É negro. É jovem. É da periferia.

É negro. É jovem. É da periferia.

Programa Brasil Perifa, transmitido pela Fórum, reuniu convidados para debater juventude negra e expôs a falta de espaço que o negro, principalmente da periferia, ainda tem na sociedade

Por Ivan Longo

“Nós estamos falando de uma estrutura de Estado que é constituída para matar jovens negros”, constatou, em determinado momento do debate, Silvio de Almeida. O advogado negro, que é também professor no curso de direito do Mackenzie e presidente do Instituto Luiz Gama, condensou nesta fala o que seja, talvez, a consequência mais cruel do que é e representa o racismo no Brasil hoje.

Para discutir essas e outras questões ligadas ao universo negro em relação ao seu espaço na sociedade, o SPressoSP e o SPressoRJ, inciativas regionais da Revista Fórum, promoveram em parceria com o Perifa Livre e a Agência Papagoiaba, a segunda edição do programa semanal Brasil Perifa, que visa trazer à tona debates com figuras relacionadas à temática das periferias do país.

silvio de almeidaTransmitido ao vivo pela internet nesta quinta-feira (24), o encontro, realizado em São Paulo, contou a participação, além de Almeida, da cordelista Jarid Arraes, ativista feminista e colunista da Fórum, e do poeta e documentarista das periferias paulistanas Akins Kinte. Do Rio de Janeiro, debateram Fernando Cook, que é dançarino e b-boy e Vitor Canuto, poeta carioca. O programa foi mediado pelos jornalistas Igor Carvalho e Maria Frô.

A primeira pauta do debate foi a questão das cotas raciais. Para introduzir o tema, Carvlaho resgatou um dado importante: em 1997, apenas 2,2% dos pardos e 1,8% dos negros tinham ou estavam cursando uma universidade. Em 2013, esse número foi de 11% entre os pardos e 8,8% entre os negros. Apesar de, obviamente, ser um número pouco expressivo, o advogado Silvio de Almeida acredita na importância deste cenário e exalta que, ainda que seja irrisória, a presença do negro nas universidades, que já é maior que há uma década, representa empoderamento.

“É um processo em que estamos unindo uma série de forças democráticas e entrando em um espaço que é uma ilha de privilégios. Estamos falando de poder. O fato de você [negro] passar pra universidade, te empodera, te coloca em certos lugares de influência”, afirmou.

De cotas, inevitavelmente, o assunto acabou se aprofundando na área da educação. Os convidados passaram a discutir, então, a maneira com a qual o racismo está inserido na estrutura educacional do país, através de conceitos retrógrados ainda aplicados em livros didáticos, modelos de aula e também presentes na literatura, até pela falta de autores e personagens negros no grande mercado de produção literária.

Nesse ponto, a fala de Akins Kinte foi essencial. Nascido e criado nas periferias de São Paulo, Akins, que é negro e jovem, encontrou justamente no preconceito o seu interesse pela literatura. Autor de dezenas de poesias, dois livros (“Punga” e “InCorPoros – Nuances de Libido”) e três documentários (“Vaguei os Livros me sujei com a merda toda”, “Várzea a Bola Rolada na Beira do Coração” e “Zeca o Poeta da Casa Verde”), o poeta abordou em uma das obras (Vaguei os Livros me sujei com a merda toda) justamente essa questão da figura do negro na literatura.

Ele contou que esse interesse surgiu, em suma, a partir de um episódio que viveu quando, em uma livraria, uma mulher branca deixou de atender o celular que estava tocando somente por estar perto dele, um jovem negro. “Aí eu já tava na livraria e comecei a procurar livros de autores negros, com personagens negros”, contou.

Jarid Arraes, cordelista negra, também tem uma relação estreita com literatura e a questão do negro. Ela contou que começou a retratar ajarid mulher negra em suas histórias pela necessidade de que o negro se veja numa posição diferente da que é colocada e repetida historicamente pelas escolas e pelos livros em si.

“Veja uma criança negra, que tem a oportunidade de deixar de ver sua história apenas relacionada com a escravidão. Sua história não começa ali. Começou em outro lugar com outra diversidade cultural imensa, com muitas questões positivas relacionadas a ela e a negritude dela, e o próprio se ver negro’”, afirmou, adicionando que é exatamente este o mote de suas criações literárias. “Minha família fazia cordel. Cresci lendo histórias machistas, sexistas, preconceituosas. Então pensei que devo escrever o que precisa ser escrito”, revelou.

Entre uma conversa e outra, o debate foi marcado também pela própria literatura dos convidados. Jarid leu um de seus cordéis, “Dora, a Negra e Feminista”, que conta a história de uma garota negra e pobre que cresce sob abusos causados pelo machismo e pelo racismo da sociedade brasileira e Akins recitou um de seus poemas.

Entre outros tantos temas que envolvem a questão do espaço do negro na sociedade, foi discutido também o da produção cultural pela juventude negra na periferia. Akins contou que, apesar da carência de incentivos, acha muito positiva as inúmeras iniciativas culturais que vêm surgindo, ao longo dos últimos anos, nas periferias de São Paulo.

akins

Diretamente do Rio de Janeiro, Vitor Canuto, que é poeta e escritor e desenvolve trabalhos e iniciativas culturais em comunidades dos morros cariocas, contou que lá, a maior dificuldade para realizar ações culturais nas periferias se dá por conta da inibição da polícia.

“Quando vamos fazer ações nós não somos permitidos. Não pelos traficantes, mas pelo próprio poder público”, afirmou. Ele contou que quase todos os trabalhos que realizam são feitos sem financiamento. “Não é interessante pra eles [poder público]”, disse. Canuto, além de poeta, é rapper e terminou sua fala cantando um de seus raps.

Também do Rio de Janeiro, participou do debate Fernando Cook, que é b-boy e dançarino do “Passinho”, a dança que virou moda entre os jovens nos morros cariocas. Por ser uma dança predominantemente praticada por garotos, ele comentou sobre como se dava a participação das mulheres. “A presença feminina no ‘passinho’ é uma resistência. As meninas eram conhecidas apenas por dançar funk e rebolar a bunda”, disse.

O chamado “Passinho”, por ser praticado principalmente por jovens das comunidades, passou a ser perseguido na cidade. Cook revelou que, com a entrada das UPPs nas favelas, os agentes passaram a dificultar a realização dos bailes. “A gente agora faz manifestações. São como encontros em praças, parques, para dançar o passinho”, afirmou, adicionando ainda que a alegação dos agentes para a não realização do baile é que causa “poluição acústica”. A revelação foi motivo de risadas entre ele os convidados.

Bom humor à parte, o b-boy revelou uma situação complicada que envolve a produção cultural nas favelas do Rio de Janeiro. Além de terem que lidar com a repressão policial, os jovens têm que andar com as próprias pernas e lutar para promover eventos de maneira independente. “Antigamente o tráfico financiava o baile funk. Agora, com a UPP, a gente faz parceria com os barraqueiros, a tia do espetinho, os artistas locais…”, revelou.

Confira, na íntegra, o programa Brasil Perifa – Juventude Negra.

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