Do coreto do Méier ao Templo de Salomão no Brás

Do coreto do Méier ao Templo de Salomão no Brás

O Bispo Macedo repudia tudo que é mediano. A ambição do líder carismático em questão gosta dos exageros típicos dos emergentes. Sabidamente cafona, no entanto, louva a ostentação

Por Valdemar Figueredo Filho, professor da ESPM-RJ

A marca IURD foi imitada. As similares trabalharam na linha tênue de oferecer o de sempre aplicando o mesmo tempero, mas trocando o prato. Como a ideia “universal” já tinha dono, o mimetismo escorregou para “mundial” e “internacional”. É comum encontrarmos nos grotões brasileiros letreiros pomposos nas fachadas dos templos: sede mundial…

Por exemplo, a visibilidade do Apóstolo da voz trêmula e do lenço bento apoiava-se nos horários pagos da TV aberta. O Missionário do Show da Fé recorreu ao mesmo expediente. Tamanha audácia foi ato de fé ou de ingenuidade?

O tempero “universal” caiu no gosto da massa. Toma um saco de curas e mistura a prosperidade. Cozinha em fogo brando. Quando levantar a fervura, lança folhas de alta autoestima. Não esquecer do pó das raízes brabas do exorcismo. Tal tempero tem cheiro de milagres. Sirva pequenas porções na colher de pau e deixa falar aqueles que experimentaram: curas físicas e emocionais, prosperidade financeira, autoestima suspensa, exorcismos e milagres. Contra os fatos não tem argumentos. Deixa a massa contar o que saboreou.

No entanto, no campo religioso brasileiro a IURD tem a “patente” do tempero. Em termos mais claros, a igreja chefiada pelo Bispo Macedo tem um aparato midiático que potencializa sua comunicação. Caso compre espaço na TV aberta o faz por pura estratégia, pois é detentora de uma forte rede de rádio e televisão. Levando a imagem adiante é como se dissesse: vocês descobriram os componentes do tempero, mas lembrem-se, temos a patente do nome e do invólucro, além da capacidade de produção em escala industrial dos frascos do tempero.

A IURD conquistou no Brasil contemporâneo a condição de importante ator religioso, econômico, midiático e político. Incontestavelmente, trata-se de um grupo bem articulado capaz de perceber que um nome tão forte nesses mercados mencionados não pode conviver com caricaturas.

De que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? A pergunta do Evangelho foi resinificada pela IURD: De que adianta ganhar poder econômico, midiático e político e perder o carisma?

As lideranças carismáticas fogem da rotina. Rotina é coisa das burocracias clericais mofadas que andam com livros de regras em baixo do braço. Rotina sustenta os conselhos dos anciãos que reclamam o tempo todo pela autoridade da tradição. No caso da liderança carismática nada mais mortal do que a mesmice dos ofícios religiosos.

Do coreto do Jardim do Méier, subúrbio carioca, em 1975, até a inauguração do Templo de Salomão, em São Paulo na região do Brás, a história da IURD pode ser contada como sucessivas fases de renovação do carisma. Ela se reinventa.

Que ninguém se engane: réplica inaugurada no dia 31 de julho de 2014 não é uma exaltação aos arquitetos de Salomão mortos. Em posse das dimensões bíblicas de como deveria ser o templo em termos de metragem e de material usado, Macedo assume as barbas de Salomão e não as tranças de Sansão que morreu derrubando colunas.

O que isso quer dizer? Uma breve citação bíblica: Pois que me fizeste esse pedido, e não pediste nem longa vida, nem riqueza, nem a morte de teus inimigos, mas sim inteligência para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo; dou-te um coração tão sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti e nem haverá depois de ti (1 Reis 3:11-12).

Quer dizer que no diálogo com Deus Salomão pediu inteligência e recebeu além do que queria. Mas no caso do Macedo, tomando por base a história de superação e renovação do carisma da Universal, suplica por mais poder econômico e político para levar adiante a empreitada religiosa. Nesse caso, a ambição pelos meios de comunicação surge como imperativa. Como a Igreja pretende-se “universal” o complexo de comunicação viabilizado pela estrutura política e econômica figura como um ente sagrado.

No texto sagrado é dito a Salomão que ele era um caso excepcional. Sabedoria então jamais vista e que não se repetiria. Não é que Macedo queira desmentir a Bíblia, mas, a réplica também pode ser interpretada como a superação das expectativas de Deus. Macedo foi além do que se esperava dele. Profeta, patriarca, pai, rei da linhagem de Davi. Temos um feito admirável. Quem nesse cenário pode falar em rotinização do carisma?

O ato faraônico é por definição demonstração de poder.

Autoridades presentes na inauguração: presidente Dilma Rousseff (PT) e o vice-presidente Michel Temer (PMDB); ministros da Casa Civil, Aloizio Mercadante (PT) e ministro-chefe da Secretária-geral da Presidência, Gilberto Carvalho (PT); ministros do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski; o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT).

A lista não é exaustiva, apenas ilustrativa do quanto a ladainha religiosa pode ser invocada pelo alto clero da política e das instituições republicanas brasileiras. Nos acostumamos a ver as autoridades dos três poderes inclinados nos altares da Igreja Católica. É estranho vê-los embasbacados nas barbas grisalhas à Salomão.

Em termos de cultura política brasileira o que vimos na inauguração da sede mundial da IURD não chega a ser comportamento inédito. Qual a novidade que gera tanto burburinho? O incenso queimado pelos políticos, desta vez, não ocorreu nas catedrais góticas.

O incensário não remete a Idade Média. Aliás, o Bispo Macedo repudia tudo que é mediano. A ambição do líder carismático em questão gosta dos exageros típicos dos emergentes. Sabidamente cafona, no entanto, louva a ostentação.

O templo original de Salomão teve alto custo. O povo pagou caro através de impostos e em muitos casos foi utilizado o expediente de trabalho não remunerado. Exploração dos pobres para consolidação dos sonhos faraônicos. Após a morte de Salomão o governo foi dividido em Reino de Israel (Norte) e Reino de Judá (Sul). O espólio do filho do Rei Davi gerou intrigas, disputas, confusão e rompimentos.

No caso da réplica, o líder máximo da IURD vai morrer. É certo, ele vai morrer porque é a ordem natural das coisas. Na falta do líder carismático tão intuitivo, assistiremos as intrigas de falanges internas por um bocado de poder? Desta construção vultosa, se tudo der certo, não ficará pedra sobre pedra.

Foto de capa: Reprodução TV Record

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