Marina no páreo pode melhorar o PT

Marina no páreo pode melhorar o PT

Com a candidata do PSB na disputa, a ameaça muda de forma: não são mais o PSDB e sua política privatista, elitista e entreguista. O velho discurso do voto útil cai por terra, e pode forçar o Partido dos Trabalhadores à  um partido de ideais, de sonhos e de boas práticas

Por Mouzar Benedito

Com a morte de Eduardo Campos e a entrada de Marina Silva na disputa pela presidência da República, todo mundo tem dado palpites sobre as próximas eleições, e eles são muito variados. E eu quero palpitar também.

A cultura política brasileira está contaminada pelo chamado voto útil há muito tempo.

Muitas campanhas eleitorais têm como base não a qualidade de certos candidatos e partidos, mas a má qualidade dos adversários.

Isso começou nas primeiras eleições em que o PT concorreu, em 1982.

Não havia ainda o PSDB, que surgiu de um racha do PMDB, partido que na época abrigava os atuais tucanos.

Entre os candidatos a governador de São Paulo, tinha Franco Montoro pelo PMDB, Reinaldo de Barros pelo PDS de Maluf, e Lula pelo PT.

O PT, no seu nascimento de baixo para cima, incomodava. O PMDB, incluindo os atuais tucanos e os partidos comunistas, que consideravam uma intromissão numa área que consideravam exclusiva deles (a representação política da classe trabalhadora), tentavam desqualificar o partido de todas as formas, evitar que ele crescesse. Queriam o monopólio dos votos da oposição à ditadura, e para isso precisavam minar o PT com uma campanha baseada no medo: “Quem vota no Lula está tirando voto do Montoro e vai ajudar a eleger o Reinaldo Barros”, diziam.

Era uma coisa que eu achava indigna.

Pois bem. O malufista Reinado de Barros, o perigo da época, hoje é aliado ora de um ora de outro dos que o odiavam. Não que ele tenha melhorado, os outros é que pioraram demais.

Nas eleições passadas, para prefeito, o PSDB e o PT disputavam o apoio malufista, e o PT “ganhou”. Foi constrangedor ver fotos de Lula e Haddad sorridentes com ele, na casa dele.

Durante o primeiro governo FHC, fiquei horrorizado ao ver uma foto na primeira página da Folha de S. Paulo com o presidente rodeado pela “Juventude Malufista”, todos eles – inlcuindo FHC – com largos sorrisos estampados no rosto. Pois o tempo passou, e chegou a vez de petistas se alegrarem com o apoio de Paulo Maluf. E terem que suportar a ironia dele, dizendo que esse negócio de ideais acabou, o que vale são minutos na televisão.

O duro é que pelo menos na política oficial o que vale é isso mesmo. E para piorar, esse apoio, esses minutos na televisão, têm preço: cargos públicos, incluindo a Secretaria da Habitação, de grande importância e pela qual circula uma grana enorme.

Lembro que a relação desavergonhada entre políticos e partidos teoricamente muito diferentes começou nas eleições de 1994. Até então, não passava pela cabeça de ninguém um partido de esquerda ou mesmo de “centro-esquerda” se aliar a direitistas. Foi chocante ver FHC, candidato tucano, ter como vice um direitista do PFL, Marco Maciel.

Mas ele ganhou. E para ter “governabilidade” manteve e ampliou ainda mais a aliança com direitistas. Aí, a porteira se abriu: quase todo mundo, inclusive boa parte dos petistas, passou a achar que a única maneira de ganhar uma eleição e se manter no governo era fechar os olhos para os “defeitos” dos possíveis aliados. Corrupto? Direitista? O que valem, pode-se repetir, são os minutos na televisão. E os votos no Congresso.

Voltando ao voto útil, mesmo topando alianças esdrúxulas, o PT continuou sento vítima durante um bom tempo dessa política de votar no menos ruim que tem chance de ganhar do pior de todos. Mas acabou embarcando no mesmo estilo de fazer política também.

Agora a ameaça é a volta dos tucanos.

Para muitos, o motivo principal para votar no PT é o medo de o PSDB ganhar e voltar à política privatista, elitista e entreguista dos tucanos no poder.

Esse medo pode até ser justificado (embora o PT tenha privatizado também), mas é triste que alguém peça votos não pela qualidade do PT, e sim pela ruindade dos tucanos.

Um segundo turno entre Dilma e Aécio certamente teria uma campanha meio por aí. Os tucanos fingindo que quando estavam no poder governaram maravilhosamente, inclusive sem corrupção, fingindo que na época havia otimismo e esperança, e o PT tentando fazer que o povo se lembre de CPIs contra a corrupção abortadas por compra de parlamentares; aprovação do projeto de reeleição, também com compra de deputados; o Procurador Geral da República se transformando em “Engavetador” Geral da República, privatizações escandalosas pelos baixos preços (o que faz supor também muita grana correndo por fora), a ausência de crescimento, a queda nos empregos e por aí vai.

Numa suposta, e provável, disputa entre Dilma e Marina, não há o “perigo” tucano, da volta à ruindade, da perda de direitos e de uma política voltada para os interesses dos ricos. Pode haver o apelo da “falta de experiência” de Marina, da falta de uma grande estrutura partidária para sua coligação, mas o PT já foi vítima de afirmações desse tipo e pegaria mal partir para esse tipo de argumentação.

Marina aparece, então, como uma ameaça para o PT.

Não acredito que consiga governar como diz querer. Nem ela nem ninguém pode governar com a decência que se espera de um presidente honestíssimo e ideologicamente comprometido com as causas populares e ecológicas. É uma questão de aritmética simples: são mais de 500 deputados e 81 senadores. Os projetos mais simples precisam ter a aprovação de mais de 250 deputados e 41 senadores. Nenhum partido consegue eleger tantos. No máximo, chega a cem deputados. E os outros 150 votos necessários na Câmara? Vai precisar do “apoio” de outros, e esse “apoio” pode ser traduzido em ministérios e outros cargos, concessões ideológicas, fechamento de olhos para diferenças extremas entre eles e até mutretas. Lula disse antes de ser presidente que havia mais de trezentos “picaretas” do Congresso. Há mesmo, acredito que muito mais, e são gulosos.

Tentar quebrar o esquema de negociações com que se governa atualmente acaba sendo uma espécie de suicídio político. Um exemplo foi o governo de Saturnino Braga (PDT), no estado do Rio de Janeiro. Era honestíssimo e não fazia alianças ditas espúrias, não aceitava o troca-troca tradicional, o toma lá-dá cá. Resultado: foi um governo péssimo em termos de realizações. Sofreu todos os tipos de boicote, foi minado por todos os lados. Não fez nada. Millôr Fernandes, admirador de Saturnino Braga, resumiu mais ou menos assim o que aconteceu: “O governo Saturnino Braga representa a falência da honestidade”.

No sistema político atual, um governo que tente ser honesto e que não ceda aos interesses mesquinhos de partidos e parlamentares talvez terá fatalmente o mesmo destino de Saturnino Braga, ou talvez nem chegue ao final do mandato.

Para resolver isso seria preciso fazer uma “reforma” (entre aspas porque acho que “reformar” é pouco, o certo seria mudar radicalmente) pra valer, de modo que não se precise dar ministérios em troca de apoio nem de aceitar exigências de parlamentares mutreteiros para aprovar projetos. Tem que ser um sistema em que se possa aplicar o programa do partido eleito sem concessões escrotas. Não sei como seria esse sistema, mas também não sou candidato a nada e não tenho a obrigação de saber. É coisa para políticos e cientistas políticos. Eles têm obrigação de procurar soluções.

Tudo quanto é governo anda mais ou menos dormindo eternamente em berço esplêndido, fazendo discursos por reformas mas não tomando nenhuma atitude. A política tradicional continua cada vez mais firme e forte.

Um parêntese: quando terminou a ditadura, o ideal seria que os políticos que a apoiaram fossem tirados de circulação, proibidos de continuar seus malefícios. Mas a “transição” para a democracia aqui, tida como “exemplar”, não puniu ninguém. Esperava-se pelo menos que eles fossem obrigados a mudar de atitude diante de uma nova fase democrática e de mais honestidade, que fossem influenciados pelos que lutaram contra o governo ditatorial. Mas aconteceu o contrário: eles permaneceram como sempre foram e os novos políticos assimilaram o modo de ser deles.

Voltando ao novo cenário político, com Marina ameaçando, quem sabe o PT se sinta forçado a “tomar jeito” e se proponha seriamente a tentar fazer uma reforma das boas, volte a ser um partido de ideais, de sonhos e de boas práticas, de querer de fato fazer uma reforma agrária, de defesa dos povos indígenas, de não se submeter ao agronegócio, de preservação ambiental etc. etc. etc.

Então, Marina na disputa pode melhorar o PT. Tomara!

(Crédito da foto de capa: Léo Cabral/MSILVA Online)

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1 comment

  1. Mouzar Benedito

    Oi, Alexandre e demais leitores,
    Não acredito nem um pouquinho no programa da Marina, nem que ela – se ganhar – cumpra o que promete etc. etc. Aliás, as concessões programáticas já começaram com a escolha de um antípoda das propostas originais dela, um militante do agronegócio, para vice. E tem os banqueiros, os economistas de sempre… Além de tudo, temo uma possível ascensão vertiginosa de fundamentalistas ao poder. O que quis dizer é que com ela ameaçando, talvez o PT retome certos princípios que foi abandonando à medida que precisava de mais alianças esdrúxulas para se manter no poder. Tomara que isso aconteça.
    Mouzar Benedito

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