continuará lutando.

Ele é objetivo – um caráter sério e politizado. Segundo narra, apesar das poucas conquistas do grupo de requerentes de asilo na capital alemã, segue ativo em uma associação de apoio aos africanos que chegam ilegalmente à Europa. Também não gosta de futebol, diz não jogar muito bem. Questionado se o Brasil venceria o jogo da última terça-feira, o ugandês reconheceu: “A Alemanha tem o melhor time”.

À parte a traumática derrota para Alemanha por 7×1 no jogo a que eu assistia naquela terça-feira de verão em Berlim, em que o sol brilhava até as dez da noite, apenas algumas horas após terminar a entrevista com Petras Bwansi, as suas palavras ainda permaneciam em meus pensamentos.

Enquanto os times e seus craques buscam a vitória na Copa do Mundo, no país onde o sol brilha o ano inteiro, o ugandês e outros requerentes de asilo seguem lutando em Berlim-Kreuzberg pelo direito de escolher onde viver. Ou, o direito à liberdade traduzido pelas próprias palavras do africano: “Eu gostaria de, quem sabe, um dia, conhecer o sol do Brasil”.

(Foto de Capa: Marta Madej)

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