Candidatas mulheres e temas espinhosos: em quem as feministas votam?

Candidatas mulheres e temas espinhosos: em quem as feministas votam?

Para que os direitos das mulheres sejam garantidos, é necessário votar em uma mulher? Saiba o que feministas de opiniões diversas pensam sobre a questão, e também sobre Dilma Rousseff, Luciana Genro e Marina Silva, as representantes do gênero nestas eleições

Por Jarid Arraes

Em ano de eleição, são muitas as pautas e questões pertinentes a serem debatidas. Se por um lado os assuntos relacionados à economia e saúde são frequentemente pautados em entrevistas e debates políticos, algumas questões urgentes dos grupos marginalizados são negligenciadas e deixadas em caráter secundário. O movimento feminista, formado por diversas vertentes distintas, tenta voltar o foco para as demandas femininas e outros assuntos que envolvem os Direitos Humanos, como questões raciais e de sexualidade. Se a inclusão desses temas nas pautas eleitorais já é um desafio, é praticamente impossível que todas as vertentes cheguem a um consenso. Não há unanimidade.

Cada segmento dos movimentos de mulheres volta suas atenções para demandas específicas, mesmo que possuam também muitos objetivos em comum. Essa situação se desdobra em uma variedade enorme de intenções de voto, que nem sempre estão alinhadas às expectativas dos grupos feministas. É preciso lançar um olhar atento sobre esse panorama para entender as opiniões divergentes de tantas mulheres que, embora tenham em comum o desejo por um Brasil mais feminista, escolhem seus candidatos com base em perspectivas distintas.

Críticas ao governo Dilma

Nesse período em que Dilma Rousseff (PT) esteve na presidência do Brasil, houve furor de ânimos e debates acalorados sobre a postura da presidenta, por muitos considerada negligente, omissa e incoerente – especialmente pelas feministas que a elegeram com imensas expectativas.

Na cerimônia de sua posse como presidenta, foi possível acompanhar a empolgação e emoção de milhares de feministas, que a viam se tornar a primeira mulher no cargo máximo da nação. O que era um verdadeiro espetáculo inspirador e emocionante não demorou para causar confusão: Dilma logo passou a se posicionar de maneira fraca com relação aos Direitos Humanos, chegando a fazer a lamentável declaração de que não faria “propaganda de opção sexual” quando comentava sobre a distribuição de material contra a homofobia nas escolas.

O posicionamento duvidoso da presidenta culminou na recente revogação da portaria 415/14 do SUS, o que teria sido uma importante conquista para a saúde pública das mulheres brasileiras. Lançada pelo Ministério da Saúde em junho de 2014, essa portaria regulamentava os procedimentos de aborto na rede pública de saúde, exclusivamente nos casos já previstos em lei, estabelecendo uma quantia de R$ 443,30 a ser repassada por cada procedimento realizado em casos de gravidez gerada por estupro, feto anencéfalo ou em caso de risco de morte para a mulher. Apesar de se tratarem de casos já legalizados, o Ministério da Saúde sofreu com a pressão da bancada fundamentalista religiosa no Congresso que, agindo de acordo com suas já conhecidas práticas de chantagem e acordos obscuros com o Governo Federal, conseguiu fazer com que a portaria fosse revogada.

(Foto: Ichiro Guerra)

“Acho que, como todas nós, Dilma sofreu e sofre uma pressão ainda maior por ser mulher, ocupando um cargo que, até então, era ocupado apenas por homens”, diz a psicóloga e professora Leda Mendes Pinheiro (Foto: Ichiro Guerra)

Embora não seja o único, esse acontecimento é um perfeito exemplo da insatisfação do movimento feminista com o governo Dilma. A questão do aborto ainda é um dos maiores calos no pé da presidenta e qualquer outro candidato que faça alianças políticas pela manutenção do poder. Não é por menos que a campanha eleitoral de 2010 foi um verdadeiro espetáculo de moralismo retrógrado; diante dos boatos de que o aborto seria legalizado no Brasil, e para não perder votos, Dilma começou a exibir campanhas cada vez mais voltadas para um modelo de família tradicional, expondo barrigas de mulheres grávidas e onde afirmava ser “a favor da vida” e “ter muita fé em Deus”. O mesmo aconteceu com os outros candidatos mais populares, o que gerou uma verdadeira disputa para decidir quem participava de mais eventos religiosos cristãos, fossem católicos ou evangélicos.

Neste ano, o quadro não é diferente – pelo contrário, há indícios de que será ainda mais intenso o embate das forças conservadoras contra os movimentos sociais de esquerda. As feministas não escondem o que pensam e manifestam reprovação, mas temem a tomada do poder por algum personagem que seja ainda mais retrógrado do que o governo Dilma. Por isso, quem espera a orientação das feministas para decidir que candidato receberá seu voto, sem sombra de dúvidas encontrará muita frustração. Para o Feminismo, a luta pelos direitos das mulheres é primordial, em muitos casos sendo considerada essencial para que outros tipos de violência sejam combatidos. Mas as opiniões continuam divididas.

Para exemplificar as nuances do contexto eleitoral feminista, algumas mulheres que se identificam como feministas e militam pela causa se disponibilizaram para falar um pouco sobre suas escolhas de voto e os motivos por trás de cada decisão.

Afinal, em quem as feministas votam?

Apesar das críticas feitas ao seu governo, muitas feministas acreditam que Dilma Rousseff ainda é a melhor opção. São eleitoras que reconhecem o sucesso de programas que acabaram beneficiando o gênero feminino, como o Bolsa Família, que possibilitou mais autonomia para as mães e donas de casa.

A historiadora Vanessa Prates encara a presidenta como um estímulo para que mais mulheres se interessem pelos cargos políticos. Também salienta conquistas importantes para as mulheres brasileiras, como os trabalhos desenvolvidos pela Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres (SPM), o desenvolvimento do Ligue 180, voltado para o atendimento de mulheres vítimas de violência, e o acordo de cooperação técnica entre a ONU Mulheres e o governo federal. “A mulher foi, sim, fortalecida no governo da presidenta Dilma. Segundo dados mais recentes, mais de 70% das propriedades agrárias e mais de 90% dos cartões do Bolsa Família estão em nome das nossas mulheres. E nossas meninas e mulheres também são maioria no FIES, Pronatec e ProUni”, afirma Prates.

Além das estatísticas e programas que usa como argumentos, Prates ressalta o caráter simbólico e transformador que Dilma trouxe com seu governo: “Dilma é mulher e sempre deixou claro que seu governo tem um compromisso com as mulheres. Aliás, nunca tivemos tantas mulheres ministras na história desse país! E não se trata de uma mudança estrutural, longe disso, mas é uma mudança que carrega um simbolismo muito importante. Hoje encontramos meninas desejando ser presidenta, ministra, senadora. É todo um mundo público se abrindo para as nossas meninas.”

A psicóloga e professora Leda Mendes Pinheiro concorda com essa perspectiva e pensa que sua escolha por Dilma tem uma lógica feminista. “Acho que, como todas nós, Dilma sofreu e sofre uma pressão ainda maior por ser mulher, ocupando um cargo que, até então, era ocupado apenas por homens. Considero que ela é uma boa representante das mulheres, sim. Percebo também que há coisas a serem melhoradas, ampliadas e que algumas bandeiras de luta feministas podem ganhar mais espaço, não só no plano de governo de Dilma. Acredito que essa seja uma luta de todas nós também”, explica.

Quanto à polêmica do aborto, ambas as eleitoras argumentam que a dificuldade de se falar no assunto é generalizada, fazendo-se necessária uma mudança profunda na cultura brasileira. Prates pontua: “Nossa presidenta sempre se posicionou a favor da descriminalização e legalização do aborto. Por outro lado, todos estão calejados de saber o tanto que esse tema é delicado e absurdamente polêmico quando posto em pauta”. Pinheiro espera que Dilma consiga manter um governo popular e que inclua cada vez mais políticas públicas de garantia aos direitos e oportunidades para as mulheres. “Sou a favor da legalização do aborto. Acredito que há muitos mitos e aspectos importantes que devem ser discutidos sobre esse assunto, para que o direito que uma mulher tem sobre sua vida e seu corpo não seja confundido com um atentado à vida de outro ser humano. Essa é uma questão de saúde, um direito”, finaliza.

No entanto, são muitas as feministas que não concordam ou não compreendem a postura daquelas que declaram voto em Dilma. Há quem faça críticas duras e não encontre possibilidade para conciliação. “Por que apoiar candidatas que usam nossos direitos mais básicos como moeda de troca e dão apoio às bancadas mais fundamentalistas se existe uma opção melhor? Não há como confiar em mulheres que dão a entender em campanha que apoiarão as minorias, mas quando se torna conveniente, deixam estes grupos desamparados – seja por manobras políticas ou convicções pessoais”, dispara Laís Rangel, jornalista e eleitora de Luciana Genro, candidata do PSOL.

“Escolhi a Luciana Genro porque ela é a única candidata com um posicionamento sólido na defesa dos direitos humanos, especialmente os direitos das mulheres. Enquanto mulher, feminista, negra e moradora da periferia, eu só vejo alguma chance de apoio dentro das propostas de governo da Luciana”, explica Rangel. “Ela defende abertamente os direitos reprodutivos das mulheres através da descriminalização do aborto e do acesso a creches e pré-escolas gratuitas. A autonomia da mulher não pode ser alcançada sem, no mínimo, essas medidas básicas. Se considerarmos uma visão interseccional do feminismo, a representação da Luciana fica ainda mais clara, pois suas propostas são as que incluem e amparam de forma mais incisiva as necessidades específicas das mulheres negras, lésbicas e pobres.”

Embora os argumentos sejam coerentes, há uma nuvem de medo que impede certas pessoas de votarem em candidatas como Luciana Genro, especialmente pela baixa popularidade e números não tão animadores nas pesquisas eleitorais. Para Rangel, é preciso questionar a credibilidade das pesquisas: “É importante que se tenha coragem de votar na melhor candidata e não na ‘menos pior’. Votar em uma candidata menos popular não é jogar o voto fora, é fortalecer quem de fato está do nosso lado para que outros se sintam motivados a assumir essa postura também. É urgente que se mostre nas urnas que nós existimos. Só assim teremos a chance de quebrar essa polarização política em que todas as principais opções são nocivas para os nossos direitos”, conclui.

(Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil)

“Escolhi a Luciana Genro porque ela é a única candidata com um posicionamento sólido na defesa dos direitos humanos, especialmente os direitos das mulheres”, afirma a jornalista Laís Rangel (Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil)

No entanto, ainda resta uma candidata do sexo feminino que avança na disputa e pode reconfigurar as posições do pódio eleitoral: Marina Silva. Embora pareça confuso para algumas pessoas, há mulheres feministas que votam em Marina e a consideram uma boa representante para as mulheres brasileiras. Esse é o caso da acadêmica de Direito Caroline Viégas, que se mostra empolgada com seu voto. “Sou eleitora de Marina pelo o que ela representa: a típica pessoa brasileira, esquecida pelas autoridades, que sacrificou a própria infância e educação em prol da família, não se deixou abalar e sua trajetória de vida é sucedida”, explica.

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Para Viégas, a história sofrida de Marina é um argumento de peso em seu favor. Ao justificar sua escolha, ela mais uma vez evidencia a pluralidade encontrada entre as mulheres que se consideram e se identificam como feministas, o que fica ainda mais claro devido às razões pelas quais não vota em Dilma Rousseff: “Não voto em Dilma por experiências práticas, não acho correto deixar de investir no próprio país em prol de países onde existem governos autoritários, importar profissionais não é a solução, visto que os serviços públicos continuam sucateados, dentre muitas outras coisas. Eu não conheço Luciana Genro, nem sua trajetória política, entretanto poderia ser minha possível candidata após analisar seu programa de governo. Todavia, com a tragédia de Eduardo Campos, meu voto será para Marina”.

Além de todas as questões que envolvem as mulheres, há também uma discussão racial sobre os candidatos à presidência. Esse é um dos pontos específicos levantados por Jaqueline Gomes de Jesus, psicóloga social e do trabalho e eleitora de Marina Silva: “A partir do momento em que tornei pública minha intenção de votar em Marina Silva, entendendo-a como uma mulher negra na Presidência da República, surpreendi-me com o posicionamento por vezes agressivo contra ela, vindo tanto de pessoas politicamente liberais como das ideologicamente conservadoras. Particularmente não noto a mesma revolta com relação aos demais candidatos majoritários, que são todos pessoas brancas. Digo isso porque é importante que as pessoas compreendam que o racismo moderno se expressa por meios muito mais sutis do que o clássico, e entre eles se incluem atitudes inocentes como a de não reconhecer a identidade racial de alguém ou, por outro lado, exigir dessa pessoa – negra – comportamentos e desempenhos que não pesam na avaliação dos demais em igual situação de competição por bens, recursos, cargos.”

Tendo em vista a cobrança advinda de muitas feministas, as militantes que declaram o voto em Marina ainda precisam refletir muito bem sobre sua capacidade de se afirmar enquanto defensoras dos direitos das mulheres. Para Jaqueline, Marina é uma mulher negra empoderada e, mesmo que não se enquadre nos principais ideais do movimento feminista, vem demonstrando lutar pelos direitos das mulheres. Até mesmo seu controverso posicionamento a respeito da legalização do aborto pode ser encarado de modo positivo. “Busquei me informar para além do diz-que-diz comum em alguns meios de comunicação e, ouvindo suas próprias palavras em mais de um vídeo não editado, entendi que ela, pessoalmente, é contra a legalização em quaisquer circunstâncias, o que é coerente com suas crenças individuais, porém, como agente política, ela defende que a população se pronuncie acerca da temática e, dessa forma, mobilize o Legislativo.”

Mesmo que não considere, enquanto feminista, como o posicionamento ideal, Jaqueline enxerga a postura de Marina como coerente. “Ao demonstrar que o direito a abortar é um direito civil, e não propriamente humano, ela não oferece argumentos para que os opositores à proposta continuem, falaciosamente, defendendo que o feto é um ser humano. Esse detalhe é crucial para o avanço da discussão e sua viabilização como política pública”, avalia.

Jaqueline ainda tece uma importante crítica: “As políticas para mulheres precisam ampliar o seu hoje limitado escopo sobre quem são e o que demandam as mulheres. A variedade de experiências e valores que definem as mulheres, ao serem reduzidos a estereotipados fatores naturalizantes, de caráter biológico ou até místico, levam a políticas públicas enviesadas, que atendem a algumas mulheres, dentro de determinado padrão valorizado pelo status quo, como se fossem todas as mulheres, excluindo as demais”. Essa reflexão é fundamental para todas as feministas, independente de quem escolham para o cargo de presidenta, uma vez que abranger cada vez mais mulheres e assegurar seus direitos faz parte de uma luta contínua, que precisa de aperfeiçoamento constante.

Voto feminista é voto em mulher?

A maioria das entrevistadas concorda que representatividade é algo importante e que a eleição de mulheres para cargos políticos faz parte da estratégia feminista pela valorização feminina. Não obstante, dentro desse imenso grupo de militantes pelos direitos das mulheres, se encontram aquelas que não se sentem representadas por nenhuma das candidatas mencionadas. Para eleitoras como essas, o mais importante não é o gênero de quem as representa, mas a forma como desempenha esse papel.

Leonísia Fernandes também é estudante de Direito e atualmente declara seu voto para Mauro Iasi, candidato do Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas nunca temeu o voto nulo. “Há alguns anos não votava mais para cargos do Executivo, tendo em vista a falência do sistema representativo da democracia burguesa frente às reais necessidades da população. Entendo os movimentos e organizações populares como os verdadeiros mecanismos de conquista de direitos na institucionalidade e de transformação social fora dela”, coloca. “O partido de Mauro Iasi insere-se nessa dinâmica, entendendo as eleições como um instrumento importante, mas não central em seu programa partidário, diferentemente de outros partidos, mesmo de esquerda, que de dois em dois anos deslocam suas agendas apenas para eleger e reeleger seus candidatos”, critica.

(Foto: José Cruz/ Agência Brasil)

“Sou eleitora de Marina pelo o que ela representa: a típica pessoa brasileira, esquecida pelas autoridades, que sacrificou a própria infância e educação em prol da família, não se deixou abalar e sua trajetória de vida é sucedida”, declara a acadêmica de Direito Caroline Viégas (Foto: José Cruz/ Agência Brasil)

Ela prossegue: “Muitas militantes que constroem o PCB, também constroem o coletivo feminista-classista Ana Montenegro, o qual se coloca diretamente no enfrentamento à cultura patriarcal machista, pela autonomia do corpo das mulheres, contra violência doméstica e sexual, pela igualdade de salários entre homens e mulheres nas mesmas funções, na construção de mais creches públicas, etc, estando seus horizontes alinhados. As feministas que entendem que o fim do machismo deve corresponder à liberdade de todas, inclusive a da mulher negra, lésbica e periférica podem vislumbrar na candidatura de Iasi uma alternativa coerente com suas lutas”, defende.

A webcomunicadora Alexandra Peixoto se sente de forma similar e afirma que Iasi é a única pessoa entre os candidatos que contempla todas as suas demandas. “Ele contempla minhas ansiedades ecofeministas e socialistas e preenche as lacunas deixadas durante os protestos de 2013, que pediam poder popular e democracia direta”, afirma.

Peixoto também compartilha da ótica de Leonísia, apontando uma falência no sistema eleitoral, que considera ultrapassado e corrompido. Apesar disso, ela aposta na discussão das questões “polêmicas” e se sente representada, enquanto feminista, por Mauro Iasi. “Não conheço a Luciana Genro. Não me informei sobre seu programa de governo. E ser mulher não basta, a Dilma já é um grande exemplo disso. Talvez seja meio contraditório ser feminista e votar em um homem, mas o Mauro me parece profundamente comprometido com o feminismo, de forma que ele já me cativou por suas ideias e sua facilidade em expressá-las”, explica. “Quem expôs, de forma clara e firme, sem medo, as contradições do capitalismo, vai conseguir meu voto. Eu havia decidido nem sair de casa pra votar, mas assistir às aulas livres do Mauro Iasi, durante os protestos que tomaram conta também do Rio, me fez mudar de ideia. Adoraria que ele tivesse o mesmo tempo de TV e rádio que terão Dilma, Marina e Aécio. O bicho ia pegar, no bom sentido.”

É perceptível o espaço para opiniões divergentes mesmo entre mulheres que acreditam em objetivos similares e levantam bandeiras universais dentro do Feminismo. Diante de todas essas escolhas, não seria uma grande surpresa encontrar feministas que votassem em outros homens, como o candidato Zé Maria, do PSTU, ou até mesmo o Aécio Neves, do PSDB, ainda que a maior parte das militantes feministas atuem sob uma ótica de esquerda. Afinal, a diversidade humana dá conta de posicionamentos variados, sobretudo quando a subjetividade de cada indivíduo entra no foco.

Quer votar em mulher feminista?

As mulheres brasileiras representam 51,95% do eleitorado no país, porém, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a participação feminina nos cargos e posições de decisão não chega a 10%. Essa realidade é preocupante, principalmente porque tira das mãos das mulheres a possibilidade de ação efetiva em prol dos seus direitos, além de gerar uma naturalização do espaço político como um ambiente masculino.

Pensando em facilitar a busca por candidatas do gênero feminino, a feminista Sharon Caleffi criou uma página no Facebook listando mulheres em quem podemos votar: “Vote numa feminista“, que já passa das 10 mil curtidas.

Caleffi é militante em dois coletivos feministas, o FemMaterna e o Feministas das Araucárias, em Pato Branco, e teve essa ideia a partir de uma conversa entre amigas. “Estávamos conversando sobre a dificuldade de encontrar de maneira rápida candidatas feministas. Então eu resolvi fazer e compartilhei no primeiro dia uma chamada para indicações. Como eu já tenho contato com alguns coletivos, no começo as candidatas eram ligadas a coletivos de que eu já participei… Mas em pouco tempo já havia candidatas de muitos estados. Foi muito rápido! Além da minha participação como editora de conteúdo, uma colega trabalha com a parte visual. Voluntárias auxiliaram com outros detalhes”, conta Sharon.

A página só publica indicações de candidaturas femininas, mas Caleffi reconhece que há homens sensíveis à causa. A questão, no entanto, é de representatividade, algo que para ela somente mulheres podem oferecer completamente. Outro critério primordial para que a candidata seja listada na página é o comprometimento real com as pautas feministas, o que inclui a luta pelos direitos das mulheres de forma destacada. “Eu não cobro uma pauta específica para que a candidata entre na página, entretanto, as leitoras são feministas e estão perguntando às candidatas, por exemplo, sobre questões polêmicas como aborto e o Estatuto do Nascituro. As candidatas estão se posicionando e cada eleitora terá material para saber em que nível cada candidata se compromete com o feminismo. A página é um ponto de partida, não bate o martelo.”

A maioria das candidatas listadas é de partidos que, segundo Sharon, são de esquerda, como o PSTU e o PSOL. Para ela, isso ocorre porque essas legendas oferecem maior liberdade para que as mulheres falem abertamente sobre assuntos considerados polêmicos. Além disso, observa que os homens participam ativamente das campanhas dessas candidatas, o que aumentou o número de indicações.

Caleffi também acredita que o fato de haver três mulheres na disputa pela presidência é algo positivo, mesmo que nem todas se declarem abertamente feministas. “Três mulheres foram consideradas, por seus pares, como as pessoas melhor preparadas para comandar o país. Isso não é pouco e representa uma grande vitória contra o preconceito machista. Mas por outro lado, a competição entre elas está se dando não apenas nas ideologias políticas e econômicas de seus partidos, mas também como mulheres… Uma é feminista declarada, a outra é ‘neutra’ e a terceira repudia abertamente algumas pautas que o movimento considera fundamentais. É complicado que as mulheres precisem competir entre si usando direitos das mulheres como base de disputa. Isso não deveria acontecer, alguns direitos não deveriam ser negociáveis”, analisa.

É fundamental que mulheres sejam eleitas, pois essa também é uma ação humanista que beneficia toda a nação. Segundo Sharon, “sem mulheres no poder somos meio país, meia cultura, meio ideal, somos ‘democracio’, e não democracia. Somos metade do nosso potencial. Para sermos inteiros, precisamos de todos e todas pensando juntos.”

Com esse ideal em mente, é necessário que mais pessoas se disponham a refletir sobre os valores feministas de cada uma dessas candidatas. E, para fechar o raciocínio, resta a reflexão da psicóloga Leda Mendes Pinheiro, que prioriza o pensamento crítico acima de tudo e dá a dica: “Acredito que debater e discutir é muito importante, acredito que nos informar ajuda muito a escolher com consciência e nos responsabilizar pela escolha que fizemos. Acredito que uma mulher na presidência do país é sim um mérito e conquista, que ela merece nosso respeito e apoio, seja Dilma, seja Luciana, seja Marina.”

(Crédito da foto de capa: Reprodução/Facebook)

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